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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

OLHAR AS CAPAS


O Neto do Homem Mais Sábio

Tomás Guerrero

Prefácio de Valer Hugo Mãe

Tradução: Jorge Pereirinha Pires

Porto Editora, Lisboa, Novembro de 2025

O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Viagem a Saramago

Carlos Nogueira e José Vieira

Capa: V. Tavares

Edições Tinta-da-China, Lisboa, Outubro 2024

A viagem existe para se ver o que não foi visto, para se visitar o desconhecido e se poder regressar ao sítio de onde se partiu, então com um novo olhar sobra as coisas, uma nova interioridade. A viagem é um modo de aprender a olhar devagar, antes de um estádio de consciência mais avançado e lúcido, como sugere Saramago na epígrafe de Ensaio Sobre a Cegueira: «Se podes olhar vê. Se podes ver, repara.» 

segunda-feira, 13 de maio de 2024

OLHAR AS CAPAS


As 7 Vidas de José Saramago

Miguel Real E Filomena Oliveira

Capa: Alceu Nines

Companhia das Letras, Lisboa, Setembro de 2022

Escrever uma biografia não é fácil. Escrever uma biografia de um homem controverso, crítico, denunciante e acusador das sem-razões por que a História tem sido construída – e das iniquidades que se espalham hoje na paisagem do mundo – pressupomos ser menos fácil ainda.

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

OLHAR AS CAPAS


José Saramago. O Pássaro que Pia Pousado no Rinoceronte

Fernando Gómez Aguilera

Prólogo:Pilar del Río

Prefácio: Fernando Gómez Aguilera

Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra

Porto Editora, Lisboa, Outubro de 2022

José Saramago começou a sentir-se atraído pela elaboração de diários a partir da sua mudança para Lanzarote no princípio de 1993, se bem que se conservem no seu arquivo inúmeras e minuciosas agendas que remontam aos anos setenta, nas quais anotava sucintamente tarefas, encontros, compromissos, citações, reuniões, atividade política no PCP… No entanto, de 1993 a 1998, completou em cada ano, na ilha dos vulcões, a narrativa da sua quotidianidade destinada a ser publicada, uma modalidade que ganhou raízes ao longo do século XIX e encontrou impulso com a difusão do Diário Íntimo, do filósofo suíço Henri- Frédéric Amiel, constituído por 17000 páginas, em doze volumes escritas entre 1839 e 1881, com o propósito de serem impressas.

domingo, 19 de fevereiro de 2023

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 A Aida quis reler A Terra do Pecado mas o livro, comprado há muitos e muitos anos num alfarrabista, oferece poucas garantias para ser lido sem se desfazer. Houve que comprar um novo exemplar, edição da Porto Editora, Fevereiro de 2020, caligrafia do título na capa da autoria de José Luís Peixoto.

O livro tem um Aviso, escrito por José Saramago, sem indicação de data. Com toda a certeza, quando Saramago o escreveu, não o teria escrito em acordês.

Provavelmente, nunca saberei das razões que levaram a editora, ou os herdeiros de Saramago, a publicar os livros do Nobel Português, fora da ortografia utilizada pelo autor.

É o Sublinhado Saramaguiano de hoje:

«O autor é um rapaz de vinte e quatro anos, calado, metido consigo, que ganha a vida como praticante de escrita nos serviços administrativos dos Hospitais Civis de Lisboa, depois de ter estado a trabalhar durante mais de um ano como aprendiz de serralharia mecânica nas oficinas dos ditos hospitais. Tem poucos livros em casa porque o ordenado é pequeno, mas leu na Biblioteca Municipal das Galveias, tempos atrás, tudo quanto a sua compreensão logrou alcançar. Ainda estava solteiro quando um caridoso colega da repartição, segundo-oficial, de apelido Figueiredo, lhe emprestou trezentos escudos para comprar os livrinhos da coleção «Cadernos» da Editorial Inquérito. A sua primeira estante foi uma prateleira interior do guarda-louça familiar. Neste ano de 1947 em que estamos nascer-lhe-á uma filha, a quem medievalmente dará o nome de Violante, e publicará o romance que tem andado a escrever, esse a que chamou A Viúva mas que vai aparecer à luz do dia com um título a que nunca se há de acostumar. Como no tempo em que viveu na aldeia já havia plantado umas quantas árvores, pouco mais lhe resta para fazer na vida. Supõe-se que escreveu este livro porque numa antiga conversa entre amigos, daquelas que têm os adolescentes, falando uns com os outros do que gostariam de ser quando fossem grandes, disse que queria ser escritor. Em mais novo o seu sonho era ser maquinista de caminho de ferro, e se não fosse por causa da miopia e da diminuta fortaleza física, imaginando que não perderia a coragem entretanto, teria ido para aviador militar. Acabou em manga de alpaca do último grau da escala hierárquica, e tão cumpridor e pontual que à hora de começar o serviço já está sentado à pequena mesa em que trabalha, ao lado da prensa das cópias. Não sabe dizer como lhe veio depois a ideia de escrever a história de uma viúva ribatejana, ele que de Ribatejo saberia alguma coisa, mas de viúvas nada, e menos ainda, se existe o menos que nada, de viúvas novas e proprietárias de bens ao luar. Também não sabe explicar por que foi que escolheu a Parceria António Maria Pereira quando, com notável atrevimento, sem padrinhos, sem empenhos, sem recomendações, se decidiu a procurar um editor para o seu livro. E ficará para sempre como um dos mistérios impenetráveis da sua vida haver-lhe escrito Manuel Rodrigues, da Editorial Minerva, dizendo ter recebido A Viúva na sua casa por intermédio da Livraria Pax, de Braga, e que passasse ele pela Rua Luz Soriano, que era onde estava a editora. Em momento nenhum ousou o autor perguntar a Manuel Rodrigues por que aparecia a tal Pax metida no caso, quando a verdade é que só tinha enviado o livro à António Maria Pereira. Achou que não era prudente pedir explicações à sorte e dispôs-se a ouvir as condições que o editor da Minerva tivesse para lhe propor. Em primeiro lugar, não haveria pagamento de direitos. Em segundo lugar, o título do livro, sem atrativo comercial, deveria ser substituído. Tão pouco habituado estava o nosso autor a andar com tostões de sobra no bolso e tão agradecido a Manuel Rodrigues pela aventura arriscada em que se ia meter, que não discutiu os aspetos materiais de um contrato que nunca veio a passar de simples acordo verbal. Quanto ao rejeitado título, ainda conseguiu murmurar que iria tentar outro, mas o editor adiantou-se, que já o tinha, que não pensasse mais. O romance chamar-se-ia Terra do Pecado. Aturdido pela vitória de ir ser publicado e pela derrota de ver trocado o nome a esse outro filho, o autor baixou a cabeça e foi dali anunciar à família e aos amigos que as portas da literatura portuguesa se tinham aberto para ele. Não podia adivinhar que o livro terminaria a pouco lustrosa vida nas padiolas. Realmente, a julgar pela amostra, o futuro não terá muito para oferecer ao autor de A Viúva.

