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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

OLHAR AS CAPAS

Conta Corrente

1989-1992

Vergílio Ferreira

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa Novembro de 2025

Não, não tenho «a obsessão de ser o primeiro», como certa amiga desbocadamente à Regina. Tenho é a obsessão de que me não são segundos os motivos que me obcecam. E é porque não são segundos e são sem dúvida primeiros que normalmente falho em chegar até eles ou eles até mim. O resto não é para aqui, mas para as pistas de atletismo, como talvez já tenha dito.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

OLHAR AS CAPAS


Diário Inédito

1944-1949

Vergílio Ferreira

Apresentação: Hélder Godinho

Edição: Fernanda Irene Fonseca

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa, Março de 2010

 

Basta de literatices. A arte é, no fim de contas, uma coisa bem estúpida. Que lucrou o mundo com os génios das letras? Uma razão para erguer estátuas ou rotular ruas.

Porque escrevo eu livros? Ora! Pela mesma razão que um albardeiro faz albardas, quando as faz por gosto. Em todod o caso sempre é uma madureza mais desculpável do que fazer bricabraque ou investigar das raízes de palavras gregas. Três quartas partes do que o homem faz são madurezas. E são essas madurezas as suas necessidades. Não: as faculdades do espírito não deviam ser desperdiçadas. Um cavalo, com a décima parte da inteligência de um homem medíocre, seria um animal muito equilibrado, seria, decerto, o rei da criação. Não faço blague. 

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS



Em Nome da Terra

Vergílio Ferreira
Capa: José Antunes
Círculo de Leitores, Lisboa, Março de 1991

Espera, deixa-me ver-te devagar. Dás uns passos, bates uma palmada no chão e sobes alto e lá no ar dás uma volta sobre ti, mas antes de caíres de pé, imóvel, fico a ver-te parada no ar. Corpo elástico, esguio, fico a ver-te. Flutuas imponderável, a Terra não tem razão sobre ti. Vejo-te no espaço, todo o corpo elástico numa curva dos pés até ao extremo das mãos, ou talvez não, recomeça o salto para ver melhor. Talvez o corpo não em prancha ao alto mas enrolado sobre si e giras no ar em rodízio até te desenrolares e caíres depois em pé firme. Queria dizer-te como isso me maravilhou, o teu corpo poderoso, desprendido das coisas, liberto da sua condição bruta, feito de um esplendor imaterial. Terei dito bem? Imaterial. Quanta coisa havia nele, os teus ossos, as tuas vísceras, mas tudo existia leve e eu só lhe via a sua forma perfeita de voo. Há uma órbita da exactidão como se diz dos astros e tu seguia-la, um rigor matemático com que o universo existe. Depois repetiste o exercício, suponho que era para «aquecer». Porque as barras assimétricas ficaram livres e tu foste para lá. Não gostei tanto e vou dizer-te porquê. Em todo o caso. Primeiro houve a corrida talvez para a barra mais alta, as pernas abertas para não embateres na mais baixa. Depois houve um bater de pernas juntas contra a barra mais baixa como uma barbatana. E por fim todo o corpo numa só peça rodou suspenso da barra mais alta e ficou um instante imóvel lá no alto. Ligeiro leve, Lá no alto, Depois rodou de novo, um deus fazia-o rodar no ar, Depois, como um macaco de galho em galho, o corpo veio para a barra mais baixa, voltou de novo para a mais alta. Depois rodou inteiro e aí veio em rodízio plantar-se imóvel no chão. Não gostei tanto, havia um macaco entremeado ao teu exercício, havia as pernas abertas descompostas ao mudares de barra, mas mesmo assim, como me entusiasmei. Bati palmas, elas ressoaram pelo espaço do Olimpo. Não fui bem eu que as bati mas o duplo de mim, não te sei explicar. As palmas foram à frente e eu já não as pude apanhar. Porque o homem, minha querida, tem sempre em si um outro de si e só num tarado é que os dois coincidem. Também não sabia bem porque o fiz, agora sei. Claro, havia a destreza, a perfeição da tua realização, mas agora sei que havia outra coisa. Queria dizer-te simplesmente que havia o teu corpo, mas não chega. Havia outra coisa – que coisa? Mónica, minha querida. Havia, deixa-me pensar. Ah, poder falar do teu corpo. Perder o pé da realidade. Fechar à volta uma cortina para que nada de ti me fugisse e ficar eu só diante de ti. Sinto agora alguém dentro de mim a perguntar e depois? que é que aconteceu? Sei lá o que aconteceu, quero lá saber. Quero é estar contigo no nada do tudo o que acontecer. Saturar-me da tua presença. E ver-te. E ver-te. Que importa o que «acontece»?

domingo, 3 de março de 2019

OLHAR AS CAPAS


Vagão “J”

Vergílio Ferreira
Capa: Victor Palla
Colecção Novos Prosadores n º 14
Coimbra Editora, Coimbra, 1946

Quem vem pôr um fim à história dos Borralhos? Ela não acabou ainda e não se sabe já onde foi que começou. Talvez, António Borralho, tu a escrevas um dia. Tu ao menos descobriste que tinhas inteligência, tu sabes o que sois, o que sempre tendes sido.

