Mostrar mensagens com a etiqueta José Carlos de Vasconcelos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Carlos de Vasconcelos. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

VELHOS RECORTES


Foi diversa, difícil, dura, a luta de muitos de nós contra a ditadura de Salazar/Caetano.

Este recorte é da revista Seara Nova nº 1458 de Abril de 1967.

Sempre a margem esquerda: Almada, Baixa da Banheira, Seixal, Cova da Piedade.

Por ocasião do 74º aniversário da Cooperativa Piedense, diversas iniciativas registavam a efeméride e sempre a cultura. «Não há machado que corte a raiz ao pensamento», como escreveu o poeta Carlos de Oliveira e que Manuel Freire fez música e deu canção.

Além de um sarau consagrado à música popular portuguesa, apresentava-se o Coro da Academia de Amadores de Música, sob a direcção de Fernando Lopes-Graça e também poesia e música com Carlos Paredes, José Carlos de Vasconcelos, Adriano Correia de Oliveira.

domingo, 20 de julho de 2025

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...

Esta é a capa do JL nº 1429, que se supõe ser o último número.

O director, José Carlos de Vasconcelos, escreve um angustiante texto em que nos diz que o «JL não pode morrer?...»

«… porque não sei o que dizer aos nossos leitores e amigos sobre o futuro do JL. Não sei mesmo se ele voltará a sair…»

Quando em Março de 1981, surgiu o JL, Fernando Namora gostou muito «sob todos os aspectos», Natália Correia também, porque «vem dar a mão àqueles que estão ávidos de estímulos culturais para se libertarem da intoxicação política», Miller Guerra também gostou porque há muito se aguardava um jornal como o JL, mas acabou por notar que a «natureza da colaboração e a sua qualidade, embora excelentes, tornam a sua leitura, pelo menos para algumas camadas de leitores, um pouco pesada.».

Teresa Clara Gomes foi taxativa:

«Desiludiu-me. Esperava um jornal que me desse gosto ler., saiu-me mais um dever que um prazer. Acho o conjunto pesado, tanto na paginação como no conteúdo. Lamento, além disso, o tradicional elitismo do conceito de cultura subjacente à maioria dos textos. Diz-se que é um jornal de letras, artes e ideais, e os ideais quase não tocam o tecido cultural do nosso quotidiano. Esquecem-se, além disso, certas expressões culturais que nascem de criadores não intelectuais. Espero que isso seja e acidental e não corresponda a uma intenção dos responsáveis.»

No editorial poderia ler-se: «O JL é, ou pretende ser – na sua origem, no seu estilo e nos seus objectivos, -algo de novo entre

Nós (…) queremos ser um quinzenário de cultura potencialmente para toda a gente. Recusamos, pois os códigos das linguagens cifradas e os exercícios herméticos para pretensos iluminados».

Havia um espaço a ocupar e entendeu-se que o JL iria preencher esse espaço. Passados 44 anos, salvo alguns episódios, não o terá conseguido.

O JL saía, então, às terças-feiras e custava vinte e cinco escudos.

É esta a ficha técnica e os colaboradores do 1º número do JL.


Olhando hoje o 1º número do JL, e tendo em conta a tal «cultura para toda a gente» o que ressalta é e entrevista que o Fernando Assis Pacheco fez ao José Cardoso Pires, na sua casa da Costa da Caparica e em que os dois, para além dos livros e do resto, se deliciaram com uns tordos temperados e cozinhados pelo José Cardoso Pires e em que pelo meio aparece a frase do Cardoso Pires : «é muito mais difícil escrever um bom romance do que pilotar um Jumbo ou um Concorde.»

sexta-feira, 23 de abril de 2021

JUIZES


E vós    juízes nossos

que sem pestanejar obedeceis

a leis iniquas

deste injusto e sujo tempo

e por vezes as ultrapassais

que direis

no dia do vosso julgamento

                                         Plenário, Abril 73

José Carlos Vasconcelos   

domingo, 14 de junho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

MEMÓRIA DE LISBOA

Este texto de Urbano Tavares Rodrigues, encontrei-o no Teia Portuguesa.
É um texto não datado, em que Urbano fala das suas experiências de vida em Lisboa: amores, vivências, conspirações para derrube da ditadura, tertúlias em cafés, quando ainda havia cafés em Lisboa, com José Cardoso Pires, Augusto Abelaira, José Gomes Ferreira, Armindo Rodrigues.
Um bonito texto sobre uma Lisboa praticamente desaparecida:

Ao atravessar as ruas da Baixa e o Rossio, ainda em obras, quando a poalha desta luz de Maio enevoada doira vagamente as cimalhas e mansardas das velhas casas pombalinas, clareando o ocre do Teatro D. Maria, parece-me ter sonhado a vida que por aqui vivi. Já não me reconheço na criança que às vezes vinha de Moura e atravessava o grande rio, de olhos deslumbrados, entre gaivotas e navios descomunais, e desembarcava no Terreiro do Paço, todo simétrico na sua verde harmonia palaciana. Do alto da sua altivez, o cavaleiro do cavalo negro dominava o mundo e fazia correr mais depressa o sangue nas minhas veias. O táxi entrava na corrente do trânsito, que também me surpreendia, outro tempo ali começava a nascer, e os meus olhos erguiam-se, exorbitados, para o emblema da cidade, talvez a sua alma, aquele arco imenso, com prodigiosas esculturas, umas violentas, tal como eu as retinha, outras majestosas e da brancura dos lugares supremos.

Quando vim morar em Lisboa, já na adolescência, a minha vida decorria sobretudo nas Avenidas Novas e um pouco mais tarde na antiga Faculdade de Letras, Rua da Academia das Ciências. Vinha então à Baixa porque o meu alfaiate (ainda as pessoas comuns faziam os fatos por medida) ficava na Rua de Santa Justa. E, quase sempre que lá ia, passava, como toda a gente (uns mais apressados, outros menos, sinais da roda da fortuna ou do relógio interior de cada um), por aquelas ruas que ainda não me pareciam estreitas, onde o vento por vezes gemia, acompanhando os cegos que tocavam violino e os gritos dos cauteleiros e dos ardinas. Já então a Baixa era um grande centro comercial, onde muitos casais, com os meninos pela mão, vinham aos domingos contemplar as montras. A pequena multidão engrossava às horas de ponta, era por vezes uma autêntica enxurrada de corpos alheios e agressivos, empurrando-se, arfando, tossindo, e onde às vezes se cruzavam dois olhares subitamente acesos em desejo ou compreensão, fadados quiçá para se entenderem por todo o sempre, e que logo se perdiam um do outro, como sucede no giro incessante das grandes cidades.


