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quarta-feira, 1 de abril de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Uma parte dos livros da Biblioteca da Casa foi comprada em alfarrabistas, feiras, sejam do livro ou de ocasião.

Duas vezes por mês o meu pai reservava as tardes de sábado para uma visita ao Fausto, alfarrabista com porta aberta, a meio da Rua Angelina Vidal, lado esquerdo de quem desce.

Mais ou menos os alfarrabistas sabiam o que vendiam, e os preços estavam de acordo com esse saber. Hoje pedem exorbitâncias por qualquer livro e que eles compraram por tuta e meia e, na maior parte das vezes, nem sabem de que tratam os livros, quem são os autores.

Hoje, no que foi a excelente Pastelaria Suprema, na Avenida de Roma, encontra-se a Re-Read, uma cadeia de livros espanhola que tem por slogan: "Livros quase novos a preços quase impossíveis".

Compram livros por um preço pífio e depois colocam, alguns, a preços bastamente acessíveis.

Passo por lá volta e meia e trago sempre um ou mais livros.

Foi o caso deste livro do Lauro António que me ficou por 4 euros e que se encontrava em falta nas as muito boas colecções das Publicações Dom Quixote que fui adquirindo quando saíam e custavam  35 escudos, ao cambio de hoje seria 1 euro e 75 cêntimos.

O que acima se vê, é o recibo do então comprador-assinante, a 15 de Fevereiro de 1970 do livro do Lauro António e, curiosamente no topo pode ler-se:

Publicações Dom Quixote- Sociedade Editora Abecassis, Lda.

Trata-se de Snu Abecassis que a Wikipédia diz quem foi:

«Ebba Merete Seidenfaden, mais conhecida como Snu Abecassis, foi uma editora dinamarquesa. Fundou as Publicações Dom Quixote, editora que se notabilizou por publicar livros considerados de esquerda, com ideias contrárias à ditadura do Estado Novo.»

Mais:

« Filha de um casal de jornalistas dinamarqueses, Erik Seidenfaden e Jytte Kaastrup-Olsen, desde pequena foi chamada de Snu, que quer dizer "esperta" na língua dinamarquesa.

Em 1961, casou-se com o português Alberto Vasco Abecassis. Mudou-se para Portugal passado um ano e aí nasceram os três filhos do casal: Mikaela Linea, Ricardo Fortunato e Rebecca Sofia. Em 1965, sob sua direção, foi fundada a editora Publicações Dom Quixote, em Lisboa.

Já em época pós-revolucionária, Ebba começou a relacionar-se com o também casado Francisco Sá Carneiro. Conseguiu divorciar-se de Abecassis, mas Sá Carneiro não conseguiu obter o divórcio. Apesar disso, começaram a viver juntos e também juntos vieram a morrer no dia 4 de dezembro de 1980, no acidente de Camarate, que para além de Snu e Sá Carneiro, vitimou Adelino Amaro da Costa. Isto quando os três se dirigiam para o encerramento da campanha presidencial de António Soares Carneiro. Snu contava então 40 anos de idade.»

Foi realmente uma excelente editora que, mercê de certas ligações ,se movimentava bem entre a clique da ditadura,  conseguindo coisas de esquerda que eram rigorosamente proibidas a outros editores.

Cada volume da Dom Quixote trazia estes postais de encomenda que outras editoras como a Seara Nova, a Portugália, as Publicações Europa-América também praticavam. 


domingo, 7 de dezembro de 2025

ASSIM ERA E NÃO O QUE HOJE É...


Para Luís Montenegro e seus acompanhantes, recorda-se o que Sá Carneiro quis que o então P.P.D. fosse.

Legenda: folheto da exposição que a Ephemera tem patente na Mitra em Lisboa até 31 de Janeiro de 2026

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

VELHOS RECORTES


Sempre me considerei de esquerda, nunca de centro-esquerda.

Isso não invalida de modo algum que me interesse por tudo o que diz respeito à história do meu país, a de ontem e a de hoje.

