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domingo, 25 de setembro de 2022

DORMIR É O CÚMULO DA GENIALIDADE

Um domingo de Outono é um óptimo dia para pegar no livro que Álvaro Magalhães escreveu sobre Manuel António Pina, poeta, jornalista, príncipe que foi:

«A ciência autoriza-nos a olharmos para os sonhos como uma espécie de treino da nossa actividade, ou seja, da capacidade de estabelecer todo o tipo de ligações surpreendentes. Kierkgaard dizia: dormir é o cúmulo da genialidade. De facto, quando o tenso córtex pré-frontal desliga, ficamos expostos a uma abundância de ligações inesperadas e ideias estranhas. A maioria delas não passa de trapalhada surreal. Mas, se tivermos sorte, encontramos as nossas respostas a meio da noite. E Pina não duvidava disso. Dizia ele: «Durmo com uma folha e uma caneta debaixo da almofada e a meio da noite quando me ocorre algo escrevo à escuras.»

 Era de noite que a criação mais chegava a Pina, quando a mulher, as filhas, os gatos estão a dormir e eu fico sozinho e em silêncio.

«No fim de contas, o meu trabalho durante o dia é tentar verificar como é que certas coisas escritas à luz da noite suportam a aluz do dia. É como ver como é que as namoradas são quando acordam.»

domingo, 22 de maio de 2022

E NÃO CAMINHOS POR ANDAR COMO DANTES


 Poderão dizer que é uma questão de sorte. Não tenho qualquer problema em admitir que sim. Mas depois há sempre mais qualquer coisa e a sorte transforma-se em outras coisas: conhecer, ter vontade de saber mais qualquer coisinha para chegar à grande luz, à enorme revelação.

Num jornal, que poderei admitir que tenha sido no JL, li o poema Esplanada de Manuel António Pina.

Não conhecia o autor e aquele foi o primeiro poema que li.

E gostei de uma maneira a que não posso chamar outra coisa senão deslumbra- mento.

De uma forma simples, tão simples que até arrepia, estava ali, o relógio dum tempo, seja esse tempo o que for, de quem for. Ali esparramava-se o que foi o passado de uma geração, depois o surgir de uma ilusão, talvez diversas ilusões.

Por onde é que eu andara que este tipo passou completamente ao meu lado?

O Pina nasceu em 1943, eu nasci dois anos depois.

Se há poemas perfeitos este é um deles.

Doze linhas de versos encaixados num olhar da esplanada seja ela qual for:

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

Quando então li o poema, que faz parte do livro Um Sítio Onde Pousar a Cabeça, editado em 1991, tenho a vaga ideia de ter lido o poema durante o ano de 2009, ficaram estas palavras chaves faróis de um tempo, que assim, ou de outro modo, uma geração viveu.

 envelhecemos todos, agora lês saramagos e coisas assim, já não fico a ouvir-te como antigamente olhando as tuas pernas que subiam lentamente até um sítio escuro dentro de mim, o café é um banco, Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu, agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes, e não caminhos por andar como dantes.

 Andei em demanda do livro, que é o seu sexto volume de poesia, mas nunca o encontrei. Tratou-se de uma pequena edição de um pequeno livro, em edição do autor e fora do mercado. Fui ficando com o recorte colado numa folha A4 e só em Outubro de 2001, quando o Pina publicou Poesia Reunida a que passei a ficar com o poema fazendo parte de um livro.

 Mais ou menos por este tempo, recordo-me de ter lido uma frase do Manuel António Pina que nunca esqueci: «adultos que não souberam honrar os jovens que foram».

A frase do Pina era endereçado aos que em tempos defenderam ideias e ideais que depois mandaram para as urtigas.

sábado, 14 de maio de 2022

AS PALAVRAS GOSTAVAM MESMO DO PINA


Talvez tenha inventado que necessitava de um tipo de livros que me aliviassem as notícias sobre os dias de guerra que vai ocorrendo no leste da Europa, e que ninguém consegue ver como e quando terá um fim.

Escolhi o Para Quê Tudo Isto, biografia de Álvaro Magalhães sobre o Manuel António Pina, os Sublinhados Saramaguianos, os Itinerários do Eduardo, o Sr. Woody Allen também anda por aí com a sua Biografia, mas não é bem a mesma coisa.

O relacionamento, a intimidade que o Manuel António Pina tem com as palavras é um espectáculo admirável.

