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segunda-feira, 30 de março de 2026

OLHAR AS CAPAS


A Filha do Arcediago

Camilo Castelo Branco

Colecção: Livros de Bolso Europa-América nº 144

Publicações Europa-América, Lisboa, Janeiro de 1977

Leitores! Se há verdade sobre a Terra, é o romance, que eu tenho a honra de oferecer ás vossas horas de desenfado.

Se sois como eu, em cousas de romances (que no resto, Deus vos livre, a vós, ou Deus me livre a mim) gostareis de povoar a imaginação de cenas, que se viram, que se realizaram, e deixaram de si vestígios, que fazem chorar, e fazem rir. Esta dualidade, que caracteriza todas as cousas deste globo, onde somos inquilinos por mercê de Deus, é de per si um infalível sintoma de que o meu romance é o único verdadeiro.

Eu sou um homem, que sabe tudo e muitas outras cousas. Não espreito a vida do meu próximo, nem ando pelos salões atrás duma ideia, que possa estender-se por um volume de trezentas páginas, que, depois, vil espião, venho vender-vos por 480 reis. Isso, nunca.

quinta-feira, 17 de abril de 2025

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A Queda de um Anjo

Camilo Castelo Branco

Capa: Carlos César Vasconcelos

Colecção: Clássicos para Leitores de Hoje

Relógio d’Água, Lisboa Março de 2025

Abriram-se as Câmaras.

A oposição espantou-se de ver o deputado por Miranda conversando muito mão por mão com os ministros. O abade de Estevães ousou perguntar ao seu colega, amigo e correligionário, de que rumo estava. Calisto respondeu que estava no rumo em que o farol da civilização alumiava com mais clara luz. O desembargador

do eclesiástico redarguiu com admoestações benévolas. O morgado sorriu-lhe na cara veneranda, e disse-lhe:

. Meu amigo, abra os olhos, que não há martirológico para as toupeiras. As ideias não se formam na cabeça do homem; voejam na atmosfera, respiram-se no ar, bebem-se na água, coam-se no sangue, entram nas moléculas, e refundem, reformam e renovam a compleição do homem.

- Segue-se que está liberal? – perguntou o pávido abade.

- Estou português do século XIX

- Apostalou! – disse com pesar mui estranhado o padre. – Apostalou!...

- Da religião dos néscios.

-Mercês! – acudiu o abade.

- Sem direitos – retorquiu o sardónico Barbuda.

Não tornaram-se a falar, até um dia do ano seguinte em que o padre, despachado cónego da Sé patriarcal de Lisboa, aceitou o parabém e o sorriso pungitivo de Calisto Elói.

domingo, 6 de abril de 2025

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O Cego de Landim

Camilo Castelo Branco

Capa: Bernardo Marques

Colecção Mosaico nº 1

Edição de Fomento de Publicações, Lisboa s/d

Foi há treze anos, em uma tarde calmosa de Agosto, neste mesmo escritório, e naquele canapé que o cego de Landim esteve sentado. São inolvidáveis as feições do homem. Tinha cinquenta e cinco anos, rijos como raros homens de vida contrariada se gabam aos quarenta. Ressombrava-lhe no semblante anafado a paz e a saúde da consciência. Tinha as espáduas largas; cabia-lhe muito ar no peito; coração e pulmões aviventavam-se na amplidão da pleura elástica. Envidraçava as pupilas alvacentas com vidros esfumados, postos em grandes aros de ouro. Trajava de preto, a sobrecasaca abotoada, a calça justa, e a bota lustrosa; apertava na mão esquerda as luvas amarrotadas e apoiava a direita no castão de prata de uma bengala.

domingo, 23 de março de 2025

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Boémia do Espírito

Camilo Castelo Branco

Lello & Irmão Editores, Poro 1959

Incrível! Se isto não é novo, toda a pouca-vergonha é velha!