Pela casa existe um vasto dossier sobre Francisco Sá Carneiro.

Por mera curiosidade apresentarei dois ou três documentos, bem como pormenores de uma entrevista de 3 páginas que Sá Carneiro deu ao República de 11 de Janeiro de 1972 com o título: «Sá Carneiro – Até agora não vejo que tenham sido realizadas as reformas indispensáveis no sentido de assegurar a efectiva existência dos direitos e liberdades da pessoa, nem o equilíbrio dos poderes».

Alguns destaques da entrevista;

«Um socialismo que respeite a liberdade e a dignidade da pessoa humana e que seja, portanto, nesse aspecto, um socialismo perfeitamente consentâneo com o personalismo parece-me indispensável no mundo de hoje.»

«Se amanhã me pudesse enquadrar em qualquer partido, estou convencido de que, dentro dos quadros da Europa Ocidental, comummente aceites, iria pata um partido social democrata.»

«Não prevejo a possibilidade de acção política depois de terminado o mandato.»

«Os partidos políticos são uma constante que se tem revelado indispensável não só ao sufrágio, como à própria existência de vida política ligada ao parlamentarismo.»



«Não vejo sequer que uma mudança de pessoas alterasse a situaçãp de manutenção do regime.»

O jornalista do República faz uma última pergunta a Sá Carneiro:

- O que irá pensar o Prof. Marcelo Caetano se ler esta entrevista?

- Não faço a mínima ideia.

OLHARES


Até dia 31 de Janeiro está patente na Lisboa Social Mitra, ao Beato, a exposição “Francisco Sá Carneiro e a Construção da Democracia Portuguesa”, organizada pela Associação Cultural Ephemera, com curadoria e textos de José Pacheco Pereira.

 Grosso modo a Social-Democracia surgiu na classe operária no último terço do século XIX com o objectivo de chegar ao socialismo, na luta pela melhoria das suas condições de vida mas aos poucos forram-se tornando gestores dos interesses dos monopólios.

José Pacheco Pereira é de opinião que o PSD de Montenegro, o PSD dos últimos largos anos, não tem nada a ver com o partido criado por Sá Carneiro, Francisco Balsemão e Magalhães Mota, que nunca o consideraram um partido de direita, antes um parido de centro esquerda.

Através da Exposição pode ver-se o caminho de Sá Carneiro  antes do 25 de Abril e durante o PREC, como diversos documentos do espólio pessoal de Sá Carneiro guardado pela sua secretária pessoal, Conceição Monteiro.

Como conta José Pacheco Pereira:

«Em 2009, fui contactado por Conceição Monteiro que me perguntou “se eu queria uns papéis de Sá Carneiro”. Disse logo que sim, convencido que era uma pasta ou duas. Quando fui pela primeira vez a casa onde se encontrava o Espólio verifiquei que era o seu arquivo pessoal contendo documentos fundamentais sobre a história da democracia portuguesa, do PSD, e dos governos da AD, centrados na figura de Francisco Sá Carneiro, desde a década de 70, ainda em ditadura, até à sua morte em 1980.»

O cartaz que acima se vê, está numa das paredes da Exposição e mostra o que os seus fundadores entendiam do então PPD:

O PPD NÃO É UM PARIDO MARXISTA

O PPD NÃO È UM PARTIDO REVOLUCIONÁRIO

O PPD É UM PARTIDO DE CENTRO ESQUERDA 

O que nos coloca muito longe do que é o agora o PSD comandado por Luís Montenegro e seus rapazes, com um Pedro Passos Coelho, na sombra de uma esquina, a aguardar o tempo exacto de entrar em cena.

sábado, 7 de dezembro de 2024

100 ANOS DO NASCIMENTO DE MÁRIO SOARES


 Os políticos não são gente consensual.

Não o foi Mário Soares, nem Álvaro Cunhal, nem Sá Carneiro, nem Freitas do Amaral.

Foram apenas políticos, algo em vias de completo desaparecimento e que tanta falta nos vai faltando.

