O Neto do Homem Mais Sábio
Tomás Guerrero
Prefácio de
Valer Hugo Mãe
Tradução: Jorge
Pereirinha Pires
Porto Editora,
Lisboa, Novembro de 2025
O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida
não sabia ler nem escrever.
O Neto do Homem Mais Sábio
Tomás Guerrero
Prefácio de
Valer Hugo Mãe
Tradução: Jorge
Pereirinha Pires
Porto Editora,
Lisboa, Novembro de 2025
O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida
não sabia ler nem escrever.
Viagem a Saramago
Carlos Nogueira e
José Vieira
Capa: V. Tavares
Edições Tinta-da-China,
Lisboa, Outubro 2024
A viagem existe para se ver o que não foi visto, para se visitar o desconhecido e se poder regressar ao sítio de onde se partiu, então com um novo olhar sobra as coisas, uma nova interioridade. A viagem é um modo de aprender a olhar devagar, antes de um estádio de consciência mais avançado e lúcido, como sugere Saramago na epígrafe de Ensaio Sobre a Cegueira: «Se podes olhar vê. Se podes ver, repara.»
As 7 Vidas de José Saramago
Miguel Real E
Filomena Oliveira
Capa: Alceu
Nines
Companhia das
Letras, Lisboa, Setembro de 2022
Escrever uma biografia não é fácil.
Escrever uma biografia de um homem controverso, crítico, denunciante e acusador
das sem-razões por que a História tem sido construída – e das iniquidades que
se espalham hoje na paisagem do mundo – pressupomos ser menos fácil ainda.
Fernando Gómez Aguilera
Prólogo:Pilar del Río
Prefácio: Fernando Gómez Aguilera
Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Porto Editora, Lisboa, Outubro de 2022
José Saramago
começou a sentir-se atraído pela elaboração de diários a partir da sua mudança
para Lanzarote no princípio de 1993, se bem que se conservem no seu arquivo
inúmeras e minuciosas agendas que remontam aos anos setenta, nas quais anotava
sucintamente tarefas, encontros, compromissos, citações, reuniões, atividade
política no PCP… No entanto, de 1993 a 1998, completou em cada ano, na ilha dos
vulcões, a narrativa da sua quotidianidade destinada a ser publicada, uma
modalidade que ganhou raízes ao longo do século XIX e encontrou impulso com a
difusão do Diário Íntimo, do filósofo
suíço Henri- Frédéric Amiel, constituído por 17000 páginas, em doze volumes
escritas entre 1839 e 1881, com o propósito de serem impressas.
O livro tem um Aviso, escrito por José Saramago, sem
indicação de data. Com toda a certeza, quando Saramago o escreveu, não o teria
escrito em acordês.
Provavelmente, nunca saberei das razões que levaram a
editora, ou os herdeiros de Saramago, a publicar os livros do Nobel Português,
fora da ortografia utilizada pelo autor.
É o Sublinhado Saramaguiano de hoje:
«O autor é um rapaz de vinte e quatro anos, calado, metido consigo, que
ganha a vida como praticante de escrita nos serviços administrativos dos
Hospitais Civis de Lisboa, depois de ter estado a trabalhar durante mais de um
ano como aprendiz de serralharia mecânica nas oficinas dos ditos hospitais. Tem
poucos livros em casa porque o ordenado é pequeno, mas leu na Biblioteca
Municipal das Galveias, tempos atrás, tudo quanto a sua compreensão logrou
alcançar. Ainda estava solteiro quando um caridoso colega da repartição,
segundo-oficial, de apelido Figueiredo, lhe emprestou trezentos escudos para
comprar os livrinhos da coleção «Cadernos» da Editorial Inquérito. A sua
primeira estante foi uma prateleira interior do guarda-louça familiar. Neste
ano de 1947 em que estamos nascer-lhe-á uma filha, a quem medievalmente dará o
nome de Violante, e publicará o romance que tem andado a escrever, esse a que
chamou A Viúva mas
que vai aparecer à luz do dia com um título a que nunca se há de acostumar.
Como no tempo em que viveu na aldeia já havia plantado umas quantas árvores,
pouco mais lhe resta para fazer na vida. Supõe-se que escreveu este livro
porque numa antiga conversa entre amigos, daquelas que têm os adolescentes,
falando uns com os outros do que gostariam de ser quando fossem grandes, disse
que queria ser escritor. Em mais novo o seu sonho era ser maquinista de caminho
de ferro, e se não fosse por causa da miopia e da diminuta fortaleza física,
imaginando que não perderia a coragem entretanto, teria ido para aviador
militar. Acabou em manga de alpaca do último grau da escala hierárquica, e tão
cumpridor e pontual que à hora de começar o serviço já está sentado à pequena
mesa em que trabalha, ao lado da prensa das cópias. Não sabe dizer como lhe
veio depois a ideia de escrever a história de uma viúva ribatejana, ele que de
Ribatejo saberia alguma coisa, mas de viúvas nada, e menos ainda, se existe o
menos que nada, de viúvas novas e proprietárias de bens ao luar. Também não
sabe explicar por que foi que escolheu a Parceria António Maria Pereira quando,
com notável atrevimento, sem padrinhos, sem empenhos, sem recomendações, se
decidiu a procurar um editor para o seu livro. E ficará para sempre como um dos
mistérios impenetráveis da sua vida haver-lhe escrito Manuel Rodrigues, da
Editorial Minerva, dizendo ter recebido A Viúva na sua casa por intermédio da Livraria Pax, de
Braga, e que passasse ele pela Rua Luz Soriano, que era onde estava a editora.
