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sábado, 31 de janeiro de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


 Luís Carandell, jornalista e escritor catalão disse um dia «Que melhor destino pode ter um bom poema do que ser cantado».

Alain Oulman musicou poemas dos melhores poetas portugueses.

Sabia que Alexandre O’ Neill era um enorme poeta e persegui-o para que lhe arranjasse um poema a que emprestasse a sua música. Demorou o seu tempo mas O’ Neill também entendeu que Oulman érea um grande amigo, um grande músico e num bom qualquer dia saiu-se com Gaivota.

E aí temos um lindíssimo poema, uma lindíssima música a que a grande Amália Rodrigues deu a sua melhor voz e interpretação, ah! aquele se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no desenho que fizesse

 

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor, na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro
dos sete mares andarilho
fosse, quem sabe, o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
ao meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor, na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito,
meu amor, na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

TOMAI LÁ DO O'NEILL!


Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões, mais conhecido por Alexandre O’ Neill, nasceu  em Lisboa no dia 19 de Dezembro de 1924.

Considerava-se o maior dos poetas menores.

Antes do resto, uma passagem pela pasta do Arquivo Cá da Casa sobre o O’ Neill.

Trata-se de uma crítica de Eduardo Prado Coelho no Diário de Lisboa de 17 de Abril de 1969, apresenta-se apenas um pormenor do recorte, sobre o livro de Ombrona Ombreira para que reparem no elogio do Eduardo ao O’ Neill, que entretanto o crítico titulou como um «Livro Menor».

No ano de 2024 Isabel Coutinho no Público pediu-nos para seguirmos O’ Neill em tempo do seu centenário de nascimento ele que já nos deixara um poema para que seguíssemos o cherne « desçamos ao fundo do desejo atrás de muito mais que a fantasia e aceitemos, até, do cherne um beijo.»

Isabel Coutinho, no artigo do Público, lembra que nos dez anos da morte do escritor, Vicente Jorge Silva garantia que «O’Neill é talvez o poeta português moderno mais cruelmente injustiçado, mais esquecido e menos lido nos anos que correm – ele que foi um dos maiores inventores de palavras, paradoxos, trocadilhos e construções poéticas originais que este país deu à luz» e nesse 21 de Agosto de 1996, quando morreu, também em Lisboa, Vicente Jorge Silva rematava: «O’Neill é o nosso remorso deste Agosto, uma memória que não é possível,deixar morrer, uma questão que Portugal tem consigo mesmo.»


E Isabel Coutinho não deixa de lembrar Nora Mitrani, escritora búlgara que pertenceu ao movimento surrealista francês e por quem O’Neill se apaixonou perdidamente e para quem escreveu o poema Adeus Português, um dos mais belos poemas da literatura portuguesa.

O’Neill nunca mais viu Nora Mitrani.

De França, ela convidou-o : «Vens, ficas cá e depois logo se vê».

Acontece então que a família de O’Neill não quer que ele vá atrás da francesa, movimentando conhecimentos junto da PIDE, pretendia que a polícia política não lhe concedesse passaporte para viajar ao encontro de Nora Mitrani.

 

                              UM ADEUS PORTUGUÊS

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora agora o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
E avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

 

Notas:

O título do post é tirado de uma antologia de poemas de Alezandre O’ Neill, organizada por António Tabucchi.

«Sigamos o O’Neill!, no ano do seu centenário» de Isabel Coutinho, Público 19 de Dezembro de 2024.

«Alexandre O’Neill: Uma Biografia Literária» Maria Antónia Oliveira.

O poema Uma Vida de Cão é copiado de No Reino da Dinamarca.

O poema Um Adeus Português é copiado de No Reino da Dinamarca,  que O’Neill dedica ao compositor Alain Oulman, que percorreu anos e anos para que O’ Neill escrevesse um poema para ele musicar e acabou por acontecer Gaivota.