terça-feira, 26 de abril de 2022

OLHAR AS CAPAS

Saramago: Os Seus Nomes

Um álbum biográfico

Edição de Alejandro Garcia Schnetzer e Ricardo Viel

Prefácio: António Guterres

Capa e projeto gráfico: Raul Loureiro

Porto Editora/ Fundação José Saramago, Lisboa, Abril de 2022

 

Não o pensava antes, quando escutava a guitarra de Carlos Paredes, mas hoje, recordando-a, compreendo que aquela música era feita de alvoradas, canto de pássaros anunciando o sol. Ainda tivemos de esperar uma década antes que outra madrugada viesse abrir-se para a liberdade, mas o inesquecível tema de Verdes Anos, esse cantar de extática alegria que ao mesmo tempo se entretece em harpejos de uma surda e irreprimível melancolia, tornou-se para nós numa espécie de oração laica, um toque a reunir de esperanças e vontades. Já seria muito, mas ainda não era tudo. O resto que ainda faltava conhecer era o homem de dedos geniais, o homem que nos mostrava como podia ser belo e robusto o som de uma guitarra, e que era, a par de músico e intérprete excepcional, um exemplo extraordinário de simplicidade e grandeza de carácter. A Carlos Paredes não era preciso pedir que nos franqueasse as portas do seu coração. Estavam sempre abertas.

Palavras de José Saramago em O Caderno, colocadas pelos autores neste Álbum Biográfico no capítulo «Leituras/Sentidos»