Em momento nenhum ousou o autor perguntar a Manuel Rodrigues por que aparecia a
tal Pax metida no caso, quando a verdade é que só tinha enviado o livro à
António Maria Pereira. Achou que não era prudente pedir explicações à sorte e
dispôs-se a ouvir as condições que o editor da Minerva tivesse para lhe propor.
Em primeiro lugar, não haveria pagamento de direitos. Em segundo lugar, o
título do livro, sem atrativo comercial, deveria ser substituído. Tão pouco
habituado estava o nosso autor a andar com tostões de sobra no bolso e tão
agradecido a Manuel Rodrigues pela aventura arriscada em que se ia meter, que
não discutiu os aspetos materiais de um contrato que nunca veio a passar de
simples acordo verbal. Quanto ao rejeitado título, ainda conseguiu murmurar que
iria tentar outro, mas o editor adiantou-se, que já o tinha, que não pensasse
mais. O romance chamar-se-ia Terra
do Pecado. Aturdido pela vitória de ir ser publicado e pela derrota de
ver trocado o nome a esse outro filho, o autor baixou a cabeça e foi dali
anunciar à família e aos amigos que as portas da literatura portuguesa se
tinham aberto para ele. Não podia adivinhar que o livro terminaria a pouco
lustrosa vida nas padiolas. Realmente, a julgar pela amostra, o futuro não terá
muito para oferecer ao autor de A
Viúva.
Saramago: Os Seus Nomes
Um álbum biográfico
Edição de Alejandro
Garcia Schnetzer e Ricardo Viel
Prefácio: António
Guterres
Capa e projeto
gráfico: Raul Loureiro
Porto Editora/
Fundação José Saramago, Lisboa, Abril de 2022
Não o pensava antes,
quando escutava a guitarra de Carlos Paredes, mas hoje, recordando-a,
compreendo que aquela música era feita de alvoradas, canto de pássaros
anunciando o sol. Ainda tivemos de esperar uma década antes que outra madrugada
viesse abrir-se para a liberdade, mas o inesquecível tema de Verdes
Anos, esse cantar de extática alegria que ao mesmo tempo se entretece em
harpejos de uma surda e irreprimível melancolia, tornou-se para nós numa
espécie de oração laica, um toque a reunir de esperanças e vontades. Já seria
muito, mas ainda não era tudo. O resto que ainda faltava conhecer era o homem
de dedos geniais, o homem que nos mostrava como podia ser belo e robusto o som
de uma guitarra, e que era, a par de músico e intérprete excepcional, um
exemplo extraordinário de simplicidade e grandeza de carácter. A Carlos Paredes
não era preciso pedir que nos franqueasse as portas do seu coração. Estavam
sempre abertas.
Palavras de José Saramago em O Caderno, colocadas pelos autores neste Álbum Biográfico no capítulo «Leituras/Sentidos»
Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas
Um livro Inacabado,
uma vontade firme - Texto De Fernando Gómez
Aguilera
Também Eu Conheci
Artur Paz Semedo – Texto Roberto Saviano
Capa: Estudio Pep
Carrió
Ilustrações: Gunter Grass
Porto Editora, Porto, Setembro de 2014
O telefone deu três sinais e ela respondeu, Estou, Sou eu, o artur, Já
sabia, vi aqui o teu número, Desculpa vir ligar‑te a esta hora, Ainda não é
tarde, Aconteceu‑me uma coisa de que gostaria de te falar, Algum problema,
perguntou ela, Problema, não direi, mas estou com o espírito confuso, Se isso é
por causa de alguma mulher que acabaste de conhecer, desejo‑te as maiores
felicidades, Qual mulher, qual nada, tenho coisas mais importantes em que
pensar, Olha que seria digna de exame essa tua preocupação, pelo menos as‑ sim
me parece, de quereres que acredite que não tens andado com ninguém depois de
eu ter saído de casa, Ande ou não ande, não é da tua conta, não te diz respeito,
Muito bem, explica‑me então por que tens a cabecinha confusa, Há uma semana fui
à cinemateca para ver um filme chamado l’espoir, Também o vi, estive lá anteontem,
É uma história comovedora, sobretudo aquela descida da serra de teruel, Custa a
segurar as lágrimas, é certo, Eu confesso que chorei, disse artur paz semedo,
Já to disse, também eu, disse felícia. Houve um silêncio. Podia‑se pensar que
estavam contentes por terem partilhado uma emoção tão forte, quem sabe se por
coincidência sentados na mesma cadeira do cinema, mas nunca o reconheceriam,
fazê‑lo seria dar uma mostra de debilidade sentimental de que o outro poderia
