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quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

... E OS DIAS DIMINUEM

Os dias cansaram-se e deixam de diminuir.

Será hoje o dia mais curto do ano, a noite mais comprida.

Passaremos a assistir, primeiro em amostragens ridículas, aos dias com mais claridade.

É assim que ficaremos à espera da Primavera.

Esperar pela Primavera é tão importante como assistir à sua chegada.

No atordoamento destes dias tão difíceis, é bom pensar que a Primavera chegará. 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

... E OS DIAS DIMINUEM

A Academia Portuguesa de Cinema vai ter de abrir nova votação para escolher um filme candidato de Portugal ao Óscar de melhor filme estrangeiro, depois de a Academia norte-americana de cinema ter rejeitado a proposta inicial de Listen, o filme de Ana Rocha de Sousa, por este ser maioritariamente falado em língua inglesa sendo um dos critérios de elegibilidade a obrigação que pelo menos 50% do filme candidato seja falado em língua não-inglesa.

O filme  que arrecadou seis prémios no Festival de Veneza, retrata a história de um casal imigrante português em Londres, e, além dos diálogos em inglês, tem uma parte considerável de diálogos em português e em língua gestual.

A Academia portuguesa de Cinema terá de indicar outro filme. Os candidatos serão Mosquito, do realizador João Nuno Pinto, Patrick do realizador Gonçalo Waddington e Vitalina Varela, do realizador Pedro Costa .

1.

Em entrevista, a Comissária Europeia Elisa Ferreira, disse: a Comissária Europeia Elisa Ferreira

«Ao fim destes anos todos de apoio maciço de fundos estruturais, Portugal é ainda um país atrasado” que deve aplicar o dinheiro “de uma forma radicalmente diferente da reprodução do passado»

2.

Os contribuintes já perderam quase 21 mil milhões de euros a ajudar, nos últimos 12 anos, os bancos.

3.

Mais uma demissão entre os inspectores do SEF. Passam a ser 13 com processos dosciplinares.

Eduardo Cabrita continua ministro.

Até quando?

4.

A viúva de Ihor Homenyuk, o cidadão ucraniano assassinado no aeroporto de Lisboa por inspectores do SEF, pediu às televisões portuguesas, ávidas de circo mediático que lhes dê audiências, que a deixem em paz.

5.

Na Europa dos 27, Portugal, em tempos um pais de emigrantes para França, Alemanha, Brasil, Estados Unidos, é um dos que menos emprega imigrantes.

6.

Numa das suas crónicas no Expresso, José Tolentino de Mendonça diz-nos que é realmente impossível viver sem os outros e que a morte, segundo o poeta Paul  Célan, é uma flor porque floresce quando quer, mesmo fora da estação.

«Somos criaturas terrenas e seres destinados a realizar a experiência da morte. Pensar o que é a morte corresponde, deste modo, a abraçar o que a vida é», diz Tolentino Mendonça.

Sobre a morte não sabemos o que dizer, nem o que pensar

É tão estranho que entre a avalancha de saberes úteis e inúteis que acumula­mos uma vida inteira, não esteja este: aprender a morrer.

Sabemos então que pouco ou nada aprendemos sobre despedidas.

Guardo esta frase de Vitor Cunha Rego, que foi, entre outras coisas, director do Diário de Notícias:

«A pessoa preparar-se para a morte é a grande finalidade da vida.»

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

... E OS DIAS DIMINUEM

No século XX, os amigos estrangeiros que viajavam com a TAP eram francamente elogiosos relativamente à companhia de aviação: diziam que se comia melhor do que em qualquer outra companhia aérea, que os produtos servidos eram de qualidade, que os profissionais de bordo, que a manutenção dos aviões eram altamente competentes e profissionais.

O Hans-Martin, alemão de Reinbek, meu amigo, quando vinha a Portugal em férias, só viajava pela TAP mesmo sabendo que havia companhias que lhe faziam preços mais simpáticos.

