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quinta-feira, 17 de julho de 2025

VELHOS RECORTES


O meu pai comprou o livro de Sartre, Março de 1967, num alfarrabista. Dentro encontrava-se este telex da «Reuters» sobre as audiências do tribunal sobre os crimes cometidos pelos americanos no Vietnam.

« O Tribunal Russell, também conhecido como Tribunal Internacional de Crimes de Guerra, foi uma iniciativa do filósofo Bertrand Russell para investigar e julgar as ações dos Estados Unidos e seus aliados no contexto da Guerra do Vietnã. O tribunal, formado em 1966, não tinha poder legal, mas buscava denunciar crimes de guerra e mobilizar a opinião pública internacional. Bertrand Russell, com o apoio de personalidades como Jean-Paul Sartre e outros, buscou legitimar o tribunal através da participação de figuras proeminentes de diversas áreas.»

Wikipédia

domingo, 2 de março de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


                                                   «Mãe, estou bem, estou só a esvair-me em sangue»

                                                    - de uma canção de Bob Dylan.

 

Parafraseando o monstro de cabelo alaranjado que ocupa a sala oval, poderíamos dizer:

«Os Estados Unidos nasceram para lixar o Mundo».

Este é um velho single, de tão rodado, nos tempos da ditadura salazarista/marcelista, teve de ser remendado com fita gomada.

Também é um disco da caminhada para o País de Abril.

Quando em Setembro de 1966 o Mário Castrim foi a Roma trouxe-me este disco. Porque vagamente tínhamos falado nisso, esperava que me trouxesse o cartaz de Férias em Roma, Filme de William Whiler, Audrey Hepburn a andar de vespa à pendura do Gregory Peck. Não sendo filme de cabeceira é um filme que estimo.

Mas o cartaz não veio. Chegou este grito contra a guerra do Vietnam, que viajou escondido no meio do saco da rua suja, com o Mário a pensar que os inspectores da Alfândega não iriam lá. Ingenuidades… Mandaram-no despejar o saco, mas não lhe apreenderam o disco.

No cinzento do nosso quotidiano sabíamos das manifestações de protesto que, por todo o mundo, se faziam contra a Guerra do Vietnam. Os anos de brasa da Paz, dos Direitos Humanos, da guerra do Vietnam.

Este disco assinala, em Roma, Março de 1966, uma dessas manifestações de protesto: “A chi chiama per la guerra, rispondiamo no”.

Dizia-se então: estamos todos em guerra contra os Estados Unidos da América.

Em Julho de 1980 Ronald Reagan disse: «O Vietnam não foi uma má experiência, o que foi mau foi termos perdido a guerra.»

Os números de uma guerra nunca são exactos, chega-se a eles às apalpadelas e nunca são definitivos:

- 3 milhões é o número de vietnamitas mortos, incluindo 2 milhões de civis.
- 60 mil americanos perderam a vida.
- as forças americanas utilizaram 15,35 milhões de toneladas de bombas
- foram gastos 220 mil milhões de dólares. Calcula-se que foram gastos 675 mil
dólares para exterminar um só guerrilheiro vietcong.

Lyndon Johnson nunca aceitou que uns quantos guerrilheiros comunistas pudessem vencer os Estados Unidos:

«A menos que os Estados Unidos disponham de um poderio aéreo incontestável, estamos sujeitos a qualquer anão amarelo que tenha um canivete».

O presidente Richard Nixon foi um político paranóico, vingativo, volútil, embebedava-se e amiúde batia na mulher. Foi este homem que chegou a considerar a opção nuclear para resolver a guerra do Vietname, como se pode ver neste diálogo, gravado na Casa Branca, com o secretário de estado Henry Kissinger:

Nixon – Mais valia usar a bomba atómica no Vietname.

Kissinger – Isso julgo seria ir longe demais.

Nixon – A bomba atómica perturba-o? Eu só quero que você pense em termos amplos. A única coisa em que nós discordamos é sobre os bombardeamentos. Você está preocupado com os civis e eu estou-me bem nas tintas. Não me interessa isso.

Kissinger – Preocupo-me com os civis porque não quero que o mundo se mobilize a acusá-lo de ser um carniceiro. Podemos ganhar a guerra sem matar civis.


domingo, 15 de dezembro de 2024

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


 

Um livro grosso, alto, largamente ilustrado com fotografias, que entrou na Biblioteca da Casa em Maio de 1967, trazido, de Roma, por um amigo do meu pai, editado em francês pela Novosti, sem indicação de data.