vir a aproveitar‑se. Todo o cuidado é pouco com os casais separados. Afinal,
perguntou felícia, que tinhas tu para me contar, Depois do filme, achei que
devia ler o livro deste malraux, mas em má hora o fiz, Porquê, Já perto do fim
há uma referência a uns operários que foram fuzilados em milão por terem
sabotado obuses, E depois, Parece‑te mal, perguntou ele, Nem mal nem bem, só me
parece justo que eles o tivessem feito, Justo, justo, escandalizou‑se artur paz
semedo, fazendo vibrar de indignação a membrana interior do aparelho, Sim, não
só justo, como necessário, uma vez que estavam contra a guerra, Claro, e agora
estão mortos, A gente de alguma coisa tem de morrer, Fica‑te mal o cinismo,
aliás não me admira, sempre foste como uma pedra de gelo, Tu, sim, que és
cínico ao exibir essa falsa virtude ofendida, e, quanto à pedra de gelo, peço
meças, O que faço é defender o meu trabalho, graças ao qual pudeste viver é
defender o meu trabalho, graças ao qual pudeste viver uns quantos anos, Realmente,
és um cavalheiro, se ainda não te havia agradecido a caridade, disse felícia,
agradeço‑ta agora, Deveria saber que iria arrepender‑me de ter telefonado,
Podes cortar a ligação quando quiseres, mas já agora peço‑te que me dês tempo
para contar‑te uma história parecida que com certeza não conheces, é um minuto,
não preciso de mais, Estou a ouvir, Li em tempos, não recordo onde nem
exatamente quando, que um caso idêntico sucedeu na mesma guerra de espanha, um
obus que não explodiu tinha dentro um papel escrito em português que dizia Esta
bomba não rebentará, Isso deve ter sido obra do pessoal da fábrica de braço de
prata, eram todos mais ou menos comunistas, Nessa altura parece que havia
poucos comunistas, E algum que não o fosse, seria anarquista, Também pode ter
sido gente da tua fábrica, Não temos cá disso, Braço de prata ou braço de ouro,
o gesto é idêntico, com a diferença importante de que neste caso ninguém terá
sido fuzilado, ao menos que se tivesse sabido, Ao contrário do que pareces
pensar, não reclamo fuzilamento para os culpados de crimes como esse, mas apelo
para o sentido de responsabilidade das pessoas que trabalham nas fábricas de
armas, aqui ou em qualquer outro lugar, disse artur paz semedo, Sim, o mesmo
tipo de responsabilidade que fez com que nunca tivesse havido uma greve nessas
fábricas, Como o sabes, Teria sido notícia mundial, teria entrado na história,
Não se pode discutir contigo, , Pode, é o que temos estado a fazer, Devo
desligar, Antes, ainda te dou uma sugestão para as horas vagas, Não tenho horas
vagas, Pobre de ti, mouro de trabalho, Que sugestão é essa, Que investigues nos
arquivos da empresa se nos anos da guerra civil de espanha, entre trinta e seis
e trinta e nove, foram vendidos por produções belona s.a. armamentos aos
fascistas, E que ganha‑ ria eu com isso, Nada, mas aprenderias mais alguma
coisa do teu trabalho e da vida, O arquivo da empresa só pode ser consultado
com autorização da administração, Usa a imaginação, inventa um motivo, creio
que és um dos meninos bonitos desses criminosos, para alguma coisa te haverá de
servir, Tenho de desligar, Já o havias dito antes, Desculpa ter‑te incomodado,
Pelos vistos, o incomodado és tu. Boas noites, Boas noites. Dez minutos o
telefone de artur paz semedo tocou. Era felícia, Não procures encomendas
assinadas pelo general franco, não as encontrarias, os ditadores só usam a
caneta para assinar condenações à morte. E desligou antes de que ele pudesse
responder.
Citações
e Pensamentos de José Saramago
Organização de Paulo Neves da Silva
Capa: Rui Rodrigues
Design da capa: Pedro Vieira
Porto Editora e Contraponto, Porto, Maio
de 2021
Não
há dúvida de que certos leitores, de tão bons que são. Dariam escritores
ótimos, capazes realmente de descer ao fundo das coisas. A partir de agora, remate
cada leitor o livro como melhor lhe parecer.
José Saramago em Último Caderno de Lanzarote
José Saramago
Ilustrações: Graça Morais
Capa: Henrique Cayatte
Editorial Caminho, Lisboa Novembro de
1987
Nenhum
lugar é suficientemente belo na terra para que doutro lugar nos desloquemos a
ele.