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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

DEITEI A CABEÇA EM CIMA DA FOTOGRAFIA

deitei a cabeça em cima da fotografia
e com a respiração despertei teu corpo
do sítio penumbroso onde viveras
o tempo não se gastou
passei estes anos a colocar as coisas
nos seus devidos lugares
ainda ouço
a voz outonal das palmeiras e o murmúrio
do vento cercando a casa protegida pelo bolor
era uma pequena ilha dizias
onde os ruídos duma vida anterior a esta
dormitavam ainda
 
agora está tudo arrumado
agito-me em volta das coisas
mas nada posso corrigir
o que está feito está feito
 
levanto-me daqui e corro para o telefone
tento saber se estás onde penso existir
uma cidade... ninguém responde
 
onde estarás?
deste ou do outro lado do telefone?
um puto irrompe da insónia
deitando-me a língua de fora
 
de qualquer maneira não consegui a ligação

Al Berto em O Medo 

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

SE UM DIA A JUVENTUDE VOLTASSE

se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição


Al Berto de Rumor dos Fogos em O Medo 

quarta-feira, 30 de julho de 2025

PERNOITAS EM MIM

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória… amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes


Al Berto de Rumor dos Fogos em O Medo 

sexta-feira, 30 de maio de 2025

ERVA ESPEZINHADA...

 erva espezinhada poeira de sal nas unhas

dedos cansados de escutar o envelhecido latejar das pedras
olhar vago rasando o mar… azulino pássaro
no vagar do vento vem abrigar-se no meu peito
 
e o sol queima por dentro a boca e os cabelos
escolho um nome… ofereço-to
enquanto esboço percursos na ilusão de te reencontrar
mas deparo com estas dunas tristes… aridez contínua
ao longe
figueiras bravas debruçam-se para os corpos
protegendo-os do calor… onde terminará a visão?
 
teço nos lábios a líquida alegria dum fabuloso peixe
ouço o marulhar das estrelas… lembras-te?
ao anoitecer
 
     (resumo do dia:
                    chuviscos
                    breves dálias colhidas nos valados
                    passos hesitantes pelas águas
                    lenta fuga dos corpos
                    sombras ternas na folhagem das figueiras)
 
estendidos na erva para

 
 
Al Berto

quarta-feira, 14 de maio de 2025

HÁ-DE FLUTUAR UMA CIDADE NO CREPÚSCULO DA VIDA

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida

pensava eu... como seriam felizes as mulheres

à beira mar debruçadas para a luz caiada

remendando o pano das velas espiando o mar

e a longitude do amor embarcado

 

por vezes

uma gaivota pousava nas águas

outras era o sol que cegava

e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite

os dias lentíssimos... sem ninguém

 

e nunca me disseram o nome daquele oceano

esperei sentado à porta... dantes escrevia cartas

punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua

assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar

se espantasse com a minha solidão

 

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no

coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

 

um dia houve

que nunca mais avistei cidades crepusculares

e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta

inclino-me de novo para o pano deste século

recomeço a bordar ou a dormir

tanto faz

sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

Al Berto de Salsugem em O Medo

  

quarta-feira, 23 de abril de 2025

DIZEM QUE A PAIXÃO O CONHECEU

dizem que a paixão o conheceu

mas hoje vive escondido nuns óculos escuros

senta-se no estremecer da noite enumera

o que lhe sobejou do adolescente rosto

turvo pela ligeira náusea da velhice

 

conhece a solidão de quem permanece acordado

quase sempre estendido ao lado do sono

pressente o suave esvoaçar da idade

ergue-se para o espelho

que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

 

dizem que vive na transparência do sonho

à beira-mar envelheceu vagarosamente

sem que nenhuma ternura nenhuma alegria

nenhum ofício cantante

o tenha convencido a permanecer entre os vivos

Al Berto

quinta-feira, 10 de abril de 2025

NÃO VOLTAREMOS A PRSSENTIR O MAR

não voltaremos a pressentir o mar

nem sequer lembraremos o turvo sal das bocas

sobre o rosto gémeo da máscara que nos esconde

 

louco pássaro de cinza sulcando o ar rarefeito

e a escuma luminosa dos meteoros que cegam

os frementes alicerces da cidade insone

 

não nos reflectiremos mais nos gestos desgastos

nem na demência da língua donde irrompe a alba

e nómadas continuaremos para lá do sangue

flutuantes no escuro sonho

os corpos incendiados um no outro

consomem-se formando insuspeitas constelações

vagarosamente

através dos séculos regressaremos

intactos ao nada inicial

 

Al Berto de A Noite Progride Puxada à Sirga em O Medo

segunda-feira, 31 de março de 2025

POSTAIS SEM SELO


Sinto-me como se tivesse cegado por excesso de olhar o mundo.

