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terça-feira, 25 de junho de 2024

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...

A última crónica de Ana Cristina Leonardo no Público de 21 de Junho de 2024, contrariamente ao que é habitual, teve diversos reparos. A crónica tinha o título «À espera de um milagre da Senhora dos Aflitos», referia levemente a guerra em Gaza mas, porque andamos em tempo de pontapé na bola, copio um desses comentários mas que não têm a ver com o genocídio perpetrado por Netanyahu:

«Os conflitos são muitos, mas nada nos faz mudar as preferências que fazem arrostar os carolas do seu desporto preferido: o futebol. Venha o que vier (nem o aviso de que o pai se está enforcando desmotiva aquele “ataque final” de um qualquer que está marcando um penalti) os desvia da imagem da TV naquele minuto crucial. Somos um país antigo nascido de uma árvore de folha perene de fundas tradições que não desvia os seus cidadãos de uma soneca à sombra dos nossos ilustres cidadãos. Não é do vácuo que faço estas citações. É por não gostar delas que cito Almada Negreiro: Se isto é ser Portugal, antes, queria ser espanhol.»

1.

A 17 de Junho foi formalizada a candidatura de Arrábida ao reconhecimento de património mundial. Alguém disse:

«Só assim garantimos que o queijo de Azeitão ou a maçã camoesa continuam no território».

Felizes, onde estiverem, encontraremos o poeta Sebastião da Gama que amava a sua serra-mãe e o crítico e escritor João Bénard da Costa, que todos os anos, por Setembro, arrabidava e, como ninguém conhecia a Mata do Solitário.

«O murmúrio é a alma de um Poeta que se finou

e anda agora à procura, pela Serra,

da verdade dos sonhos que na Terra

nunca alcançou.»

2.

O número de mortos durante a peregrinação muçulmana a Meca, que decorreu sob forte calor, ultrapassou os mil, segundo uma contagem efetuada pela agência noticiosa France-Presse.

3.

Em 2023 o número médio mensal de imigrantes registados na Segurança Social e a trabalhar por conta de outrem superou os 495 mil, um acréscimo de 35,5% face ao ano anterior;  em 10 anos, de 2014 a 2023,o número de trabalhadores estrangeiros cresceu nove vezes  e são já mais de 20% as empresas que recorrem a imigrantes;  os três sectores mais dependentes de imigrantes são a agricultura, o turismo e a construção; os imigrantes em Portugal são sobretudo jovens com a média de 33 anos, 63% são homens, 37% são mulheres e estão sobretudo concentrados nas áreas metropolitanas de  Lisboa e  Porto, Algarve e Litoral Alentejano; recebem salários 15% mais baixos que os dos portugueses.

4.

As pensões médias encolheram 15% nos últimos 15 anos; em Fevereiro foram registados mais 7,2 mil desempregados no país; mais de 65% dos jovens portugueses abaixo dos 30 anos recebem menos de mil euros líquidos mensais. 

5.

«A mistificação parte do princípio de que em 2024 há unanimidade à volta do 25 de Abril, o que não é verdade. O modo como à direita, radical, se tem usado como contraponto ao 25 de Abril o 25 de Novembro é objectivamente contra o 25 de Abril, até porque o 25 de Novembro da direita é uma falsificação histórica. Não me parece que o objectivo de criar uma comissão oficial para celebrar o 25 de Novembro seja para homenagear o grande lutador pela democracia em 1975 no plano civil, Mário Soares, ou o partido mais relevante nessa luta, o PS, e os militares do Grupo dos Nove, como Vasco Lourenço ou Sousa e Castro ou Ramalho Eanes e o Presidente Costa Gomes, tudo gente que a direita detesta. E limitar essas comemorações a Jaime Neves, que actuou sob ordens, é um reducionismo absurdo, assim como esquecer o papel decisivo de Melo Antunes, que somou à derrota da esquerda militar no dia 25 a vitória sobre a contra-revolução, recusando no dia 26 ilegalizar o PCP.»

José Pacheco Pereira no Público

6.

Em Novembro será interessante  ver como será a dimensão da manifestação “popular” que as direitas arranjaram para comemorarem o 25 de Novembro.

Virão, desde o Portugal profundo as «massas populares».

Chegarão, à capital, em camionetas?