Fiz viagens aéreas apenas por obrigação profissional, e os dedos das mãos chegam para as contar, porque viajar de avião nunca fez parte dos meus gostos. Mas sempre que isso aconteceu fiz questão de sempre viajar pela TAP.

Há muito que devíamos ter resolvido os inúmeros problemas que a TAP foi acumulando ao longo de muitos e muitos anos. Neste findar de ano, o futuro da TAP outro não será do que a extinguir tal como se encontra. O que o governo propõe fazer – e nada é claro, nem transparente – é encharcar a TAP com mais dinheiro, que pouco ou nada resolverá, e que será suportado por todos nós como já aconteceu, e vem acontecendo, com os bancos que temos vindo a financiar.

Quando, talvez, os sinos comecem a dobrar tela TAP, hoje já se fala em despedimento colectivo, lembremos Carlos Paredes, recordando a excelência de uma companhia aérea:

 «Devo à TAP imensos favores. Um deles é deixar levar no avião a guitarra junto a mim, porque se fosse para o porão podia sujeitar-se a ser furada…»

1.

Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna, ainda não percebeu que não tem nenhumas condições, nenhumas mesmo, para continuar no cargo.

Devia demitir-se.

A não fazê-lo, terá que ser demitido.

O brutal e inqualificável assassinato de Ihor Homenyuk, o mais grave atentado ao estado de direito d pós-25 de Abril,é algo que não permite outras leituras.

Por outro lado Marcelo, como é de seu feitio, enredou-se, pelas piores razões, neste episódio.

Marcelo é a mesma pessoa que telefonou  em direto a Cristina Ferreira, para lhe desejar sorte num programa televisivo, que manda, por dá cá aquela palha, afectos e condolências a toda a gente, mas esqueceu  a viúva e os filhos de Igor  e, quando confrontado com o esquecimento, se enredou numa explicação canhestra e tristre por não o ter feito.

2.

Colocando de lado o aspecto de ambos sermos associados do Benfica, em muitíssimas poucas coisas estarei a concordar co António Bagão Félix.

Ressalvo esta, de uma entrevista dada num qualquer Natal passado:

«Bacalhau com batatas na ceia de Natal. é o  aquele verdadeiramente me transmite a conjugação feliz entre a comida e a família.»

sábado, 12 de dezembro de 2020

... E OS DIAS DIMINUEM


Dizem que é o melhor Bolo-Rei da cidade, o da Confeitaria Nacional, casa fundada em 1829, ali à Praça da Figueira. O segredo da feitura do bolo nunca saiu portas fora.

Uma tarde, por um findar de ano, esteve hora e meia, na bicha, à espera de comprar o bolo. Não por ele mas por um amigo, chegado de Montalegre, que daquele bolo ouvira falar e nunca tinha comido. 


Para ele não há problema. Gosta tanto de Bolo-Rei que os come de um qualquer lugar: do Continente, do Minipreço, do Lidl, até da padaria aqui da rua.

Gosto de Bolo-Rei, mas se me querem ver mesmo feliz é quando o encontro fora da época. Que querem? Sempre foi assim e está velho para mudar. Também se perde por broas castelar…
Mas pode dizer que sim, que é bom o Bolo-Rei da Confeitaria Nacional, só que é uma opinião, vinda de quem vem, em que não podem ter qualquer tipo de confiança.

Está à vista o porquê.

A Guida todos os natais me diz que o melhor Bolo-Rei  é o da Pastelaria Garrett, ali para os 


estoris, na Avenida Nice nº 54, Bolo-Rei chique, chiquérrimo. Passa horas para o comprar e 
entendo, que tanta generosidade merece a pequena mentira de sempre lhe dizer que sim, é o melhor Bolo-Rei que comi até aos dias de hoje.

O sorriso dela, o entusiasmo, vale a mentira:

-Vês! Eu sempre te disse!...