segunda-feira, 11 de abril de 2022

OLHAR AS CAPAS


Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas

Um livro Inacabado, uma vontade firme  - Texto De Fernando Gómez Aguilera

Também Eu Conheci Artur Paz Semedo – Texto Roberto Saviano

Capa: Estudio Pep Carrió

Ilustrações:  Gunter Grass

Porto Editora, Porto, Setembro de 2014

O telefone deu três sinais e ela respondeu, Estou, Sou eu, o artur, Já sabia, vi aqui o teu número, Desculpa vir ligar‑te a esta hora, Ainda não é tarde, Aconteceu‑me uma coisa de que gostaria de te falar, Algum problema, perguntou ela, Problema, não direi, mas estou com o espírito confuso, Se isso é por causa de alguma mulher que acabaste de conhecer, desejo‑te as maiores felicidades, Qual mulher, qual nada, tenho coisas mais importantes em que pensar, Olha que seria digna de exame essa tua preocupação, pelo menos as‑ sim me parece, de quereres que acredite que não tens andado com ninguém depois de eu ter saído de casa, Ande ou não ande, não é da tua conta, não te diz respeito, Muito bem, explica‑me então por que tens a cabecinha confusa, Há uma semana fui à cinemateca para ver um filme chamado l’espoir, Também o vi, estive lá anteontem, É uma história comovedora, sobretudo aquela descida da serra de teruel, Custa a segurar as lágrimas, é certo, Eu confesso que chorei, disse artur paz semedo, Já to disse, também eu, disse felícia. Houve um silêncio. Podia‑se pensar que estavam contentes por terem partilhado uma emoção tão forte, quem sabe se por coincidência sentados na mesma cadeira do cinema, mas nunca o reconheceriam, fazê‑lo seria dar uma mostra de debilidade sentimental de que o outro poderia vir a aproveitar‑se. Todo o cuidado é pouco com os casais separados. Afinal, perguntou felícia, que tinhas tu para me contar, Depois do filme, achei que devia ler o livro deste malraux, mas em má hora o fiz, Porquê, Já perto do fim há uma referência a uns operários que foram fuzilados em milão por terem sabotado obuses, E depois, Parece‑te mal, perguntou ele, Nem mal nem bem, só me parece justo que eles o tivessem feito, Justo, justo, escandalizou‑se artur paz semedo, fazendo vibrar de indignação a membrana interior do aparelho, Sim, não só justo, como necessário, uma vez que estavam contra a guerra, Claro, e agora estão mortos, A gente de alguma coisa tem de morrer, Fica‑te mal o cinismo, aliás não me admira, sempre foste como uma pedra de gelo, Tu, sim, que és cínico ao exibir essa falsa virtude ofendida, e, quanto à pedra de gelo, peço meças, O que faço é defender o meu trabalho, graças ao qual pudeste viver é defender o meu trabalho, graças ao qual pudeste viver uns quantos anos, Realmente, és um cavalheiro, se ainda não te havia agradecido a caridade, disse felícia, agradeço‑ta agora, Deveria saber que iria arrepender‑me de ter telefonado, Podes cortar a ligação quando quiseres, mas já agora peço‑te que me dês tempo para contar‑te uma história parecida que com certeza não conheces, é um minuto, não preciso de mais, Estou a ouvir, Li em tempos, não recordo onde nem exatamente quando, que um caso idêntico sucedeu na mesma guerra de espanha, um obus que não explodiu tinha dentro um papel escrito em português que dizia Esta bomba não rebentará, Isso deve ter sido obra do pessoal da fábrica de braço de prata, eram todos mais ou menos comunistas, Nessa altura parece que havia poucos comunistas, E algum que não o fosse, seria anarquista, Também pode ter sido gente da tua fábrica, Não temos cá disso, Braço de prata ou braço de ouro, o gesto é idêntico, com a diferença importante de que neste caso ninguém terá sido fuzilado, ao menos que se tivesse sabido, Ao contrário do que pareces pensar, não reclamo fuzilamento para os culpados de crimes como esse, mas apelo para o sentido de responsabilidade das pessoas que trabalham nas fábricas de armas, aqui ou em qualquer outro lugar, disse artur paz semedo, Sim, o mesmo tipo de responsabilidade que fez com que nunca tivesse havido uma greve nessas fábricas, Como o sabes, Teria sido notícia mundial, teria entrado na história, Não se pode discutir contigo, , Pode, é o que temos estado a fazer, Devo desligar, Antes, ainda te dou uma sugestão para as horas vagas, Não tenho horas vagas, Pobre de ti, mouro de trabalho, Que sugestão é essa, Que investigues nos arquivos da empresa se nos anos da guerra civil de espanha, entre trinta e seis e trinta e nove, foram vendidos por produções belona s.a. armamentos aos fascistas, E que ganha‑ ria eu com isso, Nada, mas aprenderias mais alguma coisa do teu trabalho e da vida, O arquivo da empresa só pode ser consultado com autorização da administração, Usa a imaginação, inventa um motivo, creio que és um dos meninos bonitos desses criminosos, para alguma coisa te haverá de servir, Tenho de desligar, Já o havias dito antes, Desculpa ter‑te incomodado, Pelos vistos, o incomodado és tu. Boas noites, Boas noites. Dez minutos o telefone de artur paz semedo tocou. Era felícia, Não procures encomendas assinadas pelo general franco, não as encontrarias, os ditadores só usam a caneta para assinar condenações à morte. E desligou antes de que ele pudesse responder.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

OLHAR AS CAPAS


Citações e Pensamentos de José Saramago

Organização de Paulo Neves da Silva

Capa: Rui Rodrigues

Design da capa: Pedro Vieira

Porto Editora e Contraponto, Porto, Maio de 2021

Não há dúvida de que certos leitores, de tão bons que são. Dariam escritores ótimos, capazes realmente de descer ao fundo das coisas. A partir de agora, remate cada leitor o livro como melhor lhe parecer.

José Saramago em Último Caderno de Lanzarote

sexta-feira, 14 de junho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Com o Mar Por Meio- Uma Amizade em Cartas

Jorge Amado e José Saramago
Selecção, Organização e Notas de Paloma Jorge Amado, Bete Capinan e
Ricardo Viel
Companhia das Letras,  Rio de Janeiro, Novembro de 2017

Também vão publicados, os parabéns pelo Prémio Camões, não sendo exemplar, é exemplo. Tanta miséria moral mal escondida, tanta inveja, tanto desejo de morte por trás das fachadas compostas de muitos que, num momento, vão ser juiz e sentença. Não obrámos nós assim quando estivemos no júri da União latina. E certamente assim não obrei eu quando me bati pelo Prémio Rainha Sofia para João Cabral…  Meu querido Jorge, viveste mais e mais intensamente do que eu, sabes como muitas vezes é difícil (ou terrivelmente fácil) compreender certos comportamentos humanos. Quando estiveres a receber o prémio, pensa só nos teus leitores, são eles que valem a pena.
Creio entender o que se passa com o teu romance. Quando a ideia inicial de uma narrativa nos parece clara, claríssima, óbvia até, é quando mais vamos ter de sofrer para encontrar-lhe o bom caminho. Nunca sofri tanto, eu, como neste Ensaio Sobre a Cegueira, tão simples, aparentemente, que podia ser explicado em meia dúzia de palavras. Já tenho a meta à vista, mas o que me custou só eu sei. Não te digo que teimes – é o que tens feito toda a vida -, digo-te que não temos outra sina que pelejar com as palavras, e se é certo que elas sempre acabam por ganhar, ao menos que não fiquem a rir-se de nós.

