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quinta-feira, 23 de julho de 2026

VELHOS RECORTES

Um muito velho recorte de uma crónica de José Quitério no Expresso  de 28 de Maio de 2011.

Pelo Hotel Albatroz, frente ao mar, e por gins-tónicos, brevemente, voltaremos.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS


Hoje, as panelas, as frigideiras, os tachos, fazem uma breve homenagem a José Quitério que há uns anos, por motivos de doença. Deixou de publicar as suas excelentes e únicas críticas de gastronomia que publicou no semanário Expresso.

Trata-se de um recorte (incompleto) encontrado na revista Ler do Inverno de 1989.

Fala de caldo verde e de Camilo Castelo Branco.

Gosto de caldo verde - «sábia simbiose entre um caldo de puré de batata, que não se quer em exagero, e a couve galaga finamente segada e abundante, tudo espevitado pelo azeite puro e a rodela de salpicão ou de chouriço caseiro», José Quitérito dixit

Mas os mercados de Lisboa, excepção ao de Alvalade e ao 31 de Janeiro, já não existem e aí se comprava a couve galega cortada à vista do cliente. As embalagens de caldo verde que hoje se vendem nos supermercados, são um embuste.

Quanto a Camilo, lamentavelmente, não lhe dei a mesma atenção de leitura que dei a Eça de Queiroz. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PAPNELAS


Nunca gostei de «chefs», sejam eles de onde forem, façam lá as «maravilhas» que lhes dê na real gana.

Aprendi com o José Quitério: sempre gostei de cozinheiros.

domingo, 6 de outubro de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Desde 1976, a crítica gastronómica do Expresso é feita a partir de visitas anónimas, sendo pagas pelo jornal todas as refeições e deslocações.

Quem iniciou a função foi José Quitério.

E desde as primeiras linhas não se preocupou apenas com os pratos que degustou, os vinhos que bebeu.

Enrolou tudo numa escrita cativante que tratava a gastronomia com uma cultura geral admirável, que deixou marcas e alguns seguidores.

Segundo Mário de Carvalho «José Quitério é um dos grandes prosadores do nosso tempo. Porventura o maior. Um jornalista? Sim, um jornalista, um escritor, um erudito, um homem de cultura, um excelente conversador.»

Neste folheto, que aparece hoje em Olhar as Capas, debruçamo-nos sobre um «velho» restaurante de Lisboa, «O Funil», na Avenida Elias Garcia nº 82-A:

«É grato e reconfortante fazer escala num porto seguro, sem afunilamentos, onde há respeito pela gustação e pela bolsa. Que se revisita sempre com o mesmo alvoroço festivo com que se reencontra um amigo velho.»

Legenda: pintura de Giovani Stanchi

OLHAR AS CAPAS


100 Restaurantes/100 Vinhos

José Quitério

Expresso, Lisboa, 1998

A lista de 100 restaurantes que de seguida o EXPRESSO oferece aos seus leitores é a actualização de outra editada e distribuída juntamente com o jornal de 11 de Novembro de 1995. Dos então selecionados saíram 25, entrando naturalmente outros tantos. A ficha técnica de todos os agora mencionados reporta-se a Dezembro de 1997.

Convém recordar alguns avisos à navegação gastronómica. Esta nnão, uma escolha fundamentada dos melhores, mesmo tendo em conta a subjectividade inerente. Outros haverá – num país com mais de quarenta mil restaurantes e similares – que ficam de fora por ainda não se conhecerem, outros que beneficiaram da proximidade, outros que foram vítimas da distância, no sentido em que a possibilidade de visitas mais frequentes garante maior fundamentação aos juízes de valor.

Por outro lado, este é um sector altamente instável. Mudam-se proprietários, transferem-se cozinheiros, extinguem-se subitamente casas (muitas vezes por obra de quem nunca as devia ter aberto), adormecem ou degradam-se outras, modificam-se os estilos em prol de modismos duvidosos. Numa área em que o vector fundamental é uma arte que se consome imediatamente e se extingue após o acto da criação, captar tais efemeridades e inconstância, valorá-las e, ponto fulcral, manter essa classificação actualizada, é tarefa habitualmente só al alcance de uma equipa, obviamente competente, em dedicação exclusiva.