E em final de prosa fica aquele poema do Vasco da Graça, no tempo em que o Bolo-Rei tinha brinde e fava e a quem saísse a fava a obrigação de em próximo Natal, ou quando calhasse, comprar o bolo:


espero que me calhe aquela fava
que é costume meter no bolo-rei:
quer dizer que o comi, que o partilhei
no natal com quem mais o partilhava

numa ordem das coisas cuja lei
de afectos e memória em nós se grava
nalgum lugar da alma e que destrava
tanta coisa sumida que, bem sei,

pela sua presença cristaliza
saudade e alegria em sons e brilhos,
sabores, cores, luzes, estribilhos...
e até por quem nos falta então se irisa

na mais pobre semente a intensa dança
de tempo adulto e tempo de criança.


Legenda: o anúncio da Pastelaria Garret é tirad do blogue Restos de Colecção.

 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

... E OS DIAS DIMINUEM


Os dias continuam a diminuir.

Portugal ultrapassou, hoje, as 5.000 mortes por Covid-19.

Uma frase de José Saramago:

«Nada me chateia mais do que ouvir um político dizer que não devemos criara alarme social. A sociedade tem de estar alarmada, que é a sua forma de estar viva.

Marcelo Rebelo de Sousa confirmou, hoje, a recandidatura à Presidência da República:

«Quem avança para esta eleição é exactamente o mesmo de há cinco anos.»

Na semana passada, Marcelo Rebelo de Sousa, 40 anos depois da morte de Sá Carneiro, manifestou frustração por não se ter provado se foi acidente ou crime.

Mas não deixou de referir a convicção que o desastre de Camarate foi um atentado.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

...E OS DIAS DIMINUEM

Os livros não são lidos, os filmes não são vistos, os quadros não são olhados.

Alguns nem ouvem o que vão dizendo ao longo dos tempos, ah!, mas quando morrem, explode o palavreado, a genialidade que alguns até nunca tiveram. Se é que isso de génios é algo que tenha de se exaltar.

Ainda tenho para aí o esboço de algo que quis fazer sobre os geniais-disparates que se escreveram e disseram na hora da morte de Agustina Bessa-Luís.

Há dias foi a morte de Ribeiro Telles que tanto falou e escreveu  de como é que as coisas deviam ser feitas para que as cidades, onde vivemos, fossem cidades felizes, e ninguém seguiu, ou tentou seguir sequer, o que ele disse.

Agora na morte de Eduardo Lourenço foi o que se viu e ouviu.

Ele que sempre foi um homem amável, de uma simplicidade de enlouquecer.

Num dia longínquo foi a Matosinhos e, como tantos e outros portugueses, pela primeira viu o mar.

«Da minha aldeia não se via o mar», disse numa entrevista ao Diário de Notícias.

1.

 Algumas mortes também são nossas mortes.

 2.

 O meu medíocre português tem piorado com a pandemia.

Nada me sai com tino, não pego nos livros da maneira como passei toda uma vida a pegar.

 3.

 A Organização Mundial da Saúde alertou para a subida da fadiga pandémica que pode atingir até 60% dos membros de certos grupos, traduzida por uma apatia que faz baixar a guarda e desleixar as estratégias preventivas. 

 4

 Nos primeiros oito meses deste ano, venderam-se mais de 13 milhões de embalagens de ansiolíticos e antidepressivos, o valor mais alto dos últimos três anos.

 5.

Li num jornal atrasado que a Igreja Católica admite suspender a realização da tradicional Missa do Galo, no Natal, devido à pandemia.

«Nós não brincamos com a saúde das pessoas», disseram os eclesiásticos.

 6.

 Um título, também atrasado, do jornal Público dizia: «Precisa-se de quem saiba flaar de Covid-19. Entrada imediata»

 7.

 Dos 2141 presos libertados durante a pandemia, 154 voltaram à cadeia por crime ou violação das regras.

 8.

 Segundo a Associação Nacional dos Restaurantes a crise da pandemia já terá criado 40 mil desempregados no sector da restauração.

 9.