Nota do Editor: a capa aqui apresentada é a da edição fac-símile feita pelo jornal Público para a sua colecção de livros proibidos pela ditadura.

domingo, 30 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Manhã Submersa

Vergílio Ferreira
Colecção Livros de Bolso Europa América nº 21
Publicações Europa-América, Lisboa, Dezembro de 1971

Na realidade, eu não tinha um projecto para a vida. Não sabia se seria padre, não sabia se viria a sair do Seminário. Havia mesmo agora em mim um confuso novelo de sensações atravessadas de sonhos, de breves sobressaltos. Era a aldeia distante, o peso volumoso das horas, a súbita e incrível lembrança sem razão dos seios da Carolina ou da face branca da Mariazinha. Repentinamente, acontecia-me acordar no meio da noite com a boca amarga, um calor húmido na concha das minhas mãos, um terror esgazeado de asco e de avidez. Outras vezes, a meio do estudo, subia-me devagar pelo ventre, como uma mão, uma onda tépida e inesperada. Eu ficava perturbado, trémulo de desassossego, ou caído profundamente para uma larga cisterna muda. Então cerrava lentamente os meus olhos e aceitava, sem um gesto de defesa, que me pudessem matar.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

OLHAR AS CAPAS


Cântico Final

Vergilio Ferreira
Colecção Livro de Bolso nº 1
Portugália editora, Lisboa s/d

Por uma manhã breve de Dezembro, um homem subia de automóvel uma estrada de montanha. Ma­nhã fina, linear. O homem parou um pouco, enquanto o motor arrefecia, e olhou em volta, fatigado. Aqui estou. Regressado de tudo. Pelo vale extenso até a um limite de neblina, viam-se aqui e além indícios brancos de aldeias, brilhando ao sol. Que dia é hoje?
Pelos campos perpassava uma alegria estranha, tal­vez do sol e daquele fundo silêncio a toda a volta, sem uma voz repentina das que sobem e vibram nas manhãs de trabalho. E de súbito lembrou-se: para o fundo do vale, ouviu o dobre dos sinos do Freixo. Manhã de domingo, manhã de infância, sinos de ou­trora. Correntes misteriosas de vento traziam as suas vozes, enchiam delas o espaço, diluíam-nas em distãncia. Outras vezes atiravam-nas contra a massa da montanha, traziam-lhes o eco de longe, e todo o ar estremecia de memória. Vozes de sinos antigos, vozes do tempo, súbito alarme de que fascinação?
- Salve-o Deus.
O homem despertou. Pôs o carro em andamento e em breve, numa curva de pinheiros, toda a aldeia se lhe ergueu em frente. Velha aldeia, boa aldeia. Reconfortava olhá-la de novo, na resignação do silêncio, fascinava-o reaprender a vertigem das eras naquelas casas negras, na gente espectral escurecida dos séculos. Morava na proeminência de um cerro, suspenso do abismo, num extremo da povoação. Lá estava ao pé a capela abandonada da Senhora da Noite. Estranho nome. Era uma vulgar Imaculada com meia lua e estrelas, pintada grosseiramente no tecto, e agora quase pagada da humidade e do carancho. Mas o opovo chamava-lhe a «Senhora da Noite». Talvez pela lua e pelas estrelas ou apenas porque a invocavam outrora nos caminhos da montanha, aos quais, ali no topo do cerro, parecia presidir.
Frente à velha casa, no automóvel parado, o homem recordava. Há quantos anos?

terça-feira, 17 de outubro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Conta-Corrente
4
1982-1983

Vergílio Ferreira
Bertrand Editora, Lisboa, Fevereiro de 1983

Escrever bem, escrever mal. Assentemos neste princípio: nem todo o tipo que escreve mal é estúpido; mas todo o tipo que é estúpido escreve mal.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS



Conta-Corrente
3
1980-1981

Vergílio Ferreira
Bertrand Editora, Lisboa, Dezembro de 1990

22 de Julho de 1980

Somos um povo de analfabetos. Destes há alguns que não sabem ler.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


Conta-Corrente
2 
(1977-1979)

Vergílio Ferreira
Capa: Luís Duran
Livraria Bertrand, Lisboa, Fevereiro de 1981

23 de Janeiro 1978

A certa altura, temos enfim a vida em ordem – os filhos arrumados, as ideais arruamdas, os livros escolhidos, a mulher enfim escolhida, o trabalho realizado, todas as opções feitas. É a altura finalmente de vivermos, de gozarmos do que acumulámos, de sermos homens a valer. Mas é justamente nessa altura que nos põem fora da vida. São horas de a loja fechar ou de ser trespassada.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Alegria Breve

