Na sua essência, o Outono é feito de doçura e de tristeza. Olha-se e não parece haver nada de derradeiro nas cores quentes que vêm das vinhas, dos soutos e dos carvalhais. Mas, quando o sol se põe e o latir longínquo dos cães e o toque dos sinos das igrejas quebram o silêncio do entardecer, aí, sim, a euforia perante tanta beleza dá lugar a uma desolada melancolia. Os dias de Outono são como as melhoras da morte, porque já sabemos que a paisagem em fogo apenas se está a despedir.
É assim todos os anos, mas já não com a mesma e previsível ordem temporal das coisas. A vindima, por exemplo, começava no Outono e agora arranca no Verão, terminando aos primeiros alvores do Outono. A apanha da azeitona passou a ser outonal, quando antes era de Inverno. Por esta altura, também ainda ninguém comia dióspiros, só pelo Natal, e agora já estão a cair ao chão de tão maduros.
Pedro Garcias no Público
1 comentário:
Também gostei de ler o Pedro.
Este "tempo maluco" é uma grande dor de cabeça para os agricultores...
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