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sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL


                                                  Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                          João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

Pequena viagem por alguns livros que retratam a vida sombria que os portugueses viviam antes do 25 de Abril:

1.

«Entre 1904 e 1914, entre os vinte e os trinta anos, tinha viajado por toda a Europa, durante as férias universitárias, para completar a sua educação, segundo o desejo do seu pai. Um Verão, quando voltava de Londres, ao ir embarcar em Valência para Nápoles, tinha passado por Portugal. Tinha posto a si mesmo mil perguntas sobre o declínio dessa nação cujo império se tinha estendido à volta do Globo. Tinha conhecido escritores que não escreviam para ninguém; homens políticos que governavam para os Ingleses; homens de negócios que liquidavam os seus estabelecimentos do Brasil e viviam de pequenas rendas, em cidades de província, sem finalidade. Ele tinha pensado que era a pior das infelicidades nascer Português. Em Lisboa, pela primeira vez na vida, tinha-se encontrado com um povo que se tinha desinteressado.» 

Roger Vailland em A Lei

2.

«Não há mais que silêncio em toda esta cidade. Silêncio e fome. Acabo de percorrer toda a Rua do Ouro e a Rua Augusta e reparei que ninguém falava. As pessoas cruzam-se em silêncio, e mesmo que se conheçam não se cumprimentam.»

Reynaldo Arenas em O Mundo Alucinante

3.

«Estamos catalogados, estamos empalhados dentro de uma redoma de vidro, mergulhados num frasco com álcool, isolados de tudo e com um rótulo debaixo dos pés. O rótulo puseram-no os outros; nós consentimos, acomodámo-nos e vamos vivendo com ele. Mas tudo pode desfazer-se dum momento para o outro. Sei o que fui, sei ainda o que sou. Mas tal não contribui em nada para o que serei. Um só gesto e os outros vêm ao museu onde estamos embalsamados, arrancam-nos o rótulo, não querem mais saber de nós, dizem que traímos. O que fomos? O que ainda ontem fomos? Os gestos que fizemos? Não. Não querem saber, Podem ter sido gestos da mais espantosa pureza, que em nada contribuem para que os outros nos perdoem. Pelo contrário. Esses gestos, pela sua própria beleza, mais ainda nos condenam, mais ainda nos enterram.»

Augusto Abelaira em A Cidade das Flores

4.

«Nasci e vivi num mundo de inferno. Há dezenas de anos que sofro, na minha carne e no meu espírito, o fascismo. Recebi dele perseguições de toda a ordem — físicas, económicas, profissionais, intelectuais, morais. Mas, que não as tivesse sofrido, o meu dever era combatê-lo. O fascismo é o fim da pré-história do homem. E procede, por isso, como um gangster encurralado. Fiz o que pude para me libertar, e aos outros, dele. É essa a única herança que deixo aos meus Filhos e aos meus Companheiros. Acabem a obra! Derrubem o fascismo, se nós não o pudermos fazer antes! Instaurem uma sociedade humana! Promovam o socialismo, mas promovam-no cientificamente, sem dogmatismos sectários, sem radicalismos pequeno-burgueses! Aprendam com os erros do passado. E lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado!»

Mário Sacramento em Carta-Testamento 

5. 

«Nesse mesmo dia o Tinoco deu ordem à mulher-pide que não me deixasse ir à casa de banho enquanto eu não falasse e que as minhas necessidades eram feitas ali mesmo na frente deles e limpas com a minha roupa.

Foi-me novamente perguntado de não falava. Garantiram-me que ia ficar nua e que depois iam entrar os cavalheiros e sair as senhoras. Perante a minha negativa a pide Madalena começou aos pontapés e a bater-me enquanto me despia. Surge então um pide com uma máquina fotográfica. O Serra dava-me murros no queixo para eu levantar a cabeça. Tinha alucinações, não conseguia manter-me de pé.

Maria da Conceição Matos Abrantes

6

Diz-lhes que se resiste na cidade desfigurada por feridas de granadas e enquanto a água e os víveres escasseiam aumenta a raiva e a esperança reproduz-se.»

Egito Gonçalves em Notícias do Bloqueio

7.

Como hei-de amar serenamente com tantos amigos na prisão.

Fernando Assis Pacheco

terça-feira, 24 de maio de 2022

POSTAIS SEM SELO


O amigo ideal é aquele que fosse capaz de me compreender sem eu ter de dizer palavras.

Augusto Abelaira

Legenda: pintura de Vanessa Bell

segunda-feira, 3 de maio de 2021

OUTRO GALO NOS CANTARIA


25 de Julho de  1966

Em torno da nossa mesa habitual na cave do Martinho, o Magalhães Godinho, o Carlos de Oliveira, o Abelaira e eu discutimos futebol.