Vergílio Ferreira
Prefácio da tradução francesa: Robert Bréchon
Capa: Manuel Dias
Editora Arcádia, Lisboa, Julho de 1973

Enterrei hoje minha mulher – porque lhe chamo minha mulher? Enterrei-a eu próprio no fundo do quintal, debaixo da velha figueira. Levá-la para o cemitério, e como? Fica longe. Ela pedira-mo uma vez, inesperadamente, acordando-me a meio da noite. Queria que a enterrasse junto ao muro que dá para o caminho, porque se vê daí a casa dela. Habituara-se a olhar para aquele sítio depois que ficou só. E pensava: “Verei dali a janela do meu quarto.” Mas teria de transportá-la para lá. Não tenho forças e cai neve. A quantos estamos? É Inverno, Dezembro talvez, ou Janeiro. Tiro a neve com uma pá, traço o rectângulo e cavo. Dois cães assomam à porta do quintal, chupados de ódio e de fome. Ainda há cães pela aldeia? Babam-se e uivam sinistramente. Tomo uma pedra, disparo-a contra um, desaparecem ambos a ganir. E de novo o silêncio cresce a toda a volta, desde a montanha que fico a olhar até me doerem os olhos. Olho-a sempre, interrogo-a. Quando estou cansado de cavar, enxugo o suor e olho-a ainda. Um diálogo ficou suspenso entre nós ambos, desde quando? – desde a infância talvez, ou talvez desde mais longe.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

OLHAR AS CAPAS



Para Sempre

Vergílio Ferreira
Livraria Bertrand, Lisboa, Março de 1984

Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de Verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a em volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino. E uma comoção abrupta – sê calmo. Na aprendizagem serena do silêncio. Nada mais terás que aprender? Nada mais. Tu, e a vida que em ti foi acontecendo. E a que foi acontecendo aos outros – é a História que se diz? abro a porta do quintal. É um portão desconjuntado, as dobradiças a despegarem-se. Há muito tempo já que aqui não vinhas. Sandra era da cidade, gostava da capital, detestava a vida da aldeia. Lá ficou. Abro a porta devagar, ela range para o espaço do jardim. É um jardim morto, as plantas secas, os canteiros arrasados nas pedras que os limitavam. Alguns têm só terra ou hastes secas de roseiras. Vejo-as do portão, o carro à entrada a trabalhar. Depois meto-o na garagem, que é um barracão ao lado da casa. Um silêncio súbito, silêncio da terra. Só vozes ermas dos campos, ouço-as no calor parado da tarde, Reparo agora melhor no pequeno jardim. Uma selva bravia. As plantas selvagens irromperam de todo o lado, aos cantos dos muros à volta, junto à casa. Há algumas armações de madeira ainda, já apodrecidas, suspensas de arames, sem flores. Olho-o um instante, olho a casa, circunvago o olhar. Preparar o futuro – o futuro… E uma súbita ternura não sei porquê. Silêncio. Até ao oculto da tua comoção. Preparar o futuro, preparação para a morte. Está certo. Parte-se carregado de coisas, elas vão-se perdendo pelo caminho. Se ao menos uma breve ideia. Não tenho. Não é bem a vida que faz falta – só aquilo que a faz viver.

segunda-feira, 17 de março de 2014

OLHAR AS CAPAS


Conta Corrente 
1 
(1969-1976)

Vergílio Ferreira
Capa: Luís Duran
Editorial Bertrand, Lisboa Dezembro de 1980

O livro de Spínola alastrou numa revolta militar frustrada. O livro? Há um clima de inquietação, um cansaço do provisório em que vivemos. O difícil da questão é que solução alguma coisa se nos impõe como boa. Há que escolher a menos má. Qual? A África é dos pretos que “exploramos” há quinhentos anos. Exploramos? Só? Mas como aguentar o embate da separação? O recurso seria retroactivo: termo-nos preparado para isso. Mas Salazar, como certos bichos, o que entregou foi pedra. Dizem-me: o Marcelo quer aguentar a guerra até estarmos preparados. Mas o desgaste não vai mais depressa que a preparação? Tentamos acumular de um lado, enquanto gastamos do outro Qual o saldo? Entretanto, ainda se recorre à retórica imperial. “Deus manda combater, não vencer, diz Marcelo. Mas Deus manda o que lhe mandamos mandar. Deus de paz, Deus carniceiro, Deus celeste ou terreno. O Deus de Marcelo não é muito inteligente. Ou estará simplesmente enrascado, sem saber o que fazer.