Veja-se Cavaco Silva, presente na cerimónia do 25 de Novembro na Assembleia da República, ausente na homenagem que a mesma Assembleia prestou nos 100 anos do nascimento de Mário Soares.

 Legenda: Mário Soares e Maria Barroso, no 25 de Abril de 74, a chegarem, de comboio, vindos de Paris, à Estação de comboios  de Santa Apolónia.

terça-feira, 30 de abril de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


 30 de Abril de 1974

 Sim, amanhã é mesmo dia de festa.

Com ironia, Mário Viegas dirá que o 25 de Abril dele acabou no dia 2 de Maio.

Alguém, que não recordo agora o nome, disse que do 25 de Abril até ao 1º de Maio devo ter dormido, mas não me lembro. Na verdade, o dia mais longo da minha vida não foi bem um dia: começou naquelas horas vertiginosas do dia 25, até ao 1º de Maio, e que continuaram a sê-lo durante uns meses.

Por fim, uma outra citação anónima:

Quem não viveu, esqueceu ou renunciou às delícias das ilusões desses grandes dias nunca vai conhecer o exacto perfume das flores.

Em todas os jornais podem ler-se chamadas de atenção para que, nas manifestações do 1º de Maio, o povo e os trabalhadores, tivessem cuidado com eventuais provocadores.

Esta veio publicada no Diário Popular:


Na véspera, na RTP, Sá Carneiro deu uma entrevista com um blá-blá-blá de que Mário Castrim não gostou muito, e escreveu:

Diário de Lisboa lembrava que, no 1º de Maio, as padarias e os depósitos de pão estavam encerrados: e colocava em título:

Constante das notícias deste dia, o regresso a Lisboa, vindo do exílio, de Álvaro Cunhal.

Nas páginas interiores do República podia ler-se que certa gente começava a deixar as garras de fora.

A Junta de Salvação Nacional veio publicamente salientar que os trabalhadores dos CTT eram alheios a quaisquer diligências, actividades ou intervenção na violação da correspondência. Essa  violação era feita directamente pela PIDE-DGS, que requisitava aos CTT, a correspondência de suspeitos de actividades contra a ditadura.

Por decreto, a Junta de Salvação Nacional, dissolvia a Acção Nacional Popular e destituía o Chefe de Estado Américo Tomás e o Chefe do Governo Marcelo Caetano.

O almirante Henrique Tenreiro apresentou-se voluntariamente da Cova da Moura e ficou detido.

Na 1ª página de A Capital, uma fotografia mostrava a ex-comissária da Mocidade Portuguesa Feminina a entregar a José Manuel Tengarrinha a chave das instalações onde passaria a ficar sediado o M.D.P:


Na última página do Diário de Lisboa ficava a saber-se que o ex-pide Sachetti foi preso quando tentava passar a fronteira em Valença.

No Porto, um ex-pide suicidava-se.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

AS CULTURAS PERDEM COM QUASE TUDO...


 Finais dos anos 50, cheguei a ter um professor de Organização Política que amiúde dizia que a cultura era perigosa e que tivéssemos muita atenção. Comentando o caso com o meu pai, logo disse para me pôr a pau com essa gajada salazarista.

Depois fui aprendendo que a cultura não é um enfeite, antes uma ferramenta para entendermos o mundo.

Decididamente não podemos espantar-nos com as «ideias» (não) culturais dos nossos governos. Têm todos, sem excepção, um soberano desprezo pela cultura, não compreendem que o maior problema do país é de ordem cultural e não apenas de ordem económica e não conseguem distinguir um livro de uma abóbora.

Lembro que um dia, quando Sá Carneiro estava a constituir um dos seus governos, tinha de arranjar um secretário de estado da cultura. Vasco Pulido Valente seu adjunto, foi incumbido de encontrar o tal secretário. Como Sá Carneiro tinha de apresentar a lista do governo ao presidente Ramalho Eanes até às oito da noite, começou a enervar-se. Ligou ao Vasco: «Já tem o SEC?», respondeu um não. «Então vai você, porque não posso apresentar a lista incompleta». O amargo Vasco ainda lhe respondeu que ia ser um fiasco. E Sá Carneiro: «Se for um fiasco logo se vê, mas sempre se ganha tempo.»