Continuo a gostar muito da Baixa, do seu estridor, do jardim de saibro que o Rossio já foi, com as suas fontes e estátuas, o falso D. Pedro vestido agora de tapumes. Mesmo cheia de pó, de aterros e buracos traiçoeiros, acidentes transitórios, volto sempre à Baixa dos tocadores de concertina nas escadinhas de Santa Justa, dos turistas coloridos, de binóculo e máquina fotográfica a tiracolo, olhos voltados para cima, acompanhando a pesada gaiola do ascensor. Apesar da falta de pintura dos prédios, do certo abandono de quarteirões inteiros dessa cidade baixa delicadamente setecentista, a sua fauna humana, renovada, persiste: lá vão as melancólicas costureiras de alfaiate, muitas das quais perderam o emprego, o cantor da voz triste, que comovia algum melómano perdido na onda de gente apressada. Eis os cães dos drogados cheirando a hache e a suor curtido; e os mesmos barbeiros, agora cabeleireiros, de bata azul e com o "Record" na mão, espreitando, à porta, o cliente da hora certa; e a insolência dos "klaxons", a empurrarem furiosamente a condutora da frente; o povo a correr para os bancos.

Morava numa trapeira da Rua da Madalena uma das namoradas dos meus 17 anos. Não a primeira, que essa era italiana, estudante e sardenta, e ensinou-me, num ardente Agosto do Estoril, entre mar e casino, quase todos os segredos e requintes do amor fora de regras. A Conceição, corista do Parque Mayer, que chegou logo a seguir à minha educação erótica, era paradoxalmente menos libertina e muito mais romântica. Linda de pasmar, parecia, ora uma "starlet", ora virgem de altar, até pelos azuis vaporosos que vestia. Havia um ou mais sujeitos ricos que a sustentavam (com o que ela ganhava, coitada, não tinha outro recurso), e atrevia-me eu a ter ciúmes, tão pouco sabia das crueldades daquela vida. Um dos banqueiros podia passar por galã maduro, mas só sabia comprar, comprar, até o prazer, que eu colhia de todas as partes do corpo dela, sem saber sequer como a cativara, se por sedução quase inconsciente ou por a fazer rir dos meus despropósitos. Quando ela saía da segunda sessão da revista, já muito tarde, ainda íamos às vezes dançar ao Bar do Cristal, ou então arrastava-me até ao Cais das Colunas, de mão dada, para vermos a noite ainda a arder de estrelas, que caíam no Tejo, e só depois fazíamos amor longamente na trapeira onde ela morava, e as suas lágrimas, no fim da nossa festa e das suas confissões, eram cristais desmaiados que me cortavam a voz.

Adorava roupas à moda, que eu não podia dar-lhe, corria às vezes os olhos aguados pelas montras luxuosas da Rua Augusta, a puxar por mim, se me acontecia passear com ela, de tarde. E íamos beber chocolate à Central da Baixa. Nessa pastelaria calma e elegante, muitos anos depois, sendo eu já redactor do "Diário de Lisboa", acabara de comprar em segunda mão uma arrastadeira de 11 cavalos, creio que foi no ano da Revolta da Sé, acontecia-me não raro ali conspirar e almoçar um bife raspado, à alemã, ou dois pães de leite com fiambre e manteiga e um "indiano" recheado com café.


A Baixa era para mim ponto de encontro com outros oposicionistas, que ali tinham escritório, como o Mário Soares, na Rua do Ouro, ou o Abranches Ferrão, que editou, pelo jornal de Foro, a minha novela "Uma Noite e Nunca", apreendida pela Censura, e que tinha banca na Rua do Crucifixo, com o Luiz Francisco Rebello, o Duarte Vidal e, mais tarde, o José Carlos de Vasconcelos, se a memória não me atraiçoa. É a altura do "Programa para a Democratização da República", que a todos nos levou à PIDE, ao Aljube ou a Caxias, e que a muitos valeu longos meses de encarceramento.

Na Rua de Santa Justa e mais tarde na Rua da Vitória, cortou-me o cabelo durante algumas décadas um alentejano simpático, de bigodinho aventureiro, o Sebastião Carrajola de Figueiredo, ex-menino do coro em Portalegre, cheio de lábia e assanhado defensor do 25 do Quatro, como ele dizia, que ali mesmo combatia a reacção, dentro dos limites que o ofício lhe consentia, e chegou a ter a subida honra (sic) de barbear e pentear o seu camarada Salgado Zenha, cuja candidatura à Presidência da República veio mais tarde a subscrever - e disso muito se orgulhava.

Foi na Rua do Ouro, junto ao elevador de Santa Justa, que numa tarde histórica apanhei um dos panfletos de denúncia do fascismo que o Palma Inácio, ao volante de um avião militar roubado, ou melhor, apreendido em nome da liberdade, lançava sobre Lisboa, numa nuvem branca, cintilante de esperança. Pouco depois do paquete "Santa Maria" ser transformado, por um comando revolucionário, em "Santa Liberdade".

Outra visão: a da Rua do Arsenal, memória viva, inapagável, dos operários da Resistência, como o Bento Gonçalves. E nessa mesma rua, o enxame de lojas e lojinhas de todas as coisas e todos os sonhos, pintado por Cesário Verde, nas "Ave Marias".

Foi o José Cardoso Pires quem me chamou a atenção para as lojas de aparelhos ortopédicos que se seguem umas às outras na Rua dos Fanqueiros, anos antes de descrever admiravelmente essa estranha paisagem urbana em "A Balada da Praia dos Cães".


Por falar em escritores, quero lembrar a Baixa de José Gomes Ferreira e de Armindo Rodrigues, companheiros de deambulações líricas pela noite de Lisboa, que o segundo fixou nas suas "Dez Odes ao Tejo", enquanto o autor do "Poeta Militante" nos fala não só do rio como do Largo de São Domingos e das putas tristes dessa área, fantasmas de um vazio de Julho.

Desapareceram muitos dos cafés do Rossio, onde o surrealismo abancou, sobretudo no Gelo, entre eles o Chave d' Ouro, onde Humberto Delgado deu a célebre conferência de Imprensa, em que estrondeou o "Obviamente demito-o", que tanto afrontou o orgulho de Salazar. Do Chave d'Ouro tenho também na lembrança o David Mourão-Ferreira, supremo encantador da palavra, lendo versos numa tertúlia lá em cima, e o Abelaira escrevendo numa absorta mesa, perto da porta, entre muitas chávenas de café e filosofia viva.

