Um domingo de Outono é um óptimo dia para pegar no
livro que Álvaro Magalhães escreveu sobre Manuel António Pina, poeta, jornalista,
príncipe que foi:
«A ciência autoriza-nos a olharmos para os sonhos como uma espécie de
treino da nossa actividade, ou seja, da capacidade de estabelecer todo o tipo
de ligações surpreendentes. Kierkgaard dizia: dormir é o cúmulo da genialidade.
De facto, quando o tenso córtex pré-frontal desliga, ficamos expostos a uma
abundância de ligações inesperadas e ideias estranhas. A maioria delas não
passa de trapalhada surreal. Mas, se tivermos sorte, encontramos as nossas
respostas a meio da noite. E Pina não duvidava disso. Dizia ele: «Durmo com uma
folha e uma caneta debaixo da almofada e a meio da noite quando me ocorre algo
escrevo à escuras.»
Era de noite que a
criação mais chegava a Pina, quando a mulher, as filhas, os gatos estão a
dormir e eu fico sozinho e em silêncio.
«No fim de contas, o meu trabalho durante o dia é tentar verificar como
é que certas coisas escritas à luz da noite suportam a aluz do dia. É como ver
como é que as namoradas são quando acordam.»
Poderão dizer que é
uma questão de sorte. Não tenho qualquer problema em admitir que sim. Mas
depois há sempre mais qualquer coisa e a sorte transforma-se em outras coisas:
conhecer, ter vontade de saber mais qualquer coisinha para chegar à grande luz,
à enorme revelação.
Num jornal, que
poderei admitir que tenha sido no JL,
li o poema Esplanada de Manuel
António Pina.
Não conhecia o autor
e aquele foi o primeiro poema que li.
E gostei de uma
maneira a que não posso chamar outra coisa senão deslumbra- mento.
De uma forma simples,
tão simples que até arrepia, estava ali, o relógio dum tempo, seja esse tempo o
que for, de quem for. Ali esparramava-se o que foi o passado de uma geração,
depois o surgir de uma ilusão, talvez diversas ilusões.
Por onde é que eu
andara que este tipo passou completamente ao meu lado?
O Pina nasceu em
1943, eu nasci dois anos depois.
Se há poemas
perfeitos este é um deles.
Doze linhas de versos
encaixados num olhar da esplanada seja ela qual for:
Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,
agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.
O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.
Quando então li o
poema, que faz parte do livro Um Sítio
Onde Pousar a Cabeça, editado em 1991, tenho a vaga ideia de ter lido o
poema durante o ano de 2009, ficaram estas palavras chaves faróis de um tempo,
que assim, ou de outro modo, uma geração viveu.
envelhecemos todos, agora lês saramagos
e coisas assim, já não fico a ouvir-te como antigamente olhando as tuas pernas
que subiam lentamente até um sítio escuro dentro de mim, o café é um banco,
Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu, agora as tuas pernas são coisas
úteis, andantes, e não caminhos por andar como dantes.
Andei em demanda do
livro, que é o seu sexto volume de poesia, mas nunca o encontrei. Tratou-se de
uma pequena edição de um pequeno livro, em edição do autor e fora do mercado. Fui
ficando com o recorte colado numa folha A4 e só em Outubro de 2001, quando o
Pina publicou Poesia Reunida a que
passei a ficar com o poema fazendo parte de um livro.
Mais ou menos por este
tempo, recordo-me de ter lido uma frase do Manuel António Pina que nunca
esqueci: «adultos que não souberam honrar
os jovens que foram».
A frase do Pina era
endereçado aos que em tempos defenderam ideias e ideais que depois mandaram
para as urtigas.
Talvez tenha inventado que necessitava de um tipo de
livros que me aliviassem as notícias sobre os dias de guerra que vai ocorrendo no
leste da Europa, e que ninguém consegue ver como e quando terá um fim.
Escolhi o Para
Quê Tudo Isto, biografia de Álvaro Magalhães sobre o Manuel António Pina,
os Sublinhados Saramaguianos, os Itinerários do Eduardo, o Sr. Woody
Allen também anda por aí com a sua Biografia, mas não é bem a mesma coisa.
O relacionamento, a intimidade que o Manuel António
Pina tem com as palavras é um espectáculo admirável.