Dos 4 ou 5 blogues que leio, O Largo da Memória está nessa lista. Gostei do que li hoje e aqui coloco o texto, dizendo que a fotografia também do é do Luís Eme:

 «Acendeu um cigarro e depois disse: «as salas de teatro voltaram a ter demasiados lugares vagos.»

Antes que eu o interrompesse,  explicou-nos o óbvio. «Sei que não é nenhuma novidade. Acontece sempre que aumenta o preço do pão, do leite, do peixe, da carne...»

E depois fez uma confissão: «É nestes momentos que tenho inveja do futebol. Não há nenhuma crise que consiga tirar os malucos das bancadas dos estádios.»

Levantou-se e antes de nos virar costas, ofereceu-nos mais meia-dúzia de palavras, com um sorriso que tinha tanto de amargo como de derrotista: «As culturas perdem com quase tudo...»

sexta-feira, 30 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ANTES DE MAIO


30 de Abril de 1974 

Amanhã será o primeiro 1º de Maio em liberdade.

Durante a ditadura, o 1º de Maio era um dia que trabalhadores e estudantes estavam impedidos de comemorar.

Mas com coragem e determinação, aqui e ali, sempre encontraram forma de o assinalar, se bem que sujeitos a brutal repressão: pedras e palavras de ordem contra bastões, espingardas, carros-de-combate-lanças-tinta-azul.

A mudança ia acontecendo, lenta, lenta, lenta, mas éramos tão poucos.

E onde estava aquele gente que, no amanhã de há 47 anos, encherá as ruas transformando-as num imenso oceano.

Os jornais de 30 de Abril de 1974, nas suas primeiras páginas, apelavam à serenidade do povo português nas comemorações do 1º de Maio, Dia do Trabalhador.

Na 1ª página do República podia ler-se: Só a disciplina dos Homens Livres destrói a “disciplina” do medo!». Nas páginas centrais uma outra frase: 

«A disciplina é a arma do Povo contra a opressão.»

Na 1ª página do Diário Popular: «O 1º de Maio é teu: conquistaste-o. Não deixes que possíveis provocadores alterem o dia que será uma festa de todos!»

Diário de Lisboa lembrava que, no 1º de Maio, as padarias e os depósitos de pão estavam encerrados: e colocava em título:

COMPRE HOJE O PÃO DE AMANHÃ

Diversas empresas faziam publicar anúncios de que iriam estar encerradas no 1º de Maio.



2.

A Junta de Salvação Nacional veio publicamente salientar que os trabalhadores dos CTT eram alheios a quaisquer diligências, actividades ou intervenção na violação da correspondência. Essa  violação era feita directamente pela PIDE-DGS, que requisitava aos CTT, a correspondência de suspeitos de actividades contra a ditadura.

 3. 

Concretamente em Lisboa, populares continuam a perseguir os pides.

 Aparecem os primeiros desmentidos de quem estava a ser acusado de pertencer à Legião, à PIDE/DGS, ou tinham sido informadores da polícia política.

 Alguns eram acusados, por vizinhos, conhecidos, como mera vingança pessoal.

Começavam, por isso, os desmentidos.

 Este podia ler-se em A Capital:

 «O antigo “boxeur” Licinio Sena deslocou-se à nossa redacção, acompanhado do capitão Nuno Santos Silva do Movimento das Forças Armadas, do seu chefe no Tribunal de Contas, onde trabalha, e do seu filho, para nos declarar que não era agente da Pide.»

 Outros optavam pela publicação, como publicidade paga, de anúncios deste teor:




Sobre este tipo de incidentes, o Diário de Notícias, publicava, na 3ª página, uma local que titulou como: Enganos lamentáveis:

No clima de justa euforia em que actualmente se vive na nossa cidade, um dos principais alvos da população – o que, por vezes, gera alguma violência – tem sido a descoberta de elementos da extinta DGS e ainda não detidos.