Aborda uma das muitas terríveis guerras que o mundo já viveu e que ocorreu de de 1 de Novembro de 1955 até à queda de Saigão em 30 de Abril de 1975, e travada entre o Vietnam do Norte e o governo do Vietnam do Sul. O exército norte-vietnamita era apoiado pela União Soviética, China e outros aliados comunistas, enquanto os sul-vietnamitas eram apoiados pelos Estados Unidos, Coreia do Sul, Austrália e outras nações anticomunistas.

 Desta guerra disse, em Maio de 1967. o norte-americano Cardeal Spellman:

O Século de Fevereiro de 1973 reproduzia um artigo de Peter Goldman, lembrando as palavras do presidente Nixon sobre o fim da guerra no Vietnam.


Cerca de três milhões de vietcongs mortos, incluindo dois milhões de civis.

Cerca de 60mil  militares norte-americanos mortos, grande parte negros e latino-americanos. Foram gastos 220 mil milhões de dólares, 300 mil vietnamitas desaparecidos, 1800 americanos desaparecidos.

Calcula-se que, para matar um vietcong, os Estados Unidos gastaram 675 mil dólares.

Foram transportados 10 milhões de americanos em aviões comerciais.

Foram utilizadas 15,35 milhões de toneladas de bombas.

Ainda hoje morrem vietnamitas, vítimas de minas e bombas não deflagradas. Desconhecem-se quantas minas, bombas e obuzes continuam por explodir.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Uivo (e outros poemas)

Allen Ginsberg
Selecção e tradução: José Palla e Carmo
Capa: Fernando Felgueiras
Colecção Cadernos de Poesia nº 26
Publicações  Dom Quixote, Lisboa, Junho de 1973

Obedecendo a ordens para matarmos os espiões,
                   descarreguei a pistola na sua boca.
Descaíu, com a cara para baixo, da posição de vivo,
                   e deixei-o ali morto e ajoelhado.

Não, eu não fiz isso. Imaginei a cena, na neve dum
                   aeroporto, quando o avião de Albany des-
                   carregava passageiros.

Sim, fê-lo o rapaz com cara de Mexicano, de deza-
                   nove anos, com farda de fuzileiro naval,
                   que vinha sentado ao meu lado,
e que ia sair em Salt Lake City, a acompanhar
                   o cadáver do irmão que trouxera do
                   Vietnam.
«O vietnamita estava ajoelhado à minha frente,
                    a chorar e a pedir piedade. Eram dois:
                    este trazia um cartão que havíamos lan-
                    çado sobre eles.»
O cartão prometia imunidade aos
                    vietcongues que se rendessem.
«Para justar as contas da morte do meu irmão
                    E do meu melhor amigo, abati os dois.»
Sim, isto foi verdade,

                                       Fevereiro, 1969

quinta-feira, 9 de abril de 2015

TRANSFERÊNCIAS...


Telegrama de Washington publicado no Diário de Lisboa de 31 de Outubro de 1965 e retirado da secção Factos e Documentos da Seara Nova nº 1442 de Dezembro de 1965.

sábado, 24 de janeiro de 2015

O FUTURO VAI COMEÇAR

Até esta data a Guerra no Vietname custou a vida a aproximadamente 1 159 000 combatentes, incluindo cerca de 46 000 americanos e 924 000 vietnamitas, enquanto muito mais de 1 135 000 civis sul vietnamitas foram mortos ou ficaram feridos.

Para além dos mortos e feridos, esta guerra já custou aos Estados Unidos, 120 000 milhões de dólares, ao câmbio da época 3 360 milhões de contos.
O Vietcong era o povo.

Como disse o General Giap: Lutaremos pela independência e liberdade do nosso país, pela libertação dos povos, pela paz. A nossa causa é justa.

Venceremos!

O jornalista Álvaro Guerra, na 3ª página do República, saudava o fim do conflito:

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

CANÇÕES PARA O MEU PAI


Tendo começado com El Condor Pasa, faço hoje alinhamento para Where Have All The Flowers Gone?

Os créditos desta lindíssima canção são concedidos a Pete Seeger.

A luta contra a Guerra do Vietname, levada a cabo pelos americanos, também por outros os povos do mundo – estamos todos em guerra contra os Estados Unidos da América do Norte! - fez desta canção como de  We Shall Overcome, tantas mais, hinos de mote obrigatório em manifestações e concertos., contrariando os que diziam que cantar não era suficiente. Provavelmente, mas o silêncio é que nunca.


A música a corporizar o protesto, a ajudar à luta.

Nunca se pensou que a música podia não só parar uma guerra como começar a mudar o mundo. 