A páginas 30 podemos ler:
«Quando era jovem gostava da palavra “todavia”. Parecia-me haver nela
algo alado, simultaneamente som e sentido, que dava alturas poéticas à prosa
mais banal e rasteira.» Sim, o seu afecto pela palavra «todavia» ou pela
palavra «fidelidade», que, um dia, encontrou intacta num livro de Jorge de
Sena, seria para sempre, tal como o afecto pelos advérbios de modo (gostava de
advérbios em geral). E até os adjectivos acabariam por o cativar. «Há sempre
palavras de que gostamos mais. Recentemente comecei a descobrir o mistério dos
adjectivos, de que sempre desconfiei. Pareciam-me dispensáveis, mas comecei a
descobrir que podem perturbar os sentidos dos substantivos e causar surpresas.
As palavras, todas as palavras, adoravam-no – e voavam, deslumbradas,
para ele. Embora houvesse uma ou outra que se fizesse mais esquiva, até essas
acabavam por aparecer, um dia, pedindo licença para entrar num poema. Como
aconteceu com a palavra «pétala», em 1981: «Coração, sombra de uma sombra,/ na
pétala mais funda da noite.» Disse ele: «Fiquei assutado. Percebi que era um
risco enorme, que nunca tinha ido mais longe. Nunca antes poderia ter escrito a
palavra “pétala”, pelo menos a sério.» Também fez uma festa, para usar uma
expressão dele, quando conseguiu meter num poema a palavra «iogurte», que
estava demasiado conotada com a linguagem corrente, com o comércio quotidiano
das palavras. E anunciou o feito aos amigos mais próximos, com uma euforia
contida.»
Ainda não tenho todos
os livros de poesia do Manuel António Pina.
Remediei alguma coisa
adquirindo os livros de Poesia Reunida.
Mas lendo «Para Quê Tudo Isto?» entendi comprar «Poesia, Saudade da Prosa» uma antologia
organizada pelo próprio Manuel António Pina e isso tem um significado pois
permite concluir, se daí alguma coisa se pode concluir, o tentar compreender
das razões por que Pina escolheu estes poemas. Sabendo nós que a poesia está
para acabar:
«A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –»
Os poemas de Manuel
António Pina não são fáceis. Nestes poemas colocados por Pina, lá aparece a
infância, «onde só se chega vindo de muito longe», amargas tristezas, o caminho
de casa, sempre e depois aquele desejo de apenas encontrar um sítio onde pousar
a cabeça.
E há o caso, contado
por Álvaro Magalhães na biografia do poeta «de
uma professora da Escola Secundária Maria Lamas, no Porto, que foi aconselhada
a dar a poesia dele nas suas aulas e se recusou a fazê-lo porque «não a
entendia». (Como poderia ela ensinar o que não sabia. Dava, pois, outras poesias,
que estava convencida que entendia (e se entendia mesmo, coitadas delas, das
poesias). Quando alguém contou ao poeta este episódio, ele respondeu: «É
natural, eu também não entendo aquilo que escrevo.»
Há algum tempo tratei
de avisar os meus netos que quando pensarem em vender os meus livros para
comprar gomas, chiclets e outras coisas mais, não terão sorte nenhuma porque os
meus livros não estão, como querem os alfarrabistas, «em bom estado de conservação,
não têm o miolo limpo, as lombadas mostram sinais de quebras».
Acontece que os meus
livros foram abertos, foram lidos, quase nenhum ficou «como novo».
Andei a saborear as
páginas.
Quando o Álvaro Magalhães refere um poema do Pina, fui aos livros de poemas, reli o poema e debrucei-me para outros. O mesmo com
as entrevistas do Pina que são citadas, e fui até Dito em Voz Alta que contém algumas dessas entrevistas e por ali
fiquei a perder/ganhar tempo.
Nesta manhã cinzenta
de uma Primavera a atirar para o parvo, estou «chateado» por ter acabado de ler
a biografia do Pina.
Outro livro de encantamento de que não consigo separar-me
é Para Quê Tudo Isto?, biografia de Manuel António Pina escrita por
Álvaro Magalhães.
Comprei-o na época natalícia mas só nos alvores deste ano
o comecei a ler.
São 479 páginas, é certo, começadas a ler em 2 de
Fevereiro, mas não é pela quantidade de páginas que ainda não o acabei. Nem
quero acabar, e quando isso acontecer, sei que irei sentir um enorme baque que
me vai deixar fortes sequelas.
Não é pelo livro estar bem escrito que a demora tem
acontecido. É, essencialmente, por passar a conhecer pormenores de vida que desconhecia
e engrandecem, mais ainda, um poeta, um jornalista, um homem que sempre me
fascinou.
