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terça-feira, 14 de julho de 2026

OLHAR AS CAPAS


Livro de Poemas

António Lobo Antunes

Prefácio: Vitorino Salomé

Capa: Rui Garrido

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Junho de 2026


Este Fio de Ouro

 

Este fio de oiro ao pescoço

É sinal de que me amas

Mesmo que queira não posso

Ir atirar-me a um poço

Só porque tu não me chamas.

Se chamares talvez eu venha

Ou talvez fique parada

Que o amor é um perde-ganha

E por mais sorte que eu tenha

Ainda não ganhei nada.

Perder sim sei o que é

E no entanto estou aqui.

Vou continuando de pé

Mesmo que a vida me dê

Razões para fugir de ti.

Este fio de oiro afinal

Não é um sinal nenhum

Por meu bem ou por meu mal

Não sou pitada de sal

Que tu tomes em jejum.

E portanto meu amigo

Decide a tua vidinha:

Se és homem fica comigo

E se não ficares te digo

Que me sinto bem sozinha. 

sábado, 21 de março de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ

-Então começas a Primavera a janelar?

-Olha que bonito!

domingo, 8 de março de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


Gostava de poesia.

Ninguém dizia versos como ele, tal como disse Pedro, o irmão mais novo, nas exéquias nos Jerónimos.

Gostava de conhecer vozes novas, quando descobriu o António Franco Alexandre, considerava-o um poeta extraordinário, escreveu para o Público sobre ele, que não conhecia, nem sabia quem era, o que fazia, mas pareceu-lhe um escritor de grande qualidade.

Lamentou muitas vezes não ter sido poeta.

Mas era mesmo um poeta.

Algumas das suas crónicas são verdadeiros poemas, o mesmo em relação a algumas páginas dos seus livros.

Mas foi escrevendo poesias e a sua editora, em Outubro de 2002, publicou um livrinho de cantigas que António Lobo Antunes dedicou a Vitorino:

«Ao Vitorino, para quem estas letrinhas foram escritas, quase todas em toalhas de papel de restaurante».

Soube-se agora que a editora publicará em livro, que já andava a preparar, poemas do António Lobo Antunes.

O livro chama-se Poemas e sairá em Abril.

Mas não só o Vitorino fez das letrinhas canções, outros artistas o fizeram.

Serão a Música pela Manhã de hoje.




terça-feira, 5 de abril de 2022

LEITARIA GARRETT


Esta é capa do disco do Vitorino, gravado nos Estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, no mês de Outubro de 1984, pelo engenheiro de som Hugo Ribeiro, com a referência EMI – 1775401.

A capa é de Carlos Ramalho, a fotografia do Sr. João é da autoria de João Assunção.

O Folheto no interior do disco é da autoria de Hipólito Clemente.

 Estas são as canções:

Abertura e Saias da Vila do Redondo – Menina Estás à Janela – Postal Para D. João III – Cantiga Partindo-se – Poema – Ai Os Modos de Ser Lágrima – Confissões (Nunca Fui Além) – Leitaria Garrett – Andando Pela Vida – Tragédia da Rua da Gáveas – Tinta Verde – Carbonárias (Final).

Este é um pormenor da contracapa, foto de José Melo, um Vitorino preocupado com o sítio onde assentaria praça com os artistas, com os amigos, com os camaradas.

No Chiado à tardinha, às vezes,
Sorridentes vão de mão na mão,
Bons rapazes, são bons portugueses
Ai Madame a sua indigestão

Ideal das empregaditas
A finória vai um figurino
Tão caraça, veste muitas chitas
Diz olé! prò Montefiorino

Leitaria Garrett dá cá o pé
Ai tira a mão, João,
Da coxa doce,
Já está, antes não fosse...
O Saricoté, foi parar à Marques
Lá pràs Belas-Artes...

Assim mesmo á que è!
(Diz o progresso)
Chá com torradas, João,
Prà onde é que eu vou,
Já fui, mas já não sou
Linda mocidade, foi-se o Sol embora,
Fica-me a Saudade...


DE LEITARIA A LOJA DE TRAPOS


 Até Julho de 1981 aqui foi a Leitaria Garrett, um dos últimos lugares de convívio da cidade. Mas o lucro infernal e vertiginoso das imobiliárias não se compadece com poesia, melancolias, companheirismos.