Serão eles que pintarão os cartazes? As palavras de ordem?

quinta-feira, 23 de abril de 2020

ALGUÉM LHES DIRÁ O QUE SOFREMOS...


Naquele tempo as fotografias eram em papel, possivelmente, alguém em qualquer parte do mundo, já pensava noutras maneiras de as guardar.

Já passaram muitos e muitos dias e as cores dos murais foram ficando para o desmaiado.

Mas por que será que o papel é sempre o papel?

Mudando o disco.

Há um texto de Sophia Mello Breyner Andresen, fragmento poético de Os Gracos, que guarda uma lição de política.

«Os ricos nunca perdem a jogada, nunca fazem um erro. Espiam. E esperam os erros dos outros. Administram os erros dos outros. São hábeis e sábios. Têm uma larga experiência do poder e quando não podem usar a própria força, usam a fraqueza dos outros. E ganham.»

Não lemos bem as lições que nos dizem para ler.

Não aprendemos com as lições que devíamos ler, ou ler com mais atenção.

Sabemos das razões, mas fazemos por olvidar.

Ficamos a inquietação da distância.

«Valerá a pena você gastar tanta inteligência para explicar aos parvos que são parvos?

De uma carta de Sophia para Jorge de Sena, Maio de 1962.

Nos tempos da ditadura, numa televisão a preto e branco, o país sentava-se atentamente frente ao aparelho para assistir ao Zip-Zip.

Apesar dos cortes da censura, era um programa que conseguia passar para lá do habitual cinzentismo que nos assistia.

Por ele o país ficou a conhecer Almada Negreiros, o poeta António Gedeão, outros mais, por ele começou a ver e a ouvir uma série de rapazes que, de viola na mão, cantavam coisas fora do circuito do então já chamado nacional- cançonetismo.

Mais espantadas ficaram as gentes quando uma noite um padre, Francisco Fanhais de seu nome, pegando num poema de Sebastião da Gama, entrou casa dentro a dizer que a um rouxinol lhe tinham quebrado as asas não o deixando voar, lhe quebraram o bico não o deixando cantar.


Legenda: o título é tirado de um poema de Egito Gonçalves.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Chegamos? Não chegamos?

O aproximar da janela, olhar o andar lento do tempo, o ter que suportar a angústia dos dias, o desencontro dos afectos, saber também,  como dizia o filósofo que nenhum vento sopra a favor de quem não sabe para onde ir.

Chegamos? Não chegamos?
Num seu poema, Sebastião da Gama conta-nos de uma viagem, tempestade sobre tempestade, em que a vela se rasgou em fitas, o casco no fundo mar, o mar que o
diga, dobrar as tormentas, a luta por chegar ao destino, talvez com alguns ossos partidos, mas chegar.
«Basta dizer que eu cheguei
E que é de lá que vos falo.»
Escolhemos Erik Satie, as Gymnopédies, nr. 1 e nr, 3, para este findar de segunda-feira, cinzenta e triste, todo o dia uma chuva peganhenta, um frio que se enrola nos ossos e de lá não quer sair.

A pintura, no topo do texto, é de Leonid Pasternak.



1.

Uns dias atrás já vos disse que tenho andado a largar a televisão que, por causa do Covid-19, passei a frequentar mais do que antes da pandemia.

O governo de António Costa está referido como sendo de centro-esquerda, diga-se mais do centro do que da esquerda.

De esquerda me considero e, dentro da tragédia que vivemos, não me parece justo assistir nas televisões ao aparecimento de uma série de gente-histérica-especialistas-de-tudo-e-mais-algum-coisa, a bradar que faltam máscaras, faltam luvas, faltam zaragatoas, falta álcool, falta gel desinfectante, falta isto e aquilo, e a culpa pertence ao governo.

Certo que o governo cometeu erros, principalmente teve, em determinados tempos, algumas hesitações, mas quem, nestes terríveis dias por que o mundo passa, não cometeu erros, que país estava preparado para o que aconteceu?

Olhe-se a Itália, a Espanha, a Grã-Bretanha, a França, os Estados Unidos.

Claro que os governos deviam estar preparados, mas passámos os dias globalizantes dos últimos quotidianos,  mais preocupados com as nossas vidinhas do que com o resto, ou como dizia, numa canção que lançou recentemente, Bob Dylan:

«Milhares estavam assistindo, mas ninguém viu nada!»

