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sexta-feira, 27 de março de 2026

DAS CITAÇÕES


 Sempre entendi que quando há quem diga as coisas melhor do que possa dizer, não hesito em fazer citações.

«"Um país maluco de andorinhas / tesourando as nossas cabecinhas /de enfermiços meninos, roda-viva / em que entrássemos de corpo e alegria! Do humor visionário
Como alguns leitores terão provavelmente notado, gosto de citações (também gosto de advérbios de modo, mas isso agora não vem a propósito). As citações têm várias vantagens. Acima de tudo, poupam-nos trabalho. Além de nos pouparem trabalho — benefício de monta para quem considera que o trabalho, além de mal pago, está sobrevalorizado (caso, por exemplo, de Albert Cossery, autor, entre outros, de Mandriões no Vale Fértil — trad. Júlio Henriques, Antígona, 3ª ed., 2022) —, permitem-nos expressar melhor ideias que, sem a elas recorrermos, expressaríamos decerto pior.

Dirão alguns, em tom acusatório, que as citações não passam de uma bengala. Não serei eu a contrariá-los. Faço apenas humildemente notar que, ultrapassada certa idade, de uma maneira ou de outra, metafórica ou literalmente, uma bengala dá sempre jeito. De pois há a síntese. Uma boa citação permite-nos ir directos ao ponto. Sem palha. Com sorte, com elegância. E a elegância, ao contrário do trabalho, anda bastante subvalorizado.»

Ana Cristina Leonardo, Público 20 de Fevereiro

«Citas muito, dizem. Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado pelas modas «que vêm do estrangeiro».

Gostaria de tornar bem claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas – isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.

Por outro lado, a citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.»

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi

Legenda: Ilustração de Willard Metcaff

sábado, 21 de fevereiro de 2026

CONVERSANDO


Das citações.

A opinião de Eduardo Prado Coelho:

«Citas muito, dizem. Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado pelas modas «que vêm do estrangeiro».

Gostaria de tornar bem claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas – isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.

Por outro lado, a citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.»

Por mim, sempre tive a ideia se há alguém que diz as coisas melhor do que eu digo, não hesito: cito.

São diversos os comentários que leitores fazem às muitas citações que Ana Cristina Leonardo faz nas crónicas que publica no Público.

Na crónica de ontem a autora entendeu que era hora de escrever sobre o assunto.

 Deste modo:

«Como alguns leitores terão provavelmente notado, gosto de citações (também gosto de advérbios de modo, mas isso agora não vem a propósito). As citações têm várias vantagens. Acima de tudo, poupam-nos trabalho. Além de nos pouparem trabalho — benefício de monta para quem considera que o trabalho, além de mal pago, está sobrevalorizado (caso, por exemplo, de Albert Cossery, autor, entre outros, de Mandriões no Vale Fértil — trad. Júlio Henriques, Antígona, 3ª ed., 2022) —, permitem-nos expressar melhor ideias que, sem a elas recorrermos, expressaríamos decerto pior.
Dirão alguns, em tom acusatório, que as citações não passam de uma bengala. Não serei eu a contrariá-los. Faço apenas humildemente notar que, ultrapassada certa idade, de uma maneira ou de outra, metafórica ou literalmente, uma bengala dá sempre bastante jeito. Depois, há a síntese. Uma boa citação permite-nos ir directos ao ponto. Sem palha. Com sorte, com elegância. E a elegância, ao contrário do trabalho, anda bastante subvalorizada. Porque se é verdade que Einstein não chegou à elegantíssima síntese E = mc² flanando apenas, também é verdade que a hipótese (genialmente arrojada: não tenhamos medo das palavras) de o tempo não ser uma medida fixa lhe ocorreu ia ele a passar tranquilamente junto à Torre do Relógio em Berna. Por falar nisso, li algures num livro, já não me lembro qual, que o biólogo e psicólogo Jean Piaget, inspirado pelo físico, chegaria à conclusão de que as diferentes setas do tempo em nada parecem estranhas às crianças: para elas, quanto mais depressa correm, mais devagar o tempo passa. Lembrando Pessoa: “Grande é a poesia, a bondade e as danças.../ Mas o melhor do mundo são crianças”.

Ocasionalmente, flanar e pensar pode ter consequências bizarras: umas vezes cómicas, outras vezes trágicas. Tales de Mileto caiu num buraco, ao que se sabe sem mazelas de maior, enquanto caminhava a observar as estrelas. Já ao filósofo Francis Bacon, terá sido o empirismo a matá-lo. Envolvido em experiências sobre congelação, ao cruzar-se em pleno Inverno com uma galinha, decidiu mandar matá-la e enterrá-la na neve. O destino da ave perdeu-se, mas Francis Bacon acabaria mesmo por morrer de pneumonia.

