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terça-feira, 12 de agosto de 2025

OLHAR AS CAPAS


Diário de Uma Avó e de Um Neto Confinados em Casa

Alice Vieira & Nélson Mateus

Capa: Maria Manuel Lacerda

Casa das Letras, Lisboa, Novembro de 2021

Querido neto,

A Linda de Suza! De quem te foste lembrar! Claro que me recordo dela. mas eu já não estava em Paris quando ela chegou, mais a sua mala de cartão… Se estiveres com a D. Lurdes, diz-lhe que ela vive cá – mas não sei onde – e está praticamente na miséria. Foi enganada por uma data de pessoas e hoje penso que tem uma reforma de 400 euros… Para quem encheu Olympias e Lidos e tudo o mais…

Pois olha, eu quando fui para Paris, nem mala de cartão levava. Ia a fugir da pátria, da família, do namorado, de tudo. Enfiei só umas peças de roupa e o mínimo de que precisava para dentro de um saco, e o último livro do Herberto Helder.

Cheguei a Orly e lembro-me de me sentar num banco, sem saber o que fazer da minha vida. O jeito que me teria dado um telemóvel, naquela altura… Apanhei o metro, que me deixou no Quartier Latin. E agora? Onde é que eu ia ficar? Lembrei-me então de uma prima que vivia lá exilada (a Maria lamas, já te tenho falado nela), sabia a morada dela e bati-lhe à porta.

Colaboração de Aida Santos

sexta-feira, 7 de julho de 2017

OLHAR AS CAPAS



Dois Corpos Tombando na Água

Alice Vieira
Capa: José Serrão
Editorial Caminho, Lisboa, Maio de 2007

naquele tempo toda a cidade ardia e nós
ardíamos com ela mas sabíamos
que havia de chegar uma noite
em que as amarras (ou a pátria     tanto faz)
seriam mais fortes e entraríamos
em silêncio no quarto
inventando palavras tão transparentes para a nossa vida
que hoje tenho dificuldade em encontra-las
para as colocar em seus devidos lugares

tínhamos então a idade
de tudo o que nos acontecia pela primeira vez
protegidos pela sombra dos castanheiros de maio
e   ainda que por breve tempo     chegámos a acreditar
que um dia nos iríamos de novo amar ali
exactamente ali
entre o rio    as pontes    as estátuas
a praia que roubávamos ao asfalto
onde os dias pareciam sem desvio


e a dona do hotel a prometer-nos
domingos de sol   

sábado, 22 de outubro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Bica Escaldada

Alice Vieira

Capa: Maria Manuel Lacerda
Oficina do Livro, Lisboa, Junho de 2009

Entro numa livraria como quem entra num santuário, onde o direito de asilo nos é sempre garantido. Nas cidades que não conheço. É sempre o primeiro lugar que procuro e nunca resisto a entrar quando ela se atravessa no meu caminho. As livrarias fazem parte da minha família. São amigas de infância. É nelas que marco encontros com amigos, é passando a mão pelas capas dos seus livros que desfaço neuras e procuro energias. Claro que há as minhas livrarias de eleição, aquelas a que, por qualquer motivo, me habituei como ao café da manhã ou o jornal comprado no quiosque de sempre: durante anos e anos a Quadrante foi a minha segunda casa, uma espécie de baby-sitter para os meus filhos pequenos, que lá deixava rodeados de livros e vigiados pela Nini, uma cadela com quem partilhavam festas e lambidelas nos chupa-chupas – até que um dia a Quadrante fechou e, até hoje, nada lá conseguiu vingar. Já foi casa de pronto-a-vestir, já foi loja de móveis, já foi galeria de arte, neste momento alberga a redacção de uma revista de saúde a quem, evidentemente, desejo muita sorte e que consiga vencer a maldição. E há ainda as livrarias mágicas, aquelas sem as quais os lugares, para mim, perdiam muito da sua razão de ser: ir ao Porto sem ter tempo para entrar na Lello, não vale a pena; ir a Londres sem horas disponíveis para a Waterstone, é um desperdício.
E depois há aquelas velhíssimas lojas, que são livrarias, mas também vendem revistas de bordados e croché, calendários e postais ilustrados, e muitos livros de edição de autor que acumulam pó porque já ali estão há que anos, com um cheiro a papel que se esfarela nos dedos e nos traz à lembrança os livros de histórias lidos na infância, com meninos «órfãos» que se perdiam nas florestas.