UMA VIDA DE CÃO

Não
não é a poesia caixa de música
ou a poesia piolho místico enterrado no sebo destes dias
ou qualquer outra
que podem dissolver a tua alma
tão problemática
no vinho da beatitude

Ah
o «mistério» da poesia a poesia
técnica da confusão
a capelista poética e os primeiros fregueses
ainda a medo ainda receosos
de te pedirem a Dor em alfinetes que não tenhas
logo ali à mão

E quando dizes «Poesia» eu tenho nojo
aquele nojo violento que me dá
o olhar furtivo a atenção desatenta
dos que se demoram nos lavabos nas salas dos cinemas
de mãos distraídas procurando
a solução da noite

Instalaram-se em ti
a mesma contracção suspeita
a mesma hipocrisia o mesmo sobressalto
a mesma curva obscena
que o olhar descreve
goza
e disfarça

Quando dizes «Poesia» dizes medo
dizes família tradição classe
e a vida de cão que te esperava
e que é hoje a tua vida a tua «transcendente»
vida de cão

Ensinaram-te palavras que pareciam
prontas a derrotar quem as ouvisse
ensinaram-te gestos para elas
e a tal ponto te humilharam
que te puseram de pé
limpo
inteligente
e aprumado

Pronto a seguir
seguiste
e agora estás aqui
estás aqui pois claro
angustiado e iludido
mas deliciado

Atá aos últimos arcanos
cafés e leitarias
seguiste André Breton
ou a sombra dele
e a aventura mental que procurava
um sinal exterior
um estilhaço vivo do acaso
a Nadja lisboeta que salvasse
ou a noite ou a vida
acabou em «bons» poemas «maus» poemas
em palavras e palavras

E coberto de palavras enterrado
numa terra de murmúrios de gemidos
teu coração já nada faz mover
senão moinhos de palavras
e «a dor é grande» dizes tu
«mas sublime»

Mas não sou eu que te lamento
Os teus mitos esperam-te
já impacientes

Agora põe-te a andar
agora passa por cá daqui a uns anos

Talvez me encontres
talvez possa fazer qualquer coisa por ti
qualquer coisa simples
quase inútil
quase ridícula
          oferecer-te uma sílaba
          um conselho
          um cigarro

Alexandre O’Neill de Tempo de Fantasmas em No Reino da Dinamarca

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

BILHETE-POSTAL A ALEXANDRE PINHEIRO TORRES

Absinto-me cansado

na outonalma.

De absinto, no outono,

encharco a alma...

Muito deve a literatura

ao absinto.

Em qualidade, muito mais

que ao tinto...

Ó Alexandre, manda-me absinto

na volta do correio,

que eu já sinto, com tanto tinto,

estancar-se-me o veio...

 

Alexandre O’ Neill em PoemasCom Endereço

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

O AMOR É O AMOR

 O amor é o amor — e depois?!

Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
             Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor
e trocamos — somos um? somos dois? —
espírito e calor!

O amor é o amor — e depois?!


Alexandre O'Neill de Abandono Vigiado em No Reino da Dinamarca

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

POESIA E PROPAGANDA

Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
Pelo pequeno avião da propaganda
E no céu inocente de Lisboa,
Um dos meus versos, um dos meus
Mais sonoros e compridos versos:

E será um verso de amor...

Alexandre O’ Neill de Tempo de Fantasmas em No Reino da Dinamarca


terça-feira, 30 de setembro de 2025

O TABACO DA VIDA

De amor cantando,
sem nele demasiado acreditar,
dei a volta ao coração (demorei anos):
está só – mas sem nenhuma vontade de parar…
 
Desiludidos? Paciência, amigos…
Bebamos mais, fumemos, refumemos,
entre as mulheres, o tabaco da vida.
Como cedilhas pendurados que felizes seremos,
 
exemplares cretinos nesta noite comprida…

 

Alexandre O’ Neill em No Reino da Dinamarca

terça-feira, 9 de setembro de 2025

O TEMPO SUJO

Há dias que eu odeio

Como insultos a que não posso responder
Sem o perigo duma cruel intimidade
Com a mão que lança o pus
Que trabalha ao serviço da infecção

 

São dias que nunca deviam ter saído
Do mau tempo fixo
Que nos desafia da parede
Dias que nos insultam que nos lançam
As pedras do medo os vidros da mentira
As pequenas moedas da humilhação

 

Dias ou janelas sobre o charco
Que se espelha no céu
Dias do dia-a-dia
Comboios que trazem o sono a resmungar para o trabalho
O sono centenário

 

Mal vestido mal alimentado
Para o trabalho
A martelada na cabeça
A pequena morte maliciosa
Que na espiral das sirenes

Se esconde e assobia

 

Dias que passei no esgoto dos sonhos

Onde o sórdido dá as mãos ao sublime

Onde vi o necessário onde aprendi

Que só entre os homens e por eles

vale a pena sonhar.