Quando, e como, sairmos desta crise, tão longo que vai ser o Inverno, será o tempo de enfrentarmos uma economia completamente devastada e nunca será o tempo de discutirmos o sexo doas anjos.

Ainda não chegou o tempo de começarmos a ter juízo?

2.

Rui Rio afirmou esperar que a reunião do Presidente da República com os banqueiros sirva como um abanão para escaparem à tentação de lucrar ou esganar as empresas nas respostas à crise provocada pela covid-19.

Porque ninguém confia nos banqueiros.

E há fortes razões para que isso aconteça.

Diz o povo, para além de outras coisas,  que um banqueiro  é um senhor que nos empresta um guarda-chuva num dia de sol e nos pede de volta quando começa a chover.

3.

Marcelo Rebelo de Sousa teve uma reunião com os banqueiros portugueses e deixou uma garantia:

«Encontrei na banca mobilização para ajudar a economia portuguesa».

4.

Ao fim destes dias de confinamento devido à pandemia de covid-19, os efeitos do afastamento social que atinge uma parte considerável da população começam a fazer-se sentir.

Que consequências poderão estas medidas trazer em termos de saúde, mental e não só?, lia-se em  título no Diário de Notícias.

5.

«Vivemos o impensável da morte, arrastado pela ânsia humana de salvar vidas. E não estávamos preparados para tanto. Não o poderíamos estar através das vivências da cultura dominante da gratificação imediata, imediatamente repetida, dos nossos circuitos virtuais — um polegar ao alto, "toca-e-foge", algo se há-de seguir, sobretudo algo que nos mantenha nesta espectacular ilusão global de sermos peças e comandos de um motor impossível de parar.
Dirá o bom senso que este não é o momento de pensar isso, uma vez que a salvação das vidas é a prioridade absoluta.
Claro que sim — a vida, a maravilhosa e difícil arte de viver. Mas o que o bom senso assim diz é também que haverá sempre algum desvio, mais ou menos cruel, mais ou menos pueril, para que isso não seja pensado.»

João Lopes no seu Covid-20

6.

Os negros números:

Itália

16.523 mortes

Espanha

13.169 mortes

Estados Unidos

10.335 mortes

França

8.911 mortes

Grã-Bretanha

5.573 mortes

Irão

3.739 mortes

China

3.212 mortes

Alemanha

1.434 mortes

Portugal

311 mortes

Mundo

73.917 mortes

7.

«Talvez saibamos ainda pouco sobre esse misterioso pa´s que são as nossas lágrimas».

José Tolentino Mendonça em Uma Beleza Que Nos Pertence

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

PELO SONHO É QUE VAMOS


No dia 16 fui mostrar-me aos rapazes… que têm alguns, para cima de 40 anos. E depois de assentarmos que o nosso programa seria traçado sobre o que fosse parecendo mais necessário, li (pois claro!) o «Para a Escola», de Trindade Coelho. E pedi uma redacção em que lembrasse cada um dos seus dias de escola.
Isto é que é gente! Mais de metade trabalhou; mais de um quarto trabalhou bem; e quem nada fez veio pedir desculpa.

Sebastião da Gama em Diário

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

QUANDO A COISA ESTÁ TORTA


Desde Setúbal que penso cá para mim que falar com os pais só para lhes dizer, quando isso é verdade, que os filhos vão na ponta da unha. Ficam eles felizes e fico eu. Agora, quando a coisa está torta, o negócio trata-se entre o professor e o aluno. Assim é que o professor é o amigo – e é raro o aluno não querer escutá-lo. Da outra maneira, o professor passa a ser olhado como «queixinhas», o causador de uma bofetada, de uma reprimenda, quantas vezes violentíssima.

Sebastião da Gama em Diário

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

QUE ELES POSSAM PERCEBER


Cada vez me apetece menos classificar os rapazes, dar-lhes notas, pelo que eles «sabem». Eu não quero (ou dispenso) que eles metam coisas na cabeça; não é para isso que eu dou aulas. O saber – diz o povo – não ocupa lugar, porque o que vale, o que importa (e para isso pode o saber contribuir e só contribuir) é que eles se desenvolvam, que eles cresçam, que eles saibam «resolver», que eles possam perceber.