domingo, 7 de abril de 2019

OLHAR AS CAPAS


José Saramago: Rota de Vida

Joaquim Vieira
Capa: André Serante
Livros Horizonte, Lisboa, Novembro de 2018

Como director-adjunto do Expresso, com a responsabilidade editorial do seu primeiro caderno, convidei José Saramago em 1993 para escrever uma crónica de jornal todas as semanas.
(…)
Confesso, porém, que ao fazer-lhe a proposta, tinha na cabeça outro pensamento que guardei para mim): «Este tipo qualquer dia vai ganhar o Nobel da Liteartura, e nesse momento será muito prestigiante para o Expresso tê-lo já como colunista.»
(…)
José Saramago nunca viria a escrever no Expresso. O director entendeu que a prosa de um comunista, todas as semanas, na primeira ou na última página – era esse o desejo do romancista – seria uma marca demasiado forte num jornal de tradição liberal. Creio que até trocou impressões sobre o assunto com o proprietário, Francisco Pinto Balsemão, que terá também abominado a ideia. Percebo as reservas: a avaliar pelo que o escritor, na qualidade de editorialista, dissera em 1975, seria imaginar que se tivesse nesse ano o poder executivo era bem provável que tentasse aniquilar o Expresso. Há coisas difíceis de indultar, mesmo a um potencial Nobel. Esta não é a história de um anjo, mas também não é a de um demónio.

Da introdução de Joaquim Vieira

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

OLHAR AS CAPAS

Por Saramago

Anabela Mota Ribeiro
Posfácio:: Fernando Gómez Aguilera
Capa: Filipe Silva
Fotografias Estelle Valente
Temas e Debates, Lisboa, Novembro de 2018

Se tenho algum motivo de orgulho, e creio ter direito a tê-lo, é poder dizer que a mim não me calam. Ninguém me cala.

A Fundação José Saramago revela que este livro é uma homenagem ao escritor por altura do vigésimo aniversário do Nobel da Literatura.

Inclui entrevistas a José Saramago e a Pilar del Río – entrevistas que dizem respeito aos três últimos livros: As Pequenas Memórias, A Viagem do Elefante e Caim – bem como textos sobre a casa de Lanzarote e uma viagem ao México com Saramago. Ilustrado com cerca de 65 fotografias de Estelle Valente, originais, que percorrem alguns dos caminhos do escritor, tanto em Lanzarote como em Lisboa.


terça-feira, 11 de dezembro de 2018

ÚLTIMO CADERNO DE LANZAROTE


Último Caderno de Lanzarote

José Saramago
Capa: fotografia de Sebastião Salgado
Porto Editora, porto, Outubro de 2018


Este é o tempo em que passam vinte anos sobre a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago.

Por sinal o ano em que, por motivos literopornográficos, o Prémio não foi atribuído.

Voltará a ser?

Dizem-nos que o 6º volume de Cadernos de Lanzarote ficou perdido no disco rígido que Saramago utilizava para escrever os seus livros.

Esse livro O Último Caderno de Lanzarote, que corresponde ao diário de José Saramago em 1998, o ano em que recebeu o Prémio Nobel da Literatura, foi publicado em Outubro.

Contam-nos que a pasta Cadernos de Lanzarote estava no computador de José Saramago, e sempre que Pilar del Río lá entrava pensava que continha apenas os cadernos que já estavam publicados. Mas, no final de Fevereiro - quando estava à procura de uma referência a uma determinada conferência, fez o que nunca tinha feito. Clicou na pasta e deparou-se com: caderno 1, caderno 2, caderno 3, caderno 4, caderno 5 e caderno 6…

Pilar del Río sabia que existiam cinco cadernos e que havia outros textos dispersos que Saramago tinha escrito, mas pensava que estavam por organizar. De repente, ficou surpreendida ao encontrar um caderno completo que nunca tinha sido publicado.

Aceitemos a história tal como nos contaram.

À pergunta de Zeferino Coelho para quando mais um volume dos Cadernos, Saramago terá dito que chegara ao seu fim.

Mas por rotina, o que quer que seja, foi alinhavando palavras, temas, efemérides e ideias.

A publicação deste Último Caderno reflecte o desejo que uma leitora, durante uma sessão de autógrafos na Feira do Livro do ano de 1995, colocou a Saramago:

«Uma leitora na Feira: «Para o ano que vem teremos mais Cadernos?» respondo medievalmente como de costume: «Vida havendo e saúde não faltando…» E ela: É que quero ler neles a notícia do Prémio Nobel…»
Ponho a cara de sempre, sorriso contrafeito, tonto e de pouco caso, agradeço a gentileza do voto, e passo a assinar o livro que o leitor seguinte me apresenta. «Eu também…», diz este, que ouviu a rápida troca de palavras. Desta vez fico sem saber que sorriso pôr. O terceiro leitor, felizmente, é dos calados»

Mas não há muito a ler naquela dia de 8 de Outubro de 1998. Apenas tópicos para futuro desenvolvimento posterior:

«Aeroporto de Frankfurt. Prémio Nobel. A hospedeira. Teresa Cruz. Entrevistas.»


