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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

SOLTAS


Alexandra Lucas Coelho, no Público, diz que as Acampadas são a coisa mais bonita desde o 25 de Abril.

«Eu tinha 6 anos no 25 de Abril. Ter 58 agora serve para saber que desde então nada foi tão bonito em Portugal como estas acampadas, organizadas por quem podia ser meu filho.»

Ainda nas acampadas, fazemos uma paragem na crónica de Fernando Alves no Jornal de Notícias, para destacar este pedacinho:

«Na praça, rostos sorridentes dentro de casas de cartão. Há frases de humor ácido: "Ter casa já era". Uma mulher diz: "Sou privilegiada, tenho casa. Partilho-a com um filho de 28 anos e com o banco". Isto, sim, é pedagógico.»

1.

 Ninguém, mas mesmo ninguém, gosta de ver a polícia bater em pessoas.

2.

O Luís não tem mesmo habilidade para ser primeiro-ministro do reino.

Juntou-se à tal coisa, não quer e, aparentemente, não consegue demitir o despenteado mental que aterrou na administração interna.

No final da palração de ontem, os jornalistas fizeram perguntas a que o Luís fez desvios para não responder ao que lhe perguntaram.

Os jornalistas não deviam ter deixado o Luís sair da sala sem responder ao que lhe foi perguntado. 

Calaram-se e o silêncio nem sempre cai bem

3.

Citando Luís Filipe Castro Mendes: «um velho exclama: “Que querem os novos? Têm o futuro à frente e nós não”, a que um outro, mais avisado, responde: “Pois é esse mesmo o problema.”»

4.

O Eugénio de Andrade dizia que não se aprende muito com a idade

5.

Faltam poucos dias para ser Natal e o António Lobo Antunes, martirizava-se:
«desde que cresci o Natal tornou-se uma multidão de gente enervada e com pressa.»

6.

A esperança de vida aos 65 anos praticamente não sofreu alterações no triénio 2023-2025, pelo que os dados provisórios agora divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística vão manter a idade de acesso à reforma para 2027 nos 66 anos e 11 meses.

7.

Habitantes do concelho de Vimioso queixam-se do atraso na entrega da correspondência por parte dos CTT, garantindo que, "por falta de pessoal, deixaram de entregar correio há vários meses" em algumas aldeias e ainda no concelho de Miranda do Douro.

8.

A TAP já custou 3,255 mil milhões de euros ao erário público, está avaliada em cerca de dois mil milhões e será vendida por pouco mais de mil milhões;

9.       

Os 318 trabalhadores da Schmidt Light Metal, uma das empresas de referência de Oliveira de Azeméis ligada ao setor automóvel, vão ficar no desemprego. A administração comunicou o encerramento da unidade até ao final do ano, após uma tentativa de recuperação da empresa pelos novos proprietários ter fracassado.

10.

Portugal é o quarto país da União Europeia no ranking do desperdício alimentar e a maior parte da comida vai para o lixo dentro de casa; Portugal desperdiça 161 kgs de alimentos por habitante anualmente, 24,8% acima dos valores registados na média comunitária;

11.

Segundo o INE quase um terço das pessoas entre os 25 e os 44 anos toma medicação para tratar a ansiedade.


Legenda:fotografia de Filipe Amorim/AFP via Getty Images.

sábado, 27 de dezembro de 2025

POSTAIS SEM SELO

Por este andar, não tardará muito que já nem se saberá por que razão celebramos o Natal. Teremos as ruas iluminadas e o corpo de Deus às escuras.

Frei Bento Domingues 

Legenda: imagem tirada do site da Câmara Municipal de Lisboa.

OLHARES

Há uns anos, assistimos  à quase loucura, de pais natal de plástico a treparem janelas e varandas.

Generalizaram-se e constituíram um belo negócio para os chineses.

Por cansaço, o que quer que seja, já quase desapareceram.

Depois apareceu uma ideia, importada de Espanha, estandartes de pano vermelho com um Menino Jesus desenhado, objectivo maior para devolver, aos católicos, o verdadeiro espírito natalício combate árduo contra o pagão e barbudo Pai Natal que tem a péssima mania, de, por outros vícios, publicitar a Coca-Cola.