Sebastião da Gama em Diário

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

ACREDITAR NO ALUNO


O Barradas tinha lágrimas nos olhos. Eu falara-lhe com uma voz pequenina, que não ralhou nunca. Disse-lhe que tenho confiança nele e tenho mesmo. O Amor converte os pecadores, quanto mais o Barradas que é um rapazinho manso e bom!
Primeira lei: acreditar no aluno. Se o campo é bom e se a semente é bem lançada, até uma inicial vontade de enganar a contraria, agindo no espírito do aluno a nossa fé. E depois há o ficar ou não ficar tranquila a nossa consciência. Suponhamos, fora da escola, que um homem me diz: «Venho a pé do Algarve à procura de trabalho. Estou morto de cansaço e de fome e gastei os últimos cobres. Tenho vergonha de pedir esmola». Suponhamos agora que eu lhe digo: «Se não se importa, eu dou-lhe alguns escudos. Não +e esmola, nem é talvez «dar» a palavra que devia empregar, porque isto é um empréstimo: amanhã posso eu precisar e outro me há-de socorrer; me há-de pagar a dívida que o senhor contraiu comigo». Pois bem: «Tu és um trouxa» - poderão dizer. «Foste no conto do vigário e o homem ri-se de ti, enquanto come o teu dinheiro». E que me importa? Prefiro arriscar-me a «ser levado» a arriscar-me a deixar um homem morrer de fome. Sou levado, mas fico lavado. O que me enganou é que não.

Sebastião da Gama em Diário

domingo, 20 de agosto de 2017

A VONTADE DE BRINCAR, DE RIR, DE ESTAR DESATENTO...


«Ponha-se na rua!» «Não ligam nenhuma ao que a gente diz». Ali está uma solução errada e aqui uma visão, também errada, de um problema que é um caso sério. Em grande parte dos casos, quem devia ir para a rua era eu, era o professor; eles não ligam nenhuma, em grande parte dos casos, porque não pode interessar-lhes o que nós queremos impingir-lhes à força.
(…)
- Afinal vocês não estão a ouvir-me…
- Olha só agora é que deu por isso…
O Artur abriu-me os olhos: talvez quinze estivessem interessados; os outros quinze estavam a pensar noutra coisa. Confesso a minha culpa: fiquei aborrecido; confesso a inteligência da minha solução; terminei imediatamente a lição. Mas eu fiquei provavelmente (pelo menos de momento) aborrecido com eles; e isso é um erro, um gravíssimo erro. Pois de quem foi o pecado senão meu, que julguei que aquilo, naquele momento, poderia interessá-los? Tudo isto é um caso muito sério, como eu disse de princípio; constantemente nos esquecemos de que não temos 14 anos ou calculamos mal os gostos dos rapazinhos de 14 anos. Por outro lado, há dias em que nada poderá fazer deter a sua vontade de brincar, de rir, de estar desatento. Talvez o de ontem fosse um deles…

Sebastião da Gama em Diário

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

CONTRA TUDO E CONTRA TODOS


Acabaram as férias, que me deram apenas para três capítulos de Radice. Os exames que vou fazer a Coimbra me roubaram o tempo, tão valioso!, que eu ganharia a ler o pedagogo italiano. Mesmo assim, quanto não amealhei com aquela leitura! Daria para muitas linhas o que direi em poucas: saí mais consciente da minha missão de Professor, vi mais agudamente a beleza e a responsabilidade de ser Professor, quis ser Professor mais que nunca. Radice cimentou em mim «a coragem de afirmar, contra tudo e contra todos, a verdade de que nos julgamos possuídos. Bendito seja Deus por eu ser Professor.

Sebastião da Gama em Diário

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A NÃO SE LEMBRAREM QUE LÁ FORA É MELHOR


- Tens muito que fazer?
- Não. Tenho muito que amar.
Não entendo ser professor de outra maneira. E não me venham dizer que isso assim cansa e mata; morrer-se, sempre se morre: e à minha maneira tem-se a consolação de não ser em vão que se morre de cansaço. 
(…)
Aulas más são as aulas que os rapazes não querem ouvir. Mas então – poderia eu defender-me – que culpa temos nós de os rapazes serem barulhentos, desinquietos e desatentos? É verdade que às vezes a culpa não é nossa: é toda deles, a quem mais apetecia estar na rua que na escola. Mas para isso justamente é que serve o bom professor – e o meu drama resulta de que a mim só me interessa ser bom professor. Se bom professor consiste em adivinhar a maneira de levar todos os alunos a estarem interessados; a não se lembrarem de que lá fora é melhor. E foi o que eu ontem não consegui.