A páginas 30 podemos ler:

«Quando era jovem gostava da palavra “todavia”. Parecia-me haver nela algo alado, simultaneamente som e sentido, que dava alturas poéticas à prosa mais banal e rasteira.» Sim, o seu afecto pela palavra «todavia» ou pela palavra «fidelidade», que, um dia, encontrou intacta num livro de Jorge de Sena, seria para sempre, tal como o afecto pelos advérbios de modo (gostava de advérbios em geral). E até os adjectivos acabariam por o cativar. «Há sempre palavras de que gostamos mais. Recentemente comecei a descobrir o mistério dos adjectivos, de que sempre desconfiei. Pareciam-me dispensáveis, mas comecei a descobrir que podem perturbar os sentidos dos substantivos e causar surpresas.

As palavras, todas as palavras, adoravam-no – e voavam, deslumbradas, para ele. Embora houvesse uma ou outra que se fizesse mais esquiva, até essas acabavam por aparecer, um dia, pedindo licença para entrar num poema. Como aconteceu com a palavra «pétala», em 1981: «Coração, sombra de uma sombra,/ na pétala mais funda da noite.» Disse ele: «Fiquei assutado. Percebi que era um risco enorme, que nunca tinha ido mais longe. Nunca antes poderia ter escrito a palavra “pétala”, pelo menos a sério.» Também fez uma festa, para usar uma expressão dele, quando conseguiu meter num poema a palavra «iogurte», que estava demasiado conotada com a linguagem corrente, com o comércio quotidiano das palavras. E anunciou o feito aos amigos mais próximos, com uma euforia contida.»

terça-feira, 3 de maio de 2022

TAMBÉM NÃO ENTENDO AQUILO QUE ESCREVO

Ainda não tenho todos os livros de poesia do Manuel António Pina.

Remediei alguma coisa adquirindo os livros de Poesia Reunida.

Mas lendo «Para Quê Tudo Isto?» entendi comprar «Poesia, Saudade da Prosa» uma antologia organizada pelo próprio Manuel António Pina e isso tem um significado pois permite concluir, se daí alguma coisa se pode concluir, o tentar compreender das razões por que Pina escolheu estes poemas. Sabendo nós que a poesia está para acabar:

«A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –»

Os poemas de Manuel António Pina não são fáceis. Nestes poemas colocados por Pina, lá aparece a infância, «onde só se chega vindo de muito longe», amargas tristezas, o caminho de casa, sempre e depois aquele desejo de apenas encontrar um sítio onde pousar a cabeça.

E há o caso, contado por Álvaro Magalhães na biografia do poeta «de uma professora da Escola Secundária Maria Lamas, no Porto, que foi aconselhada a dar a poesia dele nas suas aulas e se recusou a fazê-lo porque «não a entendia». (Como poderia ela ensinar o que não sabia. Dava, pois, outras poesias, que estava convencida que entendia (e se entendia mesmo, coitadas delas, das poesias). Quando alguém contou ao poeta este episódio, ele respondeu: «É natural, eu também não entendo aquilo que escrevo.»

quinta-feira, 24 de março de 2022

FAZEI COM QUE HAJA LIVROS SEM FIM!

Há livros que nunca acabei, assim de repente, lembro dois: Ulisses e Em Busca do Tempo Perdido.

Mas não me recordo de levar tanto tempo a ler um livro, e não pela quantidade de páginas, 480.

Falo-vos de Para Quê Tudo Isto?, biografia de Manuel António Pina, escrita por Álvaro Magalhães.

Comecei a lê-lo no dia 2 de Fevereiro, acabei-o há pouco.

Ficou todo pintado de sublinhados e comentários.

Há algum tempo tratei de avisar os meus netos que quando pensarem em vender os meus livros para comprar gomas, chiclets e outras coisas mais, não terão sorte nenhuma porque os meus livros não estão, como querem os alfarrabistas, «em bom estado de conservação, não têm o miolo limpo, as lombadas mostram sinais de quebras».

Acontece que os meus livros foram abertos, foram lidos, quase nenhum ficou «como novo».

Andei a saborear as páginas.

 Quando o Álvaro Magalhães refere um poema do Pina, fui aos livros de poemas, reli o poema e debrucei-me para outros. O mesmo com as entrevistas do Pina que são citadas, e fui até Dito em Voz Alta que contém algumas dessas entrevistas e por ali fiquei a perder/ganhar tempo.

Nesta manhã cinzenta de uma Primavera a atirar para o parvo, estou «chateado» por ter acabado de ler a biografia do Pina.

