A “Plaza de la
Revolución”, em Havana, é um dos lugares mais míticos da Cuba revolucionária.
Com os seus 72.000
metros quadrados, é uma das maiores praças do Mundo, sendo rodeada por
ministérios e outros edifícios governamentais, entre os quais o Palácio da
Revolução, que é a sede do Governo e do Partido Comunista de Cuba.
Dois dos ministérios,
em particular, chamam a nossa atenção.
O Ministério do
Interior, com um gigantesco desenho de Che Guevara feito a partir da célebre
fotografia que lhe foi tirada por Alberto Korda, ao lado do qual está inscrita
a frase “Hasta la Victoria Siempre”.
O Ministério das
Comunicações, que tem um idêntico desenho que muitos pensam ser de Fidel Castro
(eu próprio o pensara, há anos atrás...), mas que, na realidade, é de Camilo
Cienfuegos, e que tem ao lado a frase “Vas Bien Fidel”.
Estes desenhos estão
iluminados de noite, dando à Praça um ambiente muito especial.
Numa dos extremos da
Praça encontra-se o Memorial José Marti, constituído por uma torre em forma de
estrela com mais de cem metros de altura e por uma estátua de mármore de Marti
com 17 metros de altura, com um ar de reflexão que nos faz lembrar “O
Pensador”, de Rodin.
O topo do Memorial é
considerada a vista mais alta da cidade de Havana.
José Marti, o simbolo
da independência cubana, agradava a gregos e a troianos, leia-se tanto a
Fulgêncio Batista como a Fidel Castro. Por motivos nem sempre coincidentes,
claro está…
É por isso que o
Monumento a José Marti começou a ser construído na época de Fulgência e foi
concluído, tal como toda a praça, em 1959, já com Fidel no comando das
operações.
Os discursos de Fidel
Castro têm fama de ser dos mais longos que alguma fez se fizeram. E não é só
fama porque ainda hoje ele é o recordista do mais longo discurso proferido na
Assembleia-Geral das Nações Unidas (4h29, em 26 de Setembro de 1960), que ainda
assim ficou muito longe do seu próprio recorde pessoal, que foi de 7h10,
proferido em 1986 perante o III Congresso do Partido Comunista de Cuba.
Mas,
independentemente da sua duração, muitos dos historicamente mais relevantes
discursos de Fidel foram feitos nesta mesma praça, como é o caso daqueles que
ficaram conhecidos por Primeira e Segunda Declaração de Havana, em 02/09/1960 e
04/02/1962, respetivamente, daquele que declarou Cuba “território livre de
analfabetismo”, em 22/12/1961, ou do relacionado com a safra de 10 milhões de
toneladas de açúcar, de 26 de Julho de 1970, a que faz referência o filme de
Chris Marker.
Com centenas de
milhares de pessoas a assistir, entre cubanos e embaixadas dos “países amigos”,
alguns dos discursos do 1º de Maio e de 26 de Julho ficaram, igualmente,
lendários na História de Cuba.
Outros eventos
importantes tiveram também lugar nesta Praça, como uma Missa rezada a 20 de
Setembro de 2015 pelo Papa Francisco, cuja preparação já se fazia um mês antes,
quando por lá passei.
E foi neste ambiente
altamente solene e espiritual da Plaza de la Revolución que o Diabo atacou e
desviou, por completo, a minha atenção.
Vestido de vermelho,
é claro…
No meio de todas
aquelas respeitáveis carcaças dos anos 40 e 50 estacionadas no meio da Praça a
aguardar cliente, um magnífico Ford Thunderbird, de 1958, olhava para mim com
um ar desafiante, como quem me convida para alguns momentos de luxúria e de
prazer.
Olhei-o de frente
para lhe ver o sorriso.
Espantei-me com a
elegância e a beleza das suas formas.
Mirei-lhe a traseira,
de cortar a respiração.
Vi a beleza daquelas
jantes incrustadas nas rodas que o agarravam ao chão.
O “coup de foudre”
foi instantâneo, como sucede em relação àquelas raras mulheres que olhamos e de
imediato pensamos “tens de ser minha”, sabendo perfeitamente que
nunca o serão, primeiro porque não somos nenhum Paul Newman ou Alain Delon de
olhar fatal, e depois porque para engate temos tanto jeito como o Woody Allen,
pelo que o mais certo seria acabarmos a noite a cortar o cabelo…
“Tens de ser meu”,
disse para mim próprio, de imediato.
Mas os carros têm uma
enorme vantagem em relação às mulheres, que é a de podermos comprá-los (ou
alugá-los) sem que tal nos provoque qualquer problema de consciência.
E foi o que fiz de
imediato, contratando-o para me rebolar com ele na manhã do dia seguinte, em
que me levaria à Finca Vigia e a Cojimar.
Foi inesquecível o
passeio, como poderão imaginar, em particular as passagens de ida e volta pelo
Malécon.
Os feitiços perduram
no tempo e, passados que foram cinco anos, ainda aqui continuo eu enfeitiçado…
É por isso que não me
consigo limitar a dizer-vos “vejam bem a imponência deste lugar”,
sem acrescentar, logo de seguida, “reparem na suavidade e na
elegância destas linhas”...
Ou dizer-vos “ponham
os olhos naqueles desenhos de Che e de Cienfuegos ali no
alto dos edifícios,tão emblemáticos da Havana revolucionária e que guiam, dia e
noite, o povo cubano”, sem insistir na recomendação “olhem-me bem a
maravilha destas jantes raiadas”….
Nem falar-vos de José
Marti, o herói da independência de Cuba e o Poeta de “Guantanamera”, que todos
nós cantámos vezes sem conta, sem vos perguntar logo de seguida “viram
bem aquelesinteriores…? E a traseira….?”.
Pois é…
A verdade é que o
carro concentrou toda a minha atenção e já nem à Torre tive tempo para subir…
Não deixa de ser uma
ironia do destino que aqui, neste local de Havana onde as memórias da Revolução
mais nos esmagam, nesta histórica praça onde o Imperialismo mais criticado e
mais vilipendiado foi nas últimas décadas, o Capitalismo tenha vencido…!
À minha custa e logo
com um Ford, cujo criador inventou a maldita cadeia de montagem…!
Não foi como Fausto,
que vendeu a Alma ao Diabo, mas quase…
Em boa verdade,
enquanto gajo que se diz de esquerda, deixo muito a desejar….
PS:
A propósito dos longos
discursos de Fidel, se ainda o não fizeram não percam a oportunidade de ver
“Diary of a Beginner”, o episódio do israelita Elia Suleiman que integra o
filme coletivo “Sete Dias em Havana” (2012). É uma verdadeira delícia de humor
fino!
Texto e fotografias de Luís Miguel Mira