Chegado aqui, o leitor terá talvez concluído, e legitimamente, que, além de citações e de advérbios de modo, também admiro muitíssimo uma boa história. Só para dar dois exemplos: o chamado Antigo Testamento ou As Mil e Uma Noites são fontes inesgotáveis. E para voltar às citações e à sua defesa, e dado que me referi às escrituras hebraicas: e se afinal o Livro de Eclesiastes estiver certo e não existir mesmo “nada de novo debaixo do sol”, pelo menos para nós que, como Sísifo, empurramos ciclicamente a mesma pedra, revoltados de quando em vez?
Albert Camus, o autor da célebre abertura de O Mito de Sísifo — “Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida merece ser ou não vivida é responder à questão vital da filosofia” (uma daquelas frases que comprovam sobremaneira que “o começo de um livro é precioso”) —, não escolheu o suicídio ante o absurdo. Morreria prematuramente e de maneira absurda num acidente na estrada, durante uma viagem de automóvel em que decidiu participar apenas ao último minuto. Já cá não está para nos ajudar a decidir sobre a revolta, mas quando se tropeça por acaso em Loretta, as decisões mais recentes do Parlamento Europeu (PE), rasurando a palavra “mulher” só parecem comprovar, senão os trabalhos de Sísifo, decerto a longevidade do absurdo.»

A prosa sobre citações já vai longa, mas não resisto a terminar colocando o comentário de uma leitora na edição do Público de ontem:

«Gosto de citações, remetem- nos para obras que podemos desconhecer e aprendemos e, por outro lado, é uma homenagem. Não vejo nisso qualquer problema. É preciso ter lido muito para as tornar oportunas e nisso a Ana é exemplar.»

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

TOMAI LÁ DO O'NEILL!


Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões, mais conhecido por Alexandre O’ Neill, nasceu  em Lisboa no dia 19 de Dezembro de 1924.

Considerava-se o maior dos poetas menores.

Antes do resto, uma passagem pela pasta do Arquivo Cá da Casa sobre o O’ Neill.

Trata-se de uma crítica de Eduardo Prado Coelho no Diário de Lisboa de 17 de Abril de 1969, apresenta-se apenas um pormenor do recorte, sobre o livro de Ombrona Ombreira para que reparem no elogio do Eduardo ao O’ Neill, que entretanto o crítico titulou como um «Livro Menor».

No ano de 2024 Isabel Coutinho no Público pediu-nos para seguirmos O’ Neill em tempo do seu centenário de nascimento ele que já nos deixara um poema para que seguíssemos o cherne « desçamos ao fundo do desejo atrás de muito mais que a fantasia e aceitemos, até, do cherne um beijo.»

Isabel Coutinho, no artigo do Público, lembra que nos dez anos da morte do escritor, Vicente Jorge Silva garantia que «O’Neill é talvez o poeta português moderno mais cruelmente injustiçado, mais esquecido e menos lido nos anos que correm – ele que foi um dos maiores inventores de palavras, paradoxos, trocadilhos e construções poéticas originais que este país deu à luz» e nesse 21 de Agosto de 1996, quando morreu, também em Lisboa, Vicente Jorge Silva rematava: «O’Neill é o nosso remorso deste Agosto, uma memória que não é possível,deixar morrer, uma questão que Portugal tem consigo mesmo.»


E Isabel Coutinho não deixa de lembrar Nora Mitrani, escritora búlgara que pertenceu ao movimento surrealista francês e por quem O’Neill se apaixonou perdidamente e para quem escreveu o poema Adeus Português, um dos mais belos poemas da literatura portuguesa.

O’Neill nunca mais viu Nora Mitrani.

De França, ela convidou-o : «Vens, ficas cá e depois logo se vê».

Acontece então que a família de O’Neill não quer que ele vá atrás da francesa, movimentando conhecimentos junto da PIDE, pretendia que a polícia política não lhe concedesse passaporte para viajar ao encontro de Nora Mitrani.

 

                              UM ADEUS PORTUGUÊS

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora agora o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
E avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

 

Notas:

O título do post é tirado de uma antologia de poemas de Alezandre O’ Neill, organizada por António Tabucchi.

«Sigamos o O’Neill!, no ano do seu centenário» de Isabel Coutinho, Público 19 de Dezembro de 2024.

«Alexandre O’Neill: Uma Biografia Literária» Maria Antónia Oliveira.

O poema Uma Vida de Cão é copiado de No Reino da Dinamarca.

O poema Um Adeus Português é copiado de No Reino da Dinamarca,  que O’Neill dedica ao compositor Alain Oulman, que percorreu anos e anos para que O’ Neill escrevesse um poema para ele musicar e acabou por acontecer Gaivota.

sábado, 17 de maio de 2025

POEMAS AUTOGRAFADOS


Estamos, hoje, com o nº 25 da Colecção Poetas de Hoje, editados pela Portugália Editora.

O poeta é o António Reis mais os seus Poemas Quotidianos.

Quem escreveu o prefácio, quase obrigatório, como disse José Gomes Ferreira, foi o Eduardo Prado Coelho.

«Em António Reis, toda a poesia emerge do silêncio – processo difícil, lento, convulsivo. Porque se trata dum silêncio tenebroso, feito de cegueira e rouquidão, feito de dias alucinados repetidos, feitos de esgares apenas – esse silêncio de pedra que é o quotidiano de muitos.»

A lápis, o livreiro, escreveu, naquele tempo, o quanto custavam Os Poemas Quotidianos: 35$00. Trinta e cinco escudos que, ao câmbio de hoje, são 0, 175 euros. Dá mesmo para acreditar? Dá! E terá que se dizer que aqueles 35 escudos eram tirados de ordenado curtíssimo porque muitos livros da Biblioteca da Casa foram comprados com sacrifícios vários.

Não tenho palavras para vos contar o que foi a alegria, o prazer, o espanto que a leitura destes Poemas me trouxe.