Queria que ela fosse interminável.

quinta-feira, 10 de março de 2022

A POESIA VAI ACABAR


Já vos disse que um dos livros cuja leitura, no passado ano,  mais me encantou, foi  De Maneira Que É Claro…      de Mário de Carvalho.

Outro livro de encantamento de que não consigo separar-me é Para Quê Tudo Isto?,  biografia de Manuel António Pina escrita por Álvaro Magalhães.

Comprei-o na época natalícia mas só nos alvores deste ano o comecei a ler.

São 479 páginas, é certo, começadas a ler em 2 de Fevereiro, mas não é pela quantidade de páginas que ainda não o acabei. Nem quero acabar, e quando isso acontecer, sei que irei sentir um enorme baque que me vai deixar fortes sequelas.

Não é pelo livro estar bem escrito que a demora tem acontecido. É, essencialmente, por passar a conhecer pormenores de vida que desconhecia e engrandecem, mais ainda, um poeta, um jornalista, um homem que sempre me fascinou.

Como Seve, viajante deste blogue, escrevia, há dias, na caixa de comentários: «Nunca vi o Manuel António Pina (só o li) mas foi uma pessoa de quem sempre gostei muito, um ser humano que sempre me fascinou, uma boa pessoa, daquelas que tornam o mundo belo e melhor.»

Na página 54 é transcrito um passo de uma entrevista de Pina ao Público:

«Eu sempre tive uma vida mais ou menos pacata, uma vida com sobressaltos normais, e as grandes emoções da minha vida, os grandes momentos, os mais fortes, em termos afectivos, em termos psicológicos, foram através dos livros.»

Na página 202 aparece o poema «A Poesia vai acabar».

Não tenho todos os seus livros de poesia, para compensar algum atraso, tratei de comprar a Poesia Reunida, que não contempla este poema.

É este o poema:

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? 

terça-feira, 8 de março de 2022

SEM VÍCIOS A VIDA É UMA CHATICE!


 Manuel António Pina e as suas inseparáveis cigarrilhas.

Continuo com a leitura, lenta e saborosa, da biografia de Manuel António Pina, «Para Quê Tudo Isto?», escrita por Álvaro Magalhães.

«Uma vez, com o carro também cheio de amigos, queixou-se do nevoeiro, que não o deixava ver a estrada. «Não está nevoeiro, é o fumo aqui dentro», explicou Germano Silva, que ia ao lado dele. O Honda verde cheirava tanto a tabaco que ele o mandava lavar na véspera dos encontros com o poeta Eugénio de Andrade, que detestava esse cheiro.»

Quando apagaram os cigarros icónicos de livros e filmes, numa crónica, o Pina denunciou que tinham tirado o cachimbo a Tati, o charuto a Groucho Marx, o cigarro a Humphrey Bogart, a boquilha a Marlene Dietrich.

Também lhe tocou a ele o estalinismo antitabagista. 

Na crónica que, quinzenalmente, publicava na revista Notícias Magazine, da fotografia que ilustrava a crónica, tiraram-lhe a cigarrilha que exibia entre os dedos.

Seis anos após a sua morte, numas jornadas dedicadas à sua obra, «Desimaginar o Mundo», o irmão de Manuel António Pina também queria que retirassem a cigarrilha da fotografia do cartaz que publicitava o evento.

«Ana, a filha mais nova de Pina, insistiu para que a mantivessem e fez bem. Não estivesse ali a cigarrilha e como poderíamos nós ter a certeza de que ele era ele.»

Legenda: cartaz de «Desimaginar o Mundo», Porto de 16 a 21 de Novembro de 2018.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

UMA CHUVA DURA VAI CAIR?


 Tal como diria António Gedeão, sem sequer ser ouvido, saí do ventre da minha mãe, quando ainda pairavam nos ares, os últimos tiros de espingardas, os últimos tiros de canhões da Segunda Guerra Mundial.

Quem por aqueles tempos desce ao mundo, só poderia ser contra guerras.

Sejam elas quais forem.

Lembrar uma frase de José Saramago tirada de uma sua carta, datada de 15 de Maio de 1962 para José Rodrigues Migueis

«O mundo está muito complicado, mas não o acho suficientemente absurdo para perder a esperança.»

Para o bem e o mal o que hoje sou e penso, devo-o a muita gente.

Bob Dylan está metido nessa gente.

