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sexta-feira, 11 de novembro de 2022

SENTIR NA BOCA O TRAVO A PINHEIRO


Dia de São Martinho.

Vai à tua adega e prova o teu vinho.

Lido, há muito tempo, já não sei onde. 

Desconheço o autor, e uma pequena investigação pela diversa papelada, deu em nada.

«Incendeia um monte de caruma,

deixa que nele caia um saco de castanhas.

Que tostem, que absorvam chamas, que escaldem,

que se exaltem com sucessivos punhados de sal.

À tua volta, algumas presenças muito sorridentes.

Remexe o lume com uma vara até que a caruma fique em brasa.

Suja os dedos, abre as castanhas e sente na boca o travo a pinheiro.

Nunca tinhas saboreado nada assim – experimenta-as.

Marca com os dedos cheios de cinza uma fronte a teu lado.

Traz contigo as gargalhadas e os lábios salgados».

Legenda:  Os Bêbados ou Festejando o S. Martinho, quadro de José Malhoa.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

NOTÍCIAS DO CIRCO


Portugal disse adeus ao Mundial de Futebol.
No fundo... no fundo... é uma questão de unhas!...

Legenda: O Fado, pintura de José Malhoa.

domingo, 11 de novembro de 2012

IN VINO VERITAS


No dia de S. Martinho vai-se à adega e prova-se o vinho.

Abriu o vinho novo, lia-se, nos meus tempos de miúdo à porta das tabernas de Lisboa, um ramo de palmeira pendurado e, para que não houvesse dúvidas: Directo do Lavrador.

Desde muito cedo ouvi dizer que Portugal ara um país agrícola.

E que beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses.

Ninguém tem mais sede do que um bêbado.

Carne sem vinho não vale nada; vinho sem carne vale alguma coisa.

Nem comer sem vinho beber, nem assinar sem antes ler.

Coma até estar meio cheio e beba até estar meio bêbado.

O primeiro copo morde, o segundo beija e o terceiro abraça.

Quem bebe morre, quem não bebe morre, portanto o melhor é beber.

Do vinho e da mulher… livre-se o homem se puder…

É melhor morrer de bêbado do que morrer de sede.

Melhor beber e passar mal do que não beber e passar mal.

Fleming:: a penicilina cura os homens, mas é o vinho que os torna felizes.

Louis Pasteur: o vinho é a mais sã das bebidas.

Benjamin Franklin: o vinho é uma prova constante de que Deus nos ama e deseja ver-nos felizes.

Na Bíblia pode ler-se que o vinho é o produto da terra e do trabalho do homem.

Nunca digas deste vinho não beberei.

Em tempos no Portugal profundo, conta quem por isso passou, que à falta de leite para as crianças, dava-se-lhes sopas de cavalo cansado: bocados, ou fatias de pão ocados de pão embebidos em vinho açucarado.



 Em Julho de 1983, havia 500 mil portugueses em regime de dependência directa do vinho o que, na Europa, nos colocava no segundo lugar logo a seguir à França.

Em Dezembro de 2000, um estudo concluía que Portugal era um dos cinco países da União Europeia em que o consumo do álcool aumentara nos últimos anos.

Em 2005 os portugueses enjeriam 2,8 milhões de litros de bebidas por dia, cada português, com mais de 15 anos bebia em média 115 de álcool. A cerveja era a bebida alcoólica mais consumida, seguida do vinho e de outras bebidas.

O raio da cerveja a sobrepor-se ao vinho.

Ainda hoje essa tendência se verifica.

Lembrava Manuel Vásquez Montalbán, que poderemos esperar de uma juventude que não sabe nem quer aprender a beber?

Só há uma coisa pior que beber – é não beber.

Shakespeare: um bom vinho possui a virtude: sobe-nos à cabeça e seca nela os vapores estúpidos, melancólicos e desabridos, torna o nosso entendimento sagaz, vivo e inventivo
Baudelaire: se o vinho desaparecesse da produção humana, creio que se faria na saúde e no intelecto do nosso planeta um vácuo, uma ausência, uma deficiência muito mais horrível do que todos os excessos e desvios que se considera o vinho responsável. Um homem que não bebe senão água possui um segredo a esconder dos seus semelhantes…

O capitão Kulkov, comandante de um cargueiro russo, dizia que num país de bêbados, alguém teria de permanecer sóbrio.

Mas não contem comigo!



Murmúrio de Mário-Henrique Leiria, saindo da redacção do República, pela porta das traseiras, a porta da tipografia: estou a morrer de sede por um gin-tónico.

O álcool dá vida à vida

José Gomes Ferreiras, numa das suas Heróicas:

Oh! esta comoção
de me sentir sozinho
no meio da multidão
- a ouvir o meu coração
no peito do vizinho,

Oh! esta solidão
quente como a camaradagem do vinho.

Estando com os amigos, provado o vinho, poder dizer:

Que bela pomada!

Tenham um bom Dia de São Martinho!

Legenda:
a)      Cartaz da Junta Nacional doVinho, 1937
b)      Quadro de Amedeo Modigliani, Man With a Glass of Wine
c)      Quadro de José Malhoa, Os Bêbados

sexta-feira, 18 de maio de 2012

POSTAIS SEM SELO


Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós?

Luiz Pacheco

Legenda: Praia das Maçãs, quadro de José Malhoa

quinta-feira, 28 de julho de 2011

POSTAIS SEM SELO


“Quando o Estio entra entristeço. Parece que a luminosidade, ainda que acre, das horas estivais devera acarinhar quem não sabe quem é. Mas não, a mim não me acarinha. Há um contraste demasiado entre a vida externa que exubera e o que sinto e penso, sem saber sentir nem pensar – o cadáver perenemente insepulto das minhas sensações. Tenho a impressão de que vivo, nesta pátria informe chamada o universo, sob uma tirania politica que, ainda que me não oprima directamente, todavia ofende qualquer oculto principio da minha alma. E então desce em mim, surdamente, lentamente, a saudade antecipada do exílio impossível.”
Fernando Pessoa, “Livro do Desassossego”

Legenda: “Praia das Maçãs” de José Malhoa.