Mas, se em muitos casos, se verificou que os indivíduos apanhados eram realmente daquela corporação policial, noutros ocorreram enganos que poderiam tornar-se lamentáveis, se não fosse a intervenção das forças militares.»

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

... E OS DIAS DIMINUEM


Os dias continuam a diminuir.

Portugal ultrapassou, hoje, as 5.000 mortes por Covid-19.

Uma frase de José Saramago:

«Nada me chateia mais do que ouvir um político dizer que não devemos criara alarme social. A sociedade tem de estar alarmada, que é a sua forma de estar viva.

Marcelo Rebelo de Sousa confirmou, hoje, a recandidatura à Presidência da República:

«Quem avança para esta eleição é exactamente o mesmo de há cinco anos.»

Na semana passada, Marcelo Rebelo de Sousa, 40 anos depois da morte de Sá Carneiro, manifestou frustração por não se ter provado se foi acidente ou crime.

Mas não deixou de referir a convicção que o desastre de Camarate foi um atentado.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

OS IDOS DE NOVEMBRO DE 1975


20 de Novembro de 1975

Apenas hoje, Pinheiro de Azevedo revelou a Costa Gomes a suspensão do VI Governo Provisório.


Reunidos no restaurante Chocalho, em Santos-o-Velho, militares afectos ao Grupo dos Nove, Mário Soares, chegam à conclusão que a auto-suspensão do VI Governo Provisório talvez seja um caminho para resolver a situação do País.

Dão conta da decisão a Pinheiro de Azevedo, que concorda com ela.

Às 15 e 30 começa no Palácio de Belém, sob a presidência de Costa Gomes, uma reunião do Conselho da Revolução para decidir da viabilidade, ou não, do VI Governo Provisório continuara em funções.


Milhares de populares começam a concentra-se frente ao palácio protestando contra a atitude tomada pelo governo de se auto suspender. Os manifestantes exigem a demissão imediata do governo e a instauração do poder popular.




Os manifestantes exibem cartazes ode se lê: O SEXTO ESTÁ ROTO. BASTA!

Já perto da meia-noite o Presidente Costa Gomes fala aos manifestantes:


As posições estão extremadas.

Pinheiro de Azevedo, depois da audiência com Costa Gomes e, perante os jornalistas e as câmaras de televisão, disserta:

Estou farto de brincadeiras. Fui sequestrado duas vezes, já chega! Não gosto de ser sequestrado, é uma coisa que me chateia!... Está convocada uma manifestação de trabalhadores para as quinze horas aqui em frente de Belém… Eu julgo que é de apoio ao senhor Presidente da República contra o VI Governo, que é o costume deles… Eu não tenho nada que ver com o sr. General Otelo! Não me interessa coisa nenhuma. O senhor general Otelo não me resolve coisa nenhuma! A mim não me interessa nada.
Cerca das 2 horas do dia 20 de Novembro o Conselho de Ministros emite um comunicado onde dá a conhecer aos portuguesas a suspensão do exercício da sua actividade governativa até que S. Exª o Presidente da República e Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas lhe possa garantir as condições indispensáveis ao exercício das suas funções e autoridade, em ordem a assegurar o cumprimento do seu programa de Governo em todo o território nacional.

Sobre a decisão, Sá Carneiro afirma: a posição assumida pelo Governo é uma clara intimidação aos mais altos responsáveis militares.

Editorial de A Luta, jornal afecto ao Partido Socialista, presumivelmente, escrito pelo seu director, Raul Rego:


Comentário do jornalista Manuel de Azevedo, publicado na última página do Diário de Lisboa:


No livro Portugal Depois de Abril pode ler-se este fait-divers:

Quando no dia seguinte, em reuniões sucessivas entre os dirigentes militares, Melo Antunes propõe a Otelo que assuma o poder, já que não apoia o governo, isto era uma provocação, a consumação do processo aberto. Já se sabia que Otelo não queria o poder para nada, respondendo a sorrir:

- Tá bem tomo o poder…

- E depois? – pergunta Melo Antunes.

