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sexta-feira, 10 de abril de 2026

CÂNTICO

Belo é ver florir os galhos

das velhas árvores.

E ver chegar as aves

que voltam do Sul.

Belo é o sangue rubro

dum lanho fresco,

e o riso que nasce

das nossas palavras.

Belo é o vir da manhã

sobre os telhados nus

das cidades brancas.

E mais belo ainda

que este sol visível

enflorando, amor,

teus longos cabelos

de guizos dourados:

mais belos que os ventos

cavalgando as nuvens

e dizendo-nos: vinde!,

e que o meu gênio abrindo

suas asas nos céus:

 

Mais belo que o fluir

silente desta célula

fluindo nos cosmos:

Mais belo, amor,

que a tua própria beleza

 

é este sol inviolável,

rútilo, no fundo de nós.


Papiniano Carlos

quarta-feira, 2 de julho de 2025

OS CICLISTAS

Com um surdo rumor de escavadora

ressoa no subsolo a tua voz.

Muitos tapam os ouvidos delicados.

Outros escondem-se para não ouvir.

E outros estremecem de pavor.

Mas, rápidos, os ciclistas pedalam

na bruma dos subúrbios ao teu encontro.

Rosto baixo, mãos no guiador, pés

bem firmes nos pedais, geram

o movimento, o ritmo alado

das máquinas frágeis que cavalgam

ao amanhecer. Perpassam como espectros

sob a bruma e juntam-se, confluem,

avançam como um rio poderoso

sobre a cidade adormecida.

Os ciclistas. Os que erguem os andaimes

e fazem girar os fusos dos teares.

Os que movem as gruas. Os que transportam

o dinamite nas mãos calosas.

Os que não sabem envelhecer de tédio

à mesa do café nem vivem de mercadejar

preservativos, palavras, casas pré-fabricadas.

Os que não sonham morrer em glória

como jovens deuses trespassados na batalha.

Os que não hão-de apodrecer, como muitos

de nós, roídos de lepra e desespero.

Esses merecem bem a tua voz, Orfeu.

Papiniano Carlos em O Desporto Na Poesia Portuguesa

 

sexta-feira, 9 de junho de 2023

OLHAR AS CAPAS


Estrada Nova

Papiniano Carlos

Capa: Júlio Pomar

Biblioteca da Censura do jornal Pùblico nº 14

Edição fac-simile, Junho de 2023-06-09

 

Libertação

 

A liberdade ficava para lá

do arame farpado

e do meu corpo fétido, pobre,

roído de chagas, cheio de pús,

com olhos cegos de tanta escuridão!

 

A sentinelas cinzentas espiavam.

 

Mas que me importyavam as sentinelas?

 

Mal me cabia na boca roxa

a  língua cortada, grossa, sarrosa,

quando por ela anunciei

que era LIVRE,

e o meu grito espantoso

pôs um arrepio na nuca

de todos os tiranos.

 

Pasmaram as sentinelas

e o meu cadáver tomou na terra.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

ROSA NOTURNA


Sem flores ou aves ou sequer um reverdecido

galho  entre as sangrentas e decepadas mãos

sepultas em cada fenda das muralhas:

 

entre o asco, os excrementos e a vulcânica

solidão dum deus caído, aqui, onde cada

fruto é uma rubra lâmina de silêncio:

 

onde uma árvore, ou o amor, amaldiçoados

são, e nada sobrevive além destes ásperos

insectos devoradores, fome, ácida morte:

 

aqui, no fundo do nosso despedaçado

coração, aqui, ardente rosa noturna

é que a verde Primavera floresce.


Papiniano Carlos em Cadernos do Meio Dia nº 2, Julho de 1958

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS



Sonhar a Terra Livre e Insubmissa

Egito Gonçalves/Luís Veiga Leitão/Papiniano Carlos
Desenho de Augusto Gomes, Vinheta de José Rodrigues
Capa: Armando Alves
Colecção Duas Horas de Leitura nº 16
Editorial Inova, Porto, Fevereiro de 1973

Caminhos Serenos

Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
               caminhemos serenos.

De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniqüidade
                caminhemos serenos.

Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
aos que nem com a morte podem vencer-nos
                caminhemos serenos.

O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia conosco vai.                                                      
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
                 caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas

                 caminhemos serenos.

Papiniano Carlos