Comprei o livro logo que saiu, cheirava àquele bom velho cheiro das tipografias.

Li-o de uma penada, tenho regressado a algumas páginas.

Não é bem o Saramago que gosto.

Aliás, sempre li os Cadernos de Lanzarote com um pé atrás.

Nunca me entusiasmaram.

Este último caderno começa no dia 1 de Janeiro de 1998 e termina no final desse ano, mas inclui também duas entradas relativas ao primeiro mês do ano seguinte, uma a 9 de Janeiro e outra a 14 de Janeiro.

E encontramos Saramago, no primeiro dia do ano, às voltas com o vento que envolve a casa:

«Durante a noite, o vento andou de cabeça perdida, dando voltas contínuas à casa, servindo-se de quantas saliências e interstícios encontrava para fazer soar a gama completa de instrumentos da sua orquestra particular, sobretudo os gemidos, os silvos e os roncos das cordas, pontuados de vez em quando pelo golpe de uma persiana mal fechada. Nervosos, os cães lançavam-se de rompante pela gateira da porta da cozinha (o ruído é inconfundível) para irem ladrar lá fora ao inimigo invisível que não os deixava dormir. Manhã cedo, antes mesmo do pequeno-almoço, descia ao jardim para ver os estragos, se os houvera. A força da ventania não tinha esmorecido, bem pelo contrário, sacudia com injusta ferocidade os ramos das árvores, sobretudo os da acácia, que com uma simples e bonançosa aragem s e deixam mover. As duas oliveiras e as duas alfarrobeiras, novas ainda, pelejavam bravamente, opondo aos esticões do malvado a elasticidade das suas fibras juvenis. E as palmeiras, essas, já se sabe, nem um tufão as consegue arrancar. Com os catos também não valia a pena preocupar-me, resistem a tudo, chegam a dar a impressão de que o vento faz um rodeio quando os vê, passa por eles de largo, com medo de se espetar nos espinhos.. Ao longo do muro, os pinheiros canários, em fila, mais desgrenhados que de costume, cumpriam o dever de quem foi colocado na linha da frente: aguentar os primeiros choques. Tudo parecia estar em ordem, podia ir preparar o meu pequreno-almoço de sumo de laranja, iogurte, chá verde e torradas com azeite e açúcar»

Viajamos pelo livro para pararmos a 5 de Janeiro quando Saramago regista a morte de Ilda Reis, mãe de sua filha Violante.

Um toque de sensibilidade, de ternura:

«Morreu a Ilda. A Ilda era a Ilda Reis, que nos tempos de rapariga começou a sua vida de trabalho como datilógrafa dos serviços administrativos dos Caminhos de Ferro, e depois, obrigando um corpo demasiadas vezes sofredor, esforçando a tenacidade de um espírito que as adversidades nunca conseguiram dobrar, se entregou à vocação que faria dela um dos mais importantes gravadores portugueses. Gozou dessa felicidade substituta que o êxito costuma vender caro, mas tinha-lhe fugido o simples contentamento de viver, As sua gravuras e as suas pinturas foram em geral dramáticas, cindidas, autorreflexivas, de expressão tendencialmente esquizofrénica (diga-se sem nenhuma certeza), como se teimasse ainda em procurar uma complementaridade para sempre perdida. Fomos casados durante vinte e seis anos. Tivemos uma filha.»

Nova paragem a 19 de Janeiro para registar a morte de Maria Judite de Carvalho:

«Chega-me aqui a notícia da morte de Maria Judite de Carvalho. Nunca li uma página sua em que não pensasse na pessoa que a tinha escrito. E creio que ela o queria assim. Que o leitor compreendesse que do outro lado não havia estado apenas uma escritora, mas sim alguém que, conhecendo como raros a arte do conto e as íntimas ressonâncias de cada palavra, usava essa arte e esse sentido musical para dizer quem era. Com obstinação, mas também com simplicidade e discreta reserva. Como Irene Lisboa, ao lado de quem a história da Literatura lhe guardará lugar, o alcance da sua voz era o espaço do coração. O ser que foi Maria Judite de Carvalho já não pertence ao mundo dos viventes, mas podemos encontrar nos seus livros tudo o que ela quis que da sua pessoa se soubesse.»

A 26 de Outubro:

Morte de José Cardoso Pires.

Tantos outros acontecimentos espalhados pelo livro que apenas referem propósitos para futura abordagem.

