Férias em Agosto
Cesare Pavese
Tradução: Ana
Hatherly
Colecção Dois
Mundos
Livros do
Brasil, Lisboa. Junho de 2025
Sei onde cai a uma certa hora a quadra de sol na tijoleira da sala.
Férias em Agosto
Cesare Pavese
Tradução: Ana
Hatherly
Colecção Dois
Mundos
Livros do
Brasil, Lisboa. Junho de 2025
Sei onde cai a uma certa hora a quadra de sol na tijoleira da sala.
Os livros estão sempre sós.
Como nós.
Sofrem o terrível impacto do presente.
Como nós.
Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar.
Como nós.
Calam sua fúria com sua farsa.
Como nós.
Têm fachadas lisas ou não.
Como nós.
Formosas, delirantes, horrorosas.
Como nós.
Estão ali sendo entretanto.
Como nós.
No limiar do esquecimento.
Como nós.
Cheios de submissão ao serviço do impossível.
Como nós.
Ana Hatherly
Algo está sempre a
acontecer. Por isso escrevo. Escrevo porque algo aconteceu ou acontece.
Escrever é isso, mas escrever é sobretudo produzir acontecer.
Ana Hatherly em Tisanas
Legenda: pintura de Georg Schrimpf
O mar é a minha mais
antiga obsessão. Vivi sempre perto do mar e dum mar que encheu a minha infância
de alterosas vagas povoando de terror os meus sonhos. Mas longe do mar ainda
hoje sinto um inexplicável exílio.
Todos os anos guarda o olhar e o sorriso para as primeiras cerejas que aparecem.
Um sonho, com visita habitual, é um bolo de chocolate,
encimado por um monte de chantilly, branco como a neve, e no topo um brinco de
cerejas bem vermelhas.
Mas agora as andorinhas já não vêm com a Primavera e
cerejas já as há por todo o ano, vindas dos mais variados pontos do Globo.
Perdeu-se esse gesto simples de esperar pelas primeiras cerejas, quando o
melhor da Primavera era estarmos à espera dela.
Lembrar Pablo Neruda: «Quero fazer contigo o que a
Primavera faz com as cerejeiras.».
Coisa bonita,
muito mais o que está para além do saber, realmente, o que a Primavera faz às
cerejeiras. Uma boa proposta para noites de insónia, melhor do que contar carneirinhos,
ou o que quer que seja.
De uma tisana de Ana Hatherly:
«Quando eu era criança do que eu mais
gostava era de cerejas».
O tempo em que havia um ritmo certo para as estações, e sentíamos nas mãos o bater do coração de uma cereja. Lamentávamos, então, o quanto efémero era o tempo das cerejas. Contudo nos últimos anos, em tempo de Natal, também é tempo de cerejas. Já há alguns dias, provenientes do Chile, da Argentina, e a 15,00 euros o quilo.Mas foi uma das suas extravagâncias natalícias. A avó dizia-lhe que mais vale um gosto do que quatro vinténs. Mas alguém há-de murmurar: com tanta gente a passar fome!…
As causas são
a miséria, o alcoolismo, a fome, o abandono.
A América é
uma reserva de ignorância.
É essa
América profunda, que aparece nesse belíssimo filme «Três Cartazes à Beira da
Estrada» e que certa literatura, certo cinema, tantas vezes nos trazem , uma
miséria e uma ignorância abissais, uma classe média baixa, triste no seu viver,
mergulhada no álcool e na televisão, nos churrascos pelos domingos nos jardim
da casa, com bandeira à porta, alguns dias de campismo, pescar à beira de um
lago, o carro, o cão, os mais diversos electrodomésticos que os deixam quase
dinheiro.
Sim, há Nova Iorque,
mas isso não é a América, é um caso de estudo.
Lionel White,
um escritor de policiais, de segunda ou terceira ordem, deixou escrito num dos
seus livros:
«Há ocasiões em que odeio Nova Iorque e os milhões de pessoas apressadas, nervosas e egoístas que a povoam. Uma pessoa inocente pode ser brutalmente assassinada perante meia centena de testemunhas sem que ninguém levante a mão para a defender ou para, sequer, dar o alarme.Pergunto-me se terá sido isto que sucedeu a Karl Swendson.Uma coisa é certa: passaram a poucos palmos da valeta onde jazia o seu corpo esfacelado pelo menos vinte pessoas, e nenhuma delas se dignou ver se estava ligeira ou gravemente ferido, se estava vivo ou morto. Nem uma se deu ao trabalho de telefonar a Polícia.»
1.
Estavam sem trabalho 304 946 pessoas no final dos primeiros seis meses do ano, uma subida de quase 10%. Mais do que em Maio, quando se registou um aumento de 8,5%, e do que há um ano, altura em que o desemprego caiu quase 2%.