Trocámos de certas consequências grotescas advenientes desse fenómeno, sobretudo dos artigos dos jornalistas analfabetos («a selecção portuguesa possui todas as características da imaginação da raça latina» - escreve um deles).

- Em todo o caso – articula Magalhães Godinho – sejamos justos. Se os nossos catedráticos, por exemplo, encarassem a sua profissão com a seriedade que o Eusébio encara a dele, outro galo nos cantaria.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume I

domingo, 14 de junho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

MEMÓRIA DE LISBOA

Este texto de Urbano Tavares Rodrigues, encontrei-o no Teia Portuguesa.
É um texto não datado, em que Urbano fala das suas experiências de vida em Lisboa: amores, vivências, conspirações para derrube da ditadura, tertúlias em cafés, quando ainda havia cafés em Lisboa, com José Cardoso Pires, Augusto Abelaira, José Gomes Ferreira, Armindo Rodrigues.
Um bonito texto sobre uma Lisboa praticamente desaparecida:

Ao atravessar as ruas da Baixa e o Rossio, ainda em obras, quando a poalha desta luz de Maio enevoada doira vagamente as cimalhas e mansardas das velhas casas pombalinas, clareando o ocre do Teatro D. Maria, parece-me ter sonhado a vida que por aqui vivi. Já não me reconheço na criança que às vezes vinha de Moura e atravessava o grande rio, de olhos deslumbrados, entre gaivotas e navios descomunais, e desembarcava no Terreiro do Paço, todo simétrico na sua verde harmonia palaciana. Do alto da sua altivez, o cavaleiro do cavalo negro dominava o mundo e fazia correr mais depressa o sangue nas minhas veias. O táxi entrava na corrente do trânsito, que também me surpreendia, outro tempo ali começava a nascer, e os meus olhos erguiam-se, exorbitados, para o emblema da cidade, talvez a sua alma, aquele arco imenso, com prodigiosas esculturas, umas violentas, tal como eu as retinha, outras majestosas e da brancura dos lugares supremos.

Quando vim morar em Lisboa, já na adolescência, a minha vida decorria sobretudo nas Avenidas Novas e um pouco mais tarde na antiga Faculdade de Letras, Rua da Academia das Ciências. Vinha então à Baixa porque o meu alfaiate (ainda as pessoas comuns faziam os fatos por medida) ficava na Rua de Santa Justa. E, quase sempre que lá ia, passava, como toda a gente (uns mais apressados, outros menos, sinais da roda da fortuna ou do relógio interior de cada um), por aquelas ruas que ainda não me pareciam estreitas, onde o vento por vezes gemia, acompanhando os cegos que tocavam violino e os gritos dos cauteleiros e dos ardinas. Já então a Baixa era um grande centro comercial, onde muitos casais, com os meninos pela mão, vinham aos domingos contemplar as montras. A pequena multidão engrossava às horas de ponta, era por vezes uma autêntica enxurrada de corpos alheios e agressivos, empurrando-se, arfando, tossindo, e onde às vezes se cruzavam dois olhares subitamente acesos em desejo ou compreensão, fadados quiçá para se entenderem por todo o sempre, e que logo se perdiam um do outro, como sucede no giro incessante das grandes cidades.


Continuo a gostar muito da Baixa, do seu estridor, do jardim de saibro que o Rossio já foi, com as suas fontes e estátuas, o falso D. Pedro vestido agora de tapumes. Mesmo cheia de pó, de aterros e buracos traiçoeiros, acidentes transitórios, volto sempre à Baixa dos tocadores de concertina nas escadinhas de Santa Justa, dos turistas coloridos, de binóculo e máquina fotográfica a tiracolo, olhos voltados para cima, acompanhando a pesada gaiola do ascensor. Apesar da falta de pintura dos prédios, do certo abandono de quarteirões inteiros dessa cidade baixa delicadamente setecentista, a sua fauna humana, renovada, persiste: lá vão as melancólicas costureiras de alfaiate, muitas das quais perderam o emprego, o cantor da voz triste, que comovia algum melómano perdido na onda de gente apressada. Eis os cães dos drogados cheirando a hache e a suor curtido; e os mesmos barbeiros, agora cabeleireiros, de bata azul e com o "Record" na mão, espreitando, à porta, o cliente da hora certa; e a insolência dos "klaxons", a empurrarem furiosamente a condutora da frente; o povo a correr para os bancos.