A Igreja Católica despertava para uma realidade que lhe passou ao lado, como, aliás, quase tudo o que vai acontecendo no mundo novo. Desesperadamente, tentaram combater as renas, os trenós, um certo paganismo, dizem, que se apropriou do Natal. E tentaram recuperar os símbolos cristãos do espírito natalício.

Não chegaram a tempo.

Um breve passeio pelas ruas do bairro, e o bairro é grandinho, deu para encontrar um único desses católicos panos de menino exposto e que se vê no topo do texto.

Sim, o Pai Natal é de um outro campeonato!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

NATAL MINHOTO


«Não, a vida não é uma festa permanente e imóvel, é uma evolução constante e rude. O Natal é a festa das lágrimas para todos aqueles para quem ele não é a festa da inexperiência. E, todavia, pensavam alguns que era útil não deixar de a celebrar. Que importa que o número ou que o nome dos convivas varie em cada ano? Que importa que alguns amados velhos faltem ao banquete? Que importa que nós mesmos faltemos para o ano que vem na festa dos mais novos?

Esta noite de alegria para as crianças será sempre de alguma saudade para os adultos. Assim teremos a esperança terna de sobreviver, por algum tempo, na lembrança dos que amamos — uma boa vez ao menos, de ano a ano.»

Ramalho Ortigão as Farpas Vol. I

Legenda: presépio do Palácio de Queluz 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 

José Saramago não gostava do Natal. Tão pouco de festas de aniversário.

Talvez reflexo de uma infância e de uma adolescência muito difíceis o Natal, para Saramago, não foi um toque de mágica. 

Deixou escrito numa crónica; para incréus empedernidos como eu, o caso não tem assim tanta importância: é mais uma das trezentas mil datas assinaladas de que se servem inteligentemente as religiões para aferventar crenças que no passar do tempo se tornariam letra morta e água chilra. 

De uma maneira seca, quase definitiva, finalizou um poema: É dia de Natal. Nada acontece.

Podia ser Natal e não ser farsa, como escreveu António Manuel Ribeiro numa canção dos “UHF”.

Na obra lida de José Saramago, encontrei três abordagens ao Natal.

O poema Natal em Os Poemas Possíveis,  a crónica A Neve Preta em Deste Mundo e do Outro e outra crónica em A Bagagem do Viajante que, precisamente, intitulou Natalmente crónica.

Tenho conhecimento que na revista “Colóquio/Letras” nº 151/152, Fevereiro 2000, totalmente dedicada a José Saramago, está publicado um conto inédito: Natal.

Fica aqui o excerto de A Neve Preta que consta do livro de crónicas Deste Mundo e do Outro:

«Estes pequenos filhos dos homens têm andado pelas minhas crónicas. Mas de crianças tenho falado como quem as conhece bem, só porque também por lá passou. E agora pergunto: que são as crianças? Dez mil pedagogos se preparam para me responder. Afasto de antemão as respostas, umas que já conheço, outras que adivinho, e torno a perguntar: que são crianças?