O Eduardo Prado Coelho, no 1º volume de Tudo o Que Não Escrevi, fala assim de António Reis:

«Pensava-o imortal, não sei porquê. Talvez porque nunca o vi envelhecer. Entrou em minha casa há vinte anos – uma casa vagamente «minha», onde morei apenas alguns meses ali para os lados da avenida de Roma. Uma casa que nem me chegou a ser casa, a não ser por duas ou três coisas muito nítidas que nela me aconteceram. Uma delas foi o António Reis. Ele vinha do Porto, não sei se naquele dia ou no meu imaginário, e era alguém que tinha escrito uns poemas de uma extrema sensibilidade, rasantes ao solo, de uma sensibilidade minimalista, a que chamar por isso mesmo Poemas Quotidianos. O meu mérito estava em ter gostado daqueles versos; o erro seria complicá-los demasiado. Desde esse dia que me ligou ao António Reis uma enorme cumplicidade. E isso transbordou para o cinema. Para o Jaime, primeiro. E depois para o Trás-os-Montes.»

Sim, porque António Reis, para além de poeta e professor na Escola de Cinema, foi o cineasta de filmes que realizou com a sua mulher Margarida Cordeiro e escreveu os diálogos para o filme Mudar de Vida de Paulo Rocha.

Maria João Duarte escreveu:

«Não sei se este homem nasceu primeiro poeta ou cineasta.»

Manuel António Pina no Jornal de Notícias escreveu uma crónica «Lembrança De António Reis»:

«Muitos anos antes, tínhamos (eu, o Chico, o Eduardo Guerra Carneiro, o Manuel Bernardo, o Madureira, quase todos já mortos) pouco mais de 20 anos e trazíamos o coração, sob a forma dos Poemas Quotidianos de António Reis, debaixo do braço, partilhando-os nos cafés do Carmo e de São Lázaro  e lendo-os em voz alta pela noite fora no TUP, como uma espécie de senha por que nos reconhecíamos».

António Reis morreu por um Setembro de 1991 e quase não foi notícia. António Cabrita, no Expresso, insurgiu-se contra esse facto, as muitas ausências no funeral, ou como escreveu João Mário Grilo: «chocou-me ver como é que se morre tão sozinho. Foi a enterrar com os amigos, o que também é bonito, mas não sei… o Reis merecia mais, foi alguém de quem fomos testemunhas. Acho que este país lhe deve mais do que lhe pagou.»

É este o poema que António Reis escolheu para Autógrafo da Colecção Poetas de Hoje:

 

Tenho nome

nome

 

tem nome um tecido

um objecto

o vento

 

oh murmúrio

de lábos juntos

no tempo que me esconde

 

António Reis, como epígrafe para os seus Poemas Quotidianos, escreveu uma frase de Saint-Exupéry tirada de A Terra dos Homens:

«Os homens não sabem o que é uma laranja.»

terça-feira, 26 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 

       Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


Prosseguia o quotidiano dos nossos governantes.

Sua Excelência o Presidente da República inaugurava, no dia 23 de Março, as novas instalações do Hospital Distrital de Cascais.

Por sua vez, Sua Excelência o presidente do conselho recebia, no dia 24 de Março, os primeiros corpos gerentes da nova Associação Nacional da Juventude, eleitos na assembleia geral efectuada na Caparica, que lhe foram apresentar cumprimentos e convidá-lo para inaugurar oportunamente a sede da organização.

Após o 25 de Abril. que terá acontecido a estes jovens?

E em que se converteu a sede da Associação nacional de Juventude?

Por outro lado, no Cinéfilo de 23 de Março de 1974 há uma carta-resposta de Eduardo Prado Coelho a Vasco Pulido Valente:

«É aliás fácil estar de acordo com as ideias do Vasco, porque ele não tem muitas».

No Plenário recomeçou o julgamento dos réus acusados de pertencerem à ARA. O escritor Carlos Coutinho fala nos motivos que o levaram a aderir ao Partido Comunista, o que leva o juiz a interrompê-lo. Dando-lhe dez minutos para responder concretamente às perguntas.

É marcada para Setembro a data de construção da Barragem do Alqueva.

terça-feira, 1 de agosto de 2023

MAIS CITAÇÕES

Citas muito, dizem. Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado pelas modas «que vêm do estrangeiro».

Gostaria de tornar bem claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas – isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.

Por outro lado, a citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume I

domingo, 24 de abril de 2022

VIAGEM EM REDOR DE UMA REVISTA



 

Esta foi a escolha, para o dia 24 de Abril de 1974, que Eduardo Guerra Carneiro fez para os leitores do Cinéfilo.

 Na crítica de cinema, Eduardo Prado Coelho, um dos colaboradores do Cinéfilo, aborda Ritual, filme de Ingmar Bergman.

 Começa assim:

 «Qualquer comunicação travada entre duas pessoas parece depender sempre de um contrato implícito, que estipula a fronteira, que separa o que se pode dizer do que não se pode dizer. A comunicação autêntica corresponde ao alargar progressivo destas fronteiras. Assegura-se assim que num exame de literatura o professor me pode interrogar sobre os meus sentimentos perante um soneto de Camões, mas não pode, segundo o contrato que nos une, inquirir acerca da minha da minha vida. E assim por diante. Pois é esta mínima lei, que parece regular as relações entre as pessoas, que Bergman transgride espectacularmente no seu filme Ritual – e daí a violência.»