Al Berto

Legenda: fotograma final do filme Vai e Vem de João César Monteiro. O autor garantindo-nos que nos continua a observar e que o observemos.

João Bénard da Costa: «o olho que nós olhamos é um olho morto. É por isso que se fecham os olhos aos mortos, para parecer que dormem.»

quinta-feira, 20 de março de 2025

TRUQUE DO VENENO

ofereço-te uma laranja
tenho sempre laranjas escondidas no fundo das algibeiras
berlindes como olhos assustados de pantera, cordéis encerados
bons para estrangular
lâminas doces para abrir sinais de vida sobre a pele
e uma faca quebrada que me ajuda a recordar alguns nomes de cidade
 
o pior é que nos jogos de laranjas, mesmo nos mais difíceis
quem PERDE GABHA
sabemos que o veneno age sempre dos pés para a cabeça
estonteia
espero, atento à última convulsão
 
mais tarde, desato o cordel
retiro a faca profundamente enterrada, recuo um pouco
contemplo o sangue e a obra, esvazio as algibeiras
substituo os objectos, descalço as luvas
apago as impressões digitais, falsifico as fotografias
lavo demoradamente o sangue e o esperma da boca
saio para a rua, clandestino
procuro outro puto tardio pela cidade
seduzo-o com a imagem deslavada duma laranja, recomeço
o inocente jogo

 

Al Berto de Alguns Truques de Ilusionismo em O Medo

quinta-feira, 13 de março de 2025

OLHAR AS CAPAS


 Um Olhar Português

Textos de:

Regina Louro, Francisco José Viegas, Mário Cláudio, Fernando DaCosta, Eugénio de Andrade, Fernando Assis Pacheco, Hélia Correia, José Cardoso Pires, Mário Ventura, Al Berto, Lídia Jorge, Viale Moutinho, João de Melo

Capa: João Machado

Círculo de Lisboa, Dezembro de 1991.

A vila de Peniche estava toda retalhada por água. Uma pequena casa envelhecera mesmo dentro do mar, sobre um montículo de pedra e sedimento. Os pássaros soltavam os seus gritos, feitos para superar o estrondo das tormentas. Os barcos acolhiam-se ao redor do grande lombo de cimento e rocha que com eles dormitava, num embalo.

- Foi uma ilha, sabe?

- O quê?

- Peniche.

Mas sob as rodas sentia-se a firmeza do alcatrão.

Mário parou o carro junto ao forte que era agora um museu da Resistência.

-Quer entrar? – perguntou.

- Não – disse a mãe. Parecia muito desinteressada. Talvez sentisse fome ou não quisesse, não suportasse recordar-se mais. Dava aquela viagem por cumprida.

A prisão, pensou ele, tinha a matéria e a alma de um rochedo. Estava misturada com as ondas. Talvez o seu avô se confortasse com aquela presença familiar, talvez se distraísse com as fúrias e os arrulhos da rebentação. Alguns homens haviam-se atirado, nadado para longe, confiando no mar e não na terra para fugir. Isso fora ainda antes de ele nascer, supunha; fora há muito tempo já. As coisas que os moveram, que os trouxeram para aqui, também se consumiram e passaram. «Nunca conhecerei as suas vidas.»

Arrancou devagar, contra o sol baixo.

- No Verão, é tudo bem diferente – disse a mãe. – Há muita gente, os dias são compridos. Espero que fosse Verão quando ele vinha. Hás-de pintar um qiadro do Verão.

 Mário riu-se:

- Para quê? A mão não gosta.