Que seres estranhos são esses que viram para nós os seus rostos frescos, que nos perturbam às vezes com um olhar subitamente profundo e sábio, que são irónicos e gentis, débeis e implacáveis, e sempre tão alheios? Temos pressa de os ver crescer, de os admitir no clã dos adultos sem surpresas. Somos impacientes, nervosos, porque estamos diante de uma espécie desconhecida... Quando passam a ser nossos iguais, falamos-lhes da infância que tiveram (a que recordamos, como observadores do lado de fora) e sentimo-nos quase ofendidos porque eles não gostam de ouvir lembrar uma situação em que já não se reconhecem. São adultos, agora: outra espécie humana, portanto.
Nessa infância está, por exemplo, a história que vou contar e que devo a um desses tais encontros de acaso. E depois de eu a reproduzir aqui, dir-me-ão se não tenho razões para insistir: é preciso cuidado com as crianças... Não o cuidado comum, que tende a prevenir acidentes, aqueles que aparecem sob esta rubrica nas notícias dos jornais, mas um outro cuidado, mais melindroso e subtil. Eu explico.
Uma professora mandou um dia aos seus alunos que fizessem uma composição plástica sobre o Natal. Não falou assim, claro. Disse uma frase como esta: «Façam um desenho sobre o Natal. Usem lápis de cores, ou aguarelas, ou papel de lustro, o que quiserem. E tragam na segunda-feira.» Assim ou não assim, os alunos fizeram o trabalho. Apareceu tudo quanto é costume aparecer nestes casos: o presépio, os Reis Magos, os pastores, S. José, a Virgem e o Menino Jesus. Mal feitos, bem feitos, toscos ou apuradinhos, os desenhos caíram na segunda-feira em cima da secretária da professora. Ali mesmo ela os viu e apreciou. Ia marcando «bom», «mau», «suficiente», enfim, os transes por que todos nós passámos. De repente... Ah, mas é preciso muito cuidado com as crianças! A professora segura um desenho nas mãos, e esse desenho não é melhor nem pior que os outros. Mas ela tem os olhos fixos, está perturbada; o desenho mostra o inevitável presépio, a vaca e o burrinho, e toda a restante figuração. Sobre esta cena sem mistério cai a neve, e esta neve é preta. Porquê?
«Porquê?», pergunta a professora, em voz alta, à criança. O rapazinho não responde. Talvez mais nervosa do que quer mostrar, a professora insiste. Há na sala os cruéis risos e murmúrios de rigor nestas situações. A criança está de pé, muito séria, um pouco trémula. E, por fim, responde: «Fiz a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu...»
Daqui por um mês chegaremos à Lua. Mas quando e como chegaremos nós ao espírito de uma criança que pinta a neve preta porque a mãe lhe morreu?»

José Saramago em Deste Mundo e do Outro, página 189.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

MIUDEZAS DE NATAL


 Colaboração de Aida Santos.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

OLHAR AS CAPAS


As Farpas

Ramalho Ortigão

Tomo I

Estudo de Augusto de Castro

Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1948

Depois celebrava-se a ceia, o mais solene banquete da família minhota. Tinham vindo os filhos, as noras, os genros, os netos. Acrescentava-se a mesa. Punha-se a toalha grande, os talheres de cerimónia, os copos de pé, as velhas garrafas douradas. Acendiam mil luzes nos castiçais de prata. As criadas, de roupinhas novas, iam e vinham ativamente com as rimas de pratos, contando os talheres, partindo o pão, colocando a fruta, desrolhando as garrafas.

Os que tinham chegado de longe nessa mesma noite davam abraços, recebiam beijos, pediam novidades, contavam histórias, acidentes da viagem; os caminhos estavam uns barrocais medonhos; e falavam da saraivada, da neve, do frio da noite, esfregando as mãos de satisfação por se acharem enxutos, agasalhados, confortados, quentes, na expectativa de uma boa ceia, sentados no velho canapé da família.

E o nordeste assobiava pelas fisgas das janelas; ouvia-se ao longe bramir o mar ou zoar a carvalheira, enquanto da cozinha, onde ardia no lar a grande fogueira, chegava num respiro tépido o aroma do vinho quente fervido com mel, com passas de Alicante e com canela. Finalmente o bacalhau guisado, como a brandade da Provença, dava a última fervura, as frituras de abóbora-menina, as rabanadas, as orelhas-de-abade tinham saído da frigideira e acabavam de ser empilhadas em pirâmide nas travessas grandes. Uma voz dizia: — Para a mesa! Para a mesa!

Havia o arrastar das cadeiras, o tinir dos copos e dos talheres, o desdobrar dos guardanapos, o fumegar da terrina. Tomava-se o caldo, bebia-se o primeiro copo de vinho, estava-se ombro com ombro, os pés dos de um lado tocavam nos pés do que estavam em frente. Bom aconchego! Belo agasalho!

terça-feira, 18 de novembro de 2025

OLHARES


 

Chegando Novembro, são eles que dão o primeiro toque de que o Natal vem aí.

Colaboração de Aida Santos.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

EI-LO QUE SE APROXIMA!

Faltam 85 dias.

Colaboração de Aida Santos

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

MÚSICA PELA MANHÃ


Este salto sem rede, no vazio incógnito de um novo ano.

Chamem-lhe futuro.

Sophia Mello Breyner Andresen sempre se admirou por as pessoas celebrarem a passagem do ano, dizia ela que o ano está sempre a passar.

Há quem nunca deseje bom ano a ninguém, dizem que dá azar.