Morava numa trapeira da Rua da Madalena uma das namoradas dos meus 17 anos. Não a primeira, que essa era italiana, estudante e sardenta, e ensinou-me, num ardente Agosto do Estoril, entre mar e casino, quase todos os segredos e requintes do amor fora de regras. A Conceição, corista do Parque Mayer, que chegou logo a seguir à minha educação erótica, era paradoxalmente menos libertina e muito mais romântica. Linda de pasmar, parecia, ora uma "starlet", ora virgem de altar, até pelos azuis vaporosos que vestia. Havia um ou mais sujeitos ricos que a sustentavam (com o que ela ganhava, coitada, não tinha outro recurso), e atrevia-me eu a ter ciúmes, tão pouco sabia das crueldades daquela vida. Um dos banqueiros podia passar por galã maduro, mas só sabia comprar, comprar, até o prazer, que eu colhia de todas as partes do corpo dela, sem saber sequer como a cativara, se por sedução quase inconsciente ou por a fazer rir dos meus despropósitos. Quando ela saía da segunda sessão da revista, já muito tarde, ainda íamos às vezes dançar ao Bar do Cristal, ou então arrastava-me até ao Cais das Colunas, de mão dada, para vermos a noite ainda a arder de estrelas, que caíam no Tejo, e só depois fazíamos amor longamente na trapeira onde ela morava, e as suas lágrimas, no fim da nossa festa e das suas confissões, eram cristais desmaiados que me cortavam a voz.

Adorava roupas à moda, que eu não podia dar-lhe, corria às vezes os olhos aguados pelas montras luxuosas da Rua Augusta, a puxar por mim, se me acontecia passear com ela, de tarde. E íamos beber chocolate à Central da Baixa. Nessa pastelaria calma e elegante, muitos anos depois, sendo eu já redactor do "Diário de Lisboa", acabara de comprar em segunda mão uma arrastadeira de 11 cavalos, creio que foi no ano da Revolta da Sé, acontecia-me não raro ali conspirar e almoçar um bife raspado, à alemã, ou dois pães de leite com fiambre e manteiga e um "indiano" recheado com café.


A Baixa era para mim ponto de encontro com outros oposicionistas, que ali tinham escritório, como o Mário Soares, na Rua do Ouro, ou o Abranches Ferrão, que editou, pelo jornal de Foro, a minha novela "Uma Noite e Nunca", apreendida pela Censura, e que tinha banca na Rua do Crucifixo, com o Luiz Francisco Rebello, o Duarte Vidal e, mais tarde, o José Carlos de Vasconcelos, se a memória não me atraiçoa. É a altura do "Programa para a Democratização da República", que a todos nos levou à PIDE, ao Aljube ou a Caxias, e que a muitos valeu longos meses de encarceramento.

Na Rua de Santa Justa e mais tarde na Rua da Vitória, cortou-me o cabelo durante algumas décadas um alentejano simpático, de bigodinho aventureiro, o Sebastião Carrajola de Figueiredo, ex-menino do coro em Portalegre, cheio de lábia e assanhado defensor do 25 do Quatro, como ele dizia, que ali mesmo combatia a reacção, dentro dos limites que o ofício lhe consentia, e chegou a ter a subida honra (sic) de barbear e pentear o seu camarada Salgado Zenha, cuja candidatura à Presidência da República veio mais tarde a subscrever - e disso muito se orgulhava.

Foi na Rua do Ouro, junto ao elevador de Santa Justa, que numa tarde histórica apanhei um dos panfletos de denúncia do fascismo que o Palma Inácio, ao volante de um avião militar roubado, ou melhor, apreendido em nome da liberdade, lançava sobre Lisboa, numa nuvem branca, cintilante de esperança. Pouco depois do paquete "Santa Maria" ser transformado, por um comando revolucionário, em "Santa Liberdade".

Outra visão: a da Rua do Arsenal, memória viva, inapagável, dos operários da Resistência, como o Bento Gonçalves. E nessa mesma rua, o enxame de lojas e lojinhas de todas as coisas e todos os sonhos, pintado por Cesário Verde, nas "Ave Marias".

Foi o José Cardoso Pires quem me chamou a atenção para as lojas de aparelhos ortopédicos que se seguem umas às outras na Rua dos Fanqueiros, anos antes de descrever admiravelmente essa estranha paisagem urbana em "A Balada da Praia dos Cães".


Por falar em escritores, quero lembrar a Baixa de José Gomes Ferreira e de Armindo Rodrigues, companheiros de deambulações líricas pela noite de Lisboa, que o segundo fixou nas suas "Dez Odes ao Tejo", enquanto o autor do "Poeta Militante" nos fala não só do rio como do Largo de São Domingos e das putas tristes dessa área, fantasmas de um vazio de Julho.