Para terminar a crítica, Prado Coelho escreveu:

 «Rito infindável (que apenas uma decisão formal vem fechar) – ou (como se diz num poema de Luiza Neto Jorge) “rio que só tinha de humano o ir/secando”.»

 O filme estava em exibição no Estúdio do Cinema Império.

 No Monumental podia ver-se Harry, o Detective em Acção de Ted Post com Clint Eastwood.

 «A violência transformada no mais desprezível dos espectáculos.»

 No Mundial exibia-se O Nosso Amor de Ontem de Sidney Pollack, Com Robert Redford e Barbra Streisand

 «Da história de amor filmada no mais puro estilocpublicitário ao revivalismo da América  dos anos 40, passando pela “mensagem” social e pelas vedetas sempre em grande plano, nada falta nesta superprodução medíocre, fabricada para o êxito fácil fácil e imediato. De lamentar, sobretudo, o facto de se tratar de um filme realizado por Sydnay Pollack, um dos cineastas americanos mais interessantes da última década, agora, ao que parece, promovido a funcionário conformado.»

 O Politeama continuava a exibir Eusébio, a Pantera Negra de Juan de Orduña

 «A imagem convencional do mito ou como aproveitar o futebol para lucro fácil.»

 O Cine Clube Universitário fazia exibir no cinema Paris, Ladrões de Bicicletas de Vittorio de Sica

 No Porto, o Cinéfilo aconselhava, no Estúdio, A Máscara de Ingmar Bergman, com Bibi Anderson e Liv Ullmann.

 «Não tarde a ir vê-lo. Aconselhamo-lo mesmo a vê-lo mais do que uma vez, que uma obra como Persona, não encontrará muitas vezes.»

O Cine-Clube do Porto exibia, no Batalha, O Mundo a seus Pés de Orson Welles. 

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constitui os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

As mãos sobre os livros de José Saramago, hoje, recaíram em O Homem Duplicado.

Estes são os sublinhados escolhidos:

«Os candeeiros da rua tinham-se apagado, o trânsito crescia a cada minuto, o azul ganhava cor no céu. Todos sabemos que cada minuto que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros, e que, para a maioria, é só um dia mais.»

(Página 34)

«Devias saber que estar de acordo nem sempre significa compartilhar uma razão, o mais de costume é reunirem-se pessoas à sombra de uma opinião como se ela fosse um guarda-chuva.»

(Página 61)

José Saramago escreveu e publicou O Homem Duplicado foi escrito num tempo em que muito se falava de clones e clonados.

Foi uma leitura difícil. Pela primeira vez comecei um livro de Saramago e não o acabei. Fui-o lendo, aos poucos, muito demoradamente e sempre com pouco entusiasmo.

Há quem pense que José Saramago só poderia escrever grandes livros.

Felizmente que assim não foi. Não seria possível.

Seria interessante?

Grosso modo, o livro conta a história de Tertuliano Máximo Afonso, um vulgar professor de História, divorciado, cansado da vida, sem distracções, nem interesse por elas. Um dia aceita a sugestão de um colega, e aluga um filme.

Repara então que um dos actores, António Claro, é uma cópia fiel da sua pessoa: voz, aparência, gestos, tudo. E decide descobrir a identidade da sua cópia, que vive na mesma cidade, mas não no mesmo bairro.

O livro é esse caminho insólito de Tertuliano até encontrar António, a sua duplicação.

Eduardo Prado Coelho, numa crítica ao livro, publicada no Público de 9 de Novembro de 2002, curiosamente, foi buscar uma velha história de Alfred Hitchcock:

«Que é um MacGuffin?
Um homem num comboio interroga outro homem sobre um pacote que tinha colocado na bagageira da carruagame. O outro responde, apontando o pacote: “Ah, isso é um MacGuffin.” O primeiro pergunta: “Mas o que é um MacGuffin?” O outro diz: “É um aparelho que serve para caçar leões nas montanhas de Adirondack.” “Mas não há leões nas montanhas de Adirondack”, observa o primeiro. Ao que o segundo retorque: “Então não é um MacGuffin.”
Donde um MacGuffin é qualquer coisa que não é verdadeiramente nada, mas que passa a sustentar um segredo. E o segredo é o que move o protagonista».

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

CONVERSANDO

Quarenta anos sem Adriano Correia de Oliveira.

É bom que os mortos regressem, mas sem alvoroço.

Como disse Eduardo Prado Coelho sobre Fernando Echevarria:

«Regressam como quem regressa ao fim da tarde, e tudo se passa numa espécie de paisagem rural de sinos e lareiras. Ou, às vezes, nas ruas amaciadas da cidade – mas como se o ruído se tivesse retirado, e ficasse apenas o pacífico contorno nas imagens.»

Hoje, relendo este texto do Eduardo sobre Fernando Echevarria, (o livro é de Abril de 1994), interrogo-me como de imediato não fui em busca dos seus livros. Não é tarde demais mas o tempo perdido não volta e muitas outras coisas perdi não lendo Echevarria.

Teria eu lido, com olhos de ver, os textos do Eduardo?