E há a velha sabedoria que nos diz que os anos só são novos enquanto os novos somos nós.

Se viram um amável filme da norte-americana Rob, com Meg Ryan e Billy Cristal, «When Harry Meet Sally», que, parvamente, em português se chamou, Um Amor Inevitável, o tal filme em que a Meg Ryan simula um orgasmo em pleno snack e, finda a performance, a cliente da mesa ao lado, que esperava para fazer o seu pedido, volta-se para o empregado e diz: «quero o mesmo que aquela senhora», e certamente lembrar-se-ão que quase no final do filme, quando, numa festa de fim de ano, Harry reencontra Sally, começam a ouvir-se os acordes de Auld Lang Syne, e Henry diz que nunca entendeu o significado da canção pois diz que os velhos conhecidos devem ser esquecidos ou que se os esquecemos devemos recordá-los mas como recordar se já os esquecemos? Sally não tem resposta mas, sorrindo, acaba por lhe dizer: “seja o que for é uma canção sobre velhas amizades”.

Chegamos a bom porto: velhas amizades, lembrar os que já não estão connosco, com os que estão, os que ainda fazem do Tempo de Natal a festa dos amigos, celebrar a amizade, sempre, enquanto não chega a hora do adeus.

É isso!

E sabendo que o meu cachimbo está apagado, o meu copo vazio, ouvir aquela canção celta:

«Que a estrada se abra à tua frente,
Que o vento sopre levemente nas tuas costas,
Que o sol brilhe morno e suave na tua face,
Que a chuva caia de mansinho nos teus campos.

Ou aqueles versos de um poema do Jorge de Sena:

 «Já tudo escureceu;

contudo ainda resta algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.

É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.

A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.» 


sábado, 28 de dezembro de 2024

BOLO-REI


Naquele tempo apenas havia Bolo-Rei.

Depois inventaram o Bolo Raínha, o Bolo Rei escangalhado, não sabe mais o quê.

Já antes, a ASAE mandou proibir o brinde e fava no Bolo-Rei.

Dizem que o melhor Bolo-Rei é o Confeitaria Nacional, casa fundada em 1829, ali à Praça da Figueira. O segredo da feitura do bolo nunca saiu portas fora. Uma tarde, por um findar de ano, esteve hora e meia, na fila, à espera de comprar o bolo. Não por ele mas por um amigo, chegado de Montalegre, que daquele bolo ouvira falar e nunca tinha comido.


Para ele não há problema. Gosta tanto que os come de qualquer lugar: do Continente, do Minipreço até da padaria aqui da rua. 

Gosta de Bolo-Rei, mas se o querem ver mesmo feliz é quando o encontra fora da época. Que querem? Sempre foi assim e está velho para mudar. Também se perde por broas castelar…

Mas pode dizer que sim, que é bom o Bolo-Rei da Confeitaria Nacional, só que é uma opinião em que não podem ter qualquer tipo de confiança. Está à vista o porquê.

Por ele, em certo Natal uma amiga esteve uma hora na fila para comprar o Bolo-Rei da "Garret", ali para os estoris, Bolo-Rei "chique, chiquérrimo", como a amiga dizia. Sim, um bom Bolo-Rei. Tanta generosidade merecia uma pequenina mentira e disse-lhe: 

"O melhor Bolo-Rei que comi até hoje!"

O sorriso valeu a mentira, o entusiasmo também:

 “Vês! Eu não te dizia!..

espero que me calhe aquela fava
que é costume meter no bolo-rei:
quer dizer que o comi, que o partilhei
no natal com quem mais o partilhava


- de um poema de Vasco da Graça Moura

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

CONVERSANDO

Talvez, talvez seja o último Natal.

Se assim for. Que seja um esplendor.

sábado, 14 de dezembro de 2024

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO


 E chegámos a isto!...

1.

O lento caminhar em busca de natais suportáveis. 

Ainda é possível?

2.

Tóquio adopta semana de quatro dias para tentar o aumento da natalidade.
A partir de Abril de 2025, os trabalhadores da administração pública de Tóquio irão trabalhar apenas quatro dias por semana. A medida é mais um dos passos para reverter as baixas taxas de natalidade do Japão nos últimos anos. O país está a caminho do 16.º ano de declínio da população.