Cantar  nunca foi suficiente, mas ajuda mais do que todos os silêncios.

Ronald Reagan sobre o Vietnam: não foi uma má experiência, o que foi mau foi termos perdido a guerra.

Números do horror de uma guerra em nome da liberdade versão United States:  3 milhões de vietnamitas morreram, 2 milhões eram civis, 60 mil americanos perderam a vida, uma guerra que terá custado 220 mil milhões de dólares em que os dos Unidos gastaram 675 mil dólares para exterminarem um só guerrilheiro vietcong e continuam, por explodir milhares de toneladas de minas, bombas e obuses lançadas pelos americanos continuam por explodir.

Lyndon Johson, sentado na sala Oval da Casa Branca completamente perplexo por um bando de pigmeus armados de canivetes tivessem conseguido derrotar os Estados Unidos.

Nomes como o Kingston Trio, Joan Baez, Peter Paul and Mary, muitos mais, interpretaram. Where Have All The Flowers Gone?

A versão escolhida para a cassette do meu pai foi a de Peter Paul and Mary, LP da colecção de vinis  do Luís Miguel Mira.
 
Anos mais tarde conheci, numa das muitas antologias que vão sendo gravadas com as canções de Marlene Dietrich, a estupenda versão  que a Diva fez desta canção.

No tempo dessa descoberta, o meu pai já cá não estava para a conhecer, mas teria adorado, ele que tinha um especialíssimo béguin por Marlene Dietrich, pelo seu inenarrável fascínio.

Melhor dito: o fascínio pelas pernas de Marlene Dietrich.

Estas e outras pernas com que sempre sonhou, pernas que ele não tinha qualquer dúvida do que Marlene conseguia fazer com elas.

Marlene também não tinha.

Basta ver o Anjo Azul.

Foram estas as razões por agora, na cassette do meu pai, substituir a versão de Peter Paul & Mary então utilizada.

Para onde foram as flores, sim para onde foram.

Também os sonhos.


Legenda. f otografia de  Huynh Cong Ut da agência Associated Press que recebeu o Prêmio Pulitzer de 1973, correu mundo  e que retrata crianças – Crianças? Sim também os mortos são crianças - fugindo do rebentamento de bombas napalm sobre a aldeia.onde viviam.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Numa das cenas mais fortes – e elas são tantas -  de "Apocalypse Now", esse extraordinário filme de Francis Ford Coppola, (1979), sobre a intervenção norte-americana no Vietnam, um coronel de cavalaria (espantoso Robert Duvall) diz para os soldados que o rodeiam:

“Adoro o cheiro a napalm pela manhã. Tem o cheiro da vitória.

 Enquanto monologa com os soldados que o rodeiam, os helicópteros atacam e destroem uma aldeia vietnamita ao som  da “Cavalgada das Valquírias” de Wagner.
De cócoras, em tronco nu, para além do cheiro a “napalm”, o coronel louco, disserta  sobre a onda perfeita para praticar “surf”.
A loucura, os ensandecidos personagens de uma guerra cruel, exemplarmente caracterizados e denunciados por Coppola.

Como é que um povo de anões conseguiu derrotar o poderio bélico dos Estados Unidos.?

“Empenhamos, nesta guerra, o nosso poderio e a nossa honra nacional, o Presidente Johnson em 1965.

Em Março de 2002, centenas de horas de conversas, gravadas na Casa Branca, foram tornadas públicas. Como esta de Richard Nixon com Henry Kissinger, seu secretário de Estado:

“Nixon: Mais valia usar a bomba atómica no Vietname.
Kissinger: Isso, julgo, seria ir longe demais.
Nixon: A bomba atómica perturba-o? A única coisa em que nós discordamos é sobre os bombardeamentos. Você está tão preocupado com os civis e eu estou-me bem nas tintas. Não me interessa isso.
Kissinger: Preocupo-me com os civis porque não quero que o mundo se mobilize a acusá-lo de ser um carniceiro. Podemos ganhar a guerra sem matar civis.”

Cerca de três milhões de vietcongs mortos, incluindo dois milhões de civis.
Cerca de 60 militares norte-americanos mortos, grande parte negros e latino-americanos. Foram gastos 220 mil milhões de dólares. Calcula-se que, para matar um vietcong, os Estados Unidos gastaram 675 mil dólares.
Foram transportados 10 milhões de americanos em aviões comerciais.
Foram utilizadas 15,35 milhões de toneladas de bombas.
Ainda hoje morrem vietnamitas, vítimas de minas e bombas não deflagradas. Desconhecem-se quantas minas, bombas e obuzes continuam por explodir.