Numa farmácia perto de si, no centro de saúde da zona onde vive, desde Setembro que Ana Gomes  não conseguia vacinar-se contra a gripe. Uma amiga trouxe-lhe a vacina de Paris. A Infarmed disse que isso é proibido. Ana Gomes desconhecia. Eu também. Mas o pior foi quando a candidata a presidente da República refere haver vacinas reservadas para certas empresas e grupos económicos.

Parece-me ter ouvido bem.

10.

Houve um tempo em que me traziam caramelos de Badajoz.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

... E OS DIAS DIMINUEM


Chegará, em breve, a noite em que os dias vão deixar de diminuir para, numa lentidão quase inexistente nos primeiros tempos, passarem a aumentar.

 Ocorrerá no dia 22 de Dezembro, o dia mais curto do ano que dará lugar à noite mais longa.

O inverno passará a marcar os nossos dias.

 Chegará esse tempo… chegará…

1.

Devia, em tempo de pandemia, nestes dias iguais de desespero, proibir-me de pegar no Livro do Desassossego do Sr. Bernardo Soares.

 Devia… sei que não devia…

 «Sabendo como as coisas mais pequenas têm com facilidade a arte de me torturar, de propósito me esquivo ao toque das coisas mais pequenas. Quem, como eu, sofre porque uma nuvem passa diante do sol, como não há-de sofrer no escuro do dia sempre encoberto da sua vida?

O meu isolamento não é uma busca de felicidade, que não tenho alma para conseguir; nem de tranquilidade, que ninguém obtém senão quando nunca a perder, mas de sono, de apagamento, de renúncia pequena.

As quatro paredes do meu quarto pobre são-me, ao mesmo tempo, cela e distância, cama e caixão. As minhas horas mais felizes são aquelas em que não penso nada, não quero nada, não sonho sequer, perdido num torpor de vegetal errado, de mero musgo que crescesse na superfície da vida. Gozo sem amargor a consciência absurda de não ser nada ante o sabor da morte e do apagamento.

Nunca tive ninguém a quem pudesse chamar «Mestre». Não morreu por mim nenhum Cristo. Nenhum Buda me indicou um caminho. No alto dos meus sonhos nenhum Apoio ou Atena me apareceu, para que me iluminasse a alma.»

 2. 

Os números não terão o necessário rigor, mas admite-se que, devido ao Covid-19, morreram 1.100 idosos em lares.

 3.

Num país há serviços que deveriam sempre estar na alçada do Estado: os CTT é um desses casos.

A rapaziada que, no tempo de Passos Coelho, comprou os CTT, quer mais dinheiro e menos regras para manter a concessão que termina no final do ano.

Eles dizem que a actual situação é insustentável.

Os portugueses dirão, no que ao serviço postal diz respeito, o que a gentalha ganha já é muito para serviço completamente miserável que prestam.

Há quem defenda – e com todas as razões – que os CTT deveriam ser nacionalizados.

 4.

É incalculável a quantidade da mais variada gente que aparece nas televisões a debitare sobre a pandemia que nos invadiu o quotidiano.

Não percebo o calão científico que grande parte utiliza, coisas lá deles, quando o importante seria que alguém falasse simples, que se juntassem a uma só voz, sem incoerências, sem habilidades manhosas e dissessem aos portugueses o que se passa realmente, o que se vai passar ainda.

Marcelo, qual barata tonta, deixou nas entrelinhas que quase de certeza vamos ter Natal em estado de emergência.

Da parte do governo falta uma estratégia, o tudo ao monte e fé em Deus nem sempre dá resultado e, num caso como este, não resulta mesmo.

Acreditei que face ao trabalho realizado durante os primeiros meses da pandemia que o governo, as diversas entidades, todos nós, tivéssemos aprendido algo que agora serviria para enfrentar as vagas que vão surgindo, continuarão a surgir.

 Não, não aprendemos nada. Estamos desorientados, cansados.

Que futuro nos pode restar se os cidadãos, inconscientemente, estupidamente são os primeiros a criar os já de si graves problemas que nos envolvem?

No primeiro fim-de-semana do estado de emergência, denúncias levaram a GNR a pôr fim a uma festa no Monte da Caparica que reunia 30 pessoas, três festas no Algarve que juntavam 300 pessoas.