3.

As fortunas mundiais superiores a mil milhões de dólares aumentaram 121% entre 2015 e 2024 e o número de multimilionários passou de 1757 para 2682, segundo o relatório anual sobre grandes patrimónios elaborado pelo banco UBS.

4.

De uma crónica Gonçalo M. Tavares no Expresso:

«Um escritor uma vez disso: “Há dois tipos de pessoas. Evite os dois».

5.

Mil dias da invasão russa por terras da Ucrânia.

Lido por aí: concluir que nem Joe Biden, nem a NATO alguma coisa fizeram para evitar a guerra, antes pelo contrário: desejaram-na!

6.

Platão, citado por Mia Couto:

«Há três espécies de homens: os vivos, os mortos e os que andam no mar.»

7.

De uma crónica de Ana Cristina Leonardo publicada no Público:

«O divertissement implica tempo, claro. Um tempo parado, contemplativo, contrário ao tempo da aceleração exponencial. E as brincadeiras dos cães lembraram-me agora uma história. Uma história por demais conhecida. Contava-a António Alçada Baptista:
Andava o Padre Anchieta por terras do Brasil. Com pressa no chegar, pede o jesuíta aos índios que lhe transportam a tralha que sejam despachados no passo. O destino fica longe, a dias de caminhada. No primeiro dia os índios foram céleres, assim como no segundo. Inesperadamente, ao terceiro descansaram. Surpreendido, pergunta-lhes o padre pelo motivo da pausa. A explicação chegou rápida e era simples: “Temos vindo demasiado depressa e a nossa alma ficou para trás. Temos de esperar por ela para podermos continuar”.»

8. 

 


Recorte retirado da página de Economia do Expresso de 22 de Novembro.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


terça-feira, 10 de dezembro de 2024

UM VOLTAR AOS VELHOS CADERNINHOS


De um cartão de Boas-Festas do Armindo, um velho amigo que, um dia, fugiu à guerra colonial e nunca mais deu qualquer notícia:

«Faz todos os disparates que quiseres e puderes e não te arrependas. Tem um Bom Natal!»

Colaboração de Aida Santos

sábado, 7 de dezembro de 2024

DESERTO DE AFECTOS


Lembram-se, por este tempo, quando abriam a caixa do correio e desabava um mar de cartões de Boas-Festas?

As palavras, os desejos eram sempre os mesmos, mas sentíamo-nos confortáveis.
Agora apenas as cartas costumeiras das facturas, disto daquilo daqueloutro, que há para pagar, a publicidade de viagens de fim-de-semana, de telemóveis, um cartãozinho do Professor Fofana, especialista em amor, astrólogo, médium africano, 45 anos de experiência.
Já não há cartões de Boas Festas. Onde é que ficou esse tempo? Quando perdemos esse gosto?
Sentir uma amarga nostalgia por esse tempo, um certo pânico por este silêncio, por este quase deserto de afectos.
Gostar de cartas, gostar de cartões de Boas Festas, gostar de selos, coleccionar selos, gostar de esperar, ansioso, pela chegada do correio, cartas, por vezes ilegíveis – por sua dama tornou-se paleógrafo - abrir a carta com uma faquinha apropriada, ou abrir a carta, desesperadamente, rasgando o envelope, quando se esperam palavras como sem ti a minha vida não era feliz.
Os correios comovem-no.

Quem leu Júlio Dinis sabe do que ele está a falar.

O correio electrónico, o telemóvel, tomaram-nos de assalto, determinaram que é obsoleto comprar um cartão de Boas Festas –já nãos vendem! -, escrever palavras com uma caneta, o caminhar para a estação de correios ou para o marco do correio.

«Mãe Tá-se? Tou aí no Natal levo a Bé. Depois dou um tok para confirmar».

O José Gomes Ferreira ensinou-lhe que «saudades, só do futuro», mas, caramba! tem saudades do tempo em que não havia telemóveis, mails, tem saudades do tempo em que as cartas, os cartões de Boas Festas que se enviavam, quando os amigos estavam aquém dos olhos, estavam perto, estavam longe e nos dizíamos uns aos outros que é sempre pouco o esforço que se faz para gostar.