- Depois… faço-te primeiro-ministro – foi a resposta de Otelo, desfazendo com humor a grande jogada.

De facto, era a grande jogada para fazer saltar a esquerda.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- A Resistência de José Gomes Mota
- Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga 

domingo, 15 de novembro de 2015

OS IDOS DE NOVEMBRO DE 1975


15 de Novembro de 1975

O título pertence à edição do Diário de Notícias de hoje.
O que Mário Soares classificou como algo de muito grave que se preparava em Lisboa, que levou os deputados do PS e do PPD, a refugiarem-se no norte do país, não passou de uma gigantesca manifestação de vontade popular, realizada na Praça do Comércio, sem qualquer tipo de incidentes. Tão pouco foi necessário gritar: «O Povo é Sereno».
A manifestação está marcada para amanhã.
No dia de hoje, as notícias e os comentários voltam-se para o cerco a S. Bento.
Sá Carneiro refere a Comuna de Lisboa e Manuel Alegre, num comício, salientou que «se o Norte não fosse como é, a Revolução já tinha sido desfeita».
A Crónica Parlamentar do Diário Popular, assinada por Adelino Cardoso, refere a fuga para o norte do país, dos deputados do PS e do PPD.:


No  Conselho de Ministros, o governo solidarizou-se com o primeiro-ministro, o presidente da Assembleia da República, os ministros, os deputados, os funcionários sequestrados na Assembleia e declara que o Presidente da República e o Conselho da Revolução devem pronunciar-se sobre os gravíssimos acontecimentos.
O governo manifesta-se, ainda, contra o inacreditável alheamento do poder militar face ao cerco

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

AMANHÃ É DIA DE FESTA



30 de Abril de 1974


Foi há 40 anos.

Foi ontem.

Se quiser andar às voltas com a História, escolho este dia como a Hora H do arranque do 25 de Abril, o dia em que o livro de General António de Spínola,Portugal e o Futuro, apareceu nos escaparates das livrarias.

Para trás ficaram as muitas reuniões que os capitães foram realizando até chegarem à que aconteceu, 9 de Setembro de 1973, em Alcáçovas, onde é dada a picadela no elefante adormecido e fundado o Movimento dos Capitães.

A partir desse dia, e até hoje, fui deixando por aqui o dia-a-dia do estertor da ditadura que durante 48 anos nos oprimiu.
Servindo-me de memórias, de um limitado arquivo com recortes de jornais, fui juntando citações de alguns livros, a reprodução de algumas de canções que marcaram um tempo de luta.
Ficaram pedaços de 99 dias daqueles anos de 1974.
Para mais não deu o curto e medíocre engenho.

Sexto dia da nossa vida em liberdade.

Esta é a primeira página do República.
Constante das notícias deste dia, o regresso a Lisboa, vindo do exílio, de Álvaro Cunhal.
Nas páginas interiores podia ler-se que certa gente começava a deixar as garras de fora.



Na 1ª página de A Capital uma fotografia mostrava a ex-comissária da Mocidade Portuguesa Feminina a entregar a José Manuel Tengarrinha a chave das instalações onde passaria a ficar sediado o M.D.P:


Começavam a aparecer os primeiros desmentidos de pessoas que eram acusadas de terem sido informadores da PIDE-DGS.


O Diário de Lisboa informava que, por ser feriado nacional, no dia 1 não havia pão.


Na última página a notícia de que o pide Sachetti foi preso quando tentava passar a fronteira em Valença.
No Porto, um ex-pide suicidava-se.