Cumpri este trabalho sozinho e assumo a respectiva responsabilidade.

sábado, 27 de julho de 2024

CONVERSANDO

Numa das suas excelentes críticas de Gastronomia que José Quitério deixou nas páginas do Expresso, um dia deixou reparo.

O menú do restaurante só exibia pratos de peixe e carne em ritmo de grelhados.

O excelso crítico concluía: quando assim acontece, ficamos a saber que o cozinheiro não quis trabalhar!

Por este Cais, quando se abusa de citações de livros e jornais, os viajantes poderão concluir que o escriba não esteve para se chatear!...

Mas, de facto, está um calor infernal!...

Volta e meia sente uma dorseca nas costas, onde quer que seja!...

Uma das coisas de que tem medo nesta já velhice, não é o repetir-se, antes certa decadência mental, o começar a dizer disparates sem dar dar conta…

quinta-feira, 2 de maio de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Há uma frase de Jorge Calado lida não lembro onde:

«O primeiro sintoma duma cultura é a culinária. Diz-me o que comes, dir-te-ei quem és.»

Para continuar uma outra frase, esta do jornalista Rodrigues da Silva, que há algum tempo nos deixou:

«…em miúdo, atraído pelo cheiros e antegozando os sabores, metia o bedelho na cozinha, minha mãe corria comigo de lá, dizendo-me assim: «Aprende a fazer o refogado, que depois mexes no tacho».

 Sempre gostei de comer em tascas, tabernas.

Liquidaram-nas. Umas viraram frutarias, outras bancos, outras lojas de artesanato, outras reles snacks, também restaurantes a armar ao pingarelho.

Deixei-me de comer em restaurantes. Cansaram-me Gosto de comer em casa. Coisas simples, insuportavelmente domésticas, banais, fáceis. Acresce que, nos restaurantes, para além de se comer mal, ou não comer muito bem, somos indecentemente roubados, pagamos balúrdios por coisas de nada. Dos vinhos nem se fala. Aquilo não é ganhar dinheiro, é roubar!...

Mas quando era miúdo, quando se comia fora, era uma festa.

O livro que trouxemos hoje ao Olhar as Capas, é um dos que constam na Biblioteca da Casa para acompanhar as experiências que vamos fazendo na arte petisqueira e serviram na perfeição nos tempos em que a Aida teve uma taberna em Almoçageme

A sugestão fomos encontrá-la no mestre José Quitério:

«Publicado em 1904, o Tratado conheceu êxito sólido. Quando apareceu, o último grande livro de culinária de autor português era o de João da Mata, de 1876, muito mais virado para a alta cozinha de recorte evidentemente francês. O Bento da Maia (como passou a ser identificado) é, sobretudo, uma súmula da cozinha burguesa que não descura a popular e regional portuguesa. Além das novecentas e quarenta e quatro receitas de iguarias diversas e das cento e noventa e oito dos doces, oferece amplos ensinamentos sobre tudo quanto se relaciona com a cozinha e a mesa, de maneira acessível para principiantes. Esta última característica valeu-lhe a popularidade: era o livro que se oferecia às noivas, para que pudessem trazer os maridos bem presos à rédea curta da boa petisqueira caseira.»

domingo, 26 de março de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


O meu pai sempre me foi dizendo que não devíamos emprestar livros, porque na maior parte das vezes não voltavam ao lugar da estante.

Mas também falava da cara com que não lhe apetecia dizer que não. Porque alguns amigos ainda tinham menos posses que ele, não tinham quase dinheiro para comprar comida quanto mais livros. Havia os que estavam nos calabouços salazaristas da PIDE e necessitavam de livros para ajudarem os dias malditos.

Daí ter encontrado livros, com ficha feita, que não ocupavam as prateleiras na Biblioteca da Casa, nem qualquer indicação a quem tinham sido emprestados.