- Gosto – respondeu ela. – Não entendo, mas nós nunca entendemos muita coisa.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

RETRATO DE UM AMIGO ENQUANTO BEBE

íamos por noites de ciclone largar a tristeza
à porta marítima das tabernas... éramos a sombra
que mancha o tampo da mesa oscilante
falávamos alto como fazem os marinheiros
bebíamos até cair

conheço este homem
debruçado para o rosto indeciso do rapaz
perguntava se havia algum mal no que fazia
eu olhava a televisão pedia mais vinho
interrogava-me
que secretos desejos teriam singrado
com aquele navio carregado de morte?

e a cidade crescia noite adiante sob a tempestade
os passos ecoavam apressados pelo cais
– Como te chamas? perguntou
mas o rapaz não respondeu... e nada em redor
tremeluzia

o homem levantou-se
indiferente à revelação da alba titubeou tossiu
apoiado no magro ombro do rapaz
desapareceram pelas ruas estreitas do mar
entre redes cordas quilhas e remos
onde se embarca para o medo esquecido de mais um dia

 

Al Berto de Alguns Poemas da Rua do Forte em O Medo

sexta-feira, 21 de junho de 2024

SABES, AS AVES

   sabes, as aves aquáticas já não pernoitam junto ao mar nem por entre os nossos dedos de areia

  sobem-nos vozes calcárias à garganta, estrangulo-me neste humilde canto, fico atento ao eterno silêncio do teu castelo

  às vezes escuto o teu cantar, raramente, é certo...mas quando cantas saem-te nomes puros da boca e sorrisos diáfanos de cristais
  os lábios incendeiam-se com vinho, teu corpo adquire o sabor misterioso das algas
  no crepúsculo expande-se o perfume a moreia frita, teu olhar é o mosto dos nossos desejos

  dançamos à roda dum mastro, saia em papel de seda bordada com búzios...uma quadra flutua pela noite de nossos cabelos
  rodopias, e os teus amores são relembrados pela noite adiante
  espalham-se estrelas cadentes, papoulas breves, junco molhado

  e o mar enche-se novamente de pássaros, embarcações semelhantes a beijos

que nos percorrem de alegria

Al Berto de Mar-de-Leva em O Medo

sexta-feira, 17 de maio de 2024

AUTO-RETRATO COM REVÓLVER

 

as palavras foram alinhavadas pelos preguiçosos dedos
o texto transparece na claridade das manchas de tinta
teço a ausência dum corpo que me é absolutamente necessário, doem-me estes gestos
estas coisas cobertas de pó sobre a mesa: papéis amarrotados, fotografias, cartas interrompidas, objectos quebrados, sinais ténues de gordura e de fundos de chávena
lápis, cigarros esboroados, o revólver

num dos cantos inacessíveis da casa, as aranhas vão construindo ninhos diáfanos
segregam sábios labirintos em perigosa baba
sinto-me vazio, hoje
a compreensão do mundo escapa-me, pouco me importo com isso
está tudo muito calmo, em redor da casa, o jardim quieto
poderia passar o dia a ler, por desfastio, à maneira dos príncipes persas
a tarde torna as madeiras rubras, aquece
os livros parecem de pedra em seu arrumo cauteloso

ao alcance está o revólver
perto da mão que nunca aprendeu a escrever, aquece ao simples contacto dos dedos
a outra mão, a direita, definhou um pouco quando aprendeu o silencioso ofício

eu explico: hoje deve ser domingo
e a mão esquerda masturba enquanto a direita escreve com destreza, sem cessar
mais tarde, escrevia eu
poderiam as mãos trocar de ofício
o revólver tingir-se-ia de tinta permanente, o papel apresentaria o terrível sulco de uma bala.

Al Berto em  O Medo

sexta-feira, 12 de abril de 2024

ESCUTO O LAMENTO DAS ÁGUAS

escuto o lamento das águas e os passos rápidos das crianças pelas dunas

os ventos varrem, ainda uivam em todas as frestas do Reino das Índias
Índias de fome, Índias de noite gelada

procuro no fundo das algibeiras os bonecos da bola, e as cobras nos valados do Rio da Moura

o sumo das amoras e o cheiro fresco do sabão...a memória envolve-se nos lençóis que secam estendidos ao sol
adivinho lugares distantes e sombrios, habitados pelo Último Cavaleiro dos Ventos, o Zé Babão... por andará o Cabecinha? e a Tia Clementina? e o Cisinato? e o Perna-Marota? e a Ti Carlota? e a Dentinho d'Ouro? e

em mim nada secou
não possuo a morte no coração, mas sim um pouco de chuva que lentamente apaga o fogo doutros dias mais simples
escuto o lamento das águas e sei que tudo continua vivo no fundo do mar...e no coração persistente das plantas

Al Berto de Mar-de-Leva em O Medo

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

POSTSCRIPTUM

... apercebo o lume dum coração antigo e simples
atravesso a cor luminosa dos sonhos sem me deter...
... aqui deixo o espólio daquele cuja vida
é cintilação de lugares nítidos...