Os mirones do Rossio, que metralhavam as mulheres sós com o olhar concupiscente e lhes segredavam galanteios dos mais obscenos, encandeados pela "seminudez" das refugiadas estrangeiras durante a guerra de 39-45, tiveram o seu apogeu machista nos finais dos anos 60, aquando do primeiro surto das mini-saias e dos "hot-pants", uns shorts muito curtos, género calção de banho em tecido leve. O espaço do ascensor de Santa Justa, agora que sigo vasculhando na memória, foi teatro de muitos momentos da minha vida. No restaurante A Quinta, pendurado sobre a Baixa, mesmo ao lado do elevador, jantámos com o Curt Mayer Clason vários escritores na berra desses mesmos anos 60, entre eles o Cardoso Pires e o Abelaira; e do mirante que fica ao lado mostrei de outra vez a dois grandes poetas, o Murilo Mendes e o Jaime Salinas, o soberbo panorama do Castelo e da Sé, que encimam esse tão especial casario ocre, castiço e lírico, o dos quadros de Carlos Botelho, que vai descendo de Santa Luzia até às gruas dos cais e aos mastros do rio enfadado de sol.

Cá em baixo, junto à base do elevador, à porta do então Salão Império, em 1970 (ou 197l?), estive longos minutos, nervoso, com metade de uma folha do "Borda d'Água", mal cortada, fechada na minha mão, à espera da pessoa, para mim desconhecida, que me traria a outra metade da mesma folha, para um importante encontro clandestino. Era uma rapariga magra, que me pareceu disfarçar o nervosismo com um sorriso. Hoje que tanta gente, velha e nova, vive a farejar o dinheiro, em todos os cantos da cidade e da vida, e a comprar luxos inúteis quase por obrigação, ainda me aquece aquele aperto de mãos, que se davam uma e outra à luta pela liberdade, sonhando um país que (ainda) não existe.

Do calor branco do Verão vinham as flores baratas que comprávamos, à esquina das escadinhas de Santa Justa, para a alegria da namorada ou da parceira de uma noite bonita e casual. Viver à espera da PIDE, com projectos incertos, dava direito a beber de vez em quando a espuma de uma hora louca.
Pelas ruas da Baixa, num 1º de Maio proibido em que a polícia nos dispersou a tiro e com indelével água azul, houve correrias dementes pela Rua do Ouro, trabalhadores e estudantes espancados, o Manuel Vilaverde Cabral ficou, se bem me lembro, todo pintado da cor do céu, e eu por lá andei e escapei dessa vez aos encontrões e às cacetadas.

Relendo os contos que então escrevi, verifico que nalguns reproduzi (e obviamente alterei, acrescentei ou reduzi) os factos reais; noutros, pelo contrário, antecipei, como se adivinho fosse, a vida que ia viver.

Texto publicado em 15 de Agosto de 2013

Legenda: quadros de Luiza Cardoso.

sábado, 19 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS



Retratos Falados

Fernando Assis Pacheco
Prefácio: José Carlos de Vasconcelos
Capa: Bárbara Assis Pacheco
ASA Editores, Porto, Maio de 2001

P. - Quais as qualidades decisivas para um jovem candidato à profissão de futebolista?
R. - Primeiro a humildade, e ela terá de continuar até ao fim da sua carreira. (Mas é humildade mesmo, não a imagem da humildade!) Depois a honestidade. Mesmo que o jogador a não encontre nas outras pessoas, é fundamental, até para a tranquilidade interior. E por fim o sentido do profissionalismo. Evidentemente que ao longo dos anos o jogador vai-se corrigindo pelos erros cometidos. Ninguém é perfeito. Porque o futebol é bastante difícil, sobretudo para essas pessoas humildes e honestas.
P. - Saltillo?
R. - O caso Saltillo veio cá para fora, mas há muitas outras situações, falo das relações clube-jogador, que nunca chegaram a ser conhecidas.
P. - Basicamente porquê?
R. - Porque o jogador está diminuído face ao patronato. É a este que continua a dar-se força. Depois o jogador, um egoísta, não tem quem o defenda. Resultado, muitas vezes defende-se calando-se.

(Entrevista a Rui Jordão, profissional de futebol que morreu no dia 18 de Outubro).

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Vivo o efémero como futuro – e como se o efémero fosse eterno.

José Carlos de Vasconcelos

domingo, 17 de julho de 2016

OLHAR AS CAPAS


Cem Poemas de Sophia

Sophia de Mello Breyner Andresen
Selecção e Introdução de José Carlos de Vasconcelos
Capa: José Pinto Nogueira
Edição Visão/JL, Lisboa, Setembro de 2004

Mar

I

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.


II


Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

SARAMAGUEANDO



Vou sentindo algumas dificuldades com alguns novos autores.

Fico sempre com a sensação de que os livros não foram escritos para mim ou, o mais certo, não tenho unhas para a guitarra.

Quando falo de novos autores, obviamente falo de quem publica livros e não tralha.

A idade traz-nos o prazer da releitura.

Assim passo os dias.

O cronista Nelson Rodrigues chegou a dizer deve ler-se pouco e reler muito.

O gosto das releituras reside, essencialmente no encontrar de ideias e palavras que nos escaparam numa primeira leitura.

Depois de As Intermitências da Morte e do Ensaio Sobre a Cegueira, desaguei na releitura de  A História do Cerco de Lisboa.

Pós Terra do Pecado e A Clarabóia, será, juntamente com Jangada de Pedra, dos menos citados romances de Saramago.

No entanto, José Carlos de Vasconcelos, num texto publicado a acompanhar uma entrevista, publicada no JL de 18 de Abril de 1989, não tem dúvidas em considerar A História do Cerco de Lisboa o melhor romance do José Saramago, o de mais notável construção, simultaneamente o mais inventivo e o mais equilibrado, o de maior riqueza e até complexidade de planos, que se vão sucedendo, entrelaçando ou quase sobrepondo, apesar de oito séculos de história os separar, e ao mesmo tempo o mais límpido até na escrita.

Por seu turno o crítico António Cabrita dirá.

Um belo e feliz romance.

Assino por baixo.

Numa amena e simples conversa com a revisora dos seus livros na Caminho, José Saramago, a dado passo, ouve-a dizer: 

Dos revisores é que nunca ninguém se lembra.

O autor não ligou muito ao que foi dito mas, o que é certo, é que a frase fica-lhe a bailar por dentro.

Assim nasce a história de um homem, Raimundo Silva de seu nome, que está a rever um livro que se chama História do Cerco de Lisboa. 

Intencionalmente apõe um não a um texto histórico sobre o cerco de D. Afonso Henriques a Lisboa.