«Para falar de tudo isto seria preciso que eu me debruçasse amorosamente sobre a teia de cada um destes poemas. É um trabalho que vale a pena. Afinal de contas, esta poesia só pode ser assim. Apenas um exemplo:

É mais fácil sentar-se quando os mortos

predominam à volta. Sem os vermos,

a escura transparência dos seus olhos

prepara o espaço onde fiquemos sendo

atenção a escoar-se. Mas de corpo

inteiramente dado à paz do peso.

Chamam a isto ficar alguém absorto.

Porque, enquanto se parte pelo espaço dentro,

o volume gravita de tal modo

que a alma se ergue. E um lugar intenso

fica pairando. E ver, então, é próximo

e sentar-nos no imóvel azul do pensamento.»

domingo, 21 de fevereiro de 2021

HISTÓRIAS QUE REMETEM PARA A INFÂNCIA

Tem um grande fascínio por comboios, por estações de caminho-de-ferro, verdadeiros lugares da memória.

O Eduardo Prado Coelho disse que as histórias de comboios remetem sempre para a infância.

Há uma fotografia, não a encontra, que mostra Mário Soares e Maria Barroso, após o 25 de Abril, a regressarem do exílio de comboio. Santa Apolónia era um mar de gente.

Anna Karenina atira-se para debaixo de um comboio, não como fim da sua desgraça, mas como continuação do seu destino.

Agustina Bessa-Luís, em As Estações da Vida, explica: «O seu suicídio, quase automática. Ao lançar-se diante do comboio que avança ma linha, é ainda um modo de ligação com o amante. Ela exerce o seu direito de intervenção já quando a paixão está condenada. Porquê o comboio? Porque ele sugere viagem, fuga, fadiga sob um ângulo de distracção e esquecimento.»

Tolstoi fez de um comboio o seu caixão, morrendo na estação de Astapovo.

A grande viagem de comboio de Lenine, destinada a mudar o mundo, iniciou-se a 9 de Abril de 1917, e durante oito dias preparou a revolução.

Aqueles enormes comboios de mercadorias que percorrem a América profunda, que passam lentamente e onde vagabundos, malta diversa andam à boleia.

 «Durante a depressão eu costumava viajar em comboios de carga pelo menos uma vez por mês. Nesses dias podia ver-se uma centena de homens num vagão, aberto ou fechado, e não eram só vagabundos, mas toda a espécie de desempregados, que iam de um lado para o outro, alguns deles só a vadiar.»

Jack Kerouac em Pela Estrada Fora

No Sweet and Lowdown, filme do WoodyAllen, o Sean Penn enternece-se a ver passar comboios.

O pintor belga Paul Delvaux gostaria de ter sido chefe de estação.

Inveja o anão, apaixonado por comboios, de A Estação, um comovente filme de Thomas McCarthy, que recebe, como herança, um pedaço de terra, em nenhures, que tem uma esquecida estação de comboios e que trabalha numa pequena loja onde desaguam os entusiastas-apaixonados-obessessivos dos caminhos de ferro, que sabem tudo sobre comboios, que podem fazer centenas de quilómetros para tirarem uma fotografia a uma locomotiva, a uma carruagem. 

Finbar já ouviu todas as piadas e observações sobre o seu aspecto físico, apenas quer que o deixem em paz. Durante quanto tempo conseguimos não estar sozinhos? É um prazer raro alguém apenas falar quando o quer fazer. É a solidão que ele procura indo viver para estação desativada que lhe calhou como herança. Não o consegue de todo.

Talvez porque tudo anda ligado, despede-se, por hoje, dos comboios e faz uma incursão pelo livrinho do Eduardo Guerra Carneiro:

«Um pequeno bar junto à estação de Nelas. Verão de 1964, Uma íntima sensação de liberdade (penso nas abelhas). Uma rapariga tão dourada ao longe. Outra vez a estação libertadora, um respirar mais fundo, sorri, segurei uma das tuas mãos, entrámos pouco depois no bar da estação de Nelas. Sim, isto foi serenidade!»

domingo, 24 de janeiro de 2021

MAS FÊ-LO NAS MINHAS COSTAS

 

Em muitos dos locais em que tenho trabalhado ocorre-me com frequência uma história de Bertold Brecht: «Um colaborador do senhor K. foi acusado de tomar uma atitude hostil a seu respeito. “sim, mas fê-lo apenas nas minhas costas”, disse o senhor K. a defendê-lo.»

Eduardo Prado Coelho em Tudo o Que Não Escrevi, Volume II

quinta-feira, 28 de maio de 2020

CONVERSANDO


Como leitor fiz descobertas sem mapa, sem bússola, lembro José Gomes Ferreira, José Saramago, mais o Saramago que o Zé Gomes.

Havia a biblioteca do meu pai, havia os suplementos literários, quase todos a publicarem-se à quinta-feira.

Líamos os críticos, colhíamos orientações que eram, ou não, seguidas, mas orientações.

Lembro Eduardo Prado Coelho que terá sido, por aqui, o último moicano da crítica literária.

O Eduardo Prado Coelho era o Eduardo Prado Coelho, como em tempos recuados o João Gaspar Simões era o João Gaspar Simões.

Assim como uma espécie de instituições.

Quando morreram ficámos a saber da falta que nos ficaram a fazer, depois de, amiúde, termos andado a chamar-lhes todos os nomes e dando de barato que por vezes, um e outro, se punham a jeito.