Desapareceram muitos dos cafés do Rossio, onde o surrealismo abancou, sobretudo no Gelo, entre eles o Chave d' Ouro, onde Humberto Delgado deu a célebre conferência de Imprensa, em que estrondeou o "Obviamente demito-o", que tanto afrontou o orgulho de Salazar. Do Chave d'Ouro tenho também na lembrança o David Mourão-Ferreira, supremo encantador da palavra, lendo versos numa tertúlia lá em cima, e o Abelaira escrevendo numa absorta mesa, perto da porta, entre muitas chávenas de café e filosofia viva.

Os mirones do Rossio, que metralhavam as mulheres sós com o olhar concupiscente e lhes segredavam galanteios dos mais obscenos, encandeados pela "seminudez" das refugiadas estrangeiras durante a guerra de 39-45, tiveram o seu apogeu machista nos finais dos anos 60, aquando do primeiro surto das mini-saias e dos "hot-pants", uns shorts muito curtos, género calção de banho em tecido leve. O espaço do ascensor de Santa Justa, agora que sigo vasculhando na memória, foi teatro de muitos momentos da minha vida. No restaurante A Quinta, pendurado sobre a Baixa, mesmo ao lado do elevador, jantámos com o Curt Mayer Clason vários escritores na berra desses mesmos anos 60, entre eles o Cardoso Pires e o Abelaira; e do mirante que fica ao lado mostrei de outra vez a dois grandes poetas, o Murilo Mendes e o Jaime Salinas, o soberbo panorama do Castelo e da Sé, que encimam esse tão especial casario ocre, castiço e lírico, o dos quadros de Carlos Botelho, que vai descendo de Santa Luzia até às gruas dos cais e aos mastros do rio enfadado de sol.

Cá em baixo, junto à base do elevador, à porta do então Salão Império, em 1970 (ou 197l?), estive longos minutos, nervoso, com metade de uma folha do "Borda d'Água", mal cortada, fechada na minha mão, à espera da pessoa, para mim desconhecida, que me traria a outra metade da mesma folha, para um importante encontro clandestino. Era uma rapariga magra, que me pareceu disfarçar o nervosismo com um sorriso. Hoje que tanta gente, velha e nova, vive a farejar o dinheiro, em todos os cantos da cidade e da vida, e a comprar luxos inúteis quase por obrigação, ainda me aquece aquele aperto de mãos, que se davam uma e outra à luta pela liberdade, sonhando um país que (ainda) não existe.

Do calor branco do Verão vinham as flores baratas que comprávamos, à esquina das escadinhas de Santa Justa, para a alegria da namorada ou da parceira de uma noite bonita e casual. Viver à espera da PIDE, com projectos incertos, dava direito a beber de vez em quando a espuma de uma hora louca.
Pelas ruas da Baixa, num 1º de Maio proibido em que a polícia nos dispersou a tiro e com indelével água azul, houve correrias dementes pela Rua do Ouro, trabalhadores e estudantes espancados, o Manuel Vilaverde Cabral ficou, se bem me lembro, todo pintado da cor do céu, e eu por lá andei e escapei dessa vez aos encontrões e às cacetadas.

Relendo os contos que então escrevi, verifico que nalguns reproduzi (e obviamente alterei, acrescentei ou reduzi) os factos reais; noutros, pelo contrário, antecipei, como se adivinho fosse, a vida que ia viver.

Texto publicado em 15 de Agosto de 2013

Legenda: quadros de Luiza Cardoso.

domingo, 31 de maio de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

OLHARES

Aqui ainda é O Toni dos Bifes.

Um dos restaurantes mais antigos de Lisboa, na Rua Praia da Vitória, junto ao Saldanha.

Carlos de Oliveira morava no prédio ao lado de O Toni dos Bifes.

Almoçava por lá. Depois o Augusto Abelaira ia ter com ele, ou almoçava também, e depois iam para o Monte Carlo onde continuavam a aparecer mais escritores, pintores, cineastas, artistas de teatro e cinema.

Quando ainda havia cafés.

Os cafés eram locais privilegiados para as tertúlias.

 Locais de convívio e de escrita.

Augusto Abelaira terá sido o escritor que mas utilizou os cafés para a escrita dos seus romances.

Era vê-lo mergulhado na escrita/leitura de papeis, cachimbo em riste – podia-se fumar nos cafés, pois então!

Na Cister, na Alsaciana, na Coimbra, que ainda existem.

A primeira fase consiste em escrever, escrever, porque as fases seguintes, de reescrita e montagem, têm de ser em casa. Seria preciso andar com uma mala e espalhar muitos papéis.

Mais ainda:

Como eu escrevo nos cafés, o que eu precisava era que houvesse cafés para, durante a manhã, estar a escrever. Como os cafés vão desaparecendo, a possibilidade de escrever é cada vez menor. Quando todos os cafés tiverem desaparecido de Lisboa eu encerro a escrita. Deixo de escrever, isto é, vou morrer, quando fechar o último café em Lisboa onde possa escrever.


