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segunda-feira, 24 de março de 2025

A TODOS CHAMARÁS AMIGO, IRMÃO

 

A todos chamarás amigo, irmão,
Menos a quem estenderes a tua mão.
 
Terás o mundo todo: terra e mar,
Menos a parte onde quiseres ficar.
 
Os frutos poderás colher, comer,
Menos aquele que te apetecer.
 
E haverá sonhos p’ra sonhar, fugir,
Porém, ninguém te deixará dormir.
 
Não terás nem divisas, nem bandeiras,
Mas hão-de rodear-te de fronteiras.

 
António Manuel Couto Viana

quinta-feira, 6 de março de 2025

CHORAM PARA O CHÃO OS GUARDA-CHUVAS

Choram para o chão os guarda-chuvas.

Chove e faz frio. O café está cheio.
Lento, descalço as luvas,
Pego num livro e leio.
 
É um livro de antiquada poesia:
Uns versos démodés, de um dandismo epocal,
Certa melancolia
E um satanismo gris de Flores do Mal.
 
(Café parisiense. Século XIX.
O absinto e a lavalliére.
Lá fora, como agora, chove, chove…
Ai, com que sugestões a inspiração me fere!)
 
Jovem, alguém, na mesa ao lado,
Espia-me a leitura, num sorriso de dó.
E fecho o livro, desencantado,
Com os olhos e os dedos já manchados de pó.

António Manuel Couto Viana

quinta-feira, 14 de março de 2024

NASCIMENTO DO POEMA

Batem-me à porta cada dia;

Se continuo com a poesia.

Respondo-lhe que sim.

 

Por isso é que comigo me concordo.

Quando durmo, ela vela à cabeceira;

Dou-lhe os bons-dias, quando acordo,

E meto-a na algibeira,

Por vezes, fala-me em segredo:

- Prepara o papel e a caneta;

Vai nascer o poema. 

                                   Com que medo

Me confesso poeta!)

 

Digo, então aos escombros

Do passado a que me atrevo,

O que resta de mim, carregado nos ombros,

E escrevo.

 

António Manuel Couto Viana de Ainda Não em Resumo: a poesia em 2010

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

NATAL, AINDA?

Que longa espera, noite fora!

Virá o anjo? Trará recado?

Na solidão que o apavora,

O velho corre o coração de lado a lado.

 

Recorda um deus: um deus criança,

Sem a ciência entre os doutores.

E sem espada. E sem balança.

Coroado de inocência e flores.

 

A bela imagem diluída

De uma passada madrugada

Que lhe foi vida,

Antes de a vida não lhe ser nada.

 

Conformar-se, porquê, com o Natal dos velhos?

Cenário literário dos Natais:

A manta nos joelhos,

Lareira acesa, a mesa com cristais…

 

A neve, sim, que a tem

No cabelo e também no coração.

— Nascerá hoje alguém

Que o leve, puro e ardente, pela mão?

 

António Manuel Couto Viana, poema  tiradoda antologia Natal…Natais

segunda-feira, 18 de março de 2019

NASCIMENTO DO POEMA


Batem-me à porta cada dia
A perguntarem por mim;
Se continuo com a poesia.
Respondo-lhe que sim.

Por isso é que comigo me concordo.
Quando durmo, ela vela à cabeceira;
Dou-lhe os bons-dias, quando acordo,
E meto-a na algibeira,

Por vezes, fala-me em segredo:
- Prepara o papel e a caneta;
Vais nascer o poema.
                                 (Com que medo
Me condesso poeta!)

Digo, então, aos escombros
Do passado a que me atrevo,
O que resta de mim, carregado nos ombros,
E escrevo.

António Manuel Couto Viana