Francisco Vale, que é editor da Relógio d’Água, também jornalista, também escritor, lembra Pierre Bayard que escreveu um livro, Como Falar dos Livros Que Não Lemos.

Deixa no ar que os críticos, por vezes, falam dos livros que nem sequer leram.

Será?

Também nos diz dessa coisa horrorosa de os críticos darem estrelas aos livros que criticam: «a classificação que se justifica nos hotéis, como questão de conforto dos quartos e serviço de bar, e que talvez faça sentido nas estrelas do Guia Michelin, é de todo inadequada para leitura e ensaio.»

Pegando no Expresso, no Público, ressalta que nas poucas críticas (?) que fazem o que por ali se nota é um certo amiguismo, a influência que as editoras mexem e remexem.

Legenda: pintura de Jean-Honoré Fragonard

segunda-feira, 23 de março de 2020

VELHOS RECORTES


Miguel Esteves Cardoso está muito longe, seja no que for, de me entusiasmar com aquilo que escreve ou opina.

Contudo, agora com todo o tempo do mundo, ando a arrumar caixas de papelada e encontrei este velho recorte dum texto de Esteves Cardoso sobre o Eduardo Prado Coelho.

Se ainda andasse por aqui, o Eduardo tinha quase rigorosamente mais um ano do que eu, nasceu a 29 de Março de 1944.

Conhecemo-nos, escapatoriamente, no Diário de Lisboa Juvenil, muitos anos mais tarde, tempos do PREC, tropeçámos no hall do Centro Vitória.

Entendia que eu tinha opiniões primárias e pouco fundamentadas.

Tinha razão. Sempre foi vasta a minha ignorância. Ainda hoje.

O Mário Castrim depositava grandes esperanças nele. Não se enganou quase nada. O João César Monteiro não era da mesma opinião mas, estando longe com um cigarro na beiça, não é para aqui chamado.

Eduardo Lourenço disse, recentemente, que o Eduardo não tinha o culto do patético, do trágico, tinha o instinto, o gosto da felicidade.

António Mega Ferreira, também recentemente escreveu:

«Ele era um “tudólogo”, nada do que era humano lhe era estranho.»

Fica o recorte do Esteves Cardoso, que é o editorial da revista «K» de Agosto de 1992:


Legenda: fotografia do retomar dos ENCONTROS DO JUVENIL em 12 de Novembro de 1966, na Casa da Imprensa. O convidado foi Eduardo Prado Coelho. A moça que está no canto esquerdo inferior da fotografia, é Alice Vassalo Pereira, hoje Alice Vieira.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

OLHARES

Para quem vive, ou viveu, em França, sabe perfeitamente do que falo. Todas as manhãs havia um prazer indispensável. Comprar o jornal Libération e ir lê-lo ao café. Um café em Paris é um espaço acolhedor, com espelhos e madeiras e terraços envidraçados que se abrem para a chegada da Primavera, o sol avançando portas adentro.

Eduardo Prado Coelho

segunda-feira, 15 de abril de 2019

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O meu primeiro contacto com João César Monteiro remete-me para a década de 70, quando começou a fazer crítica de cinema para o Diário de Lisboa, tendo como companheiros o Eduardo Prado Coelho, o Lauro António e o Vitor Silva Tavares.


«Eu sempre disse por exemplo que o cinema sou eu. E isto é uma afirmação que não tem nada de monárquico ou de centrista. Tudo o que eu faço é singular, insubstituível.»

E ainda:

«Eu sou um realizador que não sabe efectivamente, «a ponta de um corno». Sei que isto é horrível, mas é assim. Devo dizer que foi com o poeta Carlos de Oliveira que mais aprendi de cinema.»

Fiquei com um gosto assolapado pelo João.

Mais ainda quando colaborou na folha cultural q. b. &.etc. principalmente, quando lá  escarrapachou A Minha Certidão:

Por volta dos 15 anos, fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do Dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade, e nunca mais fui visto na companhia de políticos.

Eu e o meu pai, volta e meia, íamos para a petisqueira e para a conversa e depois havia «piolho»

Tudo corria melhor, a cereja no topo do bolo, quando calhava um filme do João César Monteiro.

Infelizmente só vimos quatro filmes, a sua morte em 1990, roubou-me esse insubstituível prazer.

Para além do génio, para além da arte, para além de tudo, os filmes do João César Monteiro davam-nos um imenso gozo.

Foram estes os filmes:

Silvestre no Cine-Bloco
À Flor do Mar no Ávila
Recordações da Casa Amarela no Fórum Picoas e éramos os únicos espectadores.

João César:

«A mim interessa-me fazer filmes para todos os públicos. Noventa por cento da população do país não é um espectador de cinema e provavelmente será esse o público mais inocente e disponível, porque menos condicionado por certos códigos imperialistas. É um dever cívico fazer cinema para essa gente, embora sem grandes esperanças de que a curto prazo possam ser espectadores de cinema.»

Vitor Silva Tavares:

«Melhor do que ele, ninguém escreve em português de - e para - cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras - comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.»


Pego no guião de Recordações da Casa Amarela, publicado no 2º volume da Obra Escrita de João César Monteiro e entretenho-me a copiar a Cena 06 do filme.

João César escreve que a cena 06 de Recordações da Casa Amarela se passa, de dia, no restaurante Estrela da Sé.