Em todas os jornais podem ler-se chamadas de atenção para que, nas manifestações do 1º de Maio, o povo e os trabalhadores, tivessem cuidado com eventuais provocadores.
Esta veio publicada no Diário Popular:


Na véspera, na RTP, Sá Carneiro deu uma entrevista com um blá-blá-blá de que Mário Castrim não gostou muito, e escreveu:


Sim, amanhã é mesmo dia de festa.
Com ironia, Mário Viegas dirá que o 25 de Abril dele acabou no dia 2 de Maio.
Alguém, que não recordo agora o nome, disse que do 25 de Abril até ao 1º de Maio devo ter dormido, mas não me lembro. Na verdade, o dia mais longo da minha vida não foi bem um dia: começou naquelas horas vertiginosas do dia 25, até ao 1º de Maio, e que continuaram a sê-lo durante uns meses.
Por fim, uma outra citação anónima:
Quem não viveu, esqueceu ou renunciou às delícias das ilusões desses grandes dias nunca vai conhecer o exacto perfume das flores.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

A TROPA PR'ÓS QUARETEIS


Primeira página do Libération, o seu nº 233, referente a 3 de Maio de 1974, uma sexta-feira, tendo como director Jean-Paul Sartre.
Para muitos, não tantos como se pensaria, a poesia ainda andava nas rua., mas já outros , na sombra dos sótãos, desenhavam os primeiros passos para que isso deixasse de acontecer.
Spínola não tinha dúvidas: os militares deveriam regressar a quarteis e deixar a política para quem de política soubesse.
Em 13 de Junho de 1974, em plenário do MFA, convocado por Spínola, reúnem-se militares e dois ministros do governo Palma Carlos: Vasco Vieira de Almeida, ministro da Coordenação Económica e Sá Carneiro.
Vieira de Almeida traçou um panorama catastrófico do poder e exigiu medidas económicas urgentes que evitassem a ruína do país.
O discurso de Sá Carneiro foi mais duro, chegando a dizer que só havia dinheiro para duas ou três semanas e depois o MFA seria responsável pela fome.
Vasco Gonçalves interveio para declarar que se não havia dinheiro nos cofres do Estado, era preciso ir busca-lo aonde o houvesse, isto é, às mãos dos capitalistas.
Sabe-se o que veio  acontecer: a demissão do primeiro-ministro Palma Carlos, Vasco Gonçalves é escolhido para o substituir, acontecerá o 28 de Setembro, o 11 de Março, um Verão muito quente que culmina a 25 de Novembro.
Os caminhos do socialismo passaram a miragem, a democracia ia-se instalar.

Ainda está por cá.

Tranquila e madura.
Fonte: Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Mário Cardosos, Lisboa Maio de 1976.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

QUE O PODER NÃO CAIA NA RUA


Os jornais de 15 de Novembro de 1975, dão conta da conferência de imprensa que Sá Carneiro deu no Porto e em que o dirigente social-democrata cita Marcelo Caetano: é preciso que o poder não caia na rua.

As cúpulas do P.S.D., como do P.S. encontram-se no norte do País para estudarem a eventual transferência da Assembleia Constituinte de Lisboa para o Palácio da Bolsa no Porto.

Reunido em S. Bento o conselho de ministros presidido por Pinheiro de Azevedo analisou os acontecimentos resultantes da manifestação dos trabalhadores da construção civil.

Um dos pontos abordados refere o aproveitamento das motivações reivindicativas dos trabalhadores da construção civil com objectivos de ataque político ao VI Governo Provisório.

O governo, considerando a gravidade dos acontecimentos, que puseram em causa o legítimo exercício do poder a débil actuação das forças militares e de segurança, entende que deveriam ser conhecidos os pontos de vista do Presidente da República e do Conselho da Revolução.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

VENCER COM AS ARMAS QUE TEMOS NA MÃO


Pelo findar de Outubro regressamos ao Verão Quente de 1975.

Os tais tempos de brasa que José Cardoso Pires, assim desenhou: a gente adormecia, pode dizer-se em economia burguesia e quando acordava estava nacionalizado… Verdade: a partir do 25 de Abril passámos a viver mais numa hora do que num mês de fascismo.

Novembro está à porta e serão 25 os dias que, há 36 anos, nos separavam do primeiro grande revés que a nossa esperança sofreu.