Jorge Silva Melo foi um assíduo frequentador dos cafés de Lisboa.

O seu livro de memórias No Século Passado está cheio de referências:

E era nos cafés, abertos desde manhã cedo e até de madrugada, abertos aos feriados e aos domingos que tudo isso se ia passando.

Também os Dias Comuns do José Gomes Ferreira estão cheios de referências dos cafés que frequentava com os escritores seus amigos e camaradas, cafés que iam fechando – naquele tempo com destino certo de dependências bancárias - e obrigava a arranjar outro refúgio.

Tal como no 4º volume desses Dias Comuns, José Gomes Ferreira conta:

6 de Janeiro de 1968

A Bel comunicou-me este triste recado do Carlos de Oliveira: o café Bocage, nosso ninho de longos anos Avenida da República vai fechar amanhã.

28 de Maio de 1968

Fechou o Martinho.
Que se passa em Lisboa, onde já se respira tão pouco?
O Abelaira telefonou-me, alarmado, a dar-me a notícia fantástica.
- Mas será verdade’ – PERGUNTEI, INCRÉDULO.
- É… - Disse-me o Magalhães Godinho… A notícia vem no jornal da tarde.
Silêncio inquieto diante desta mutilação do fumo do passado.
- E agora?
- Talvez o Paladium  nos restauradores.
- Pois seja o Paladium!


E nisto de cafés, no fechar da página, impossível não ir buscar o João César Monteiro em Uma Semana Noutra Cidade:

São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes. É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o Mundo.

Texto publicado em 21 de Janeiro de 2016

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

OLHAR AS CAPAS


Vida e Obra de José Gomes Ferreira

Alexandre Pinheiro Torres
Capa: José Cândido
Livraria Bertrand, Lisboa, Março de 1975

Encontrava-se este livro terminado há meses quando se deu o golpe militar de 25 de Abril, que pôs termo a quase meio século de Ditadura fascista e de acéfalo salazarismo. Pareceu-me então que a obra concluída necessitaria de ser totalmente refeita, já que a Censura acabava por fim de ser «arrolhada», e eu podia agora «desarrolhar» o manuscrito. A Mesa Censória era obviamente a mesma com que tinha velhas contas a ajustar, a mafia que tantas vezes pessoalmente enfrentara em largas discussões com os reformados coronelíferos capangas dela, em especial na militantíssima primeira metade da década de 60 (começara a Guerra em África), em que eu via os meus artigos para a Seara Nova, ou Diário de Lisboa, ou Jornal de Letras e Artes ou Jornal de Notícias (que não havia mais jornais que me aceitassem a prosa) reduzidos a nada, ou a uma fracção, quando, mercê dos cortes estratégicos dos ressuscitados inquisidores do Santo Ofício, a coisa não era ainda pior, pois que amputações bem calculadas transformavam o que já não seria brilhante em charadas onde fosse visível a inarticulação lógica quando não a burrice do escriba.
Os diálogos (?) com os Mercenários da Rolha não tive, porém, que continuá-los depois de 1965, ano da atribuição do Grande Prémio da Novela da Sociedade Portuguesa de Escritores a Luandino Vieira, facto que me levaria a mim, o Augusto Abelaira e o Manuel da Fonseca a um estágio forçado no Forte de Caxias, ao encerramento da Sociedade por decreto do Estado Novo, e ao desventurado autor de Luunda a nunca mais ver a cor aos 50 contos do prémio, quando já não bastasse a repressão mais sinistra de lhe ser prolongada a pena que então cumpria na paradisíaca estncia do Tarrafal, de himmleriana menória.

(Da Introdução de Alexandre Pinheiro Torres)

quinta-feira, 3 de maio de 2018

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Para beber uma garrafinha de tinto, a acompanhar um petisco, qualquer motivo servia.

Mas o mais feliz de todos era irmos ver um filme do João César Monteiro: juntar o gosto petisqueiro à genialidade do João era o suprassumo do quotidiano, dizia o meu pai.

É durante a exibição de Veredas que o meu pai agarra com todos os sentidos a 7ªSinfonia de Anton Brucker que, juntamente com cantos populares de Trás-os-Montes e Alto Alentejo, mais música instrumental da Idade Média, faz parte da banda sonora deste filme datado de 1977.

Aliás, há que salientar que, para além da excelência dos diálogos, há que  mencionar as fabulosas bandas sonoras.

O mesmo se passa com os filmes de Woody Allen.


