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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

OLHAR AS CAPAS

 

Férias em Agosto

Cesare Pavese

Tradução: Ana Hatherly

Colecção Dois Mundos

Livros do Brasil, Lisboa. Junho de 2025

Sei onde cai a uma certa hora a quadra de sol na tijoleira da sala.

quarta-feira, 18 de junho de 2025

OS LIVROS ESTÃO SEMPRE SÓS

Os livros estão sempre sós.
Como nós.
Sofrem o terrível impacto do presente.
Como nós.
Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar.
Como nós.
Calam sua fúria com sua farsa.
Como nós.
Têm fachadas lisas ou não.
Como nós.
Formosas, delirantes, horrorosas.
Como nós.
Estão ali sendo entretanto.
Como nós.
No limiar do esquecimento.
Como nós.
Cheios de submissão ao serviço do impossível.
Como nós.


Ana Hatherly

quinta-feira, 20 de março de 2025

POSTAIS SEM SELO


Algo está sempre a acontecer. Por isso escrevo. Escrevo porque algo aconteceu ou acontece. Escrever é isso, mas escrever é sobretudo produzir acontecer.

Ana Hatherly em Tisanas


Legenda: pintura de Georg Schrimpf

sexta-feira, 7 de março de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


 Passeando pelas Tisanas de Ana Hatherly e encontrar o mar:

O mar é a minha mais antiga obsessão. Vivi sempre perto do mar e dum mar que encheu a minha infância de alterosas vagas povoando de terror os meus sonhos. Mas longe do mar ainda hoje sinto um inexplicável exílio.

Penso nisto lendo um livro de A.S. De repente, na página 289, está escrito: envelhecer é multiplicar-se interiormente.



terça-feira, 7 de janeiro de 2025

CONVERSANDO


Todos os anos guarda o olhar e o sorriso para as primeiras cerejas que aparecem.

Um sonho, com visita habitual, é um bolo de chocolate, encimado por um monte de chantilly, branco como a neve, e no topo um brinco de cerejas bem vermelhas.

Mas agora as andorinhas já não vêm com a Primavera e cerejas já as há por todo o ano, vindas dos mais variados pontos do Globo. Perdeu-se esse gesto simples de esperar pelas primeiras cerejas, quando o melhor da Primavera era estarmos à espera dela.

Lembrar Pablo Neruda: «Quero fazer contigo o que a Primavera faz com as cerejeiras.».

 Coisa bonita, muito mais o que está para além do saber, realmente, o que a Primavera faz às cerejeiras. Uma boa proposta para noites de insónia, melhor do que contar carneirinhos, ou o que quer que seja.

De uma tisana de Ana Hatherly:

«Quando eu era criança do que eu mais gostava era de cerejas».

O tempo em que havia um ritmo certo para as estações, e sentíamos nas mãos o bater do coração de uma cereja. Lamentávamos, então, o quanto efémero era o tempo das cerejas. Contudo nos últimos anos, em tempo de Natal, também é tempo de cerejas. Já há alguns dias, provenientes do Chile, da Argentina, e a 15,00 euros o quilo.Mas foi uma das suas extravagâncias natalícias. A avó dizia-lhe que mais vale um gosto do que quatro vinténs. Mas alguém há-de murmurar: com tanta gente a passar fome!…

sexta-feira, 26 de julho de 2024

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 A esperança média de vida dos norte-americanos tem vindo a diminuir.

As causas são a miséria, o alcoolismo, a fome, o abandono.

A América é uma reserva de ignorância.

 Na América do interior do profundo nada acontece, para além do desemprego, da miséria, o terreno mais que fértil de uma enorme reserva de ignorância. Sim, a ignorância e um longo mergulho no vazio, o insuportável vazio de onde nunca se sai. São esta gente que elegeram Bush filho por duas vezes e Trump e se preparam, de novo, para o colocarem na Casa Branca são personagens que vivem na mais profunda solidão. O seu futuro é incerto e a tragédia está sempre à espreita.

É essa América profunda, que aparece nesse belíssimo filme «Três Cartazes à Beira da Estrada» e que certa literatura, certo cinema, tantas vezes nos trazem , uma miséria e uma ignorância abissais, uma classe média baixa, triste no seu viver, mergulhada no álcool e na televisão, nos churrascos pelos domingos nos jardim da casa, com bandeira à porta, alguns dias de campismo, pescar à beira de um lago, o carro, o cão, os mais diversos electrodomésticos que os deixam quase dinheiro.

Sim, há Nova Iorque, mas isso não é a América, é um caso de estudo.

Lionel White, um escritor de policiais, de segunda ou terceira ordem, deixou escrito num dos seus livros:

«Há ocasiões em que odeio Nova Iorque e os milhões de pessoas apressadas, nervosas e egoístas que a povoam. Uma pessoa inocente pode ser brutalmente assassinada perante meia centena de testemunhas sem que ninguém levante a mão para a defender ou para, sequer, dar o alarme.Pergunto-me se terá sido isto que sucedeu a Karl Swendson.Uma coisa é certa: passaram a poucos palmos da valeta onde jazia o seu corpo esfacelado pelo menos vinte pessoas, e nenhuma delas se dignou ver se estava ligeira ou gravemente ferido, se estava vivo ou morto. Nem uma se deu ao trabalho de telefonar a Polícia.»