Está como fascinado, lê, relê, torna a ler a mesma linha, esta que de cada vez redondamente afirma que os cruzados ajudarão os portugueses a tomar Lisboa

(pág. 48)

É evidente que acabou de tomar uma decisão, e que má ela foi, com a mão firme segura a esferográfica e acrescenta uma palavra à página, uma palavra que o historiador não escreveu, que em nome da verdade histórica não poderia ter escrito nunca, a palavra Não, agora o que o livro passou a dizer é que os cruzados Não auxiliarão os portugueses a tomar Lisboa, assim está escrito e portanto passou a ser verdade, ainda que diferente

 (pág. 50)

O erro é descoberto, publica-se a obra com uma errata e os directores da editora chamam Raimundo à pedra dizendo-lhe que semelhante coisa não voltará a acontecer sob pena de prescindirem dos seus serviços de revisor.

Maria Sara, responsável da editora pelos revisores, presente na reunião mas que nada disse, chama Raimundo Silva ao seu gabinete e entrega-lhe um exemplar do livro sem a errata. E a partir do voluntário erro incita-o a escrever a reinvenção da história do cerco de Lisboa.


Não me peça que explique, mais do que senti-lo, vejo-o, foi tudo isso, repito, que se condensou na sugestão que decidi fazer-lhe, E que é, A de escrever uma história do cerco de Lisboa em que os cruzados, precisamente, não tenham ajudado os portugueses, tomando portanto à letra o seu desvio

(pág.109)

José Saramago na entrevista a José Carlos Vasconcelos:

Eu penso que todos os revisores gostariam de ser autores. Mas este revisor não quer propriamente escrever um livro. O que há em certa altura, é um momento de insurreição que o leva a introduzir num texto que ele devia respeitar, que é obrigação sua defender e conservar, que o leva a introduzir a negação, a dizer que não é verdade aquilo que historicamente aconteceu. E a partir daí encontra-se numa situação difícil, da qual sai por obra e graça de uma mulher. Como em geral acontece nos meus livros.

Ainda Saramago, numa entrevista a Clara Ferreira Alves, publicada no Expresso:

Considero difícil escrever um romance sem lhe meter uma história de amor, mesmo que se trate de amores infelizes. Sempre terá que haver um homem e uma mulher e neste livro a história de amor empurrou a história da guerra.

A página 123, Raimundo Silva interroga-se:

Que vou eu escrever Por que ponta vou eu pegar nisto

Seguindo o sentir de Saramago, Maria Sara e Raimundo Silva apaixonam-se e essa paixão corre ao mesmo tempo que a relação entre Ouroana e o soldado Mogueime, personagens da trama afonsina que Raimundo vai tecendo.

A  páginas 123 já se interrogara:

Que vou eu escrever… por que ponta vou eu pegar nisto.

A páginas 239, numa conversa telefónica, já com o amor declarado:

Deixe que me despeça com um beijo, está a chegar o tempo deles, Para mim já vai tardando, Só uma pergunta mais, Diga, Já começou a escrever a História do Cerco de Lisboa, Já, Não sei se continuaria a gostar de si se me respondesse que não, adeus.

E chegamos ao final:

São três horas da madrugada. Raimundo pousa a esferográfica, levanta-se devagar, ajudando-se com as palmas das mãos assentes sobre a mesa, como se de repente lhe tivessem caído em cima todos os anos que tem para viver. Entra no quarto, que uma luz fraca apenas ilumina, e despe-se cautelosamente, evitando fazer ruído, mas desejando no fundo que Maria Sara acorde, para nada, só para poder dizer-lhe que a história chegou ao fim, e ela, que afinal não dormia, perguntou-lhe, Acabaste, e ele respondeu, Sim acabei, Queres dizer-me como termina, Com a morte do almuadem, E Mogueime, e Ouroana, que foi que lhes aconteceu, Na minha ideia, Ouroana vai voltar para a Galiza, e Mogueime irá com ela, e antes de partirem acharão em Lisboa um cão escondido, que os acompanhará na viagem, porque pensas que eles se devem ir embora, Não sei, pela lógica deveriam ficar, Deixa lá, ficamos nós. A cabeça de Maria Sara descansa no ombro de Raimundo, com a mão esquerda ele acaricia-lhe o cabelo e a face. Não adormeceram logo. Sob o alpendre da varanda respirava uma sombra.


Na contra capa do livro, mais uma epígrafe do tal Livro dos Conselhos que nunca se publicou, não passando de uma feliz manobra de diversão do autor:

Enquanto não alcançares a verdade, não poderás corrigi-la. Porém, se a não corrigires, não a alcançarás. Entretanto não te resignes.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

PAREDES É NOME DE GUITARRA


Artigo de José Carlos de Vasconcelos, Diário de Lisboa, 16 de Julho de 1968.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

UMA GUITARRA COM GENTE DENTRO

  
Rui VieiraNery chamou-lhe Príncipe.

Um Príncipe de uma humildade arrepiante.

Em 11 de Outubro de 1967, entrevistado por José Carlos Vasconcelos para o Diário de Lisboa, dizia que não havia condições para ser profissional:

O profissionalismo de quem acompanha ou dá espectáculos não é o que eu idealizo, nem me interessa. O que eu desejava era poder especializar-me, estudar o instrumento, até com intuitos pedagógicos. Isto é: desenvolver um trabalho de investigação, que está por fazer, no campo da técnica, tentando integrar a guitarra em bases que a tornassem um instrumento capaz de permitir a qualquer compositor escrever para ele.



C. B. em A Capital de 3 de Abril de 1971:

Carlos Paredes não diz quem é, não fala de si. Não tem uma história decorada onde estão cuidadosamente assinalados cada êxito, cada digressão. Não tem álbum para colocar fotografias dos locais onde trabalhou, de quando colaborou no cinema, no teatro, acompanhou a Amália ou foi entrevistado para a Televisão. Com ele só é possível falar da guitarra portuguesa, mesmo que lhe façam vinte perguntas seguidas sobre a sua vida de artista. Vive as possibilidades, as limitações da guitarra. Fala dos seus êxitos, do seu nascimento, da sua morte, mas ele, Carlos Paredes, apaga-se perante a guitarra de que fala sempre e só.

Já depois do 25 de Abril António Duarte telefona-lhe a pedir uma entrevista para o JL.

Diz-lhe:

Mas acha que eu tenho categoria para ser entrevistado pelo Jornal de Letras?