Lembrar Vitor Silva Tavares:


Por mim acontece ou aconteceu que até o escrevinhei (na orelha do volume que reúne os argumentos de Le Bassin de J.W. e de As Bodas de Deus): Melhor do que ele, ninguém escreve em português de - e para - cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras - comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.

O bichinho da 7ª de Bruckner já andava a bailar no espírito do meu pai,  mas foi depois de ter visto Veredas que correu a comprar o CD.

Também já tinha lido em A Cidade das Flores do Augusto Abelaira:

« E sorridente continuou. É o sorriso dum homem feliz que observa Santa Croce, lé em baixo. Que é livre, que está a cantar, a cantar muito de mansinho, aquele tema do primeiro andamento da Sétima de Bruckner, aquele que se repete e se prolonga ao longo da sinfonia.»

O meu pai adorava ter prazeres secretos.

Nunca os explicava, não merecia a pena, ninguém entenderia, murmurava de olho brilhante pelo vinhito.


Música: companheira de todas as horas.


quinta-feira, 19 de abril de 2018

POSTAIS SEM SELO


Quando se fala na igualdade dos homens, não se pretende dizer que não há diferenças entre eles, mas sim que devemos respeitar essas diferenças.

Augusto Abelaira em A Cidade das Flores

quinta-feira, 1 de março de 2018

POSTAIS SEM SELO


O amigo ideal, eu pensaria que é aquele indivíduo que fosse capaz de me compreender sem eu ter de dizer palavras.

Augusto Abelaira em Conversas 

Legenda: Uma Thurman em Pulp Fiction

domingo, 24 de setembro de 2017

RELACIONADOS


A propósito deste Olhar as Capas, recuperamos um texto publicado neste Cais do olhar em 15 de Outubro de 2011:

Quando Manuel da Fonseca, publica Seara de Vento  encerra aí o seu grande percurso na prosa.

Segue-se um interregno de 10 anos, interrompido pela publicação do livro de contos Um Anjo no Trapézio.

Numa entrevista a Maria Teresa Horta publicada em A Capital de 20 de Junho de 1968 disse Manuel da Fonseca:

“Pouco depois de “Cerromaior”, escrevi um romance. Duzentas e tal páginas. Um sujeito que o leu, gostou. Eu não. Nem o publiquei. Agora, que já tinha “esquecido” o tal romance inédito, mas não as pessoas, nem os acontecimentos, dei-me à escrita, e as duzentas e tantas páginas ficaram reduzidas a quarente e nove. O título do conto é o mesmo do romance “Um Anjo no Trapézio”.

O livro foi muito mal recebido pela crítica.

Alice Vassalo Pereira escreveu no “Jornal do Fundão” de 28 de Julho de 1968:

Manuel da Fonseca publica pouco. Sabemos isso. Temos dele meia dúzia de livros, e um longo silêncio de cerca de dez anos entre a publicação do último – “Seara de Vento” – e a de “Um Anjo no Trapézio” que surge agora nas nossas mãos. Um longo silêncio apenas povoado, de vez em quando de reedições e trabalhos dispersos por jornais. “Um Anjo no Trapézio” é a palavra de quebrar o silêncio.
Mas (infelizmente) para certos casos o silêncio continua a ser de oiro. E por vezes (agora) a palavra nem de pedra é…

José Gomes Ferreira, nos seus “Dias Comuns”, 5º volume, no dia 14 de Junho de 1968 escreve esta entrada:

O Manuel da Fonseca publicou um livro novo: “O Anjo no Trapézio.
Ainda não o li, mas gelou toda a gente.
O João José Cochofel:
- É muito mau… Com as palavras derretidas.
O Augusto Abelaira, a medo, com a delicadeza natural de não dizer mal dos ausentes:
- “O Fogo e as Cinzas” é um livro formidável.
O Carlos de Oliveira sacode a cabeça apavorado com esta verificação:
É terrível! Pode perder-se o talento!
Desgosto de família.

Damos os pêsames uns aos outros. Sinceros.

sábado, 22 de julho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Relâmpago

Nº 11
Número dedicado a Carlos de Oliveira
Colaborações:
José Ricardo Nunes, Manuel Gusmão, Pedro Eiras, Rosa Maria Martelo, Armando Silva carvalho, Augusto Abelaira, Eduarda Dionísio, Eduardo Prado Coelho, Fernando Lopes, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz, José Manuel Mendes, Margarida Gil, Nuno Júdice, Urbano Tavares Rodrigues
Capa: Nuno Marques Mendes
Assírio Alvim, Lisboa, Outubro de 2002

De súbito, o Carlos de Oliveira pediu-me:
- Você por acaso tem aí um lápis?
Aquele “por acaso” impressionou-me, era indicativo de que, para ele, só por acidente um escritor usaria lápis (então eu ainda não publicara nenhum livro). E fui perguntando:
- Você esqueceu-se?
Para meu espanto, revelou-me que nunca, por nunca ser, trazia um lápis (ou caneta) na algibeira. O seu lápis era a memória, construía as poesias “na cabeça”. Alinhava e desalinhava as palavras na memória durante o dia, durante as horas do dia, e quando chegava a casa, era somente escrevê-las. Somente? Escrevê-las, reescrevê-las, quem conhece o Carlos sabe como é.
Então, com o lápis, para depois a Ângela as passar à máquina. Quantas vezes?