1.


Recorte do Expresso, 28 de Junho

Estavam sem trabalho 304 946 pessoas no final dos primeiros seis meses do ano, uma subida de quase 10%. Mais do que em Maio, quando se registou um aumento de 8,5%, e do que há um ano, altura em que o desemprego caiu quase 2%.

2.

Menos de 10% das câmaras têm plano para migrantes. Lisboa e Porto com muito trabalho a fazer. Em 309 municípios apenas 23 actualizaram planos para a integração em  2022 e 2023.

3.

Alguém terá dito que as amizades nunca estão terminadas, ficam ocasionalmente abandonadas.

4.

«Algo está sempre a acontecer. Por isso escrevo. Escrevo porque algo aconteceu ou acontece. Escrever é isso, mas escrever é sobretudo produzir acontecer».

Ana Hatherly em Tisanas

domingo, 29 de janeiro de 2023

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


Ao qu’isto  chegou!

O circo político português é um amontoado de absurdos que não foge ao absurdo em que o país se transformou.

 Os disparates são tantos que não há mãos a medir, o único problema é por onde começar.

Por agora, fujo às notícias, e começo com um poema da Ana Hatherly.

O poema chama-se Balada do País Que Dói:

 

O barco vai

o barco vem

 

português vai
português vem

 

o corpo cai
o corpo dói

 

português vai
português cai

 

o barco vai
o barco vem

 

português vai
português vem

 

o país cai
o país dói

 

o tempo vai
o tempo dói

 

português cai
português vai
português sai
português dói

 

1.

Quanto vai custar a Jornada Mundial da Juventude, a realizar em Lisboa no próximo Verão?

Ninguém tem números exactos, mas é provável que ultrapasse largamente os 100 milhões de euros.

De fonte quase segura, sabe-se que o Palco-Altar onde o Papa Francisco celebrará missa, se continuarem com a mesma ideia, custará mais de 6 milhões de euros.

Que dirão os sem-abrigo que dormem nas imediações da Gare do Oriente, em Sete Rios?

Lembrar-se-á Marcelo Rebelo de Sousa que prometeu a erradicação dos sem-abrigo?

Lembrar-se-á a Câmara Municipal de Lisboa, conforme notícia da página 20 do Público de 27 de Junho de 2019, que iria tirar todos os sem-abrigo da rua até final do ano de 2021?

No final do ano de 2018, havia em Lisboa cerca de 2470 pessoas sem-abrigo, das quais 361 a viver rua e 1967 em centros de acolhimento.

Obviamente estes números, nos dias de hoje, terão largamente aumentado.

Face a esta situação, a que se junta a fome e a doença, que percorrem os dias desta gente,não há qualquer argumento que possa explicar o megalómano despesismo com o Festival da Juventude

A jornalista Helena Pereira, escrevia no Público:

«Ninguém sai bem na fotografia. Nem a Igreja, nem a Câmara de Lisboa, nem o coordenador do projecto da Jornada Mundial da Juventude, nem o Governo. O que é que andam afinal a fazer? A verdade é que, somando cada uma das partes, o cidadão comum ainda não percebeu quanto dinheiro e como anda a ser gasto para a recepção da JMJ e do Papa Francisco, em Agosto, no Parque Tejo, em Lisboa.»

2.

Segundo o INE, 2,6 milhões de portugueses vivem com menos de 660 Euros.

3.

Vinte e tal dias depois de se ter demitido, Pedro Nuno dos Santos  descobriu que afinal tinha enviado um whatsapp a aprovar a indemnização de meio milhão de euros da TAP a Alexandra Leitão.

Esta gente poderá governar um país?

Esta gente pode encontrar ponta de solução para os professores, para os médicos e enfermeiros que se manifestam nas ruas do país?

Esta gente é igualzinha a outra gente que se perfila para conquistar o poder.

O PSD, numa sondagem-sujeita-a-todas-as-suspeitas,feita para a TVI/CNN Portugal, consegue ultrapassar o PS e de imediato, vemos Montenegro a ameaçar Costa, caso não mude rumo na governação, irá de imediato a Belém exigir eleições.

4.

Fernanda de Almeida Pinheiro, nova bastonária da Ordem dos Advogados:

 "Portugal tem um problema de corrupção grave"

O problema não é apenas português, mas, sabe-se, que onde houver dinheiro, há corrupção.

Há dias soube-se que na Ucrâniavários elementos do governo de Zelensky desviaram centenas de milhares de dólares destinados a apoiar o povo ucraniano. Há suspeitas de desfalques de muitos milhões.

segunda-feira, 14 de março de 2022

AMO AS HORAS SOMBRIAS DO MEU SER

Amo as horas sombrias do meu ser
em que os meus sentidos se aprofundam;
nelas encontrei, como em velhas cartas,
o meu dia a dia já vivido,
ultrapassado e vasto como numa lenda.