Emprestei livros, uns regressaram, outros não, mas agora o dilema já não existe, porque sabe-se que 56% dos portugueses não leram um único livro durante o passado ano.

No entanto aconteceu-me que, quando aqui falei na companhia que fazia ao meu avô nos programas televisivos da Maria de Lurdes Modesto, necessitei de consultar o «Livro de Bem Comer» do José Quitério.

Voltas e mais voltas e do livro nem sombras.

Claro que metade do meu cérebro já não funciona, mas emprestar o livro do Quitério a quem?

Há dias, fui até à Rua Passos Manuel na expectativa de, na Assírio & Alvim encontrar por lá algum exemplar. Está esgotado, mas a amável trabalhadora da livraria, falou-me da existência de uma edição que reunia o «Livro de Bem Comer» e «Histórias e Curiosidades Gastronómicas».

É este o livro, editado em Maio de 2015 e que já vai em 3ª edição.

Em «Nota Posfacial», José Quitério explica:

«Livro de Bem Comer foi publicado em 1987 e «Histórias e Curiosidades Gastronómicas» em 1992. Fizeram sem pressas os seus caminhos e acabaram naturalmente por esgotas. Durante muito tempo não anuí à sugestão do editor para os reeditar. Com o passar dos anos e o galopante aumento de interesse por estes temas, fui admitindo tal possibilidade, sobretudo porque verifiquei que continuavam a ter serventia, traduzida na muita gente que vinha beber destas águas, bastas vezes sem citar a fonte. Relidos os textos, também cheguei à conclusão que talvez não merecessem não ficar sepultados e poderem ser conhecidos pelos interessados da nova geração.

É assim que, decorridos respectivamente 28 e 23 anos, surge agora Bem Comer & Curiosidades». Não é uma mera junção dos dois. Foram retirados todos os textos de cariz estritamente literário-gastronómico, que entretanto enformara, acrescidos de vários outros, o livro Escritores à Mesa (e outros artistas), de 2010. Eliminaram-se alguns, adicionaram-se muitos mais, todos os originais foram sujeitos a revisão, expurgo e amiúde a ampliação.

Aqui fica. Obra definitiva e crê-se de registo histórico da cultura gastronómica portuguesa.»

De José Quitério disse José Cardoso Pires que «é um dos nossos prosadores vivos de mais inteligente qualidade», enquanto Mário de Carvalho afina pelo mesmo diapasão de Cardoso Pires, mas acrescenta «Porventura o maior».

Deliciava-me com as crónicas que durante largos anos: José Quitério publicou no «Expresso».

A inteligência é sempre um prazer!

OLHAR AS CAPAS


Bem Comer & Curiosidades

José Quitério

Capa: O Pássaro e as Sombras, Fresco, Século I, Pompeia

Sistema Solar, Lisboa, Abril de 2022

Mito celulóidico, fantasma erótico de várias gerações, mulher fatal e total, Sophia Loren também pratica o amor com culinária. Em 1968, aproveitando repouso forçado por via de maternidade intrincada, deu à luz In Cucina com Amore, súmula de recordações e experiências gastronómicas. Aí enuncia os seus oito mandamento da coacção das massas. Para que fiquem como devem ficar: al dente, isto é, a oferecerem ainda resistência à dentadura na altura de serem comidas. Aà dentadura na altura de serem comidas. A saber:

1º - Cozê-las em panela grande com muita água.

2º - A água deve ferver em cachão e põe-se-lhe um pouco de sal quando entra em

 ebulição.

3º - Aumentar o fogo no momento em que se põe a massa na água fervente – diz Sophia  que é este o grande segredo napolitano.       

4º - Remexer as massas para que fiquem bem separadas umas das outras.

5º - Vigiar a cozedura. Desconfie dos tempos que vêm indicados nas embalagens Trincar a massa para saber se já está al dente

6º - Antes de retirar a água, pôr na panela um fio de azeite.

7º -  Sacudi-las bem no passador para que a água escorra toda.