Sebastião da Gama em Diário

terça-feira, 25 de julho de 2017

NEM SEI COMO APRENDI A GOSTAR DE LER


Parece-me que já apareceram «Texas-Jacks» (na segunda-feira vou inspecionar e ver o que não está bem…). Ora a lei condena o «Texas-Jack», talvez com razão. Mas eu não tenho coragem e só se o nosso metodólogo de todo em todo o desaconselhar, é que darei ao «Texas-Jack» ordem de despejo. É que o «Texas Jack» é dos melhores amigos da minha infância. Aprendi a ler no «Texas-Jack»; comecei a formar uma biblioteca no «Texas Jack»; não comecei a fumar por causa do «Texas-Jack»
(…)
Quando vejo pendurados à porta de certas papelarias, os «Texas-Jacks» da minha infância, sinto uma ternura imensa. Uma ternura que é por eles e por mim. Uma ternura que eu ofenderia se dissesse na aula: «Proibido o Texas-Jack». E que a lei me perdoe…
Olho para o passado e vejo a Gramática. A Gramática. A Gramática.
Eu nem sei como aprendi a gostar de ler.

Sebastião da Gama em Diário

Legenda:  capa de um fascículo do «Texas Jack» encontrado em «Custo Justo».

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O SEGREDO É AMAR


O Poeta beija tudo, graças a Deus… E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade… E diz assim: «É preciso saber olhar…» E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos… E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás… E perde tempo (ganha tempo…) a namorar uma ovelha… E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de Sol depois de um dia chuvoso… E acha que tudo é importante… E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim… E escreveu uns versos que começam desta maneira: «O segredo é Amar…».
(…)
A gente tem vergonha de beijar tudo, de amar as flores, de se enternecer com os animais, de dar um passeio. Se beija uma árvore, é parvo; se traz uma flor na mão, é maricas; se se enternece, é fraco; se acaricia uma menina, põe nessa carícia o sexo; se vai a qualquer parte para passear e ver o mundo, faz constar que foi em viagem de estudo ou em viagem de negócios. Temos vergonha de ser sinceros, de que nos creiam parvos, ou maricas, ou fracos, ou lúbrico, ou estroinas. E então perdemos o melhor da nossa vida a ludibriar os outros e a insultar as nossas intenções mais belas e generosas.

Sebastião da Gama em Diário

sábado, 8 de julho de 2017

NÃO DESAMAR AS PALAVRAS


O que interessa mais que tudo é ensinar a ler. Ler sem que passe despercebido o mais importante – e às vezes é pormenor que parece uma coisinha de nada. Ler, despindo cada palavra, cada frase, auscultando cada entoação de voz para perceber até ao fundo a beleza ou o tamanho do que lá se lê. É também de interesse primário levar os rapazes a amar as palavras – mostrar como são engraçadas, outras como são doces. Ora para amar as palavras e para, a seguir, amar a leitura, é aconselhável, como diria La Palice, não fazer desamar as palavras, nem fazer desanimar a leitura. Que amor terá uma criança por uma palavra que a fez suar, levar descomposturas, levar reguadas?