 

Alexandre O’ Neill em No Reino da Dinamarca

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

AMIGOS PENSADOS: JOSÉ CARDOSO PIRES

Ao Zé Cardoso peço uma miúda
com um toque de chiado ou de grandella,
às nove e duas pernas da manhã,
que, como o peixe, tesa de frescura,
tenha perdido a escama de donzela,
mas não venha falar-me do Vailland…

Alexandre O’Neill, poema encontrado em Alexandre O’Neill-Uma Biografia Literária.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

SONETO

Tempo das cerejas agressivas

A avançar pelo meu quarto dentro.

Velho tempo das noites explosivas

Em que o sangue crescia como o vento!

 

Tempo –aproximação das coisas vivas,

Do seu hálito doce, violento.

Tempo – horas e horas convertidas

No outro raro e inútil dum lamento…

 

Tempo como uma ferida no meu lado,

Coração palpitando sobre a lama.

Tempo perdido, sangue derramado,

 

Resto de amor que se deixou na cama

Horizonte de guerra atravessado

Pelo corpo audaciosos duma chama.

 

Alexandre O’Neill em No Reino da Dinamarca 

terça-feira, 13 de agosto de 2024

AMIGO

 

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O’ Neill em no Reino da Dinamarca

sexta-feira, 3 de maio de 2024

UMA LIÇÃO DE POESIA, UMA LIÇÃO DE MORAL

 

                        À memória de Paul Éluard

 

Estudaste a bondade aprendeste a alegria

Iluminaste a noite com a estrela

E o desejo com a necessidade

 

Comunicativo bom inteligente

Soubeste sofrer sem destruir a vida

Sem chamar pela morte

 

Soubeste vencer o íntimo lazer

As absurdas manias que a solidão instala

No coração virado na cabeça perdida

 

Soubeste mostrar o mais secreto amor

Numa alegria feroz perfeita pública

Capaz de provocar o ódio e a ternura

 

Em todas as frentes que por ti passavam

Contra-atacaste repelindo o mal

Com pesadas perdas para o inimigo

 

E na miséria que subia aos rostos

Puseste a nu a resistência a esperança

E um futuro sorriso

 

Enquanto velhas feridas se fechavam

Tua poesia abriu-se e hoje é comum

E transparente como os olhos das crianças

 

Hoje é o pão o sangue e o direito à esperança

À esperança que é «um boi a lavrar um campo»

E que é «um facho a lavrar o olhar»

 

Andaste triste mas não foste a tristeza

Sofreste muito mas não foste a dor

Amaste imenso e eras o amor

 

Cantaste a beleza proferiste a verdade

Encontraste não uma mas a razão de ser

Compreendeste a palavra felicidade

 

E numa extrema juventude e sob o peso

Precioso da simplicidade

Tudo disseste

 

Disseste o que devias dizer.

Alexandre O’ Neill em No Reino da Dinamarca

sexta-feira, 1 de março de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 

Este livro, capa castanha, encadernado de origem, com as Poesias de Bocage, é um dos que o meu avô paterno trouxe para a Biblioteca da Casa quando foi viver para a casa dos  meus pais.

O livro não tem indicação da tipografia que, em Lisboa, o editou no ano de 1910 e tem poesias que na edição das obras do poeta não foram publicadas em Lisboa numa edição no ano de  1853.

Tem uma «Advertencia Preliminar» que termina assim:

«Sirvam estas razões de salvo-conduto com que grangeemos obter vénia perante os ânimos sensatos e despreocupados: quanto  áqueles, para quem (na phase de um nosso amabilissimo contemporâneo) é mais escândalo escrever um beijo do que tomar cento; -  esses teem em si mesmos contra o veneno do livro um preservativo tão fácil quanto infalível: - Não  o comprem, nem o leiam, e ficaremos em boa paz.»

 Falar de Bocage sem lembrar Alexandre O’ Neill?

 Auto-Retrato  de Alexandre O’ Neill à maneira de Bocage: tirado de Poemas Com Endereço :

 ONeill (Alexandre), moreno

português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele ONeill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sobre a ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse...

Um outro poema do O’ Neill sobre Bocage:

 

A UM POETA QUE DEIXOU DE COMPARECER  NAS ANTOLOGIAS

 

Tinha de suceder deixares de suceder

a ti próprio.

 

Já Bocage não és? - claro! -

e quem sabe se alguma vez o foste?

Digo-te mais : nunca o serás,

nem apocrifamente.

 

Não almejavas tanto?

 

Bravo, rapaz, parece que caíste

em ti!