Já está como ensinas, Sophia. Só falta o amore… 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

CONVERSANDO


 Dando destino aos jornais e revistas que se vão acumulando por aqui e por ali, dei com um Fugas do Público de 23 de Julho de 2022 em que Edgardo Pacheco escrevia o obituário de Maria de Lourdes Modesto.

«Conheci Maria de Lourdes Modesto, que morreu esta terça-feira aos 92 anos, em meados dos anos de 1990, num dos Congressos de Gastronomia do Minho, organizados por Francisco Sampaio e Nuno Lima de Carvalho. Eram encontros estupendos porque, entre debates sobre papas de sarrabulho e as estratégias para o turismo termal, havia sempre tempo para se chegar a estados etílicos alegres e em diferentes escalas, tais eram as solicitações das adegas da região para a aferição da qualidade do Alvarinho, do presunto e dos enchidos variados.

O grupo de Lisboa ia para o Minho num autocarro fretado. À frente, os palestrantes, a meio, uns eruditos (com o jornalista António Valdemar à cabeça) e, atrás, a maralha, liderada por esse pândego cativante que era o Hélder Pinho – conhecido no universo gastronómico como Dom Pipas (Capital).»

Guardei o recorte porque a sua morte mandou-me para os tempos dos meus 13/14 anos em que determinados programas, na televisão Nordmend, a preto e branco, não tinham outros assistentes que não o avô, eu e o gato Trafaria.

Ali ficávamos os dois, o Trafaria, ronronando, aconchegado nos joelhos do meu avô, olhando as habilidades culinárias da então colaboradora semanal da televisão-canal-único, a sua simpatia, o trato fácil, excelente comunicadora, era professora no Liceu francês, os seus gestos, o seu grande sorriso, o gosto pela cozinha alentejana, Beja a viu nascer, um tempo em que não havia «chefs», apenas cozinheiro(a)s que falavam do que portuguesmente queriam saber, e José Quitério no seu  Histórias e Curiosidades Gastronómicas, chamou a Maria de Lourdes Modesto, uma das cada vez mais raras Guardiãs do Fogo.

Mas o recorte também ficou guardado porque Edgardo Pacheco falava do Helder Pinho, meu grande amigo, jornalista, desde os primeiros números, de A Capital, das andanças e trangalhadanças de D. Pipas.

Saudades.

Curiosamente, há dias, guardei uns recortes em que Jorge Pereirinha Pires, no «Expresso» escrevia sobre os portugueses na Califórnia («O primeiro europeu a chegar à costa da actual Claifónia foi, como, como se sabe, João Rodrigues Cabrilho. Natural da freguesia de Cabril, perto de Pitões das Júnias, no concelho de Montalegre.») e onde era referido o nome de Helder Pinho e o livro, Portugueses na Califórnia, que reuniu as reportagens que realizou para A Capital», com prefácio de Jorge de Sena.



Do prefácio de Jorge de Sena, e sabe-se que Sena não era homem de elogio fácil:

«Pede-me Helder Pinho algumas palavras de apresentação do seu livro sobre os portugueses na Califónia que ele publicou por Abril e Maio do corrente ano (1977), no jornal A Capital, e que representavam a soma das suas pesquisas e contactos de jornalista consciencioso e lúcido como poucos, para tão complexo tipo de reportagens jornalisticas e/ou literárias. Pelo que até aqui já vai dito é óbvio que os contactos que com ele tive já vai dito é óbvio que os contactos que com ele tive, o modo como o vi actuar, o que ouvi da actuação dele junto das várias pessoas, e os textos que li atentamente e com prazer e enorme proveito (quem de todos nós faz deste estudos brilhantes e ao mesmo tempo da funda seriedade e sólida documentação, se escreve de gentes e lugares que foi ver só para escrever deles?), me fazem julgar o autor como um admirável e os artigos que ele publicou como nada de efémero, e sim como essencial base documental para entender-se o problema dos portugueses e seus descendentes no estrangeiro, e em particylar na América do Norte.»

