Das
citações.
A
opinião de Eduardo Prado Coelho:
«Citas muito, dizem.
Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de
autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que
se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado
pelas modas «que vêm do estrangeiro».
Gostaria de tornar bem
claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por
vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas –
isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi
expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de
evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.
Por outro lado, a
citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a
citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel
de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço
off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas
ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.»
Por
mim, sempre tive a ideia se há alguém que diz as coisas melhor do que eu digo,
não hesito: cito.
São
diversos os comentários que leitores fazem às muitas citações que Ana Cristina
Leonardo faz nas crónicas que publica no Público.
Na crónica de ontem a autora entendeu que era hora de escrever sobre o assunto.
Deste modo:
«Como alguns leitores terão provavelmente notado, gosto de citações (também
gosto de advérbios de modo, mas isso agora não vem a propósito). As citações
têm várias vantagens. Acima de tudo, poupam-nos trabalho. Além de nos pouparem
trabalho — benefício de monta para quem considera que o trabalho, além de mal
pago, está sobrevalorizado (caso, por exemplo, de Albert Cossery, autor, entre
outros, de Mandriões no Vale Fértil — trad. Júlio Henriques, Antígona,
3ª ed., 2022) —, permitem-nos expressar melhor ideias que, sem a elas
recorrermos, expressaríamos decerto pior.
Dirão alguns, em tom acusatório, que as citações não passam de uma bengala. Não
serei eu a contrariá-los. Faço apenas humildemente notar que, ultrapassada
certa idade, de uma maneira ou de outra, metafórica ou literalmente, uma
bengala dá sempre bastante jeito. Depois, há a síntese. Uma boa citação
permite-nos ir directos ao ponto. Sem palha. Com sorte, com elegância. E a
elegância, ao contrário do trabalho, anda bastante subvalorizada. Porque se é
verdade que Einstein não chegou à elegantíssima síntese E = mc² flanando
apenas, também é verdade que a hipótese (genialmente arrojada: não tenhamos
medo das palavras) de o tempo não ser uma medida fixa lhe ocorreu ia ele a
passar tranquilamente junto à Torre do Relógio em Berna. Por falar nisso, li
algures num livro, já não me lembro qual, que o biólogo e psicólogo Jean
Piaget, inspirado pelo físico, chegaria à conclusão de que as diferentes setas
do tempo em nada parecem estranhas às crianças: para elas, quanto mais depressa
correm, mais devagar o tempo passa. Lembrando Pessoa: “Grande é a poesia, a
bondade e as danças.../ Mas o melhor do mundo são crianças”.
Ocasionalmente, flanar e pensar pode ter consequências bizarras: umas vezes
cómicas, outras vezes trágicas. Tales de Mileto caiu num buraco, ao que se sabe
sem mazelas de maior, enquanto caminhava a observar as estrelas. Já ao filósofo
Francis Bacon, terá sido o empirismo a matá-lo. Envolvido em experiências sobre
congelação, ao cruzar-se em pleno Inverno com uma galinha, decidiu mandar
matá-la e enterrá-la na neve. O destino da ave perdeu-se, mas Francis Bacon
acabaria mesmo por morrer de pneumonia.
Chegado aqui, o leitor terá talvez concluído, e legitimamente, que, além de
citações e de advérbios de modo, também admiro muitíssimo uma boa história. Só
para dar dois exemplos: o chamado Antigo Testamento ou As Mil e
Uma Noites são fontes inesgotáveis. E para voltar às citações e à sua
defesa, e dado que me referi às escrituras hebraicas: e se afinal o Livro de
Eclesiastes estiver certo e não existir mesmo “nada de novo debaixo do sol”,
pelo menos para nós que, como Sísifo, empurramos ciclicamente a mesma pedra, revoltados
de quando em vez?
Albert Camus, o autor da célebre abertura de O Mito de Sísifo — “Só há
um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida
merece ser ou não vivida é responder à questão vital da filosofia” (uma
daquelas frases que comprovam sobremaneira que “o começo de um livro é precioso”)
—, não escolheu o suicídio ante o absurdo. Morreria prematuramente e de maneira
absurda num acidente na estrada, durante uma viagem de automóvel em que decidiu
participar apenas ao último minuto. Já cá não está para nos ajudar a decidir
sobre a revolta, mas quando se tropeça por acaso em Loretta, as decisões mais
recentes do Parlamento Europeu (PE), rasurando a palavra “mulher” só parecem
comprovar, senão os trabalhos de Sísifo, decerto a longevidade do absurdo.»
A prosa sobre citações já vai
longa, mas não resisto a terminar colocando o comentário de uma leitora na
edição do Público de ontem:
«Gosto de citações, remetem- nos para obras que podemos desconhecer e aprendemos e, por outro lado, é uma homenagem. Não vejo nisso qualquer problema. É preciso ter lido muito para as tornar oportunas e nisso a Ana é exemplar.»

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