Como Seve, viajante deste blogue, escrevia, há dias, na
caixa de comentários: «Nunca vi o Manuel
António Pina (só o li) mas foi uma pessoa de quem sempre gostei muito, um ser
humano que sempre me fascinou, uma boa pessoa, daquelas que tornam o mundo belo
e melhor.»
Na página 54 é transcrito um passo de uma entrevista de
Pina ao Público:
«Eu sempre tive uma vida mais ou menos pacata, uma vida
com sobressaltos normais, e as grandes emoções da minha vida, os grandes
momentos, os mais fortes, em termos afectivos, em termos psicológicos, foram
através dos livros.»
Na página 202 aparece o poema «A Poesia vai acabar».
Não tenho todos os seus livros de poesia, para compensar
algum atraso, tratei de comprar a Poesia
Reunida, que não contempla este poema.
É este o poema:
A poesia vai
acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar?
Manuel António Pina e as suas inseparáveis cigarrilhas.
Continuo com a leitura, lenta e saborosa, da biografia de Manuel António Pina, «Para Quê Tudo Isto?», escrita por
Álvaro Magalhães.
«Uma vez, com o
carro também cheio de amigos, queixou-se do nevoeiro, que não o deixava ver a estrada.
«Não está nevoeiro, é o fumo aqui dentro», explicou Germano Silva, que ia ao lado
dele. O Honda verde cheirava tanto a tabaco que ele o mandava lavar na véspera
dos encontros com o poeta Eugénio de Andrade, que detestava esse cheiro.»
Quando apagaram os cigarros icónicos de livros e filmes,
numa crónica, o Pina denunciou que tinham tirado o cachimbo a Tati, o charuto a Groucho
Marx, o cigarro a Humphrey Bogart, a boquilha a Marlene Dietrich.
Também lhe tocou a ele o estalinismo antitabagista.
Na
crónica que, quinzenalmente, publicava na revista Notícias Magazine, da
fotografia que ilustrava a crónica, tiraram-lhe a cigarrilha que exibia entre
os dedos.
Seis anos após a sua morte, numas
jornadas dedicadas à sua obra, «Desimaginar o Mundo», o irmão de Manuel António
Pina também queria que retirassem a cigarrilha da fotografia do cartaz que
publicitava o evento.
«Ana, a filha mais
nova de Pina, insistiu para que a mantivessem e fez bem. Não estivesse ali a
cigarrilha e como poderíamos nós ter a certeza de que ele era ele.»
Legenda: cartaz de «Desimaginar
o Mundo», Porto de 16 a 21 de Novembro de 2018.
Tal como
diria António Gedeão, sem sequer ser ouvido, saí do ventre da minha mãe, quando
ainda pairavam nos ares, os últimos tiros de espingardas, os últimos tiros de
canhões da Segunda Guerra Mundial.
Quem por aqueles
tempos desce ao mundo, só poderia ser contra guerras.
Sejam elas
quais forem.
Lembrar uma
frase de José Saramago tirada de uma sua carta, datada de 15 de Maio de 1962
para José Rodrigues Migueis
«O mundo está muito complicado, mas não
o acho suficientemente absurdo para perder a esperança.»
Para o bem e
o mal o que hoje sou e penso, devo-o a muita gente.
Bob Dylan
está metido nessa gente.
Apesar de um
certo desencanto quando há uns bons anos apareceu por aí dizer que «A
palavra mensagem é triste, triste como uma hérnia.», «Ninguém gosta de ser
definido por aquilo que os outros pensam.», «Queria ter uma vida normal e poder
levar os filhos à escola.»
Manuel António Pina num poema seu: «O café agora é um banco, tu professora
de liceu; Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu. Agora as tuas pernas
são coisas úteis, andantes, e não caminhos para andar como dantes.»
Lembro-me de uma conversa, nos idos de 67, com um dos colaboradores do Em
Órbita, falha-me, agora, o nome, quando, a determinada altura, disse-me de Dylan: é um narcisista convicto, um genial cabotino, no sentido intelectual
do termo.
Fiquei, assim
meio aparvalhado, a olhar para ele, manifestei-lhe o meu desacordo e
acrescentei que a definição ainda poderia ser entendida por gente que lesse ou
ouvisse Dylan aprofundadamente, mas não pelo vulgar ouvinte.
O meu interlocutor
viu, de repente, que não valia buscar outros argumentos, perder mais tempo com
o ceguinho que eu, era por Dylan.
E ele
sabia, porque lia e ouvia Dylan atentamente, que chegariam os tempos dos órfãos
de Mr. Zimmermane eu ficava-me ingenuamente convencido que. com Dytan, tinha respostas para (quase) tudo.