Conversando, o meu amigo Helder Pinho, Jorge de Sena, o meu avô, o gato Trafaria, Maria de Lurdes Modesto, a rara Guardiã do Fogo, como lhe chamou José Quitério, uma televisão Nordmend, a preto e branco, comprada a prestações, que levou anos e anos a pagar, e o primeiro programa que nessa televisão vi, «Nat King Cole Show» e em boa hora isso aconteceu, memórias e mais memórias…

sábado, 22 de agosto de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

OLHARES

Aqui era o Quebra-Bilhas.

José Quitério, num artigo no Expresso, escrevia:

O Quebra Bilhas mantém muito do seu encanto de outras idades. O largo portão verde, fronteiro ao plácido plátano, abre para o primeiro compartimento, onde, a par da cozinha, se conserva felizmente um daqueles belos balcões das tabernas antigas, todo corrido e de mármore, e duas largas mesas . Outra sala, mais convencionalmente a refeiçoar, oferece uma simplicidade airosa revestida de artefactos de sabor caseiro. Grande, grande é o quintal-esplanada, de chão empedrado, abrigado por generosos toldos de parreiras e árvores de forte porte, local único e riqueza inestimável para o tempo ameno, daqueles recantos que parecem terem sido feitos, e são eleitos, para os prazeres da mesa, da bebida e do convívio.

Foi em Abril de 2006 que o Quebra-Bilhas, sito na Rua do Campo Grande nº 312, e um dos mais antigos restaurantes de Lisboa, data de 1793, fechou portas.

O proprietário é o Centro Cultural do Campo Grande, sediado no palacete contíguo ao restaurante do número 321, uma instituição da Opus Dei, que, até hoje, não soube, ou não quis, dar-lhe um destino. 


A festa de despedida de solteiro do Cândido.

Lembro-me que estava uma noite maravilhosa de Junho de há muitos anos, talvez 30, o petisco foi no quintal paradisíaco do Quebra-Bilhas, e a noite acabou na Feira Popular, que já não existe, a jogar matraquilhos, para além de outras aventuras.

Lá muito mais para trás, quando miúdo, depois dos jogos do Benfica no Campo Grande, a velha estância de madeira, ia com o meu avô ao Quebra Bilhas comer sandes de presunto. O meu avô bebia um copinho de vinho branco e para mim era uma gasosa, mas mesmo gasosa, da Pizões Moura, com o castelinho em rótulo azul. 

O rótulo vermelho era para a água mineral que ainda hoje existe.

Diga-se, no entanto, que a ida ao Quebra Bilhas depois da jogatana, só acontecia se o Benfica ganhava.

Nem o empate dava para a sandes e a gasosa.

Texto publicado em 7 de Outubro de 2016

quinta-feira, 26 de março de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Que raio a diferença que um dia faz?

Têm sido tão iguais os dias, as mesmas rotinas…

Os políticos europeus reuniram-se, via televisão, para encontrarem uma saída para esta terrível crise.

Mas há políticos nesta Europa comunitária? No mundo?

Se há, não prestam para nada!

Ao princípio era tudo união, solidariedade.

Words, words, words, tal como escreveu o velho Shakespeare.

Agora, cada um puxa para o seu lado.

Tal como no futebol: são onze contra onze e no fim ganha a Alemanha.

Políticos nos tempos de hoje, são uns tipos que prometem construir pontes mesmo onde não há rios.

Mas sempre foi assim!

Detesto hipocrisias e os dias de quem detesta hipocrisias, ficam muito limitados.

«Então porque bebo? – perguntava-se o velho escritor – É o medo de estar lúcido!

Que raio a diferença que um dia faz?


 1.

Anselmo Crespo no Diário de Notícias-on line:

«A resposta da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu, até agora, podia ser anedótica, se isto desse vontade de rir a alguém. Resume-se a isto: 7,5 mil milhões de euros que cabem na cova de um dente - e que nem sequer é dinheiro novo - e o fim do limite dos 3% de défice, que, durante anos, só alguns é que estavam obrigados a cumprir.
Devagar - muito devagarinho -, Bruxelas começa a retomar uma discussão que começou com a crise de 2008, sobre a mutualização da dívida e a que agora chamaram os "coronabonds". Mas sem pressa, que não há motivos para alarme.
O Banco Central Europeu, que promete fazer tudo o que for preciso, ainda não mexeu uma palha.»