Apesar de um certo desencanto quando há uns bons anos apareceu por aí dizer que «A palavra mensagem é triste, triste como uma hérnia.», «Ninguém gosta de ser definido por aquilo que os outros pensam.», «Queria ter uma vida normal e poder levar os filhos à escola.»

Manuel António Pina num poema seu: «O café agora é um banco, tu professora de liceu; Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu. Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes, e não caminhos para andar como dantes.»

Lembro-me de uma conversa, nos idos de 67, com um dos colaboradores do Em Órbita, falha-me, agora, o nome, quando, a determinada altura, disse-me  de Dylan: é um narcisista convicto, um genial cabotino, no sentido intelectual do termo.

 Fiquei, assim meio aparvalhado, a olhar para ele, manifestei-lhe o meu desacordo e acrescentei que a definição ainda poderia ser entendida por gente que lesse ou ouvisse Dylan aprofundadamente, mas não pelo vulgar ouvinte.

 O meu interlocutor viu, de repente, que não valia buscar outros argumentos, perder mais tempo com o ceguinho que eu, era por Dylan.

E ele sabia, porque lia e ouvia Dylan atentamente, que chegariam os tempos dos órfãos de Mr. Zimmerman e eu ficava-me ingenuamente convencido que. com Dytan, tinha respostas para (quase) tudo.

Bom, teremos sempre Joan Baez a dizer de Dylan:

« Ele é o ser humano mais complexo que conheci. Eu pensei que seria capaz de entendê-lo. Desisti. Tudo o que sei é o que ele nos deu.»

Porque, para além de mágoas e miudezas, tudo o mais, existe uma verdade inquestionável: Bob Dylan fez das mais belas canções da história da música, canções que se podem ouvir em qualquer tempo e fez com que muitos passassem a olhar, de um outro modo, os tempos que se exigia que mudassem.

Nestes dias que vão correndo, pegar no segundo álbum de Bob Dylan, The  Freewheelin’Bob Dylan (1963) que tem Blowin’in the Wind – quantas mortes serão precisas até que saiba que demasiadas pessoas morreram - e  Masters of War que irei reproduzir. Outra faixa do álbum é a Hard Rains A –Gonna Fall que reflecte a angústia, em Outubro de 1962, que Dylan sentiu aquando dos misseis de Cuba, braço de ferro entre Kennedy e Khrushchev, ao ponto de pensar não lhe restar muito mais tempo para escrever outras canções.

A tradução da canção é de Angelina Barbosa e Pedro Serrano em Canções Volume I:


Vinde, senhores da guerra

Vós que construís todas as armas

Vós que construís os aviões da morte

Vós que construís as grandes bombas

Vós que vos escondeis atrás de muros

Vós que vos escondeis atrás de secretárias

Eu só quero que vocês saibam

Que consigo ver através das vossas máscaras

 

Vós que nunca fizestes nada

Senão construir para destruir

Vós brincais com o meu mundo

Como se fosse o vosso brinquedinho

Vós colocais-me uma arma na mão

E escondei-vos dos meus olhos

E virais as costas e fugis para bem longe

Quando voam as balas velozes

 

Como o Judas de outrora

Vós mentis e enganais

Uma guerra mundial pode ser ganha

Vós quereis que acredite

Mas vejo através dos vossos olhos

E vejo atrvés da vossa mente

Como vejo através da água

Que se escoa pelo cano abaixo

 

Vós firmais os gatilhos

Para os outros dispararem

Depois recuais e ficais a ver

Quando a contagem de mortes se eleva

Vós escondei-vos na vossa mansão

Enquanto o sangue dos jovens

Lhes escorre dos corpos

E se enterra na lama

 

Vós lançastes o pior dos medos

Que alguma vez se pode proferir

Medo de trazer filhos

Ao mundo

Por ameaçardes o meu filho

Por nascer e sem nome

Não valeis o sangue

Que vos corre nas veias

 

Quando é que eu sei

Para falar o que não devo

Vós podeis dizer que sou ignorante

Mas uma coisa há que eu sei

Ainda que seja mais novo que vós

Nem mesmo Jesus jamais

Perdoaria o que fazeis

 

Deixai-me fazer-vos uma pergunta

O vosso dinheiro é assim tão bom

Comprar-vos-á o perdão

Achais que poderia

Penso que descobrireis

Quando a vossa morte vier cobrar o seu direito

Que todo o dinheiro que ganhastes

Jamais vos resgatará a alma


E espero que vocês morram

E a vossa morte chegue depressa

Seguirei o vosso caixão

Na pálida tarde

E ficarei a ver até vos baixarem

Ao vosso leito de morte

E vou vigiar a vossa campa

Até ter a certeza que estai mortos

 


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

CONVERSANDO

 Agora que já entrámos por Fevereiro dentro, ele ainda anda às voltas com a história do avô e asua raiva aos meses de Janeiro e Fevereiro que, este ano, provocaram o disparate de zarpar do blogue sem avisar que isso iria acontecer, e o seu porquê.