Tenha o Snr. Alves Mendes o injudicioso propósito de responder ao vilíssimo caluniador do seu trabalho, e verá que ele lhe deita a bola de estricnina. Deu agora nesta das bolas. Gaba-se de ter deitado muitas bolas de estricnina. Ele escusa de gastar o ordenado com as bolas que atira. É atirar-se a si próprio como grande bolas que é. E, se não é bola de estricnina, pelo fétido parece ser bola de escaravelho-bosteiro, o Bousier de Cuvier. Ora como o escaravelho, cuja larva vive quatro anos no estrume, sofre metamorfose, eu espero ainda que o Snr. Conceição, findos que sejam os quatro anos da porca evolução, com alguma gramática e com algum juízo, venha a ser um escritor pouco menos de medíocre. Está muito novo na flor dos 40: é uma criança; estude os pronomes, e sobretudo, muito MANUAL ENCICLOPÉDICO e alguma vergonha. E, se estes conselhos não lhe servem, vá bugiar.

sexta-feira, 21 de março de 2025

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Mysterios de Fafe

Camilo Castelo Branco

Colecção Obras de Camilo Castelo Branco nº 55

Parceria António Maria Pereira

Lisboa, 1929

Esta novella contem adultérios, homicídios, missionários e outros scirros sociaes.

Almas em flôr de innocencia e candura, não leiam isto que trescala podridão e gafaria, em que forçadamente a leitora, afeita ao ar puro das regiões visinhas

do céo, há de sentir nausear-se-lhe a alma.

N’algumas quintas do Minho, ameaçadas de ladrões, erguem-se uns postes que dizem: «aqui há ratoeiras».

Os ladrões, graças à instrucção, lêem e passam.

N’este livro inverte-se o estylo: os salteadores da pudicicia levantam bem alto o letreiro que diz: «Aqui há ladrões».

Sem o qual letreiro, este livro seria um abysmo.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Novelas do Minho

Camilo Castelo Branco

Parceria António Maria Pereira, 1945

As lágrimas da fé, se Deus não existisse, fariam comover o Nada.

Maria da Piedade e a mãe de Álvaro choraram prostradas à cruz de Jesus Cristo. Pediram a saúde do filho e do irmão, abraçadas aso pés do Redentor.

Álvaro restabeleceu-se.

Foi a felicidade que o salvou? foi aquele amor de irmão amor indefinível e santíssimo que o distraíu da ideia da morte, e o encheu de forças vitais que que a ciência nega ao milagre e concede ao mistério?

Wu, espírito apoucado, tenho a audácia de me erguer até Deus, e não faço grande conta das ciências médicas quando me não dizem porque processo fisiológico se salvou o enfermo que elas me asseveraram moribundo.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

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Memórias do Cárcere

Camilo Castelo Branco

Capa: José Antunes

Colecção: Livros Unibolso nº 80

Editores Associados, Lisboa s/d

Antes de contar como passei a primeira noite de cárcere, perdi-me logo, como, em divagações, que o leitor, já afeito com o meu génio, aceita com benevolência.

Às nove horas da noite, os guardas correram os ferrolhos, e rodaram a chave da pesada porta do meu cubículo, a qual rangia estrondosamente nos gonzos.

Estava sozinho. Sentei-me a esta mesma banca, e nesta mesma cadeira. Estavam aqui defronte de mim alguns livros. Recordo-me de Shakespeare, Plutarco, Sénancour, Bartolomeu dos Mártires, e uma Tentativa sobre a Arte de Ser Feliz por J. Droz. Folheei-os todos, e de todos me fugia o espírito para entrar no coração, e sair de lá em ânsias do inferno que lá ia.

À força de contenção de alma consegui ler e meditar algumas páginas da Arte de Ser Feliz. Em que local eu buscava a árvore dos bons frutos! É este um livro de filosofia racional que preparou o ânimo de seu autor para mais seguras e levantadas crenças na filosofia de Jesus Cristo.

Fez-me bem esta leitura. Principiei logo a pôr em português as vinte páginas que lera, com o intento de fazer publicar o livro inteiro em folhetins.

Fui às três horas da manhã procurar no sono a restauração das forças corporais, que as do espírito, até esta hora, nunca as senti indignas da ousadia com que ele se arremessou a perigosas batalhas com o mundo.