2.

José Miguel Júdice defende que o Presidente da República deve promover uma aliança entre o PS e o PSD para enfrentar a crise provocada pela pandemia.

«O Presidente da República deve ser a figura cimeira na montagem dessa solução», disse, na SIC, o ex-dirigente do PSD.

Júdice entende que a esquerda vai fazer «exigências irrealizáveis» e que a única solução é um Governo do Bloco Central.

3.

 «Hospitais privados exigem que o Estado pague já todas as dívidas,» lê-se no Público.

4.

Gordon Ramsay, «chef» da alta cozinha britânica, anunciou que, por causa do coronavírus, os seus restaurantes iam fechar, agradeceu à sua «maravilhosa» equipa de colaboradores e no final da reunião despediu os seus 500 trabalhadores.

Nunca gostei de «chefs», sejam eles de onde forem, façam lá as «maravilhas» que lhes dê nas brilhantes cabecinhas

Aprendi com o José Quitério: sempre gostei de cozinheiros.

4.


Para o findar do dia, buscar este livrinho de Tolstoi:

«E a dor? – perguntou a si mesmo. – Que é dela? Então, dor, onde estás tu?»
Ficou atento.
«Sim, cá está ela. Pois bem, deixá-la doer.»
«E a morte? Onde está ela?»
Procurava o seu habitual medo, o anterior medo da morte e não o encontrava. Onde está ela? Qual morte? Não tinha medo nenhum, porque também não havia morte.
Em lugar da morte havia uma luz.
-É então isto! – disse ele de súbito em voz alta. – Que alegria!
Para ele tudo aquilo aconteceu num único instante e o significado desse instante já não mudou. Mas para aqueles que estavam presentes a agonia dele prolongou-se ainda por duas horas. Qualquer coisa fervilhava no peito dele; o seu corpo extenuado estremeceu. Depois o fervilhar e os estertores tornaram-se menos frequentes.
- Acabou-se ! – disse alguém por cima dele.
Ele ouviu estas palavras e repetiu-as na sua alma. «Acabou-se a morte – disse a si mesmo. – Já não existe.»
Inspirou o ar, parou a meio de um suspiro, esticou-se e morreu.»

5.

Os terríveis números:

Itália

8. 215 mortes

Espanha

4.365 mortes

China

3.169 mortes 

Irão

2.234 mortes

França

1.696 mortes

Portugal

60 mortes

Mundo

23.004 mortes

6.

Fechar, hoje, com Cecília Meireles:

«Às vezes abro a janela e encontro o jasmieiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como reflectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.»

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

VELHOS RECORTES


Em arrumações, fui dar com uma caixa em que, no meio de himalaias de papelada encontrei, algumas crónicas sobre vinhos e comidas de José Quitério publicadas no Expresso.

José Quitério é um homem de cultura, telúrico, ético, que por finais do ano de 2014 teve de deixar de fazer as suas crónicas de apreciador de comida, como ele gostava de dizer em vez de gastronomia, que é palavra gasta e confusa.

Disse, então ao Baptista-Bastos: «Estou quase cego.»

Foram 38 anos a deliciar-nos com escrita de mestre e era a única coisa que valia a pena ler no semanário de Pinto Balsemão.

Esta crónica sobre a Solmar, foi publicada no Expresso de 8 de Fevereiro de 2014.

domingo, 11 de junho de 2017

À MESA



Texto de Maria Leonor Nunes publicado no JL, s/d

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

OLHARES


Aqui era o Quebra-Bilhas.