Nunca mais a recuperámos.

O país assiste a uma onda de manifestações e contra-manifestações que mostram as diferentes sensibilidades político-partidárias em confronto.

A 23 de Outubro, em Lisboa, uma manifestação unitária de soldados, marinheiros, trabalhadores, reivindicava o poder popular.

A cabeça da manifestação arrancou do Marquês de Pombal, foi engrossando pelo caminho, e chegou ao Terreiro do Paço uma hora depois.

Gritava-se:

O Povo não quer fascistas no poder., Soldados e marinheiros sempre ao lado do povo.

Cantava-se:

 Venceremos com as armas que temos na mão.

A 25 de Outubro realizava-se no Porto uma manifestação convocada por forças democráticas. Presentes o PPD e, o PS, o CDS.

Segundo a reportagem do Jornal de Notícias Sá Carneiro e o Chefe do Estado Maior do Exército, desentenderam-se. Nos bastidores. Sá Carneiro disse a Fabião que ele vinha a atacar a social-democracia. O comandante Guerreiro assistia à conversa e disse: Mas o MFA fez a opção pelo socialismo!..

Sá Carneiro retorquiu que a social-democracia se integrava no socialismo.

A 29 de Outubro em Lisboa realiza-se em Lisboa uma reunião do Conselho Mundial da Paz. Presente esteve Carlos Altamirano, secretário-geral do partido Socialista do Chile, a viver na clandestinidade:

Em conversa com os jornalistas Altamirano abordou a situação que se vivia no Chile com a ditadura de Pinochet..

Em sua opinião no Chile viveu-se aquilo que Salvador Allende chamou um Vietname silencioso. A burguesia fazia boicote económico e sabotagem contra as conquistas populares.

As mulheres burguesas chegaram a desfilar pelas ruas, batendo em tachos e panelas e gritando que tinham fome. Isto foi perfeitamente ridículo, pois durante mais de cem anos foram elas, em todo o Chile, as únicas que comeram.
Quando se deu o golpe, o nosso povo estava lamentavelmente desramado. Nessas condições, as Forças Armadas, massacraram, pelo menos, trinta mil trabalhadores.
Quando lhe convém, a burguesia pede ajuda ao Exército, pretende servir-se dele, transformá-lo numa máquina de repressão. Quando as forças armadas são na sua maioria progressistas, a burguesia pretende que regresse aos quartéis e se mantenha neutral.

Perguntaram-lhe:

Portugal será o Chile da Europa?

Respondeu:

Embora seja difícil encontrar totais semelhanças entre dois processos revolucionários, tanto ontem no Chile como hoje em Portugal, as forças reaccionárias mundiais lideradas pelo imperialismo ianque, procuraram e procuram bloquear o processo revolucionário. No Chile a burguesia opôs-se a que se armasse o povo. No entanto ela armava grupos nos países limítrofes prontos a intervirem. Ao mesmo tempo defendia o carácter profissional do Exército.

Para a burguesia a democracia só vale quando lhe assegura a manutenção dos monopólios e da exploração.

Rodrigues da Silva em artigo publicado no Diário Popular de 24 de Outubro:

A criação de um Exército profissional, (1) inventado para substituir o Exército tradicional minado de dentro pela luta de classes e pela organização autónoma dos soldados, é a prova provada de que a burguesia não abdica de ter ao seu dispor o poder das armas, mesmo que para isso tenha que inventar leis que revoguem as que ela própria criou e que espezinha quando deixam de lhe servir. É a prova provada que a burguesia, também ela, sabe que o poder está no cano das espingardas. Compete ao povo lutar para que essas espingardas estejam sempre, sempre ao seu lado, se não quer ver as suas conquistas afogadas num banho de sangue e o processo revolucionário português voltar irremediavelmente para trás.


(1)   – Referência à criação do AMI (Agrupamento Militar de Intervenção).


Legenda. Título do Republica de 29 de Outubro de 1975.

sábado, 12 de março de 2011