Sentado a uma velha secretária de madeira, no arquivo de películas do Hospital de S. José, onde foi reintegrado depois do 25 de Abril, após ter sido demitido de funcionário público em consequência da prisão por pertencer ao Partido Comunista Português, acabou por dar a entrevista e disse:

Quero ser considerado um pequeno músico e se me conseguir realizar como pequeno músico, sentir-me-ei extremamente satisfeito.


Nasceu a 16 de Fevereiro de 1925, em Coimbra, mas quando morreu no dia 23 de Julho de 2004, já nos deixara, em Dezembro de 1993, acometido de mielopatia, um processo degenerativo na coluna vertebral que vai afectando o sistema nervoso central.

Num texto publicado no DNA, Catarina Carvalho escreveu:

Este é um texto desonesto. Fala da vida de um homem que perdeu a coisa que mais prazer lhe dava na vida: tocar guitarra. Vive em Campo de Ourique, preso pela doença à cama de um lar. Agora ele é só dos que o tratam, dos amigos íntimos, dele próprio. Apenas um homem. Não é nosso, não é dos jornais, não é do público. Do público é o Carlos Paredes. E o Carlos Paredes é um dedilhar fervente, rápido, genial. Por isso, em vez de lerem este texto, podem ouvir os «Verdes Anos», que é a verdade.

Legenda:

- fotografia de Eduardo Gageiro do CD Uma Guitarra Com Gente Dentro, Universal Music Portugal.
-  Título do Diário de Lisboa de 11 de Outubro de 1967.

-  Carlos Paredes fotografado pela PIDE em 1958, fotografia  da revista Vida de O Independente s/d

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

OS IDOS DE OUTUBRO DE 1974


1 a 15 de Outubro

DEPOIS DE ASSUMIR as suas funções, o Presidente da República, General Costa Gomes, conferiu posse ao III Governo Provisório chefiado pelo Brigadeiro Vasco Gonçalves,

PALAVRAS FINAIS do discurso de posse de Vasco Gonçalves:


NUMA CRÓNICA publicada na 1ª página, José Carlos de Vasconcelos, sub-director do Diário De Notícias, chamou-lhe Um Domingo Vestido de Povo e citava o poeta Manuel da Fonseca:

Quando chega domingo
faço tensão de todas as  coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.

AINDA NA 1ª página do Diário de Notícias de 7 de Outubro:


VITOR DIREITO na sua secção, De Vez em Quando, do República:


JOSÉ-AUGUSTO FRANÇA no Diário de Lisboa:

A grande tarefa, a tarefa prioritária, neste momento em Portugal, consiste em esclarecer a maioria da população, em tirá-la do silêncio sortudo em que desde sempre viveu – Zé Povinho e bode expiatório de um país legal que lhe tirava as terras, servia as missas e matava os filhos!...


 Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa, Discusros de Vasco Gonçalves

sexta-feira, 18 de abril de 2014

OLHAR AS CAPAS


JL – Jornal de Letras Artes e Ideias

Número 1136 – de 16 a 29 de Abril de 1974
Director: José Carlos de Vasconcelos

Sou absolutamente favorável à Revolução do 25 de Abril e ao que começou a simbolizar. Porém, vista de hoje, a sua força está a perder-se. Espero que esteja à procura da sua nova energia, quiçá em alguns aspectos diferentes e provavelmente desconhecidos, no que se chama futuro.
Ao dia de hoje falta futuro. A ele dedico as duas últimas linhas não escritas.

(De um texto de Jorge Listopad)

domingo, 10 de novembro de 2013

O "OUTRO" (O MESMO) ÁLVARO CUNHAL



Do editorial de José Carlos de Vasconcelos no JL, nº 1120, 4 de Setembro de 2013

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

SARAMAGUEANDO


Numa entrevista dada a José Carlos Vasconcelos, e publicada na Visão de 16 de Janeiro de 2003, José Saramago aborda o mundo dos Centros Comerciais:

Os ventos da história nem sempre são favoráveis. Como tento mostrar em «A Caverna.» É hoje patente que o único lugar limpo, iluminado, colorido, seguro, com música, nas cidades e já nas aldeias, que as pessoas frequentam e são felizes, é o centro comercial! Antigamente, a mentalidade humana formava-se na grande superfície das de uma catedral; hoje, forma-se na grande superfície de um centro comercial. O que diz tudo.

No 2º volume de O Caderno, volta ao tema e chama-lhe Outra Leitura para a Crise:

A mentalidade antiga formou-se numa grande superfície que se chamava catedral; agora forma-se noutra grande superfície que se chama centro comercial. O centro comercial não é apenas a nova igreja, a nova catedral, é também a nova universidade. O centro comercial ocupa um espaço importante na formação da mentalidade humana. Acabou-se a praça, o jardim ou a rua como espaço público e de intercâmbio. O centro comercial é o único espaço seguro e o que cria a nova mentalidade. Uma nova mentalidade temerosa de ser excluída, temerosa da expulsão do paraíso do consumo e por extensão da catedral das compras.
E agora, que temos? A crise.
Será que vamos voltar à praça ou à universidade? À filosofia?

No seu 1º Livro de Crónicas, António Lobo Antunes tem este áureo pedacinho:

Aos domingos a seguir ao almoço visto o fato de treino roxo e verde e os sapatos de ténis azuis, a Fernanda veste o fato de treino roxo e verde e os sapatos de salto alto do casamento, subo o fecho éclair até ao pescoço e ponho o fio de ouro com a amedalha por fora, a Fernanda sobe o fato de treino e põe os dois fios de oro com a medalha e o colar da madrinha por fora, tiramos o Roberto Carlos do berço, metemos-lhe o laço de cetim branco na cabeça, saímos de Alverca, apanhamos os meus sogros em Santa Iria da Azóia e passamos o domingo no Centro Comercial.

Orson Welles lembrou um dia que, neste mundo das grandes superfícies, haverá o dia em que teremos saudades do merceeiro da nossa rua.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O "NOSSO" URBANO


A morte de Urbano Tavares Rodrigues, evocada por José Carlos de Vasconcelos, no JL de 21 de Agosto.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

MEMÓRIAS DE LISBOA


Este texto de Urbano Tavares Rodrigues encontrei-o no Teia Portuguesa.
É um texto não datado, em que Urbano fala das suas experiências de vida em Lisboa: amores, vivências, conspirações para derrube da ditadura, tertúlias em cafés, quando ainda havia cafés em Lisboa, com José Cardoso Pires, Augusto Abelaira, José Gomes Ferreira, Armindo Rodrigues.
Um bonito texto sobre uma Lisboa praticamente desaparecida:

Ao atravessar as ruas da Baixa e o Rossio, ainda em obras, quando a poalha desta luz de Maio enevoada doira vagamente as cimalhas e mansardas das velhas casas pombalinas, clareando o ocre do Teatro D. Maria, parece-me ter sonhado a vida que por aqui vivi. Já não me reconheço na criança que às vezes vinha de Moura e atravessava o grande rio, de olhos deslumbrados, entre gaivotas e navios descomunais, e desembarcava no Terreiro do Paço, todo simétrico na sua verde harmonia palaciana. Do alto da sua altivez, o cavaleiro do cavalo negro dominava o mundo e fazia correr mais depressa o sangue nas minhas veias. O táxi entrava na corrente do trânsito, que também me surpreendia, outro tempo ali começava a nascer, e os meus olhos erguiam-se, exorbitados, para o emblema da cidade, talvez a sua alma, aquele arco imenso, com prodigiosas esculturas, umas violentas, tal como eu as retinha, outras majestosas e da brancura dos lugares supremos.