Que não aconteceria.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

DISCURSOS DE ESTOCOLMO


Discursos de Estocolmo

José Saramago
Fundação José Saramago, Lisboa s/d

Cumpriram-se hoje exactamente 50 anos sobre a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não têm faltado comemorações à efeméride. Sabendo-se, porém, como a atenção se cansa quando as circunstâncias lhe pedem que se ocupe de assuntos sérios, não é arriscado prever que o interesse público por esta questão comece a diminuir já a partir de amanhã. Nada tenho contra esses actos comemorativos, eu próprio contribuí para eles, modestamente, com algumas palavras. E uma vez que a data o pede e a ocasião não o desaconselha, permita-se-me que diga aqui umas quantas mais.
Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.
Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Pensamos que nenhuns direitos humanos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem e que não é de esperar que os governos façam nos próximos 50 anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra. Com a mesma veemência com que reivindicamos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa tornar-se um pouco melhor.
Não esqueci os agradecimentos. Em Frankfurt, no dia 8 de Outubro, as primeiras palavras que pronunciei foram para agradecer à Academia Sueca a atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Agradeci igualmente aos meus editores, aos meus tradutores e aos meus leitores. A todos torno a agradecer. E agora também aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de hoje: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar. Disse naquele dia que não nasci para isto, mas isto foi-me dado. Bem hajam portanto.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

SARAMAGUEANDO



O interrogatório do homem que saiu de casa depois da hora de
recolher começou há quinze dias e ainda não acabou

Os inquiridores fazem uma pergunta em cada sessenta minutos
vinte e quatro horas por dia e exigem cinquenta e nove respostas
diferentes para cada uma

É um método novo

Acreditam que é impossível não estar a resposta verdadeira entre
as cinquenta e nove que foram dadas

E contam com a perspicácia do ordenador para descobrir qual
delas seja e a sua ligação com as outras

Há quinze dias que o homem não dorme nem dormirá enquanto
o ordenador não disser não preciso de mais ou o médico não
preciso de tanto

Caso em que terá o seu definitivo sono

O homem que saiu de casa depois da hora de recolher não dirá
por que saiu

E os inquiridores não sabem que a verdade está na sexagésima
resposta

Entretanto a tortura continua até que o médico declare
Não vale a pena

José Saramago em O Ano de 1993

Por um daqueles mistérios que me vão acontecendo ao longo dos dias, dos meses, dos anos, só em 1977 consegui encontrar esta edição da Futura, publicada em Março de 1975. Comprei-a na Festa do Avante e nessa tarde, na única vez em que conversei com Saramago, lhe falei desse mistério em que desde 1966 tendo comprado todos os seus livros logo que saíram, este me falhou.

A saber:

Os Poemas Possíveis ,1966
Provavelmente Alegria, 1970
Deste Mundo e do Outro, 1971
A Bagagem do Viajante, 1973
As Opiniões que o DL Teve, 1974
Os Apontamentos, 1976
Manual de Pintura e Caligrafia, 1976

Reconto a história:

Nunca me interessei por autógrafos, sejam em livros, discos, o que quer que seja. Tirando os livros que os amigos escrevem, e me oferecem, contam-se pelos dedos de uma mão, e ainda sobram dedos, os livros autografados. Que me lembre, há um livro de José Gomes Ferreira, Antologia Poética, editado pela Diabril, comprada na Feira do Livro de 1976 de  e outro do José Saramago.

Apenas uma vez conversei com José Saramago: foi na Festa do Avante, no Vale do Jamor, em 1977.

Naquele tempo a organização das tasquinhas na Festa, era muito diferente da que hoje existe.

Cheguei-me ao pré pagamento da tasquinha de São Pedro do Sul, e passados uns instantes verifico que à minha rente estava o José Saramago, 

José Saramago ainda não tinha publicado o “Levantado do Chão”, era um autor conhecido, apenas, por uma imensa minoria. Cumprimentei-o.

Em Dezembro de 1976 José Saramago publicara Manual de Pintura e Caligrafia. Ainda hoje é um livro de que gosto muito e desse gosto dei conta a Saramago, e por ali ficámos um pouco à conversa sobre o livro, de como o descobrira, aquando da publicação de Os Poemas Possíveis, do excerto de um texto meu sobre Deste Mundo e do Outro” que colocaram nas badanas de A Bagagem do Viajante” publicado em 1973 pela Editorial Futura. 

Saramago lembrava-se da citação panegírica. Gostara, mas a escolha não tinha sido dele, porque, as badanas, normalmente, são da responsabilidade dos editores.
Servidos dos comes e bebes que à tasquinha de São Pedro do Sul nos levara, cada um partiu para seu lado e à despedida o Saramago disse que daí a pouco estaria no Centro do Livro e do Disco para uma sessão de autógrafos e poderíamos conversar um pouco mais. 

Sim, porque naquele tempo, Saramago ainda não tinha extensas filas de leitores para obterem autógrafos, e havia alguns tempos mortos.

Da conversa com José Saramago retenho todos os pormenores, até da luminosidade do cair daquela tarde de Setembro consigo lembrar-me. 

Obviamente as despesas da conversa foram de Saramago, limitando-me a beber as palavras claras daquele conversador nato. 


Tirando o meu pai nunca mais encontrei um conversador como ele e, estou bem certo,  não mais encontrarei.

Cito Cecília Meireles: «Há pessoas que nos falam e nem as escutamos; há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam. Mas há pessoas que, simplesmente, aparecem em nossa vida e que marcam para sempre...» 

Comprei  “ O Ano de 1993”, edição da “Futura” e José Saramago nele deixou escrito:

“Na Festa do Avante 77: Saudade!”


É isso: saudade.