Coisas simples, sinceras, saber que ser amigo é poder a gente entregar-se sem nos passar pela cabeça que o próximo se vai rir de nós.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

O PAI NATAL

«Tretas tretas tretas a mim é que não me levam mais era o que faltava ou um ou outro é um aldrabão disseram-me que o pai natal descia pela chaminé e eu acendi o fogão para lhe queimar o rabo para ele dar um grito para eu o ver e nicles quem ficou com o rabo a arder fui eu que levei bumba no toutiço por ter gasto gás é só para ver como as coisas são disseram-me que ele trazia presentes do céu e o que ele me trouxe foi uma camisola que eu vi numa montra duma loja em saldo com o preço e tudo isto quer dizer que o Céu fica na Rua dos Fanqueiros ou que me aldrabaram por eu ser criança é o que eu digo mentem à gente mal a gente nasce e depois queixam-se de que a gente em grande queira ir para a política outra coisa que o pai natal me deu foi um compêndio de Ciências Naturais aprovado para o primeiro ano ora abóbora que se eu fosse má até ficava a pensar que o pai natal é o meu pai o que vale é que eu sou boa até ver sim até ver que se me pregam outra partida como esta vão ver como é que eu sou por dentro porque lá por dentro sou má como as cobras se julgam que eu saio à minha Mãe enganam-se lá no fundo eu saio ao meu pai mas não quero que se saiba para salvar o toutiço que se ele adivinha isso é bumba no toutiço até mais não outra malandrice que me fizeram foi darem-me um cavalinho de madeira que o meu avô comprou para levar à maternidade quando eu nasci a pensar que eu era menino mas o diabo do velho quando viu a enfermeira mudar-me a fralda meteu o cavalinho no bolso e foi a correr comprar uma roca de prata porque nesse tempo o plástico ainda era caro e levou o cavalinho para casa para quando viesse um menino e como nunca veio porque em Paris deixaram-se de fazer coisas dessas e agora fazem outras o tal cavalinho foi escondido numa mala muito velha onde eu o encontrei há mais de cinco anos estou farta de brincar com ele sem ninguém saber e vai este ano bumba apareceu-me no sapato como se fosse um presente do pai natal assim não vale abóbora que ou a gente é séria ou não é isto até faz com que se perca o respeito pela família terrestre e pela família celeste que o meu pai queira enganar o pai natal vendendo-lhe cavalinhos velhos e Compêndios de Liceu ainda eu entendo agora que ele os compre se calhar pelo dobro do preço é que não entendo nem à bala são estas coisas que fazem a gente perder a fé e depois espantam-se outra porcaria que me fez o pai natal foi dizer ao meu pai que este ano os presentes eram fracotes por causa da crise que há no Céu mas então se aquilo é igual à Terra para que é que lhe chamam Céu anda a gente a privar-se de coisas para ir para o Céu e chega lá e bumba aquilo é como a Graça ou como o Areeiro eu é que não vou nisso e se as coisas não mudam para o ano faço de conta que não sei da crise e mando uma reclamação para o deputado que me representa na assembleia e o pai natal vai ver como é que as moscas picam para aprender a ser profissional a valer que isto dum pai natal amador não interessa a ninguém e muito menos a esta vossa GUIDINHA que não está cá por ver andar os outros.»

Luís de Sttau Monteiro em Redacções da Guidinha


domingo, 1 de dezembro de 2024

UM VOLTAR AOS VELHOS CADERDINHOS

Regresso aos meus velhos caderdinhos.

Coisas e loisas apontadas ao acaso, muitas – quase todas - sem indicação de autor.

Recordarei algumas.

Ao mesmo tempo irei apresentando fotografias de outros natais nas casas dos filhos.

«Que quem critica o Natal como um pretexto forçado para reunir familiares, distantes ou não, se lembre que é um melhor motivo que o seu próprio funeral.»

Colaboração de Aida Santos

sábado, 30 de novembro de 2024

POSTAIS SEM SELO

E é Natal outra vez. Está sempre a ser Natal, que, coisa, a velocidade com que os Natais se sucedem.

António de Lobo Antunes Terceiro Livro de Crónicas

quinta-feira, 4 de abril de 2024

REVISÃO DE NOTÍCIAS LIDAS


 José Carlos Ary dos Santos escreveu que «Natal é Quando um Homem Quiser». Se formos mais longe que o poeta, tudo será quando um homem quiser.