 

Como queres que uma antologia se acrescente

sem, tarde ou cedo, se diminuir?

 

Sabes por que se diz « gemem os prelos»?

Não penses que é por ti.

 

Sê razoável!

 

Teus versos hão-de espiritualizar muita família.

 

Entre netos, uma velha senhora esquecerá a meio

um soneto dos teus.

 

Se a sorte não te for de todo adversa,

Um lusófilo, algures,

citará entre barras versos da tua lavra

numa elegante nota de rodapé.

sábado, 13 de janeiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 

                 Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

 

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

 

A viagem de hoje compreende uma frase de Marcelo Caetano, em conversa, Março de 1974, possivelmente com oficiais da sua «brigada do reumático»:

 

«Cuidado com os capitães, o perigo vem deles, pois não têm ainda idade suficiente para poderem ser comprados.»

 

Ficamos também com um extraordinário erelampejante poema de Alexandre O’Neill, datado de 10 de Abril de 1974, com o título «Lego», que pertence ao livro «A Saca de Orelhas» (1979) e que fomos buscar à Antologia «Tomai Lá do O’Neill:

 

Está tudo conformado
ao triste proprietário.
Mecânicas ovelhas,
na erva de plástico,
têm pastor de pilhas
e cão pré-fabricado.
Flores marginam esse
às peças-soltas prado.
Eléctricas abelhas,
obreiras sem contrato,
daquele herbário extraem
um mel supermercado.
A malhada, no estábulo,
quase manga de alpaca
(é A VACA, sabias?),
dá leite engarrafado.
No céu (para colorir)
a nuvem, pontual,
aguarda a vez de ser
chovida no nabal,
enquanto o Sol dardeja
na eira proverbial.
Já tudo afeiçoado
ao bom do proprietário
(ervas, bichos, moral),
ele conta com os seus
e espera sempre em Deus.

(«– Deste corda ao pardal?»)

Legenda: Marcelo Caetano e uma das suas «Conversas em Família»

domingo, 25 de dezembro de 2022

NATAL

– Que tens tu?

– Nada. É Natal.


Alexandre o’Neill em Anos 70 Poemas Dispersos

sábado, 30 de abril de 2022

CAIXAS E SACOS

Quanto maior é a caixa, mais leva.
As caixas vazias levam tanto como as cabeças vazias.
Muitas caixinhas vazias que se deitam numa grande caixa vazia,

                                           enchem-na toda.
Uma caixa meio-vazia diz: «Ponham-me mais.»
Uma caixa bastante grande pode conter o mundo.
Os elefantes precisam de grandes caixas para guardar

                                           uma dúzia de lenços de assoar para elefantes.
As pulgas dobram os seus lencinhos e arrumam-nos com cuidado

                                          em caixas de lenços para pulgas.
Os sacos encostam-se uns aos outros e as caixas

                                          levantam-se independentes.
 As caixas são quadradas e têm cantos, ou então são redondas

                                         e têm círculos.
Pode empilhar-se caixa sobre caixa até que tudo venha abaixo.
Empilhe caixa sobre caixa e a caixa do fundo dirá:

                                       «Queira notar que tudo repousa sobre mim.»
Empilhe caixa sobre caixa, e a que está em cima perguntará:

                                      «É capaz de me dizer qual de nós cai para mais longe

                                      quando caímos todas?»
As pessoas-caixas vão à procura de caixas e as pessoas-sacos

                                      à procura de sacos.

Carl Sandburg

Tradução de Alexamdre O’ Neill

terça-feira, 29 de março de 2022

QUEM? O INFINITO?


Alexandre O’ Neill está no quintal da casa, só, completamente só, tarde quente no Verão, bebericando copinhos de bagaço gelado, olha o gato, cúmplice de um medo ainda sem palavras, sem enredos, quem somos nós, teus donos ou teus servos?, batem à porta, do interior dizem qualquer coisa, ele pergunta:


-Quem? O infinito?
Diz-lhe que entre.
Faz bem ao infinito
estar entre gente.

-Uma esmola? Coxeia?
Ao que ele chegou!
Podes dar-lhe a bengala
que era do avô

-Dinheiro? Isso não!
Já sei,pobrezinho,
que em vez de pão
ia comprar vinho...

-Teima? Que topete!
Quem se julga ele
se um tigre acabou
nesta sala em tapete?

-Para ir ver a mãe?
Essa é muito forte!
Ele tem não tem mãe
e não é do Norte...