Nunca mais fui a uma sessão de autógrafos do José Saramago.

Quando em 1987, a Caminho publicou O Ano de 1993, com as lindíssimas ilustrações da Graça Morais, ainda ponderei ir pedir a José Saramago um autógrafo para aquela edição. 

Mas, mesmo não concordando de todo com a recomendação de Cesare Pavese, de que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes, foi isso que acabou por suceder.

E, de mim para mim concluí, que importante, importante era o autógrafo daquele Setembro de 1977, que fez de mim um tipo feliz. 

Ainda hoje sinto essa felicidade, o afecto, cumplicidades silenciosas, coisas simples que nos emocionam até aos limites da ternura.

Mais não digo, porque não sei como fazer.

Hemingway dizia que uma palavra a mais mata qualquer história.

Legenda: capa de O Ano de 1993 publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de José Manuel Mendes.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

OLHAR AS CAPAS




O Ano de 1393

José Saramago

Ilustrações: Graça Morais

Capa: Henrique Cayatte

Editorial Caminho, Lisboa Novembro de 1987

Nenhum lugar é suficientemente belo na terra para que doutro lugar nos desloquemos a ele.

sábado, 17 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO


«Agora vou lutar contra a pobreza. É a pobreza que dever ser eliminada do mundo. A pobreza não é santa. Tantos séculos para compreender isto.»


Peça de teatro sobre o capitalismo, as chefias, a política, as eleições, a bolsa, as valorizações e desvalorizações dos produtos e das pessoas.

São Francisco de Assis regressa para uma segunda vida e encontra a sua Ordem transformada numa grande e lucrativa empresa.

Legenda: capa de A Segunda Vida de Francisco de Assis publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Frei Bento Domingues.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO



«COMENDADOR
Convidaste-me a jantar e aqui me tens. Eu prometi que viria, agora é a tua vez. Cumpre a tua palavra, recebe-me à tua mesa e abre-me a tua consciência.
DON GIOVANNI
Leporello foi fazer compras à vila e ainda não regressou. Se quiseres esperar que ele volte e nos prepare o jantar, senta-te por aí, mas tem cuidado com a cadeira, pesas demasiado. Ou então passa por cá outro dia.
COMENDADOR
O dia é hoje.
DON GIOVANNI
Como queiras. Mas senta-te, por favor, não gosto de ver ao meu lado pessoas mais altas do que eu.
COMENDADOR
Não posso sentar-me.
DON GIOVANNI
Porquê?
COMENDADOR
Uma estátua tem de ficar para sempre como a fizeram. A mim fizeram-me em pé, por isso não me posso sentar. É uma questão de articulações.
DON GIOVANNI
Vais estar em pé por toda a eternidade? Isso cansará muito, suponho.
COMENDADOR
Não sei. A eternidade, para mim, só agora é que começou.
DON GIOVANNI
E como foi que vieste até aqui? Não deve ter sido fácil, com essas pernas rígidas, tesas. Quero dizer, sem articulações.
COMENDADOR
Trouxe-me pelos ares o meu espírito. Não havia outra maneira.
DON GIOVANNI
E onde está ele agora?
COMENDADOR
Ficou lá fora, à espera.
DON GIOVANNI
Se queres, manda-o entrar, não faças cerimónia, onde cabemos dois, cabemos três. E mesmo quatro, se contarmos com Leporello.
COMENDADOR
Não te incomodes, o espírito esperará o que for preciso, cedo e tarde são expressões sem sentido para ele.
DON GIOVANNI
Curioso. E vai ficar lá fora até que acabemos de comer?
COMENDADOR
Os mortos não comem, os mortos são comidos.
DON GIOVANNI
Não é preciso estar morto para saber isso. Em todo o caso, tu encontras-te a salvo, os vermes são bichos delicados, respeitam o bronze. Mas, agora reparo, se por te faltarem as articulações não te podes sentar, comer também não poderás. Para comer é preciso dar ao queixo.»

José Saramago em Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido

Partindo da ópera de Mozart Don Giovanni ou O Dissoluto Punido em que Don Giovanni é condenado aos infernos por ter seduzido 2065 mulheres, José Saramago reanalisa o mito: será Don Giovanni culpado? E o Comendador, e Dona Ana, e Dona Elvira, e Don Octávio? Serão um modelo de virtudes? Onde está a culpa? Onde está a virtude? Onde está a hipocrisia?

José Saramago:

«Se há uma ópera no mundo capaz de pôr-me de Joelhos, rendido, submetido, é esta».


«Como te dizia há um momento, agora estou a pensar assim, mas amanhã, no momento da minha morte, tudo poderia acontecer, inclusive que negue tudo o que acabo de afirmar. Mas isso não significa, nem significará nunca que tenha razão então. Estive a ouvir antes Don Giovanni de Mozart e tem oito minutos de música que, para mim, nunca será superada. Refiro-me ao último acto, quando aparece a Don Giovani a estátua do comendador. O comendador exige-lhe que se arrependa, senão leva-o para o inferno. Para mim Don Giovanni é uma ópera melhor do que Parsifal, com toda a sua mística, é a grande ópera e a grande música. Don Giovanni, que é um canalha, um enganador, um tipo desprezível, diz que não, que não se arrepende, e isto é uma lição de dignidade: eu errei, mas o que significa dizer que me arrependo? Não posso apagar todos os males que causei durante a minha vida, as vítimas estão aí, dizer que me arrependo é demasiado fácil.»