 Que faremos com esta gente?

 5.

Rui Rio, personagem com que nunca simpatizei, alguém que sempre que ouve falar de cultura puxa logo da pistola, acabou por estatelar o PSD num pântano donde não será fácil sair.

O que Rio permitiu que o PSD local fizesse nos Açores, aliando-se àquela coisa racista, xenófoma, coloca o Partido dito social, dito democrata em péssimos lençóis.

O silêncio do PSD face a este atentado é ensurdecedor.

Onde os personagens, vulgo Paulo Rangel, Montenegro, Maduro, Morais Sarmento tutti quanti, sempre dispostos aos brados mais aterradores quando o PS, ou o Governo tomam determinadas posições?

 Apenas uma voz, a de Jorge Moreira da Silva se fez ouvir:

 «Considero necessária a realização de um Congresso extraordinário do PSD para definição, bem antes das eleições autárquicas e legislativas, da política de coligações e entendimentos do partido.»

 Mas disse Rui Rio:

 «Para o presidente dos sociais-democratas, nos Açores, o Chega moderou-se ao propor medidas que não são consideradas fascistas, por isso houve negociação. "No futuro, no continente, se o Chega se moderar pode haver hipóteses de diálogo. Nos Açores, o Chega moderou-se».

 A jornalista São José Almeida, no Público, não deixou, em texto de opinião, de notar:

 «Rui Rio está ávido de poder».

 6.

O PSD está atentar que o Bastonário da Ordem dos Médicos se candidate pelo partido às próximas eleições autárquicas.

Bem me queria parecer que a sanha bastonária contra as decisões do governo, que se supunha serem de interesse médico-científico, não passam de um mero expediente político.

Que bem lhes fica a hipocrisia!

Esta gente causa asco!

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

...E OS DIAS DIMINUEM

 


Sexta-feira 13.

Dia de azar.

Feitiços. Bruxas. Gatos pretos. Não passes por debaixo de escadas. Não abras o chapéu-de-chuva dentro de casa. Não tenhas relógios parados dentro de casa.

Em tempo de pandemia valerá a pena falar de sextas-feiras 13?

Bluff absolutamente inútil?

O papel todo branco à espera, ninguém sabe bem de quê!...

1.

Portugal registou hoje 6.653 novos casos de covid-19, um novo máximo diário, que aumenta para 204.664 o total acumulado de infetados no país desde o início da pandemia.

Nas últimas 24 horas morreram mais 69 pessoas devido ao novo coronavírus. No total, o país soma já 3.204 vítimas mortais.

Covid-19 justifica menos de metade dos mortos em excesso do último mês.

Estado paga 8.400 euros aos privados por cada doente Covid-19.

2.

Marcelo Rebelo de Sousa não gostou da solução de governação para os Açores.

3.

Ana Sá Lopes no editorial do Público de hoje: «Deixem-se de coisas: o PS apoia Marcelo»

4.

Quando em Março, face ao confinamento, todos sorriram quando os cinco anos do neto João perguntou se ia haver Natal.

Marcelo, para a semana, vai ouvir os partidos, em Dezembro reunirá o Conselho de Estado. Nestas reuniões espera que se determine aquilo com que contam os portugueses a partir de Dezembro.

«Fui o primeiro a dar a má notícia de que tinha de se mudar o estilo de Natal que sempre tivemos. Os portugueses têm de saber com antecedência o que vai acontecer no Natal.»

5.

Na passada terça-feira, com 83 anos, morreu o jornalista e escritor Artur Portela,Filho. Uma personalidade original, acutilante, mordaz, cáustico, anti-comunista, dizia-se o melhor cronista português, desdenhava dos que não conseguiam escrever como ele.

Antes do 25 de Abril escrevia no jornal República crónicas que intitulou A Funda, parcial e totalmente cortadas pela censura marcelista, mais tarde reunidas e publicadas em livro pela Moraes Editora.