«Ferdinando sentado à mesa, serve-se de uma cabeça de garoupa com todos. Olha para fora de campo e diz:

Ferdinando: Caríssimo João de Deus: isso é reumático ou venéreo?

João de Deus entra em campo, com o sobretudo vestido, aperta a mão a Ferdinando, enquanto sussurra, debruçado sobre Ferdinando:

João de Deus: É coisa que me apareceu nas virilhas.

João de Deus senta-se em frente de Ferdinando.

Ferdinando (a rir): Nas brilhas, como se diz no Porto. Manda vir qualquer coisa que se trinque.

João de Deus: Não me apetece, Ferdinando. Tenho a boca a arder e custa-me mastigar.

Ferdinando: Estamos todos podres, é o que isso quer dizer. E a tua mãe?

Enquanto Ferdinando se vai  batendo com a cabeça de garoupa, João de Deus puxa de um cigarro, acende-o e, com o cotovelo apoiado no tampo da mesa, encosta a cabeça ao punho fechado.

João de Deus: Lá anda.

Ferdinando: Madre de Deus só há uma. Nunca o esqueças, meu filho.

João de Deus: Não consegui foi escrever nada. Sou amigo do tipo. Pelo menos, fui amigo da mulher e custa-me um bocado. Conheço-os há uma data de anos, ainda do tempo da outra senhora.

A câmara desloca-se ligeiramente para a esquerda, em travelling lateral, e descobre Ferdinando, que suspende o garfo, junto à boca.

Ferdinando: Estás a perder qualidades, Se me é permitido um reparo – não leves a mal - , por vezes consegues ser contundente, mas nunca fulminante. Andas às voltas, não vais direito ao assunto. Bebe nos clássicos, meu filho. Fulmina. Recordas-te da polémica de Camilo com Mesquita Fialho?

A câmara desloca-se ligeiramente para a direita, em travelling lateral, e descobre Ferdinando, que muito devastou a pratada e emborca um copo de branco.

João de Deus: O problema é que este não se chama Filho.

Ferdinando pousa o copo na mesa e diz com toda a gravidade que se impõe:

Ferdinando: Mas também deputa… filho.

João de Deus: Estou farto de escrever imundícies.

Ferdinando está boquiaberto.

Ferdinando: Mas tu nunca arriscaste a ponta de um corno, nem sequer o nome.
As chatices com a «judite», os processos em tribunal, as pesadas indemnizações, tudo te tem sido poupado. Nunca me vi confrontado com um caso de tamanha ingratidão: metes-me nojo.

O criado entra pela esquerda e levanta o prato de Ferdinando.

Ferdinando: Só café e uma bagaceira fresquinha. Da casa.

O criado sai por onde entrara. Percebe-se que Ferdinando acende uma cigarrilha. O criado entre em campo com o café e o bagaço, pousa-os na mesa e volta a sair.

Ferdinando: Vá-me tirando a continha, la dolorosa.»

Uma cena maravilhosa.

Por alturas da exibição do Silvestre em Lisboa, Mário Castrim abria, no Diário de Lisboa uma sua crítica de televisão, dizendo que tinha ido ver o filme pela segunda vez como quem se vai purificar nas águas do Jordão.

Sobre Silvestre, o João César disse que era um filme para as pessoas que ainda conseguem sentir-se crianças.

Agarrando na frase, José Saramago escreveu que «é um filme que não infantiliza os adultos que nós somos, mas adultiza as crianças que continuamos a ser.»

Fernando Lopes:

«Ao César perdoa-se tudo porque ele tem um talento que se ri de si próprio. Em suma. É um grande demente que faz coisas muito belas.»

Ainda o João:

«Ninguém morre por não fazer filmes e se morrer é idiota. Não avle a pena. Morre-se, sim, por fazer filmes, por na idade em que se fazem as opções mais importantes (que não são necessariamente as mais graves) se ter optado pelo ofício de cineasta, Agora estou sozinho diante das estrelas.»

Tenho saudades do João César Monteiro, do meu pai.

A falta que me fazem!

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

DANÇAR FORA DA DANÇA


Nunca dancei. Vi os outros dançarem, em terraços voltados para o mar, no chão de areia de África ou do Brasil, em clandestinos infernos de bares de marinheiros ou em inflamadas discotecas de praia turísticas, vi-os e julguei-os felizes, esquecidos e voláteis, perdidos e enovelados numa bola de fogo, mesmo se às vezes os pares se rompiam e ela vinha sentar-se a chorar, e então eu pensava que ainda havia palavras que podiam funcionar como carícias, que eu sabia dizê-las, palavras redondas, encostadas à face magoada e triste. Também dancei sem que os outros soubessem que eu dançava, mas dancei fora da dança, porque dançava para mostrar que também dançava, e lembrava-me disso em cada passo, e nunca esquecia que era o meu próprio corpo que dançava, e nunca soube dançar sobre o esquecimento do corpo, nunca ninguém dançou sobre o meu corpo como se fosse a areia da praia ou um terraço voltado para o mar, nunca ninguém que eu sentisse os dois esquecidos de mim.
Pouco a pouco, aprendi a olhar a arte da dança, e passei noites inteiras no deslumbramento de os ver, sem palavras úteis que me explicassem o que ali se passava à minha frente. Era apenas ficar sentado com os olhos colados ao vidro de um mundo outro em que os corpos se multiplicavam como estrelas no momento preciso em que ainda não se tinham tocado, mas já começavam a precipitar-se uns para dentro dos outros. Eles dançavam, esplêndidos, gloriosos, e eu ao vê-los sei que nunca dancei.