Elas me ensinam que possuo espaço
p'ra uma intemporal Segunda vida.
E por vezes sou como a árvore
que, madura e rumorosa, sobre uma campa
cumpre o sonho que a criança de outrora
(abraçada por suas cálidas raízes)
perdeu em tristezas e canções.

Rainer Maria Rike

Tradução de Ana Hatherly em Rosa do Mundo

quarta-feira, 8 de abril de 2020

A VERDADEIRA MÃO


                        Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros.
                       Não vejo nenhuma  diferença de principio entre um
                       Aperto de mão e um poema,
                                                                             Paul Celan

A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta

Ana Hatherly

Legenda: pintura de Ana Hatherly

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

TISANA 45


 De cada vez que respiro sei que alternadamente perco e recupero o meu corpo. Depois penso que é na praia-mar da respiração que o meu corpo se forma, nesse intervalo. (Quando as pessoas dormem ou estão no cinema, por exemplo, o ar do recinto fica alternadamente cheio e vazio de corpos!) Respirar o corpo para fora inspirar o corpo para dentro. Eis como a ginástica é uma forma de vampirismo. Penso nisso quando estou na praia olhando um homem deslizar numa prancha de surf por uma onda fora. De repente desequilibra-se e cai. Tudo o que é profundo se revela à superfície.

Ana Hatherly em Tisanas

domingo, 10 de março de 2019

A MATÉRIA DAS PALAVRAS



Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma perfeição
especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.

Ana Hatherly

terça-feira, 29 de setembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Estou no meu quarto. Deitada na minha cama. A luz está acesa. Oiço música. Penso em ti mas não é em ti. É um tu abstracto porque a tua ausência é uma lesão incurável que se imaterializa com o tempo. Por fim adormeço. Quando acordo de manhã, sinto-me feliz por ter conseguido dormir.

Ana Hatherly em 351 Tisanas

Legenda: imagem de Vincent Giarrano

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Se a vida é como tantos dizem insuportável porque se farão tantos e tão absurdos para a prolongar, pensava eu.

Ana Hatherly em 351Tisanas

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


351 Tisanas

Ana Hatherly
Capa: Ana Hatherly
Quimera Editores, Lisboa, Verão de 1997

Era uma vez uma chave que vivia no bolso de um homem. Durante muito tempo desempenhou com honestidade o seu trabalho de abrir portas. Até que um dia descobriu que todo o seu trabalho tinha consistido sempre em abrir portas que já estavam abertas. Quando descobriu isso lançou-se corajosamente para fora do bolso. Caiu no chão. Ficou ali. Passa uma criança vê a chave e diz que coisa tão engraçada para fazer um carrinho.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

QUOTIDIANOS


A caminho de casa passo em frente dum restaurante modesto. à porta estava um cesto de caracóis com uma rede por cima. como a rede estava rota nalguns pontos alguns caracóis tinham já atravessado o arame que prendia a rede. os que conseguiam passar desciam pelo cesto fora até ao passeio. depois tentavam atravessar a rua.

Ana Hatherly, em 351 Tisanas, Quimera Editores, Lisboa 1997

sábado, 29 de outubro de 2011

POSTAIS SEM SELO


Durante as longas e chuvosas noites de inverno quando o vento uiva lá fora, minha mulher e eu jogamos às cartas. Jogamos em completo silêncio com os nossos corpos por aposta.
Mais ou menos meia hora depois, considero que já perdi o suficiente e levanto-me dizendo calmamente: «Não joguemos mais. Já não tenho mais nada a apostar. Já perdi todo o exterior do meu corpo». O interior quero guardá-lo.
Mas a minha mulher nunca consente isso. Ameaçadoramente obriga-me a continuar o jogo. E só paramos de jogar quando eu perco o meu corpo todo. Só as minhas doenças – dores de cabeça, constipações e todas as minhas febres – ficam do meu lado da mesa. Essas noites são de facto bastante tristes.

Ingemar Leckius, poeta sueco

Tradução de Ana Hatherly

Legenda: cena do filme Saraband de Ingmar Bergman (2003)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

QUOTIDIANOS



Colávamos cartazes a noite toda e inicialmente os gestos eram difíceis e estudados – a cola que escorria, os pincéis pouco largos, os cartazes finalmente que se enrodilhavam e que eram pequenos no meio das paredes dos quartéis e dos edifícios públicos, as esquinas dos prédios, passávamos a conhecer as várias luzes da noite ao longo das horas, os vários muros da cidade, os candeeiros, e na manhã seguinte olhávamos a cidade que tínhamos repovoado anonimamente com palavras, anúncios de concentrações, cores vermelhas ou amarelas, letras a preto – tínhamos derrotado por dentro mais um bocado do passado.

Eduarda Dionísio em “Retrato Dum Amigo Enquanto Falo”, Armazém das Leras, Lisboa 1979.

Legenda:  Colagens de Ana Hatherly feitas a partir de cartazes arrancados das paredes e muros de Lisboa, a seguir ao 25 de Abril.