Sebastião da Gama em Diário

sexta-feira, 30 de junho de 2017

UMA VIDA LUMINOSA E BRANCA


Sempre que possa, lerei trechos dos rapazes. Eles pedem, gostam de ouvir o que os companheiros escreveram e é mais estimulante isto do que a competição, a luta pelo primeiro lugar. Em vez da concorrência, haverá a admiração, o entusiasmo, o amor pelo que fazem os que vivem e trabalham connosco. Este é o quadro de honra que eu aprovo; o outro é uma espécie de plataforma de eléctrico já cheia: os lugares serão disputados a murro e a empurrão. E os que ficam em terra olham com azedume os que vão no carro, o que é contra a lei, tão esquecida e tão bela do Amor, da contínua dádiva.
Calculem que estive, neste dia, todo o dia feliz, só porque um pobre homem fora gentil comigo e num quartel um soldadito, em vez de repreender-me por eu ter passado num sítio proibido, sorrindo-se apontava, num gesto cheio de caridade, o caminho lícito. Tão pouco e tão simples, e a gente recusa-se a fazê-lo para ser feliz.
                                        «Felicidade! Afinal
                                        fôssemos nós naturais
                                        e limpos de todo o mal,
                                         não era preciso mais»
                                                     - diz o António de Sousa
E isto, e não que os adjectivos concordam em género e número com os substantivos, é que é preciso ensinar. Ensinar e ser. Antes de tudo, ser. A vida do professor deve ser (tanto quanto possível, pobres de nós!) luminosa e branca. Mais que não ser ignorante, importa não ser mau, nem desonesto, nem impuro… tanto quanto possível, pobres de nós.

Sebastião da Gama em Diário

quarta-feira, 21 de junho de 2017

SER PROFESSOR É DAR-SE


 Fui fazer contas com o metodólogo e foi então que ele encontrou a definição de professor como eu o vejo: «Ser professor é dar-se». Numa carta do ano passado, uma colega escrevia-me: ENSINAR É AMAR.

Sebastião da Gama em Diário

segunda-feira, 12 de junho de 2017

O PROPÓSITO DE IR MELHORANDO


Não que as aulas sejam; - apesar da confiança em mim, e até do arzinho de vaidade que às vezes pareço ter e não sei reprimir, sinto que me faltam muitas qualidades; sabe-me a pouco, cá dentro, tudo quanto faço, e bem vistas as coisas não tenho vaidade nenhuma. Tenho para mim que o vaidoso só o é verdadeiramente se está convencido de que é um ás naquilo de que é vaidoso; ora eu não estou convencido; aparento por vezes que o estou, levado por um demónio que não sou capaz de afogar. Eisó estou convencido de que tenho em mim algumas qualidades, graças às quais não é desonestamente que sou professor; e estou convencido também de que há mil outros que não têm estas qualidades, ao mesmo tempo que há outros ainda que têm, além das minhas, aquelas que me fazem falta. O que me absolve é que tenho o bom propósito de ir melhorando e de chegar um dia (se o espírito não se acovardar com o tempo…) em que serei quase um bom professor; é justamente nesse dia que eu morrerei: quando for quase um bom professor.

Sebastião da Gama em Diário

sexta-feira, 2 de junho de 2017

O POETA PROSADOR


Ainda não disse que tenho um Poeta na turma. É o Romão. Faz o possível por «parecer» Poeta, pela mameira como se senta, pelo tom de voz, e até pelo reclamo falado que de si faz: assina o «Poeta»: acha naturalíssimo que eu lhe chame «ó Poeta» e diz aos outros que se não devem admirar de que haja Poetas que escrevem prosa: «Eu também sou Poeta e faço muitas redacções». Tenho-lhe dito que é precisos ser Poeta principalmente por dentro; ele deve sabê-lo e é muito capaz de sê-lo: o que escreve traz a selo tão nítido que o rapazinho talvez não se tenha enganado a seu respeito. Imaginação, boa escolha de palavras e uma gramática pavorosamente à Gomes Leal; pontuação não é com ele: a sua prosa (assinada assim: «o Poeta prosador») é parente do verso do Aragon.
Pois o Romão quis ler «Uma Corrida em Salvaterra» e eu invejei a leitura de que foi capaz. Ouvi-o com gosto, se não com um entusiasmo. E mais ainda quando, não aproveitando do trecho senão o facto de apresentar um Português valente, dos que dantes havia, improvisa um discurso tão correctamente conduzido, tão bonito e tão rico de frases felizes, que parecia preparado. Mas não era: o Poeta estava a falar. E o Poeta tinha o coração nas mãos (já sei porque ele põe as mãos num gesto que a princípio não percebia).
Dizia ele que «a alma portuguesa foi sempre grande». Invencível sempre, foi antigamente, no entanto, «mais firme, mais impetuosa». Hoje deixaríamos morrer afogado, junto de nós, quem quer que não fosse de nossa família (pai, mãe, irmão…) porque a morte nos aterroriza; porque (como a ordem das palavras é já de Poeta nesta frase!) «hoje o medo de morrer é grande».
E etc. Neste etc. ia um apelo do Poeta – do mais fundo, do mais humanamente bonito do Poeta: «Devíamos ser todos irmãos».