Lembro-me de uma dessas crónicas, Abril de 1972, intitulada «Benfica, Reserva de Povo». Começava assim:

«A estes ninguém os meteu em autocarros.

São oitenta mil e foram eles que escreveram os cartazes.»

Mais á frente:

«O Benfica é, ainda, uma das raras solidariedades possíveis. Uma das únicas viáveis. Uma das poucas maneiras de ser povo.»

E pelo meio deixava perguntas:

«Que se deixou cair que o Benfica tenha apanhado do chão?

Que não se faz que o Benfica tente?

Que nos falta que o Benfica ouse?»

Em Maio de 1971, Mário Castrim criticou uma sua intervenção no programa «Canal 18» da RTP. Artur Portela não gostou e respondeu no dia seguinte no «Diário de Lisboa». Castrim deixou-lhe uma contra-resposta que começava, deliciosamente, assim:

«Ó Portela! Ó Filho! Assim se perde de um só golpe, a fama de intelectual valoroso, intemerato, glorioso há tantos anos preparada.»

Numa entrevista ao Público, Setembro de 2018, em tempo de Assunção Crista ser presidente do CDS, Artur Portela venenosamente, disse:

«Assunção Cristas ideologicamente é uma stripper.»

Legenda: pintura de Joseph Tomanek

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

... E OS DIAS DIMINUEM


Imaginarias que, num qualquer tempo, seria um governo, daqui ou dacolá, que iria decidir como, e com quem, passarias o teu Natal?

 Primeiro foi o presidente da República: «as pessoas têm de repensar como é que se vão organizar no Natal», agora o primeiro-ministro deixou conselho idêntico: «as famílias, provavelmente, terão de se organizar em grupos mais pequenos do que o habitual».

1.

Há outros doentes para além dos da Covid-19?

A pergunta é mesmo parva, mas até setembro, já foram canceladas 96 mil operações devido à pandemia. No entanto o número pode crescer até às 152 mil cirurgias por realizar em comparação com o ano passado.

2.

Não se sabe o dia em que os Estados Unidos ficarão a conhecer o nome do próximo inquilino da Casa Branca.

Joe Biden é o candidato com mais votos de sempre na história do país: 72 milhões de votos, tendo batido o recorde de Barack Obama que, em 2008, obteve 69,4 milhões de votos.  

Donald Trump, até ao momento, conquistou mais de 68,6 milhões de votos, tendo ultrapassado os seus resultados em 2016, que se cifraram em quase 63 milhões de eleitores.

É mesmo possível que um dia os americanos tenham pisado a Lua e, ao mesmo tempo, possuam um sistema eleitoral tão primitivo que não lhes permita dar a presidência a quem tenha mais votos?

3.

Dir-se-ia que o destino é mesmo um tipo sem qualquer ponta de moral.

A morte da juíza Ruth Bader Ginsburg, no dia 18 de Setembro, aos  87 anos, uma voz progressista no Supremo Tribunal norte- americano, permitiu  a Donald Trump ter escolhido Amy Coney Barrett,a uma semana das eleições presidenciais, para substituir Ginsburg  — por 52 votos contra 48.

Amy Barrett, 48 anos, é uma católica ultraconservadora, antiga líder pastoral das mulheres da seita People of Praise, é contra a imigração, o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, é a favor do uso de porte de armas.

Ruth Bader Ginsburg percorria já os degraus do seu tempo entre nós, mas o tal destino poderia ter esperado mais uns dias até à possibilidade de existir um novo presidente.

E serão os tribunais a decidir quem é o novo presidente?

4.

 A pandemia já fez desaparecer 83 mil empregos. Metade é emprego jovem.

5.

Há dias soubemos que o constitucionalista Bacelar Gouveia está a ser investigado por suspeitas de facilitar, a troco de contrapartidas, a atribuição de doutoramentos a alunos de alguns países africanos de língua oficial portuguesa.

E que um homem foi detido pela PSP  por suspeitas de assaltar idosos no Grande Porto. O suspeito far-se-ia passar por um técnico de uma operadora televisiva que havia sido chamado para uma avaria. Assim conseguia entrar na casa das pessoas para roubar peças em ouro e prata.