-Vítima de quê?
O dito está dito.
Se não tinha estofo
quem o mandou ser
infinito?

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

O DIA SEGUINTE

Alexandre O’ Neill, em tempos de ditadura, poetizava que o medo tem tendência natural para ter tudo e pensava no que o medo ia ter e tinha medo, que é justamente o que o medo queria e assim perfilados de medo, cada um por seu caminho, chegaríamos a ratos, sim, a ratos.

Lembra-se que a avó muitas vezes dizia que quem tem cu tem medo, mas que quem tem medo devia comprar um cão.

Pedro Tadeu, hoje, no Diário de Notícias escreveu:

«O medo de um governo de direita, que as inúmeras sondagens anteriores às eleições tornaram, erradamente, uma possibilidade viável na cabeça de muitos eleitores, levaram a uma concentração de votos da população de esquerda no Partido Socialista, com sacrifício do Bloco e da CDU, e originaram uma grande vitória pessoal de António Costa.»

Henrique Bento Fialho no seu blogue Antologia do Esquecimento:

«O discurso do voto útil, o medo de ver o tiranete Rui Rio no poder, coligado com uma horda de tontos, hipócritas e corruptos, pesou. O medo pesa sempre muito. Daqui a quatro anos, o mais provável e ninguém ter votado PS. Aconteceu o mesmo com Sócrates. As pessoas têm memória, mas é curta e só serve para o que lhes serve. A paz, que o pão, a saúde, a habitação, a gente cá se vai amanhando. Agora é olhar em frente e continuar a lutar por quem trabalha, trabalhando com quem luta. Viva a democracia, viva a liberdade, viva Abril.»

Se isto fosse a sério, se as empresas de sondagens não estivessem ao serviço não se sabe bem de que mandaretes, era tempo de  colocar toda aquela gente no desemprego a que se juntaria os palavrosos-parvónios- -comentaristas de serviço pelas televisões.

Sim, houve o medo, mas é bom que se diga que isso, pouco ou nada, explica o tsunami eleitoral que ontem aconteceu.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

UMA LISBOA REMANCHADA


AVENIDA DA LIBERDADE

Subamos e desçamos a Avenida,
enquanto esperamos por uma outra
(ou pela outra) vida.

CHIADO

Ramilhete rubro do desejo,
ramilhete posto pelo olhar
entre dois seios desdenhosos,
a dar a dar.

PARQUE EDUARDO VII

Ah, o êxtase dos namorados
que se olham, beijam, voltam a olhar-se e já não sabem
que mais hão-de fazer, que mais hão-de inventar!

TRAVESSA DO POÇO DA CIDADE

— Vejam lá se se despacham
que eu não quero lá fardas!

Rancho de amor para os soldados.
De cada vez só pode ir um.
E dois cabritos são esfolados
no tempo de um.

AO BENFORMOSO

Entre o fartum de peixe frito
e de sovacos sem sol,
passa o ranço, chique e ligeiro,
da brilhantina ROUXINOL.

BECO DA MAL-AMADA

Se acha que a vida não é boa
utilize gás da Companhia
o combustível de Lisboa.

AZINHAGA DO GUARDA-SÓ

Encontro um resmunguarda que me intima
a parar.

Seria por suspeita? Seria por rotina?
Não. Foi para conversar...

Alexandre O’ Neill em De Ombro na Ombreira

quarta-feira, 2 de junho de 2021

O QUOTIDIANO «NÃO»


Estamos todos bem servidos
de solidão.
De manhã a recolhemos
do saco, em lugar de pão.

Pão é claro que temos
(não sou exageradão)
mas esta imagem do saco
contendo um pequeno «não»

não figura nesta prosa
assim do pé para a mão,
pois o saco utilizado,
que pode ser o do pão,

recebe modestamente
a corriqueira fracção
desse alimento que é
tão distribuído, tão

a domicílio como
o leite ou o pão.
Mas esse leitor aí
(bem real!) já diz que não,

que nunca viu no tal saco
o tal «não».
Ao que o poeta responde,
sem maior desilusão:

– Para dizer a verdade,
eu também não…
Mas estava confiante
na sua imaginação

(ou na minha…) e que sentia
como eu a solidão
e quanto ela é objecto
da carinhosa atenção

de quem hoje nos fornece
o quotidiano «não»,
por todos os meios, desde
a fingida distracção,

até ao entre-parêntesis
de qualquer reclusão…

Alexandre O´Neill de Abandono Vigiado em No Reino da Dinamarca