José Quitério, num artigo no Expresso, escrevia:

O Quebra Bilhas mantém muito do seu encanto de outras idades. O largo portão verde, fronteiro ao plácido plátano, abre para o primeiro compartimento, onde, a par da cozinha, se conserva felizmente um daqueles belos balcões das tabernas antigas, todo corrido e de mármore, e duas largas mesas . Outra sala, mais convencionalmente a refeiçoar, oferece uma simplicidade airosa revestida de artefactos de sabor caseiro. Grande, grande é o quintal-esplanada, de chão empedrado, abrigado por generosos toldos de parreiras e árvores de forte porte, local único e riqueza inestimável para o tempo ameno, daqueles recantos que parecem terem sido feitos, e são eleitos, para os prazeres da mesa, da bebida e do convívio.

Foi em Abril de 2006 que o Quebra-Bilhas, sito na Rua do Campo Grande nº 312, e um dos mais antigos restaurantes de Lisboa, data de 1793, fechou portas.

O proprietário é o Centro Cultural do Campo Grande, sediado no palacete contíguo ao restaurante do número 321, uma instituição da Opus Dei, que, até hoje, não soube, ou não quis, dar-lhe um destino. 


A festa de despedida de solteiro do Cândido.

Lembro-me que estava uma noite maravilhosa de Junho de há muitos anos, talvez 30, o petisco foi no quintal paradisíaco do Quebra-Bilhas, e a noite acabou na Feira Popular, que já não existe, a jogar matraquilhos, para além de outras aventuras.

Lá muito mais para trás, quando miúdo, depois dos jogos do Benfica no Campo Grande, a velha estância de madeira, ia com o meu avô ao Quebra Bilhas comer sandes de presunto. O meu avô bebia um copinho de vinho branco e para mim era uma gasosa, mas mesmo gasosa, da Pizões Moura, com o castelinho em rótulo azul. 

O rótulo vermelho era para a água mineral que ainda hoje existe.

Diga-se, no entanto, que a ida ao Quebra Bilhas depois da jogatana, só acontecia se o Benfica ganhava.

Nem o empate dava para a sandes e a gasosa.

domingo, 16 de novembro de 2014

UM LUGAR DE AFECTO


José Cardoso Pires foi um entusiasta e feliz praticante dos bares de Lisboa.

Lembro-me dele, no cair das tardes, no British-Bar ou no Bar Americano, ambos no Cais do Sodré.

No seu Lisboa, Livro de Bordo refere-se a estes bares e estende o olhar até ao Procópio e ao Pavilhão Chinês:

“Fazer horas”, dizemos nós quando não temos outra coisa para fazer. Pausa de espera ou vazio imprevisto, para isso há lugares de recurso, que o digam os frequentadores dos bares, por exemplo, mas aí o tempo morto acaba muitas vezes em tempo vivo e pode até deixar de ser de espera. Na verdade, só o bebedor desprevenido acredita em enganar as horas, quando as horas é que nos enganam muitas vezes, contando a passo certo e batido um tempo para lá dos números.

Razões muito suas, José Cardoso Pires não refere o Snob.

O Snob faz agora cinquenta anos de existência.

Um pequeno anúncio, publicado no Diário Popular, entre frigoríficos e a Simone de Oliveira a actuar no Lado a Lado, boite de Tony de Matos, dava a conhecer que no dia 16 de Novembro de 1964, abria ao público na Rua do Século nº 178 o bar Snob.

Dias antes, a 13, ocorrera a inauguração privada,

Por ocasião dos 30 anos do Snob,  José Quitério escreveu um texto evocativo.

Chamou-lhe Lugar de Afecto:

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


O Tejo quando ainda tinha fragatas a passearem-se pelas águas e voavam golfinhos a caminho da Barra.
O José Quitério a falar dos prazeres de uma caldeirada, à fragateiro, na “Floresta do Ginjal”, com fragatas a entrarem-lhe pelos olhos dentro.
O grito das gaivotas, o vai-vem dos cacilheiros, um estado de espírito ondulado.
Esta fotografia deslavada foi tirada com um caixote-kodak,  a minha primeira máquina fotográfica, prenda, pelos meus 15 anos, do António Colaço.
Memórias doces e afáveis.