Hoje ficámos a saber que o Ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital, Pedro Siza Vieira e o secretário de Estado Adjunto e da Energia, João Galamba estão a ser investigados num processo que visa indícios de tráfico de influências e de corrupção, entre outros crimes económicos.

6.

São de angústia os nossos dias pandémicos.

Vamos ter recolher obrigatório?

É a angústia pior que o medo?

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

... E OS DIAS DIMINUEM

São Dias.

Dia das Bruxas. Dia de Todos os Santos. Dia de Finados.

Pode brincar-se com coisas sérias?

Não sei o que o meu avô diria.

Sabe-se que não se morre quando de quer mas quando se pode.

Será mesmo?

Há um delirante filme de Jim Jarmuch em que se brinca com coisas sérias.

A canção que faz parte do filme, tem o cantor country Sturgill Simpson, a interpretar a canção-tema que nos diz  que os mortos são fantasmas dentro de um sonho, uma vida que não possuímos, que a vida continua para além da morte.

 É tão estranho que entre a avalancha de saberes úteis e inúteis que acumula­mos uma vida inteira. não esteja este: aprender a morrer.

 O Mário de Sá-Carneiro deixou um poema em que exigia:

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Não se morre quando se quer mas quando se pode.

Falará apenas do que sobre o assunto, variadas vezes, o pai lhe disse: «Não quero lutos. Os lutos ofendem-me. Terão que arranjar forças para que tudo o que for festas, as façam como se eu também lá estivesse. Se assim não fizerem, venho por aí abaixo e desato à bofetada».

Foi este o recado. Qualquer dia passará o discurso aos filhos...

Não é fácil...

Este velho recorte é um belíssimo texto do Mário Castrim, e assim, sem quase ninguém dar por isso, passou o centenário do seu nascimento (31 de Julho de 1920).

Bom dia, Mário.

Também não te vou ver ao cemitério. Estás sempre por aqui, os mortos que vão ao nosso lado como dizia o José Gomes Ferreira.

Aquela letra é do próprio Castrim que foi professor de caligrafia na Escola Francisco de Arruda.

O texto é ilustrado com a cena final de O Terceiro Homem de Carol Reed, mais de Orson Welles do que Carl Reed ,  dizia o meu pai.

A  paixão assolapada que ele tinha  por Alida Valli, e o meu pai nunca leu o que João Bénard da Costa escreveu: «os olhos mais verdes que já vi, uma testa altíssima, uma boca sôfrega, perfil suavíssimo e um corpo que, sem ser vistoso ou agressivamente sensual, tinha as proporções feitas para a sedução.»

Altiva e orgulhosa, Alida Valli deixa o cemitério de Salzburgo e caminha estrada fora, indiferente à boleia que Joseph Cotten lhe oferece. Em fundo ouve-se a cítara de Anton Karas, até Alina Valli se perder, sublimemente, na linha do horizonte.

«Percebo que a imagem só se moveu, ou seja, só houve cinema, para nos dar movimentos desses e mulheres assim», para voltar a citar João Bénard da Costa.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

... E OS DIAS DIMINUEM


Lentamente, começo a preparar-me para outro confinamento.

Voltar a memorizar os passos dentro de casa: janela da frente, janela das traseiras.

Continuar as (re)leituras, ouvir as velhas músicas, continuar a acreditar que o velho reprodutor de cassettes VHS não dê o berro, porque nessas cassettes é que estão os filmes de que gosto mesmo.

As memórias vivas dos livros, dos discos, dos filmes, da casa.

Escolher e falar de coisas simples, aquelas coisas insignificantes que nos emocionam até aos limites da ternura.

O título é roubado de September Song,  cantada pelo Frank Sinatra, ou pela Ella, ou pelo Willie Nelson: ...and the days dwindle down.

Músicas contra esse inferno que dá pelo nome de Covid-19,

É isso.

Valham-nos os deuses todos do Olimpo!