Bom, teremos sempre Joan Baez a dizer de Dylan:
« Ele é o ser humano mais complexo que
conheci. Eu pensei que seria capaz de entendê-lo. Desisti. Tudo o que sei é o
que ele nos deu.»
Porque, para
além de mágoas e miudezas, tudo o mais, existe uma verdade inquestionável: Bob
Dylan fez das mais belas canções da história da música, canções que se podem
ouvir em qualquer tempo e fez com que muitos passassem a olhar, de um outro
modo, os tempos que se exigia que mudassem.
Nestes dias
que vão correndo, pegar no segundo álbum de Bob Dylan, TheFreewheelin’Bob Dylan (1963) que tem Blowin’in
the Wind – quantas mortes serão precisas até que saiba que demasiadas
pessoas morreram - e Masters of War
que irei reproduzir. Outra faixa do álbum é a Hard Rains A –Gonna Fall que
reflecte a angústia, em Outubro de 1962, que Dylan sentiu aquando dos misseis
de Cuba, braço de ferro entre Kennedy e Khrushchev, ao ponto de pensar não lhe
restar muito mais tempo para escrever outras canções.
A tradução da
canção é de Angelina Barbosa e Pedro Serrano em CançõesVolume I:
Já
encontrou uma frase de Clarice Lispector «Nunca é tarde para se viver uma
infância», também o título da 1ª parte do livro «A infância não se vê da
infância», e num pedacinho que aproveitou para o lançamento do Olhar asCapas de há dias, leu palavras de Ruy Belo é apenas por termos perdido a
infância que a amamos tanto e, inevitavelmente, Eugénio de Andrade a lembrar que a infância aquece à medida
que se distancia.
Altura
de ter vontade de perguntar:
Será
que andamos, toda uma vida, de mão dada com a criança que fomos?
Eu
sei que «fumar mata», que «bloqueia as artérias e provoca ataques cardíacos e
enfartes», que «prejudica o esperma e reduz a fertilidade» não tenho dúvida
nenhuma de que «o fumo contém benzeno, nitrosaminas, formaldeído e cianeto de
hidrogénio» e que palavras tão ameaçadoras hão-de decerto causar doenças
esquisitas e terríveis. Perguntar-me ão então por que fumo. E a única resposta
que tenho, não sendo talvez satisfatória para algumas pessoas, é: «porque quero».
Manuel
António Pina em Crónica, Saudade da
Literatura
Um
dia destes, em Lisboa, sentei-me a ler o jornal no Jardim da Parada, em Campo
de Ourique. Velhos conversavam ou jogavam cartas sob as árvores, crianças
corriam no parque infantil, uma mulher tirava de um saco de plástico restos de
pão que lançava às pombas e aos pardais. Pus de parte o jornal e ali fiquei,
durante horas, sem fazer absolutamente nada senão respirara (e com que lentidão
ociosa é possível respirara num jardim!), enquanto as vozes da grande cidade
febril se desvaneciam distantemente dentro e fora de mim.
Os
jardins são, nas nossas cidades, os poucos lugares onde existe tempo e espaço
para a permanência e para o ser.
Manuel
António Pina em Crónica, Saudade da
Literatura
Os
meus mortos levaram consigo, de mim, palavras, memórias, dias, lugares,
desígnios, incertezas; os seus olhos guardam para sempre o meu rosto, os seus
ouvidos a minha voz. Também eu morri com eles, e também eu, o que fiquei, me
perdi fora de mim. Onde quer que eles estejam agora, quem quer que sejam,
estou, pois, junto deles. E pertencem-me, tanto quanto provavelmente eu lhes
pertenço.
Manuel
António Pina em Crónica, Saudade da
Literatura
Um
velho tipógrafo, o Sr. Amaro, da Tipografia do Carvalhido, disse uma vez aos
meus deslumbrados 22 anos algo que, por algum incerto motivo, nunca deixei de
ouvir dentro da cabeça e dento do coração: «Tudo passa. O que julgamos que permanece
é apenas o que passa devagar». Hoje que o Sr. Amaro e a Tipografia do
Carvalhido, como eu os conheci, passaram para sempre e, com eles, também os
meus 22 anos.
Manuel
António Pina em Crónica, Saudade da
Literatura
Talvez
as viagens, todas as viagens, se façam principalmente pelo lado de dentro.
Talvez, quem sabe?, o viajante, procurando um mundo, caminha sempre de regresso
a casa.