Já a Primavera corre por aí e pego num recorte do Público, 24 de Dezembro de 2023, uma crónica do Frei Bento Domingues que estive a reler:

Foi num livro do seu grande amigo Frei Pedro Meca, que viveu entre os marginalizados de Paris, que conheceu um texto de Jean-Paul Sartre sobre o presépio. Leu o texto na Missa do II Domingo do Advento e teve tal impacto que não resistiu a transcrevê-lo na sua crónica dominical no Publico a que chamou «O presépio de um Ateu»
Estamos em 1940, na Alemanha, num campo de prisioneiros franceses. Alguns padres pedem a Jean-Paul Sartre, recluso há alguns meses com eles, que redija uma pequena meditação para a véspera de Natal. Sartre, ateu, aceita. E oferece aos seus camaradas Barioná ou o filho do trovão, procurando unir crentes e não crentes. Um excerto
:


«Como hoje é Natal, tendes o direito de exigir que vos seja mostrado o presépio. Ei-lo. Eis a Virgem, eis José e eis o Menino Jesus. O artista colocou todo o seu amor neste desenho, mas vós talvez o considereis ingénuo. Vede, as personagens têm belos ornamentos, mas estão rígidas, dir-se-ia que são marionetas. Não eram certamente assim. Se fordes como eu, que tenho os olhos fechados... Mas escutai: só tendes de fechar os olhos para me ouvir e eu vos direi como os vejo dentro de mim.

A Virgem está pálida e observa o menino. O que falta pintar no seu rosto é um maravilhamento ansioso, que só aparece uma única vez numa figura humana. Pois Cristo é o seu filho, a carne da sua carne e o fruto das suas entranhas. Ela carregou-o nove meses e dar-lhe-á o seio e o seu leite tornar-se-á o sangue de Deus. E em certos momentos a tentação é tão forte que esquece que é Deus.

Ela aperta-o nos seus braços e diz: "Meu pequenino!". Mas noutros momentos permanece perturbada e pensa: "Deus está ali", e sente-se tomada por um horror religioso por este Deus mudo, por este menino terrificante. Pois todas as mães se detêm por instantes diante desse fragmento rebelde da sua carne que é o seu filho e sentem-se exiladas diante dessa nova vida que foi feita com a sua vida e que povoam de pensamentos estranhos. Mas nenhum filho foi mais cruelmente e mais rapidamente arrancado da sua mãe, porque Ele é Deus e está além de tudo o que ela pode imaginar.

E é uma dura provação para uma mãe ter vergonha de si e da sua condição humana diante do seu filho.

Mas penso que deve ter havido outros momentos, rápidos e escorregadiços, nos quais sente ao mesmo tempo que o Cristo é seu filho, o seu pequenino, e que é Deus. Ela observa-o e pensa: "Este Deus é meu filho! Esta carne divina é a minha carne. É feito de mim, tem os meus olhos e esta forma da sua boca é a forma da minha. Parece-se comigo. É Deus e parece-se comigo".

E nenhuma mulher teve da sorte o seu Deus só para si. Um Deus pequenino que se pode tomar nos braços e cobrir de beijos, um Deus quente que sorri e respira, um Deus que se pode tocar e que vive. E é nesses momentos que eu pintaria Maria, se eu fosse pintor, e tentaria representar a expressão de terna audácia e de timidez com a qual ela avança o dedo para tocar a doce pelezinha deste menino-Deus, de quem sente sobre os joelhos o peso morno e que lhe sorri.
E eis tudo para Jesus e para a Virgem Maria.

E José? José, não o pintaria. Mostraria apenas uma sombra ao fundo da granja e dois olhos brilhantes. Pois não sei o que dizer de José e José não sabe o que dizer de si mesmo. Adora e está feliz por adorar e sente-se um pouco em exílio.

Creio que sofre sem o admitir. Sofre porque vê o quanto a mulher que ama se parece com Deus, o quanto ela já está perto de Deus. Pois Deus rebentou como uma bomba na intimidade desta família. José e Maria estão separados para sempre por esse incêndio de claridade. E toda a vida de José, imagino, será para aprender a aceitar.»