Quando vim morar em Lisboa, já na adolescência, a minha vida decorria sobretudo nas Avenidas Novas e um pouco mais tarde na antiga Faculdade de Letras, Rua da Academia das Ciências. Vinha então à Baixa porque o meu alfaiate (ainda as pessoas comuns faziam os fatos por medida) ficava na Rua de Santa Justa. E, quase sempre que lá ia, passava, como toda a gente (uns mais apressados, outros menos, sinais da roda da fortuna ou do relógio interior de cada um), por aquelas ruas que ainda não me pareciam estreitas, onde o vento por vezes gemia, acompanhando os cegos que tocavam violino e os gritos dos cauteleiros e dos ardinas. Já então a Baixa era um grande centro comercial, onde muitos casais, com os meninos pela mão, vinham aos domingos contemplar as montras. A pequena multidão engrossava às horas de ponta, era por vezes uma autêntica enxurrada de corpos alheios e agressivos, empurrando-se, arfando, tossindo, e onde às vezes se cruzavam dois olhares subitamente acesos em desejo ou compreensão, fadados quiçá para se entenderem por todo o sempre, e que logo se perdiam um do outro, como sucede no giro incessante das grandes cidades.


Continuo a gostar muito da Baixa, do seu estridor, do jardim de saibro que o Rossio já foi, com as suas fontes e estátuas, o falso D. Pedro vestido agora de tapumes. Mesmo cheia de pó, de aterros e buracos traiçoeiros, acidentes transitórios, volto sempre à Baixa dos tocadores de concertina nas escadinhas de Santa Justa, dos turistas coloridos, de binóculo e máquina fotográfica a tiracolo, olhos voltados para cima, acompanhando a pesada gaiola do ascensor. Apesar da falta de pintura dos prédios, do certo abandono de quarteirões inteiros dessa cidade baixa delicadamente setecentista, a sua fauna humana, renovada, persiste: lá vão as melancólicas costureiras de alfaiate, muitas das quais perderam o emprego, o cantor da voz triste, que comovia algum melómano perdido na onda de gente apressada. Eis os cães dos drogados cheirando a hache e a suor curtido; e os mesmos barbeiros, agora cabeleireiros, de bata azul e com o "Record" na mão, espreitando, à porta, o cliente da hora certa; e a insolência dos "klaxons", a empurrarem furiosamente a condutora da frente; o povo a correr para os bancos.

Morava numa trapeira da Rua da Madalena uma das namoradas dos meus 17 anos. Não a primeira, que essa era italiana, estudante e sardenta, e ensinou-me, num ardente Agosto do Estoril, entre mar e casino, quase todos os segredos e requintes do amor fora de regras. A Conceição, corista do Parque Mayer, que chegou logo a seguir à minha educação erótica, era paradoxalmente menos libertina e muito mais romântica. Linda de pasmar, parecia, ora uma "starlet", ora virgem de altar, até pelos azuis vaporosos que vestia. Havia um ou mais sujeitos ricos que a sustentavam (com o que ela ganhava, coitada, não tinha outro recurso), e atrevia-me eu a ter ciúmes, tão pouco sabia das crueldades daquela vida. Um dos banqueiros podia passar por galã maduro, mas só sabia comprar, comprar, até o prazer, que eu colhia de todas as partes do corpo dela, sem saber sequer como a cativara, se por sedução quase inconsciente ou por a fazer rir dos meus despropósitos. Quando ela saía da segunda sessão da revista, já muito tarde, ainda íamos às vezes dançar ao Bar do Cristal, ou então arrastava-me até ao Cais das Colunas, de mão dada, para vermos a noite ainda a arder de estrelas, que caíam no Tejo, e só depois fazíamos amor longamente na trapeira onde ela morava, e as suas lágrimas, no fim da nossa festa e das suas confissões, eram cristais desmaiados que me cortavam a voz.

Adorava roupas à moda, que eu não podia dar-lhe, corria às vezes os olhos aguados pelas montras luxuosas da Rua Augusta, a puxar por mim, se me acontecia passear com ela, de tarde. E íamos beber chocolate à Central da Baixa. Nessa pastelaria calma e elegante, muitos anos depois, sendo eu já redactor do "Diário de Lisboa", acabara de comprar em segunda mão uma arrastadeira de 11 cavalos, creio que foi no ano da Revolta da Sé, acontecia-me não raro ali conspirar e almoçar um bife raspado, à alemã, ou dois pães de leite com fiambre e manteiga e um "indiano" recheado com café.


A Baixa era para mim ponto de encontro com outros oposicionistas, que ali tinham escritório, como o Mário Soares, na Rua do Ouro, ou o Abranches Ferrão, que editou, pelo jornal de Foro, a minha novela "Uma Noite e Nunca", apreendida pela Censura, e que tinha banca na Rua do Crucifixo, com o Luiz Francisco Rebello, o Duarte Vidal e, mais tarde, o José Carlos de Vasconcelos, se a memória não me atraiçoa. É a altura do "Programa para a Democratização da República", que a todos nos levou à PIDE, ao Aljube ou a Caxias, e que a muitos valeu longos meses de encarceramento.

Na Rua de Santa Justa e mais tarde na Rua da Vitória, cortou-me o cabelo durante algumas décadas um alentejano simpático, de bigodinho aventureiro, o Sebastião Carrajola de Figueiredo, ex-menino do coro em Portalegre, cheio de lábia e assanhado defensor do 25 do Quatro, como ele dizia, que ali mesmo combatia a reacção, dentro dos limites que o ofício lhe consentia, e chegou a ter a subida honra (sic) de barbear e pentear o seu camarada Salgado Zenha, cuja candidatura à Presidência da República veio mais tarde a subscrever - e disso muito se orgulhava.

Foi na Rua do Ouro, junto ao elevador de Santa Justa, que numa tarde histórica apanhei um dos panfletos de denúncia do fascismo que o Palma Inácio, ao volante de um avião militar roubado, ou melhor, apreendido em nome da liberdade, lançava sobre Lisboa, numa nuvem branca, cintilante de esperança. Pouco depois do paquete "Santa Maria" ser transformado, por um comando revolucionário, em "Santa Liberdade".

Outra visão: a da Rua do Arsenal, memória viva, inapagável, dos operários da Resistência, como o Bento Gonçalves. E nessa mesma rua, o enxame de lojas e lojinhas de todas as coisas e todos os sonhos, pintado por Cesário Verde, nas "Ave Marias".

Foi o José Cardoso Pires quem me chamou a atenção para as lojas de aparelhos ortopédicos que se seguem umas às outras na Rua dos Fanqueiros, anos antes de descrever admiravelmente essa estranha paisagem urbana em "A Balada da Praia dos Cães".


Por falar em escritores, quero lembrar a Baixa de José Gomes Ferreira e de Armindo Rodrigues, companheiros de deambulações líricas pela noite de Lisboa, que o segundo fixou nas suas "Dez Odes ao Tejo", enquanto o autor do "Poeta Militante" nos fala não só do rio como do Largo de São Domingos e das putas tristes dessa área, fantasmas de um vazio de Julho.

Desapareceram muitos dos cafés do Rossio, onde o surrealismo abancou, sobretudo no Gelo, entre eles o Chave d' Ouro, onde Humberto Delgado deu a célebre conferência de Imprensa, em que estrondeou o "Obviamente demito-o", que tanto afrontou o orgulho de Salazar. Do Chave d'Ouro tenho também na lembrança o David Mourão-Ferreira, supremo encantador da palavra, lendo versos numa tertúlia lá em cima, e o Abelaira escrevendo numa absorta mesa, perto da porta, entre muitas chávenas de café e filosofia viva.

Os mirones do Rossio, que metralhavam as mulheres sós com o olhar concupiscente e lhes segredavam galanteios dos mais obscenos, encandeados pela "seminudez" das refugiadas estrangeiras durante a guerra de 39-45, tiveram o seu apogeu machista nos finais dos anos 60, aquando do primeiro surto das mini-saias e dos "hot-pants", uns shorts muito curtos, género calção de banho em tecido leve. O espaço do ascensor de Santa Justa, agora que sigo vasculhando na memória, foi teatro de muitos momentos da minha vida. No restaurante A Quinta, pendurado sobre a Baixa, mesmo ao lado do elevador, jantámos com o Curt Mayer Clason vários escritores na berra desses mesmos anos 60, entre eles o Cardoso Pires e o Abelaira; e do mirante que fica ao lado mostrei de outra vez a dois grandes poetas, o Murilo Mendes e o Jaime Salinas, o soberbo panorama do Castelo e da Sé, que encimam esse tão especial casario ocre, castiço e lírico, o dos quadros de Carlos Botelho, que vai descendo de Santa Luzia até às gruas dos cais e aos mastros do rio enfadado de sol.

Cá em baixo, junto à base do elevador, à porta do então Salão Império, em 1970 (ou 197l?), estive longos minutos, nervoso, com metade de uma folha do "Borda d'Água", mal cortada, fechada na minha mão, à espera da pessoa, para mim desconhecida, que me traria a outra metade da mesma folha, para um importante encontro clandestino. Era uma rapariga magra, que me pareceu disfarçar o nervosismo com um sorriso. Hoje que tanta gente, velha e nova, vive a farejar o dinheiro, em todos os cantos da cidade e da vida, e a comprar luxos inúteis quase por obrigação, ainda me aquece aquele aperto de mãos, que se davam uma e outra à luta pela liberdade, sonhando um país que (ainda) não existe.

Do calor branco do Verão vinham as flores baratas que comprávamos, à esquina das escadinhas de Santa Justa, para a alegria da namorada ou da parceira de uma noite bonita e casual. Viver à espera da PIDE, com projectos incertos, dava direito a beber de vez em quando a espuma de uma hora louca.
Pelas ruas da Baixa, num 1º de Maio proibido em que a polícia nos dispersou a tiro e com indelével água azul, houve correrias dementes pela Rua do Ouro, trabalhadores e estudantes espancados, o Manuel Vilaverde Cabral ficou, se bem me lembro, todo pintado da cor do céu, e eu por lá andei e escapei dessa vez aos encontrões e às cacetadas.

Relendo os contos que então escrevi, verifico que nalguns reproduzi (e obviamente alterei, acrescentei ou reduzi) os factos reais; noutros, pelo contrário, antecipei, como se adivinho fosse, a vida que ia viver.

Legenda: quadros de Luiza Cardoso.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A LENDA DE EL-REI SEBASTIÃO


Pelos idos de 67, o Em Órbita lançou um convite aos ouvintes para que, por escrito, enviassem ideias e que outras músicas entendiam deviam ser passadas no programa.

O prémio consistia numa visita aos estúdios da Sampaio e Pina para presenciar, in loco, a realização do programa feito por nós e dito por mim.

Por esses tempos, andava eu enredado na música brasileira, esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer, contestação para um lado, Chico Buarque para o outro, pelo meio Gilberto Gil, Nara Leão, Caetano.

Esgalhei um arrazoado sobre essas músicas.

 Os rapazes gostaram e, nessa semana, mandaram-me aparecer por lá.

Lamentavelmente, perdi esse texto, batido à máquina, na minha velha Erika, que ainda está por aqui, como peça de museu.

Foi um belo pedaço de fim de tarde e até calhei num dia em que o alinhamento não tinha sido feito, os LPs foram saindo do armário colocados à papo seco, mas tudo aquilo eram grandes canções e, enquanto os discos rodavam o Cândido Mota, com aquele seu ar bem disposto, profissional de mão cheia, ia colocando os discos e mostrava-me o último relógio de pulso que adquirira para a sua larga colecção.

Como convidado, alinhei na votação dos melhores discos da semana. Tinha que escolher cinco mas, hoje, apenas me recordo de Dedicated To One I Love dos The Mamas and The Papas e o White Rabit dos Jefferson Airplane.

Disseram-me que aparecesse quando quisesse e assim foi acontecendo.

Com o João Manuel Alexandre nasceram laços de estima e consideração.

Numa das conversas com o João, veio à baila a ideia que existia na equipa para apresentar canções de artistas portuguesas, mas as dificuldades eram muitas, a maior delas a obrigatoriedade de não fugir à qualidade do programa.