Encerrada a porta da leitaria, passou a ser lugar de outros comércios.

No tempo em que tirou a fotografia, já não lembra quando, era uma loja de trapos ou, como Paula Bobonne quer que se diga, uma boutique.

A Leitaria Garrett, número 46 da rua com o mesmo nome, era um quase corredor transformado em pequeno e acolhedor café, largamente frequentado por artistas das belas-artes e outras artes, um ar de leitaria à antiga, nada de cromados, formica, plásticos.

Personagem assíduo era o Vitorino, alentejano do Redondo, a sua boina, imensas gargalhadas, um murmurar-cante-alentejano-menina-que-estás-à-janela-com-o-teu-cabelo-à-lua.

Em 1984 fez um disco, Leitaria Garrett, mas dentro, um panfleto, da autoria do Hipólito Clemente, refere que são Doze Lindas Canções à Leitaria Garrett.

Tinha um bom café de saco, quatro ou cinco mesas permanentemente ocupadas pelos artistas.

Em tantos e tantos anos de frequentar a Leitaria Garrett, nunca conseguiu sentar-se a uma daquelas poucas mesas. Tomava a bica ao balcão, e olhava os que sentados estavam, esperando a chegada de outros artistas para lhes ceder o lugar, assim como lugares cativos das artes porque, aparentemente, os artistas não queriam outros cús por ali sentados.

Talvez por isso, o Sr. João tenha concluído que pouco lucro escorria daqueles escassos metros quadrados, permanentemente, ocupados pelos artistas e vendeu a leitaria. E nem o passar da mão pelas doces coxas das artistas das artes-belas, segundo a letra do Vitorino, lhe deu para manter a porta aberta.

Diz talvez, porque nunca soube a razão de a “Leitaria Garrett” ter encerrado a porta e também porque adora teorias da conspiração.

Fosse pelo que fosse, fechou a porta e aí acaba a história, o tempo em que aLeitaria Garrett passou a ser apenas a memória de gente a falar sós sem serem loucos…

Mais tarde o Sr. João acabou por mover um processo ao Vitorino por utilização abusiva da sua imagem. Não sabe qual foi o desfecho do processo movido pelo Sr. João, se é que chegou a existir processo.

 


Através de um anúncio, publicado no Diário de Lisboa 6 de Agosto de 1981, os artistas-donos-das-mesas-da-Leitaria-Garrett, (marginais, empregadinhas, cantadores, professores, intelectos e aristocratas) fizeram publicar um anúncio, dando conta da romagem de eterna saudade.


Não sabe do processo do Sr. João, mas sabe dizer das possíveis mágoas da solidão que aqueles artistas enfrentaram, até terem encontrado um poiso pela grande cidade, cada vez mais desfeada e descaracterizada, para se olharem nos olhos, conversarem.

Poderia, aproveitando a boleia, falar das peregrinações que escritores, poetas e pintores, (olá! José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, Augusto Abelaira, Fernando Lopes Graça, Nikias Skapinakis tantos e tantos grande nomes deste país de esquecer gente)) tiveram que fazer, ainda nos tempos negros e amargos da ditadura salazarenta, quando começaram a fechar cafés e a abrir sucursais de bancos.

terça-feira, 15 de março de 2016

QUOTIDIANOS


E às quintas-feiras almoço nos Moinhos da Funcheira com o Zé Ribeiro, o Zé Francisco, o Vitorino. Os Moinhos da Funcheira são o subúrbio do subúrbio, depois da Venda Nova, da Brandoa, da Pontinha: toda a gente acha feio e eu acho lindo. De onde me virá este amor sincero, genuíno, pelo que as pessoas consideram de mau tom, leões de calcário, duendes de gesso, quadros de queimadas, cerâmicas de casa de banho com cisnes doirados?
Quando digo que almoço às quintas-feiras nos Moinhos da Funcheira digo que a empregada nos trata por
- Meu querido
nos traz salsichas com ovos estrelados e nos sentimos indecentemente felizes
Com pena da gente a empregada diz
- Meus queridos
e  soma-nos a conta na toalha.

António Lobo Antunes em Terceiro Livro de Crónicas

Legenda: fotografia do blogue Orgulho Damaiense.