(um pouco de café, uma carta, um pedaço de vidro)

... tenho a certeza de que se virasse o corpo do avesso
ficaria tudo por recomeçar...
... mas se aqui voltares
talvez encontres estes papéis escritos
no recanto mais esquecido da noite... talvez
descubras o vazio onde o corpo desgasto esperou...

... vou destruir todas as imagens onde me reconheço
e passar o resto da vida assobiando ao medo.

 

Al Berto de O Esquecimento em Yucatán em O Medo

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

ÚLTIMA CARTA DE VAN GOGH A THÉO

nunca me preocupei em reproduzir exactamente
aquilo que vejo e observo
a cor serve para me exprimir théo: amarelo
terra azul corvo lilás sol branco pomar vermelho
arles
sulfurosas cores cintilando sob o mistério
das estrelas na profunda noite afundadas onde
me alimento de café absinto tabaco visões e
um pedaço de pão théo
que o padeiro teve a bondade de fiar

o mistral sopra mesmo quando não sopra
os pomares estão em flor
o mistral torna-se róseo nas copas das ameixeiras
arde continuou a arder quando tentei matar aquele
que viu a minha paleta tornar-se límpida
mas acabei por desferir um golpe a mim mesmo
théo
cortei-me uma orelha e o mistral sopra agora
só de um lado do meu corpo os pomares estão em flor
e arles théo continua a arder sob a orelha cortada

por fim théo
em auvers voltei a cara para o sol
apontando o revólver ao peito senti o corpo
como um torrão de lama em fogo regressar ao início
num movimento de incendiado girassol

Al Berto de A Secreta Vida das Imagens em O Medo


quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

RECADO

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

Al Berto

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 esqueço-me de tudo, por isso escrevo. longe do terror ao sismo inesperado das estrelas, escrevo com a certeza de que tudo o que escrevo se apagará do papel no momento da minha morte.

 Al Berto em O Medo 

Legenda: a máquina de escrever de Carlos de Oliveira.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

PERNOITO NO INTERIOR DO CORPO DESARRUMADO


pernoito no interior do corpo desarrumado
o medo invade o penumbroso corredor
descubro uma cintilação de água no estuque
uma cicatriz de cristais de bolor abre-se
porosa ao contacto dos dedos indica
que não haverá esquecimento ou brisa
para limpar o tempo imemorial da casa

deste simulado sono ficou-lhe o amargo iodo
as madeiras enceradas cobertas de poeira
ervas secas à chuva molhos de rosmaninho
junquilhos, bocas de lobo silenas, trevo
mas nenhuma fuga foi recomeçada
a infância permanece triste onde a abandonei
quase não vive
no entanto ouço-a respirar dentro de mim

agora tudo é diferente
recomeço a viver a partir do vazio
da treva dos dias em silêncio
por entre a pele e um feixe de magnificas veias
sinto o pássaro da velhice arrastando as asas
onde desenvolve o calmo voo lunar

enumero cuidadosamente os objectos, classifico-os
por tamanhos por texturas, por funções
quero deixar tudo arrumado quando a loucura vier
da extremidade aguçada do corpo alado
e o rosto for devassado por um estilhaço de asa

então a vida abater-se-á sobre a folha de papel
onde verso a verso
me ilumino e me desgasto

Al  Berto em O Medo 

quarta-feira, 3 de junho de 2020

OUÇO A TUA VOZ


Ouço a tua voz chamando, chamando...
Ah! nenhum de nós somos os culpados!

Docemente extinta. Inocentemente.
Um círculo da Lua rodeia teus braços,
Um raio de Sol te dirige os passos.
É a tua voz! de menino e moço!

Ah! quanta ternura tem a tua voz,
Quanto beijo que jamais fora dado,
Quanta linda festa que logo interrompida,
Quanto abraço que desejaste dar ...

Ouço a tua voz. É som ou desmaio?
É quebranto? É música? Sai do coração?
Ouço a tua voz, que respeita e ama,
Como irmão mais novo a irmão mais velho.

Diz-me que é inútil. Que essa tua voz
Não é verdadeira, porque sofrerás...
Embora me tragas, sem eu saber como,
Alguma alegria, um pouco de paz!

Queira Deus que tu, irmão meu, encontres
Alguém que ao ouvi-la, quando estiveres só,
Te ame e compreenda, te ouça e adormeça,
Te afirme que tens um lugar no Mundo ...
ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

Al Berto

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia