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domingo, 17 de março de 2024

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


Patti Smith volta a Portugal: estará a partir de 23 de Março no CCB em Lisboa  e dia 24 em Braga. No Ipsilon, de sexta-feira, uma interessante entrevista de Gonçalo Frota:

“Sou feliz a escrever na minha sala porque reflecte a minha vida”, conta. “Estou rodeada dos meus livros preferidos, dos talismãs de que gosto mais e de algumas fotografias maravilhosas. Mas escrevo sobretudo em cafés. Gosto de sair do meu espaço doméstico e de ir escrever para um café, desde que esteja razoavelmente silencioso. Costumo chegar pelas 8h, antes de toda a gente – e quando as pessoas começam a vir, por volta das 10h, vou embora e termino o trabalho em casa.”

1.

Regressamos ao depoimento de Pedro Tadeu no Diário de Notícias:

«No Distrito de Santarém, moro numa pequena aldeia onde há pessoas que vivem do Rendimento Social de Inserção, um subsídio que o Chega já disse várias vezes querer diminuir drasticamente e, talvez mesmo, acabar com ele. Pois há pessoas nessas condições que declararam ir votar no Chega, num aparente suicídio financeiro através da urna eleitoral.»

2.

«O Chega não se combate com medidas administrativas, mas com a capacidade de identificar o que ele significa social e politicamente. Contudo, ser capaz de ir à raiz dos fenómenos de que o Chega é um grave sintoma (como a febre o pode ser de uma pneumonia), implicaria uma postura que não abunda nos principais atores políticos nacionais: olhar-se bem ao espelho, e não fechar os olhos perante o que se vê, colocaria em causa as premissas em que a governação em Portugal tem assentado desde há décadas.»

Viriato Soromenho-Marques

3.

Há um naipe de autores que li ao longo da vida e que abandonei por repetição, por qualquer  outra coisa que agora não lembro.

Miguel Esteve Cardoso foi um desses autores. Livros não mais mas as crónicas ainda as leio no Público, assim a modos de António Lobo Antunes. Também livros não mais, lia com gosto as suas crónicas nos jornais mas ele desistiu de as publicar, também deixou um série delas por publicar em livro. Lamento muito.

A seguir às eleições numa crónica  Miguel Esteves Cardoso, disse:

«Todos os votos do Chega são votos contra os outros partidos….Os partidos do contra só sabem ser do contra. Não servem para mais nada”».

4.

Num ano em que o cenário macroeconómico continuou a fazer-se de incertezas e desafios, os seis maiores bancos a operar em Portugal conseguiram manter-se resilientes e alcançar resultados históricos. Impulsionados pelas altas taxas de juro, o BPI, Caixa Geral de Depósitos (CGD), Millennium BCP, Montepio, Novo Banco e Santander reportaram, em conjunto, lucros de 4,33 mil milhões de euros em 2023, o que representa uma melhoria de quase 69%(1,76 mil milhões) face aos 2,57 mil milhões de euros registados no ano anterior. Contas feitas, foram 11,88 milhões de euros por dia.

5.

Helder Macedo há muito, por vontade própria, a viver em Londres.

 «Ainda não aconteceu o 25 de Abril que nós desejamos
Facto histórico: houve a revolução. Maravilha. Criámos estruturas democráticas, com óptimos resultados, em termos de educação, condições de vida, etc.. Mas não fizemos o suficiente. Não podemos tornar o 25 de Abril uma coisa imutável. Para merecer que o celebremos, tem de ter continuidade, que tem tido nalguns aspectos, mas não noutros. Nós continuamos a ser dependentes de economias estrangeiras. Não criámos riqueza dentro do país. Alargámos a educação e a formação universitária, mas com o resultado de que os emigrantes são agora médicos e outros profissionais, e não camponeses. Há problemas estruturais que têm de ser resolvidos no contexto da democracia. Não podemos cair numa espécie de neo-saudosismo – ai que bom, ai que bom, os cravos – e ficar sentadinhos. Não. Os cravos estiolam. E não tornemos a celebração, legítima e necessária, do 25 de Abril num “Já fizemos tudo!” Não. É trabalho por fazer. Ainda não aconteceu o 25 de Abril que nós desejamos. Isso exige muito trabalho. O perigo das celebrações e de nostalgias é transformar a data em cemitérios dourados
. Eu não quero que matem o 25 de Abril e, portanto, é uma obra ainda por fazer.»

 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

O FLAGELO DA FDJ

Por motivos que se perguntassem nem saberia responder, não sou leitor de Miguel Esteves Cardoso.

Mas mão amigo fez o favor de me enviar esta crónica de Miguel Esteves Cardoso porque, conhecendo a minha falta de jeito para imensas e diversas coisas, haveria de gostar de ler.

Aqui fica a crónica:

«Desde miúdo que pertenço à FDJ. Foi quando fiz a minha primeira torrada que os meus pais me inscreveram. Desde aí, sempre que posso, tenho promovido os valores da FDJ.

Quando me perguntam pela sigla do crachá, ou das decalcomanias na minha mochila, digo que são da Federação Da Juventude. Mas os sócios que me estiverem a ler saberão que, na verdade, correspondem a Falta De Jeito.

Quando Chico Buarque canta O Meu Amor, as palavras entram-nos pela consciência adentro: “o meu amor tem um jeito manso que é só seu...” Mas a falta de jeito não lhe fica atrás: também é só minha.

Lembro-me do meu pai a tirar-me o quebra-nozes ou o berbequim ou o tira-linhas das mãos e, olhando para a cagada feita, exclamar: “Mas que falta de jeito! Chega a ser espantoso como é que um só ser humano consegue ter tanta falta de jeito!”

Começava a angústia genética: “Mas de onde é que tu herdaste essa falta de jeito? Dos teus pais, não foi. Dos teus avós, tão-pouco. Mas então de onde? Qual foi o borra-botas do antepassado que te inquinou com tanta falta de jeito, santo Deus?”

A minha mãe defendia-me, mas só superficialmente, sem convicção, alegando que eu não tinha FDJ - o que eu era, era canhoto.

Mas não é por ser-se canhoto que se tem FDJ. O que não faltam por aí são canhotos maneirinhos, cheios de habilidades, capazes de tocar a Scheherazade de Rimsky-Korsakov com um abre-latas e um fio de pesca.

O primeiro choque do portador de FDJ é descobrir que não tem cura. Pois a FDJ tem o espantoso condão de moldar-se a qualquer actividade humana. As palavras mais dolorosas que um portador de FDJ pode ouvir, ao tentar (debalde) executar uma tarefa, são: “Não se preocupe. É só uma questão de jeito...”

Pois é, lá isso é, amigo, está bem visto, sim senhor: é tudo uma questão de jeito.

É tudo uma questão de jeito até a pessoa amada se virar para nós e sibilar: “Sai daí! Tu afinal não tens jeito nenhum!” É que ninguém acredita quando dizemos que temos FDJ. Mas temos.»

Miguel Esteves Cardoso no Público de 15 de Novembro de 2022