Agora que anda a ler a excelente biografia de Manuel António Pina, escrita por ÁlvaroMagalhães, confirmou que o poeta foi um homem marcado pela sua atribulada infância.

Já encontrou uma frase de Clarice Lispector «Nunca é tarde para se viver uma infância», também o título da 1ª parte do livro «A infância não se vê da infância», e num pedacinho que aproveitou para o lançamento do Olhar asCapas de há dias, leu palavras de Ruy Belo é apenas por termos perdido a infância que a amamos tanto e, inevitavelmente, Eugénio de Andrade  a lembrar que a infância aquece à medida que se distancia.

Altura de ter vontade de perguntar:

Será que andamos, toda uma vida, de mão dada com a criança que fomos?

Talvez por isto, e algo mais, voltou a publicar o poema de Álvaro Campos de que muito gosta:

« Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.»

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

A GANÂNCIA DOS RICOS

24 de Agosto de 2011

A ganância dos ricos não tem limites.

Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

É PORQUE QUERO

13 de Janeiro de 2008

Eu sei que «fumar mata», que «bloqueia as artérias e provoca ataques cardíacos e enfartes», que «prejudica o esperma e reduz a fertilidade» não tenho dúvida nenhuma de que «o fumo contém benzeno, nitrosaminas, formaldeído e cianeto de hidrogénio» e que palavras tão ameaçadoras hão-de decerto causar doenças esquisitas e terríveis. Perguntar-me ão então por que fumo. E a única resposta que tenho, não sendo talvez satisfatória para algumas pessoas, é: «porque quero».

Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

SEM FAZER ABSOLUTAMENTE NADA

28 de Agosto de 2003

Um dia destes, em Lisboa, sentei-me a ler o jornal no Jardim da Parada, em Campo de Ourique. Velhos conversavam ou jogavam cartas sob as árvores, crianças corriam no parque infantil, uma mulher tirava de um saco de plástico restos de pão que lançava às pombas e aos pardais. Pus de parte o jornal e ali fiquei, durante horas, sem fazer absolutamente nada senão respirara (e com que lentidão ociosa é possível respirara num jardim!), enquanto as vozes da grande cidade febril se desvaneciam distantemente dentro e fora de mim.

Os jardins são, nas nossas cidades, os poucos lugares onde existe tempo e espaço para a permanência e para o ser.

Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

TAMBÉM EU MORRI COM ELES

14 de Junho de 2001

Os meus mortos levaram consigo, de mim, palavras, memórias, dias, lugares, desígnios, incertezas; os seus olhos guardam para sempre o meu rosto, os seus ouvidos a minha voz. Também eu morri com eles, e também eu, o que fiquei, me perdi fora de mim. Onde quer que eles estejam agora, quem quer que sejam, estou, pois, junto deles. E pertencem-me, tanto quanto provavelmente eu lhes pertenço.

Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

O QUE PASSA DEVAGAR

3 de Maio de 2001

Um velho tipógrafo, o Sr. Amaro, da Tipografia do Carvalhido, disse uma vez aos meus deslumbrados 22 anos algo que, por algum incerto motivo, nunca deixei de ouvir dentro da cabeça e dento do coração: «Tudo passa. O que julgamos que permanece é apenas o que passa devagar». Hoje que o Sr. Amaro e a Tipografia do Carvalhido, como eu os conheci, passaram para sempre e, com eles, também os meus 22 anos.

Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura

terça-feira, 28 de setembro de 2021

SEMPRE O REGRESSO A CASA...

Junho de 1977

Talvez as viagens, todas as viagens, se façam principalmente pelo lado de dentro. Talvez, quem sabe?, o viajante, procurando um mundo, caminha sempre de regresso a casa.

Porque tudo o que o viajante deixou atrás de si o segue.. A casa é a sombra do viajante. Ele próprio é, provavelmente, apenas a sua sombra.

Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura

domingo, 19 de setembro de 2021

À ESPERA DA TROMBOSE OU DO ENFARTE

10 de Junho de 1992

O que foi feito dos meus amigos e das coisas belas e desmesuradas por que todos nós perdemos e ganhámos a juventude? Olho em volta e resigno-me: os meus amigos cansaram-se jazem agora em empregos rotineiros à espera da trombose ou do enfarte. Alguns passaram-se com armas e bagagens (e, naturalmente, proveito) para o lado do inimigo. Os melhores (mas que sei eu?) engordaram – para dizer a verdade, todos engordámos… - e tornaram-se cépticos e amargos, carregando a nossa memória comum como um pecado envergonhado. Muitos morreram em guerras sem sentido, ou tão-só de tédio, de longo e insuportável tédio. Outros partiram para improváveis distantes lugares; um enlouqueceu (e esse foi, se calhar, o que , imóvel e cegamente, partiu opara mais longe.

Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura

terça-feira, 17 de agosto de 2021

A INFÂNCIA COMO LUGAR DE EXÍLIO

29 de Janeiro de 1992

A infância é um lugar de e3xílio. Se não tivermos, em qualquer sítio do coração, uma infância, onde nos refugiaremos quando os ladrões vierem para nos roubar a inocência e os sonhos e quando os assassino baterem à porta? Se não tivermos uma pequena infância que seja (um jardim longínquo, um vago quarto de dormir perdido), onde guardaremos os segredo mais secretos e onde brincaremos ainda? E quem nos responderá quando, diante do nosso rosto no espelho, nos virmos e não nos reconhecermos, ou quando, nos dias de infelicidade, chamarmos pelo nosso nome?

Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

NÃO SE DISSOLVE COM FACILIDADE...

18 de Setembro de 1991

 Nunca militei no PCP. Estou talvez, por isso, à vontade para perceber a resposta de António Hespanha, ainda e sempre ao fogoso Telejornal, quando lhe perguntavam se iria, também ele, abandonar o PCP: «Sabe, ensinou o professor, eu nunca ganhei nada com o PCP, nem o PCP comigo; o nosso casamento não foi, de todo em todo, um casamento de conveniência; se fosse, seria bem fácil dissolvê-lo, mas um casamento de amor, esse não se dissolve com facilidade…»

 Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura

quarta-feira, 21 de julho de 2021

SER TESTEMUNHA É PIOR DO QUE SER RÉU

Por algum motivo os cidadãos têm hoje medo dos tribunais. Se o leitor tiver a infelicidade de se envolver num pequeno acidente de automóvel há-de ver as testemunhas fugirem do local, de si e das suas razões, como o diabo foge, diz-se, da cruz. Porque hoje, ser testemunha é, às vezes, pior do que ser réu. Uma testemunha não é tratada (nem respeitada) como um desinteressado colaborador da justiça, mas como um intruso; e quem se presta a depor em juízo é porque não está no seu juízo… A partir do momento fatídico em que dá o «nome, estado, profissão e morada», um homem deixa de ser senhor do seu destino; será notificado para diligências que, sem que ninguém lhe dê uma explicação, não se realizam; para julgamentos sucessivamente e infinitivamente protelados; perderá o tempo e a paciência; praguejará vezes sem conta em silêncio; e, quando, finalmente chegar (se chegar) a entrar na sala de audiências, será invectividado e vexado, ouvirá palavras duras, insinuações, alusões, indignidades, e não terá, a mais das vezes, a protecção de quem, nos tribunais, está acima das partes e do resultado do litígio.

Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura

terça-feira, 29 de junho de 2021

PERTO DO CORAÇÃO

Aqui e ali, em algum vão de escada ou em algum inviável primeiro andar frequentado por gente silenciosa e obscura, em qualquer esquina perdida, ou persistindo arruinadamente entre ostensivas montras de bancos e de prontos-a-vestir, resistem na cidade as últimas cerzideiras, costureiras, apanhadoras de malhas em meias, engraxadores, latoeiros, caldeireiros, sapateiros e toda a legião de artesãos que os tempos urbanos, muito antes do chamado impacto do Mercado único, condenaram.

Hoje transformaram-se em segredos de família: quem conhece uma cerzideira não o diz a ninguém e partilha só com os amigos do peito e os parentes próximos esse inestimável património. E quem sabe do último limpa-chaminés, vindo do fundo da memória e de qualquer tugúrio das vizinhanças, recebe-o junto da lareira da sala com o orgulho discreto de quem recebesse o representante de extinta e esquisita dinastia.

Manuel António Pina, em Crónica, Saudade da Literatura