Porque
tudo o que o viajante deixou atrás de si o segue.. A casa é a sombra do
viajante. Ele próprio é, provavelmente, apenas a sua sombra.
Manuel
António Pina em Crónica, Saudade da
Literatura
O
que foi feito dos meus amigos e das coisas belas e desmesuradas por que todos
nós perdemos e ganhámos a juventude? Olho em volta e resigno-me: os meus amigos
cansaram-se jazem agora em empregos rotineiros à espera da trombose ou do
enfarte. Alguns passaram-se com armas e bagagens (e, naturalmente, proveito)
para o lado do inimigo. Os melhores (mas que sei eu?) engordaram – para dizer a
verdade, todos engordámos… - e tornaram-se cépticos e amargos, carregando a nossa
memória comum como um pecado envergonhado. Muitos morreram em guerras sem
sentido, ou tão-só de tédio, de longo e insuportável tédio. Outros partiram
para improváveis distantes lugares; um enlouqueceu (e esse foi, se calhar, o
que , imóvel e cegamente, partiu opara mais longe.
Manuel
António Pina em Crónica, Saudade da Literatura
A
infância é um lugar de e3xílio. Se não tivermos, em qualquer sítio do coração,
uma infância, onde nos refugiaremos quando os ladrões vierem para nos roubar a
inocência e os sonhos e quando os assassino baterem à porta? Se não tivermos
uma pequena infância que seja (um jardim longínquo, um vago quarto de dormir
perdido), onde guardaremos os segredo mais secretos e onde brincaremos ainda? E
quem nos responderá quando, diante do nosso rosto no espelho, nos virmos e não
nos reconhecermos, ou quando, nos dias de infelicidade, chamarmos pelo nosso
nome?
Manuel
António Pina em Crónica, Saudade da
Literatura
Nunca militei no PCP. Estou talvez, por
isso, à vontade para perceber a resposta de António Hespanha, ainda e sempre ao
fogoso Telejornal, quando lhe perguntavam se iria, também ele, abandonar o
PCP: «Sabe, ensinou o professor, eu nunca ganhei nada com o PCP, nem o PCP
comigo; o nosso casamento não foi, de todo em todo, um casamento de conveniência;
se fosse, seria bem fácil dissolvê-lo, mas um casamento de amor, esse não se
dissolve com facilidade…»
Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura
Por algum motivo os cidadãos têm hoje
medo dos tribunais. Se o leitor tiver a infelicidade de se envolver num pequeno
acidente de automóvel há-de ver as testemunhas fugirem do local, de si e das
suas razões, como o diabo foge, diz-se, da cruz. Porque hoje, ser testemunha é,
às vezes, pior do que ser réu. Uma testemunha não é tratada (nem respeitada) como
um desinteressado colaborador da justiça, mas como um intruso; e quem se presta
a depor em juízo é porque não está no seu juízo… A partir do momento fatídico
em que dá o «nome, estado, profissão e morada», um homem deixa de ser senhor do
seu destino; será notificado para diligências que, sem que ninguém lhe dê uma
explicação, não se realizam; para julgamentos sucessivamente e infinitivamente
protelados; perderá o tempo e a paciência; praguejará vezes sem conta em
silêncio; e, quando, finalmente chegar (se chegar) a entrar na sala de audiências,
será invectividado e vexado, ouvirá palavras duras, insinuações, alusões,
indignidades, e não terá, a mais das vezes, a protecção de quem, nos tribunais,
está acima das partes e do resultado do litígio.
Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura
Aqui e ali, em algum vão
de escada ou em algum inviável primeiro andar frequentado por gente silenciosa
e obscura, em qualquer esquina perdida, ou persistindo arruinadamente entre
ostensivas montras de bancos e de prontos-a-vestir, resistem na cidade as
últimas cerzideiras, costureiras, apanhadoras de malhas em meias, engraxadores,
latoeiros, caldeireiros, sapateiros e toda a legião de artesãos que os tempos
urbanos, muito antes do chamado impacto do Mercado único, condenaram.
Hoje transformaram-se em
segredos de família: quem conhece uma cerzideira não o diz a ninguém e partilha
só com os amigos do peito e os parentes próximos esse inestimável património. E
quem sabe do último limpa-chaminés, vindo do fundo da memória e de qualquer
tugúrio das vizinhanças, recebe-o junto da lareira da sala com o orgulho
discreto de quem recebesse o representante de extinta e esquisita dinastia.
Manuel
António Pina, em Crónica, Saudade da Literatura