2.
Menos de 10%
das câmaras têm plano para migrantes. Lisboa e Porto com muito trabalho a fazer.
Em 309 municípios apenas 23 actualizaram planos para a integração em 2022 e 2023.
3.
Alguém terá
dito que as amizades nunca estão terminadas, ficam ocasionalmente abandonadas.
4.
«Algo está
sempre a acontecer. Por isso escrevo. Escrevo porque algo aconteceu ou
acontece. Escrever é isso, mas escrever é sobretudo produzir acontecer».
Ana Hatherly em Tisanas
O circo político
português é um amontoado de absurdos que não foge ao absurdo em que o país se
transformou.
Os disparates são tantos que não há mãos a
medir, o único problema é por onde começar.
Por agora, fujo às
notícias, e começo com um poema da Ana Hatherly.
O poema chama-se Balada do País Que Dói:
O barco vai
o barco vem
português vai
português vem
o corpo cai
o corpo dói
português vai
português cai
o barco vai
o barco vem
português vai
português vem
o país cai
o país dói
o tempo vai
o tempo dói
português cai
português vai
português sai
português dói
1.
Quanto vai custar a
Jornada Mundial da Juventude, a realizar em Lisboa no próximo Verão?
Ninguém tem números
exactos, mas é provável que ultrapasse largamente os 100 milhões de euros.
De fonte quase segura,
sabe-se que o Palco-Altar onde o Papa Francisco celebrará missa, se continuarem
com a mesma ideia, custará mais de 6 milhões de euros.
Que dirão os
sem-abrigo que dormem nas imediações da Gare do Oriente, em Sete Rios?
Lembrar-se-á Marcelo
Rebelo de Sousa que prometeu a erradicação dos sem-abrigo?
Lembrar-se-á a Câmara
Municipal de Lisboa, conforme notícia da página 20 do Público de 27 de Junho de 2019, que iria tirar todos os sem-abrigo
da rua até final do ano de 2021?
No final do ano de
2018, havia em Lisboa cerca de 2470 pessoas sem-abrigo, das quais 361 a viver
rua e 1967 em centros de acolhimento.
Obviamente estes
números, nos dias de hoje, terão largamente aumentado.
Face a esta situação,
a que se junta a fome e a doença, que percorrem os dias desta gente,não há
qualquer argumento que possa explicar o megalómano despesismo com o Festival da
Juventude
A jornalista Helena
Pereira, escrevia no Público:
«Ninguém sai bem na fotografia. Nem a Igreja, nem a Câmara de Lisboa,
nem o coordenador do projecto da Jornada Mundial da Juventude, nem o Governo. O
que é que andam afinal a fazer? A verdade é que, somando cada uma das partes, o
cidadão comum ainda não percebeu quanto dinheiro e como anda a ser gasto para a
recepção da JMJ e do Papa Francisco, em Agosto, no Parque Tejo, em Lisboa.»
2.
Segundo o INE, 2,6 milhões de portugueses vivem com menos de 660 Euros.
3.
Vinte e tal dias depois de se ter demitido, Pedro Nuno
dos Santos descobriu que afinal tinha enviado um whatsapp a aprovar a indemnização de meio milhão de euros da TAP a
Alexandra Leitão.
Esta gente poderá governar um país?
Esta gente pode encontrar ponta de solução para os
professores, para os médicos e enfermeiros que se manifestam nas ruas do país?
Esta gente é igualzinha a outra gente que se perfila para
conquistar o poder.
O PSD, numa sondagem-sujeita-a-todas-as-suspeitas,feita para a TVI/CNN Portugal, consegue ultrapassar o PS e de imediato, vemos Montenegro a ameaçar Costa, caso não mude rumo na governação, irá de imediato a Belém exigir eleições.
4.
Fernanda de Almeida
Pinheiro, nova bastonária da Ordem dos Advogados:
"Portugal tem um problema de corrupção grave"
O problema não é
apenas português, mas, sabe-se, que onde houver dinheiro, há corrupção.
Há dias soube-se que na Ucrâniavários elementos do governo de Zelensky desviaram centenas de milhares de dólares destinados a apoiar o povo ucraniano. Há suspeitas de desfalques de muitos milhões.
Amo as horas
sombrias do meu ser
em que os meus sentidos se aprofundam;
nelas encontrei, como em velhas cartas,
o meu dia a dia já vivido,
ultrapassado e vasto como numa lenda.
Elas me ensinam que possuo espaço
p'ra uma intemporal Segunda vida.
E por vezes sou como a árvore
que, madura e rumorosa, sobre uma campa
cumpre o sonho que a criança de outrora
(abraçada por suas cálidas raízes)
perdeu em tristezas e canções.
Rainer Maria Rike
Tradução de Ana Hatherly em Rosa do Mundo