quinta-feira, 1 de outubro de 2026

CRONICANDO POR AÍ


Jorge Palma, Viale Moutinho e vozes que não se rendem

«Foi uma triste despedida do Verão, a dois dias de começar o Outono. Verão que levou com ele Jorge Palma, que parecia antecipar tal desfecho quando escreveu estas palavras, precisamente em Outono (estratégia da cigarra), a que ele chamou “a minha balada de estimação”: “Saboreei o que a vida me ofereceu/ tudo o que sinto é só meu/ eu nunca renunciei!/ e vou continuar a estratégia da cigarra/ cantando o Inverno a chegar.” Certa se mostrou a família, quando, ainda mal refeita da perda e a começar o luto, sugeriu: preservem-lhe a memória ouvindo as suas criações musicais.


Aquele Outono, ouvimo-lo em Norte (2004), o primeiro álbum que fez sem a pressão do álcool, que andava a atormentar-lhe a vida e a carreira. Reencontrara um Norte, sim, e num período (pós-11 de Setembro) de grandes angústias. Nesse Norte, escreveu em Optimista céptico (título que apanhou de uma frase de Saramago): “A hipocrisia deste novo império/ faz-me vomitar (…) só quero encontrar paz/ sem arrastar atrás nem mestre nem Deus” — e aqui saltava-nos à memória Ni Dieu Ni Maître, jornal anarquista francês fundado em 1880. Extraordinária, a capacidade de Jorge Palma ter um estilo tão próprio e soar como nenhum outro (é fácil perceber quando ouvimos alguém cantar “à Jorge Palma”) e, ao mesmo tempo, misturar na sua produção tantas inspirações e referências, de T. S. Elliot a Saint-Exupéry, de Lévi-Strauss a Tagore, de Prevért a Baudelaire, de Dylan e Cohen a Nino Rotta, de Paul Simon a Jacques Brel, de Van Morrison a Les Chats Sauvages, de Neil Young ou Tom Waits a Sérgio Godinho e José Mário Branco. E, no entanto, sempre Jorge Palma.

No álbum Com Todo o Respeito (2011), Palma enfrentou a morte numa canção, Agora não, ainda não — tal como Kurosawa no seu último filme, Madadayo (1993), filme que Palma desconhecia. Mas foi no seu derradeiro disco, Vida (2023), já depois de celebrar em palco 70 anos de existência (em 2021) e de revisitar os seus 14 álbuns numa maratona de seis concertos em Lisboa (2022), que voltou ao tema com vários cambiantes. Assim: “Vida/ causa de todas as coisas/ princípio de todo o princípio/ final de todos os finais/ nasce em mim.” Afastando, mas não iludindo, a existência da morte: “O futuro vem lá, sinuoso e matreiro/ e o que deixa antever não é convidativo”; ou “Vejo o princípio e o fim abraçados/ numa espécie de altar” (Espécie de altar); “Passos de anjo rumo ao destino final” (Uma estação no inferno); “Mais tarde temos plena consciência/ de que o final é sempre a sós” (Canção de vida); ou, irónico: “Seja lá quem for o meu cangalheiro/ tenha a atenção de me vestir a rigor” (Estróina); e “O fim está próximo, não há nada a fazer” (Plantas na Lua)..

Um dia depois de Jorge Palma, deu-se outra perda assinalável: a do escritor e jornalista José Viale Moutinho (1945-2026). Além das obras literárias e dos prémios que justamente o distinguiram, Viale Moutinho também escreveu sobre o mundo da música, assinando duas obras de referência: a antologia de canções de resistência à ditadura O Nosso Amargo Cancioneiro (Ed. Latitude, 1972, com reedição em 1973 pela Livraria Paisagem), que, muitos anos depois, já em plena democracia, deu origem ao livro Cancioneiro de Abril, editado pela Ulmeiro em 1999; e Memórias do Canto Livre em Portugal (Editorial Futura, 1975), “somatório de notas e cantigas” editado em plena euforia abrilista, com ecos de vozes que não se renderam às perseguições dos censores.


Por falar em euforia e em canções: não em Portugal, mas nuns Estados Unidos em efervescência pré-eleitoral, está anunciado para 3 de Outubro, num pavilhão de Columbia, Maryland, o Festival Power To The People, com nomes como Tom Morello, dos Rage Against The Machine (que o organizou), Foo Fighters, Dave Matthews, Joan Baez, Public Enemy, Cypress Hill, Stephen Stills ou Bruce Springsteen, como convidado especial.

Entrevistado por Desi Lydic no The Daily Show de Jon Stewart (o programa faz agora 30 anos), Morello definiu-o assim, como se anunciasse um manifesto político: “É um festival de paz, amor, justiça e música. Em tempos em que a guerra é celebrada, este é um festival de paz; em tempos em que a divisão e o ódio são a norma, este é um festival de amor; em tempos em que a injustiça é infligida todos os dias, aqui e no estrangeiro, este é um festival que celebra a justiça. E num mundo com imensa música má, só teremos bandas espectaculares.”


Jorge Palma concordaria: “Os músicos, tal como os pintores, poetas, artistas de teatro e cinema, já que têm tempo de antena, têm a obrigação de falar dessas coisas, de chamar a atenção para as desigualdades, para as injustiças, tudo”, disse ele ao PÚBLICO em 2007, quando publicou Voo Nocturno».

Nuno Pacheco no Público de 1 de Outubro

Legenda: Imagem do Público

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