(Do texto de Augusto Abelaira)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...



Há um pequeno texto de Jorge Listopad, provavelmente publicado no JL, não encontro a data, muito bonito e em louvor das máquinas de escrever. Acredito que muito boa agente desconheça do que se trata:

Tinha um vizinho desconhecido. Mas ouvia-o a escrever à máquina às mais variadas horas nocturnas. Agora reina o silêncio. Pergunto: morreu? Foi raptado? Mudou-se? Comprou um computador?
Seja como for, celebro a memória daquela máquina de escrever, desconhecida.

Sabe-se que Fernando Assis Pacheco, uma das muitas suas imagens de marca, martelava o teclado da sua máquina de escrever HCESAR, apenas com o dedo indicador da mão direita e que se perguntava a Augusto Abelaira por que é que ele demorava tanto tempo a publicar um livro:

É que eu escrevo à mão e depois passo à máquina. Só que depois de uma primeira passagem à máquina vêm as modificações. Então é preciso passar tudo de novo à máquina.

Um dia hei-de falar da minha máquina de escrever, também uma HCESAR.

Está ali, naquele canto, a olhar…

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


- Não sei. O vento existe para as mulheres segurarem os cabelos com as mãos.
- E também para usarmos lenços de seda.
- Sim, o vento faz as mulheres bonitas. Os lenços de seda também.

Augusto Abelaira em Quatro Paredes Nuas

Legenda: Brigitte Bardot

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Comecei a fumar por snobismo e ainda hoje não gosto de fumar. Perdão, gosto de fumar por snobismo.

Augusto Abelaira em Quatro Paredes Nuas

Legenda: Natália Correia

sábado, 4 de fevereiro de 2017

RECADOS

Fernando Assis Pacheco em «Prontuário das Letras», habitual coluna que assinava no Suplemento Literário do «República» faz, aquando da publicação de «Quatro Paredes Nuas» uma curiosa abordagem, à prosa de Augusto Abelaira.
«República» 23 de Novembro de 1972.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

JOSÉ GOMES FERREIRA, POR ELE PRÓPRIO


No dia 14 de Março de 1969, José Gomes colocou nos seus Dias Comuns:

Telefonaram-me agora da Philips a convidar-me a gravar um disco para vender em Portugal e no Brasil. Aceitei em princípio.

A 18 de Março, volta ao assunto:

A voz dos poetas a dizerem versos nos discos…
Porque não o ranger das penas no papel?...
É talvez a verdadeira voz dos poetas.


Na véspera, não se sabe se a propósito do disco, escreveu uma só frase…

A vaidade entristece o mundo…

Entrada de 19 de Março:

Passei a noite a ler em versos em voz alta… Mas aconteceu uma tragédia. Como tenho dentadura nova, senti na boca uma mistura desagradável de palavras com favas sibilantes. E pedras. Vou fazer uma linfa figura de poeta tatibitates para a eternidade dos meses curtos!
E, sobretudo, não gosto dos meus versos. São do outro.


No dia 2 de Abril volta a falar do disco:

Ontem à noite comecei a gravar o meu disco. Voltei para casa fatigadíssimo e passei toda a noite excitado, sem dormir - com uma insónia de deus tenso.
Odeio a minha voz – solene, cantada, boa para sermões redondos. Lutei toda a noite com ela. Em vão! Não consegui torna-la num chicote rude.

No dia 18 de Abril:

Hoje almoço da gente da Philips com a da Portugália a propósito do meu Disco.
Almoço neo-capitalista no último andar do Hotel Eduardo VII com o panorama de Lisboa a comer connosco à mesa.
Almoço de comida complicada que me suscitou uma enorme sonolência…
- É o neo-capitalismo que conseguiu entrar em mim, para me atacar de dentro para fora… Para me adormecer… - expliquei ao Nikias esta tarde no Palladium.

O disco, com a referência 841 402 PY, teve produção de João Martins, reproduz uma fotografia de Nuno Calvet e inclui um encarte com a transcrição dos poemas ditos por José Gomes Ferreira, bem como palavras de Maria Teresa Horta, Carlos de Oliveira e Augusto Abelaira.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Escrevo para um leitor que invento, não me preocupa o número de leitores.