Eduardo Prado Coelho em Tudo o Que Não Escrevi, Volume II

Legenda: pintura de Di Cavalcanti

domingo, 24 de janeiro de 2016

UMA CONCHA BURGUESA E ARISTOCRATIZANTE


Parece que é sempre assim, se atendermos ao ar enlevado com que todos olham o céu e proclamam com orgulho: “É isto a Bretanha!” Será. Um tempo intransigentemente brumoso, com a areia ensombrada pela paisagem ininterrupta das nuvens, e as pessoas atravessando invernosamente a praia, embrulhadas em camisolões de malha grossa, “kispos”, “anoraks” e “parkas”, todo um reportório de protecções para o frio cortante e a agressão das marés.
Recordo-me – mas o contexto é radicalmente diferente –dos verões passados em São Martinho do Porto, “um microclima”, como dizia o meu pai, havia sol em todo o lado, e mal nos aproximávamos das Caldas da Rainha víamos uma concentração de nuvens para os lados do Atlântico, e a alternativa era simples, ou as nuvens ficavam todo o dia, ou havia uma ventania que as varria e tornava a praia insuportável. Acordávamos e corríamos a encostar a atesta às janelas, na melancolia de uma chuva miudinha, mas sempre na esperança de que isto vai levantar, e como se sabe ao meio-dia ou carrega ou alivia. São Martinho: poucos lugares portugueses tiveram para mim este peso mágico, dunas de infância em Salir, merendas na praia, castelos de areia, o Catitinha, o homem dos barquilhos, o domingo das regatas, o bilhar à noite, a roleta, as bicicletas da rua dos cafés, o jogo do prego, as excursões colectivas ao cinema para os lugares da frente, os mais baratos, onde não estavam os pais, as idas ao Facho, a descida à Praia da Adraga, o farol e a lenda do navio encalhado, as sestas, a descoberta do amor, os amuos de fim de tarde, os passeios de barco, as leituras no pinhal, a Maria Eduarda, o Artur e os seus estudos de Direito, as discussões políticas, o ir comprar os jornais, os confrontos sarcásticos entre o Benfica e o Sporting, o efeito do 25 de Abril num lugar profundamente reaccionário, os insultos oblíquos, umas caçarolas com bifes e batata fritas que se foram reduzindo e se passaram a chamar “crises” num acto de resistência dos condes e marqueses à política do regime democrático, as conversas e loucuras do Luso Soares, o grupo, o bando, a utopia, a areia nos olhos, a felicidade, o fim do Verão. Mas São Martinho era uma concha burguesa e aristocratizante, um ninho familiar, amável, confortável e doméstico, enquanto Saint-Malo tem uma forma desabrida de nos atrair, é como se passássemos de uma aventura dos cinco para um romance do Sandokan, o tigre da Malásia, e saímos da baía, e afrontamos as ondas, e caminhamos para o mar largo, e deixamos a costa a perder de vista, e sentimo-nos definitivamente abandonados, expostos à inclemência dos céus, para sempre adultos, guiados por estrelas vacilantes, sem bússola nem mapa.

Eduardo Prado Coelho em Tudo o Que Não Escrevi”, 2º Volume

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

SOLITUDE


A canção que Eduardo Prado Coelho ouvia enquanto escrevia.



OLHAR AS CAPAS


Tudo O Que Não Escrevi
Diário II (1992)

Eduardo Prado Coelho
Capa: João Machado
Ilustração da sobrecapa: David de Almeida
Colecção Finisterra
Edições Asa, Porto, Abril de 1994

A eternidade não me interessa, costumava dizer, deve ser um enorme aborrecimento. O que eu desejo é uma outra imagem do tempo, um tempo que se torne elástico, extensível, pastosos mas transparente, um tempo-chiclets, um tempo como a massas do pão que se modela com os dedos. Os momentos de verdadeira felicidade são exactamente como este: avanço em direcção ao mar, e de súbito é tudo mar dentro de mim. Henri Michaux, esse viajante sem viagens, ensinou-me um dia: «Qui connaît une mer connaît la mer.» Talvez o fascínio do jazz resulte de uma relação com o tempo deste tipo: uma tela que se alarga tanto à volta da minha cabeça que se torna uma venda iluminada (ouço Solitude cantado poe Ella Fitzgerald).

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

SARAMAGUEANDO


A arrumar papeis, as coisas que se guardam, algumas que, hoje, não sei rigorosa mente por que foram recortadas e guardadas, apanhei este início de Fio do Horizonte, a crónica que Eduardo Prado Coelho manteve na última página do Público.

A crónica é de 10 de Novembro de 2005:

São tantos os autores de romances que existem por esse mundo fora que ou a gente escolhe uma dúzia a quem se liga fielmente, ou então perde-se numa espécie de voragem. Aqueles que escolhemos, ou que de certo modo nos escolhem, passam a ser companheiros muito próximos, a quem nos liga um pacto de amizade: gostamos de os defender, independentemente dos altos e baixos de uma carreira.

Para mim, José Saramago está naquela dúzia de que falava o Eduardo.