Falei-lhe, então, do Adriano Correia de Oliveira, que nesse sábado iria realizar  uma sessão de canto (ainda não) livre, na Baixa da Banheira, em que também participavam o Carlos Paredes e o José Carlos de Vasconcelos.

Acertámos em ir falar com o Adriano.

Assistimos ao concerto, alinhámos no convívio no bar da Sociedade, muita conversa, uns queijinhos frescos, jarros de vinho tinto e aguardar o tempo para uma conversa serena com o Adriano.

Só que o Adriano era a imprevisibilidade em pessoa e no meio de tudo aquilo apareceu o escritor António Borga a dizer à malta que o Fernando Lopes Graça estava num fogo de campo na Costa da Caparica com o coro da Academia dos Amadores de Música e foi a debandada quase geral. O Adriano esqueceu a conversa.

Nada havia a fazer.

Eu, o João e a mulher regressámos a Lisboa no seu Carocha.

Não houve mais oportunidade de voltar ao assunto.
.
Poucas semanas depois dessa noite de sábado na Baixa da Banheira, assentei praça em Tavira.

Para ser preciso no dia 10 de Julho de 1967.

O Em Órbita não chegava à caserna do CISMI.

No dia 29 de Julho de 1967 o Em Órbita passava A Lenda de El-Rei D. Sebastião do Quarteto 1111.

Cândido Mota dixit:

É o sebastianismo colectivo que na lenda se retrata, a ideologia negativista dos que se alimentam da crença irracional em coisas, em valores, em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos Messias do oportunismo e da mistificação.

Uma tentativa honesta e inédita de lançamento das bases de uma música popular portuguesa que todos nós, em boa consciência, queremos renovada por inteira.

Temos para nós que o trecho que vamos apresentar preenche os requisitos mínimos para a sua divulgação por este programa, com todas as implicações que a sua transmissão através de "Em Órbita" acarretam.

Tendo por título "A Lenda De El-Rei D. Sebastião", é escrito por um português tocado e cantado por portugueses.

Vamos apontar o que nela se nos afigura existir de importante e de novo, focando em especial os aspectos puramente interpretativos, instrumentais e vocais.

O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente inédito é que, em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma história singela, popular, portuguesa, dita em versos directos, certeiros, desenfeitados.

Conta-se uma lenda. Como lenda que é, trazida até hoje pela herança popular, pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do nosso país.

É um tema eterno, de criação nacional e de validade perene e universal.

Nunca soube de como se chegou ao Quarteto 1111.

Uma coisa é certa: até hoje, não consegui digerir a escolha.

Legenda: a capa do disco aparece aqui por cortesia de Mr. Ié-Ié.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

SARAMAGUEANDO


No ano de 1992, José Saramago, surgia como o preterido histórico do Grande Prémio de Romance e Novela, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores.

Na sua primeira edição, em 1982, Memorial do Covnento perdia para Balada da Praia dos Cães de José Cardoso Pires. Em 1984 Amadeo de Mário Cláudio foi escolhido em vez de O Ano da Morte de Ricardo Reis.Dois anos depois, Jangada de Pedra perdeu para Um Amor Feliz de David Mourão Ferreira e em 1989 era a vez de História do Cerco de Lisboa perder para Fora de Horas de Paulo Castilho.

De modo algum estão em causa as obras que foram escolhidas, simplesmente o entusiasmo que os leitores tinham para com as obras de José Saramago, não era acompanhado por grande parte dos seus pares.

O facto de Saramago ser um comunista assumido, dificultava – e de que maneira! – a possibilidade de lhe ser atribuído o prémio.

Só assim se pode compreender que O Ano da Morte de Ricardo Reis tenha sido preterido. Não vale a pena contar histórias para embalar meninos.

Na entrada a uma entrevista a José Saramago, publicada no JL de 5 de Novembro de 1991, José Carlos de Vasconcelos escrevia:

Vem aí “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” que vai dar muito que falar.

O tema era mais que polémico e ia provocando debates apaixonados.

O que não se julgava possível era que um devoto salazarista, um saudoso da Inquisição, armado em Subsecretário de Estado da Cultura de um dos governos do auto-denominado social democrata Cavaco Silva (o professor Cavaco é, pura e simplesmente, na mais exacta e sombria acepção do termo – um reacionário, tal como, na altura, escreveu Ruben de Carvalho), cortasse o romance de Saramago da lista dos nomeados para o Prémio Literário Europeu.

Mas isso é uma outra história e agora o que nos importa é referir que, chegados a 1992, começava a ser impossível José Saramago não ser o escolhido para o prémio da Associação Portuguesa de Escritores.

O Público, de 23 de Junho de 1992, dava, nestes termos, a notícia.

José Saramago ganhou o Grande Prémio de Romance com “Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Já se sabia desde a semana passada, mas a liturgia existe para ser cumprida: a APE anunciou ontem o feito.

O JL titulava:

À quinta foi de vez. Vitória no público e 3-2 no Júri.

Não existiu unanimidade no júri, constituído por Fausto Lopo de Carvalho, Maria Lúcia Lepecki, Salvato Trigo, Fernando DaCosta e Vitor Viçoso.

Lepecki e Salvato Trigo votaram em Évora e os Dias da Guerra de Mário Ventura.

A resposta de José Saramago não se fez esperar:





Vistas as circunstâncias – as recentes e as antigas -, e para não juntar o choque de uma recusa ao escândalo de uma exclusão, aceito este prémio sob condição de o seu valor ser usado na compra de autores portugueses contemporâneos a enviar aos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) que estejam interessados em os receber.
Peço à APE, ao Pen Clube e à SPA o favor de se encarregarem da selecção das obras e do seu encaminhamento…

Nem mais!

Nesta altura, o livro já ia na sua 5ª edição, mais de cem mil exemplares vendidos, a tradução castelhana estava no top de vendas, e preparavam-se as traduções para italiano francês e inglês.

O jornalista Joaquim Vieira, comentando a atribuição do prémio:

Depois de tantas expectativas falhadas, o prémio APE para Saramago chega em total inversão de valores: já não é o escritor que se torna conhecido ao ser distinguido pela Associação; é esta que projecta o próprio nome à custa do escritor.

Mas era impossível não juntar, à satisfação da atribuição do prémio, a desilusão, a tristeza, a tremenda injustiça por  O Ano da Morte de Ricardo Reis, não ter sido, em devido tempo, o livro escolhido.


Legenda: capa da tradução grega de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, retirada do site da Fundação José Saramago.

Título do JL de  23 de Junho de 1992