Legenda: capa de Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Alexandre Delgado.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO


«Aprendi a ver mais longe que a sola destes sapatos, aprendi que, por detrás desta vida desgraçada que os homens levam, há um grande ideal, uma grande esperança. Aprendi que a vida de cada um de nós deve ser orientada por essa esperança e por esse ideal. E que se há gente que não sente assim, é porque morreu antes de nascer.»

José Saramago em Claraboia

José Saramago acabou de escrever Claraboia no dia 5 de Janeiro de 1953.

Era o seu segundo romance, o primeiro foi Terra do Pecado, e entregou-o a um amigo que o levou à Notícias Editora que não lhe dedicou qualquer tipo de atenção.

Encafuado nas prateleiras de um qualquer armazém, foi descoberto já o Saramago atingira a relevância que se reconhece.

Mostraram interesse em publicá-lo. Saramago recusou e recuperou o manuscrito mas, enquanto fosse vivo, não quis que o livro  fosse publicado.

A sua publicação ocorreu em Setembro de 2011.

Clarabóias  existiam em muitos prédios que têm uma escada interior de acesso aos andares, está no cimo da escada, no telhado, para iluminar essa escada.

José Saramago imagina um prédio que tem rés-do-chão, outros andares, cada andar está ocupado por uma família, as famílias são todas completamente diferentes e conta-nos a história de cada uma delas.

Saramago achou que «o livro não está mal construído. Enfim, é um livro também ingénuo, mas que, tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm que ver com o meu modo de ser.»

Alguns pedaços vadios encontrados na recente releitura do livro:

«Aquela aguda sensação que faz temer a loucura e desejá-la.»

«Um silêncio pesado, como se a morte tivesse vindo sentar- se entre os dois homens.»

«No meu entender, as mulheres bonitas não querem amar, querem ser amadas.»

«Talvez agora o seu amor fosse maior, porque já não se alimentava de perfeições reais ou imaginárias.»

«Ter não é possuir. Pode ter-se aquilo que se não deseja. A posse é o ter e o desfrutar o que se tem.»

«O cigarro fazia parte de uma complicada rede de atitudes, palavras e gestos, todos com o mesmo objetivo: impressionar.»

«Os três estavam contentes, tinham aquele sorriso de olhos que vale por todos os sorrisos de dentes e lábios.«

«Ouviu-se um suspiro: Rosália atingira o êxtase, o intermédio lírico terminara. Das altas regiões da adoração, desceu ao prosaísmo terrestre.»

«Quando Maria Cláudia entrou... as sombras da cozinha saíram.»

«O que eu queria é que a sua preocupação de fugir a prisões não o levasse a ficar prisioneiro de si mesmo, do seu cepticismo.»

Legenda: capa de Claraboia publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Guilherme d’Oliveira Martins.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO


«Talvez Deus não seja católico, talvez não seja protestante, talvez não seja senão o nome que tem.»

José Saramago em In Nomine Dei

Peça de teatro em que José Saramago aborda o fanatismo religioso.
A acção decorre em Munster, na Alemanah, entre Maio de Maio de 1532 e Junho de 1535

A abrir In Nomine Dei, escreve José Saramago: 

«Entre o homem, com a sua razão, e os animais, com o seu instinto quem afinal, estará mais bem dotado para o governo da vida? Se os cães tivessem inventado um deus, brigariam por diferenças de opinião quanto ao nome e dar-lhe, Perdigueiro fosse, ou Lobo-d'Alsácia? E, no caso de estarem de acordo quanto ao apelativo, andariam, gerações após gerações, a morder-se mutuamente por causa da forma das orelhas ou do tufado da causa do seu canino deus?
Que não sejam estas palavras tomadas como uma nova falta de respeito às coisas da religião, a juntar à
“Segunda Vida de S. Francisco” de Assis” e ao “Evangelho Segundo Jesus Cristo.” . Não é culpa minha nem do meu discreto ateísmo se em Münster, no século XVI, como em tantos outros tempos e lugares, católicos e protestantes andaram a trucidar-se uns aos outros em nome do mesmo Deus – “In Nomine Dei” - para virem a alcançar, na eternidade, o mesmo Paraíso. Os acontecimentos descritos nesta peça representam, tão-só, um trágico capítulo da longa e, pelos vistos, irremediável história da intolerância humana. Que leiam assim, e assim o entendam, crentes e não crentes e farão, talvez, um favor a si próprios. Os animais, claro está, não precisam.»

Legenda: capa de  In Nomine Dei publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Jorge Vaz de Carvalho.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO



«Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais difícil operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar emanharados, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos, e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida.»

José Saramago em O Caderno

Disseram-lhe que tinha um trabalho a fazer: palavras para um blogue.

Respondeu que contassem com ele.

Na contracapa lê-se: «o blog vai iluminando o caminho do seu autor, é essa  a sua virtude.»

Os textos escritos, e que fazem parte deste 1º volume, vão de Setembro de 2008 a Março de 2009.

Legenda: capa de O Caderno publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de João de Melo.