Sebastião da Gama em Diário

terça-feira, 23 de maio de 2017

E AINDA NOS DÃO DINHEIRO


Neste dia, em vez de dar aula, fui conversar com o metodólogo. Perguntei-lhe se devia falar caro ou falar acessível; e ele achou, comigo, que devia falar acessível, porque serei «sempre diferente deles». Isto de ser «diferente deles» vem lembrar outro assunto de que falámos – se não neste, noutro dia. – O do professor que sente a necessidade de se impor ao aluno pelo alardeamento de uma vastidão e complicação de conhecimentos com que o amachuca e que se irrita ou inventa, se necessário for, quando o aluno lhe pergunta qualquer coisa que ele não sabe. Por mim, nego-me a impor-me desta maneira medrosa e desonesta e será, como tem sido, sempre sem vergonha que direi que não sei. Se não houver este ano há para o outro ou para de aqui a cinco o aluno que compreende que o professor não é um livro aberto. «O meu melhor professor foi um professor de Inglês que não sabia nada de Inglês» – disse o meu metodólogo; ora quem o julgou o campeão dos professores creio eu que não foi o metodólogo; foi o aluno do Liceu.
Mas onde haverá papel (e memória abundante e precisa?) para registar tudo quanto nós conversámos? Neste dia o assunto que mais abordámos foi o professor. Falei-lhe de um para encantador meu amigo e já agora, para fechar este parágrafo, deixo aqui aquela encantadora confissão da Lourdinhas, tão boa indicação do que, em última palavra, deve ser o Professor: «Então a gente anda aqui tão feliz e no fim do mês ainda nos dão dinheiro?»

Sebastião da Gama em Diário

sábado, 13 de maio de 2017

O QUE MAIS ME INTERESSA


Está provado que não nasci para falar a doutores. Um dos meus professores viu direito quando, no meu exame de admissão ao estágio, lamentou que a minha linguagem nem sempre fosse a mais conveniente. O princípio do mal está em mim., que sou saloio por dentro; saloio, não: cabreiro. E depois deu asas a isto o facto de eu me ter feito homem entre camponeses e pescadores e ter tido sempre o cuidado de falar como eles, para estarmos todos à vontade. Ao par do que aí fica, acontece que venho de lavradores, jardineiros e comerciantes; tudo gente de capa honrada mas agreste. O que não quer dizer que a cepa seja de não dar flor: tenho um primo que guarda ovelhas e as beija e as trata como suas irmãs; um São Francisco em bruto.
Pois está-se mesmo a ver que é tanto à ascendência como à convivência que eu devo a condição de não saber falar a doutores. Isto é uma qualidade e um defeito: ao pé deles fico apagado, e escuso de ter razão, porque até a razão tem de andar bem vestida para entrar nas salas; ao pé dos simples tenho a certeza de que sou entendido. São as palavras deles que me servem para contara as minhas coisas. E afinal (não desfazendo nos grandes, muito menos nos grandes que merecem a minha admiração ou a minha estima) interessa-me bem mais o amor dos pequenos do que a consideração dos grandes.

Sebastião da Gama em Diário

quarta-feira, 3 de maio de 2017

É PARA APRENDER!


Chamei o Ludovico para o ouvir ler. Chamei à moderna ou à minha moda, claro está. Até seria bom banir a palavra, que tem ainda, para muita gente, o sentido de «tortura». Quando cheguei a Setúbal, quis acabar com o que fica bem chamado o «terror da chamada»; é esse terror que leva a criança a faltar à aula, a inventar uma desculpa, a tremer perante o professor. Ora em Setúbal, como aqui, deu-se o contrário: há a ânsia, a exigência e a alegria da chamada. Reclamam, querem vir junto de mim todos os dias, impacientam-se. Em Setúbal, de princípio, perguntavam: «É para nota? (E havia medo na voz). «Não. É para aprender». Pois sim, senhor, para aprender é que é: para eu aprender, para o aluno aprender; para estramos mais perto um do outro; para partirmos a aula ao meio: pataca a mim, pataca a ti.

Sebastião da Gama em Diário

Legenda. Fotografia decontamecomoera