Augusto Abelaira.

sábado, 30 de janeiro de 2016

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Nos montes de papelada que andam pela casa, perdidos em pequenos montes, em pastas, fui dar com este anúncio de O Toni dos Bifes.
Não por acaso, mas por causa de Carlos de Oliveira, Augusto Abelaira, José Gomes Ferreira, cafés que fechavam para serem substituídos por dependências bancárias, falou-se aqui de O Toni dos Bifes.
O recorte não tem data, mas é fácil constatar que é uma data de antes do 25 de Abril,  porque o anúncio ostenta que O Toni dos Bifes recebeu um prémio do S,N.I. que era o ministério da propaganda da ditadura de Salazar.
Para além dos famosos bifes, também se podia degustar rancho à moda de Viseu, feijão com entrecosto, ensopado de lulas.
Tudo comida que sabia a comida e a léguas das modernices que agora nos impingem.
E agora já não está aberto aos domingos.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

BOLOR


Augusto Abelaira foi buscar a um poema de Carlos de Oliveira o título do seu romance Bolor e utiliza o poema como epígrafe.

O poema, um lindíssimo poema, chama-se Bolor, faz parte de Cantata (1960) e está reunido em Poesias e também no  1º Volume de Trabalho Poético:

Os versos
que te digam
a pobreza que somos
o bolor
nas paredes
deste quarto deserto,
os rostos a apagar-se
no frémito
do espelho
e o leito desmanchado
o peito aberto
a que chamaste
amor

Legenda: fotografia de Dorothea Lange

OLHARES


Aqui ainda é O Toni dos Bifes.

Um dos restaurantes mais antigos de Lisboa, na Rua Praia da Vitória, junto ao Saldanha.

Carlos de Oliveira morava no prédio ao lado de O Toni dos Bifes.

Almoçava por lá. Depois o Augusto Abelaira ia ter com ele, ou almoçava também, e depois iam para o Monte Carlo onde continuavam a aparecer mais escritores, pintores, cineastas, artistas de teatro e cinema.

Quando ainda havia cafés.

Os cafés eram locais privilegiados para as tertúlias.

 Locais de convívio e de escrita.

Augusto Abelaira terá sido o escritor que mas utilizou os cafés para a escrita dos seus romances.

Era vê-lo mergulhado na escrita/leitura de papeis, cachimbo em riste – podia-se fumar nos cafés, pois então!

Na Cister, na Alsaciana, na Coimbra, que ainda existem.

A primeira fase consiste em escrever, escrever, porque as fases seguintes, de reescrita e montagem, têm de ser em casa. Seria preciso andar com uma mala e espalhar muitos papéis.

Mais ainda:

Como eu escrevo nos cafés, o que eu precisava era que houvesse cafés para, durante a manhã, estar a escrever. Como os cafés vão desaparecendo, a possibilidade de escrever é cada vez menor. Quando todos os cafés tiverem desaparecido de Lisboa eu encerro a escrita. Deixo de escrever, isto é, vou morrer, quando fechar o último café em Lisboa onde possa escrever.


Jorge Silva Melo foi um assíduo frequentador dos cafés de Lisboa.

O seu livro de memórias No Século Passado está cheio de referências:

E era nos cafés, abertos desde manhã cedo e até de madrugada, abertos aos feriados e aos domingos que tudo isso se ia passando.

Também os Dias Comuns do José Gomes Ferreira estão cheios de referências dos cafés que frequentava com os escritores seus amigos e camaradas, cafés que iam fechando – naquele tempo com destino certo de dependências bancárias - e obrigava a arranjar outro refúgio.

Tal como no 4º volume desses Dias Comuns, José Gomes Ferreira conta:

6 de Janeiro de 1968

A Bel comunicou-me este triste recado do Carlos de Oliveira: o café Bocage, nosso ninho de longos anos Avenida da República vai fechar amanhã.

28 de Maio de 1968

Fechou o Martinho.
Que se passa em Lisboa, onde já se respira tão pouco?
O Abelaira telefonou-me, alarmado, a dar-me a notícia fantástica.
- Mas será verdade’ – PERGUNTEI, INCRÉDULO.
- É… - Disse-me o Magalhães Godinho… A notícia vem no jornal da tarde.
Silêncio inquieto diante desta mutilação do fumo do passado.
- E agora?
- Talvez o Paladium  nos restauradores.
- Pois seja o Paladium!


E nisto de cafés, no fechar da página, impossível não ir buscar o João César Monteiro em Uma Semana Noutra Cidade:

São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes. É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o Mundo.