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terça-feira, 22 de abril de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Deve-se a Manuel Freire, em tempos de ditadura, com um poema, uma canção, popularizar um grande poeta português: António Gedeão, o poema é a Pedra Filosofal.

O mesmo Manuel Freire, nos mesmos tempos de ditadura, transformou poemas de poetas portugueses, em gritos claros de luta e de esperança.

Num país cinzento, debaixo de uma ditadura que tudo fez para que a esperança do povo não pudesse soltar amarras, cerceando a vontade de quem se sentiu escravo e pela libertação fez luta diária, houve quem não respeitasse mistérios nem segredos.

Muitos, durante essa luta, acabaram por morrer, não souberam da cor da liberdade, mas uma outra canção lembra: até mortos vão a nosso lado.

Lidos em 1966, a esmagadora maioria dos Poemas Possíveis estão assinalados a lápis.

Naturalmente, um desses poemas é Ouvindo Beethoven.

Uma boa dezena de anos antes de Abril, Saramago, esperançadamente, sabe que, como disse Jorge de Sena, não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade.

Ouvindo Beethoven, José Saramago sabia que, num, num qualquer mês, de um qualquer ano, chegaria o Dia das Surpresas.

Deste poema, em 1973, Manuel Freire fez canção e assim alargou os horizontes da mensagem:

Venham leis e homens de balanças,
Mandamentos daquém e dalém mundo,
Venham ordens, decretos e vinganças,
Desça o juiz em nós até ao fundo.
Nos cruzamentos todos da cidade,
Brilhe, vermelha, a luz inquisidora,
Risquem no chão os dentes da vaidade
E mandem que os lavemos a vassoura.
A quantas mãos existam, peçam dedos,
Para sujar nas fichas dos arquivos,
Não respeitem mistérios nem segredos,
Que é natural nos homens serem esquivos.
Ponham livros de ponto em toda a parte,
Relógios a marcar a hora exacta,
Não aceitem nem votem noutra arte
Que a prosa de registo, o verso data.
Mas quando nos julgarem bem seguros,
Cercados de bastões e fortalezas,
Hão-de cair em estrondo os altos muros
E chegará o dia das surpresas.

A 24 de Dezembro de 1973, António José Saraiva está em Paris a gozar 10 dias de férias da Universidade holandesa onde colabora. Escreve a Óscar Lopes. Quase em findar de carta, desabafa sobre o que vai acontecendo no mundo e conclui que «a chamada civilização ocidental chegou ao fim, e já perdeu a alma. Mas não apareceu outra que a substitua e por isso ela continua de pé e continuará, como um cadáver adiado.»

E expressa os seus desejos para esse ano:

«Que este 1974, em que ambos começamos a aproximar-nos dos 60, seja o menos mau possível.»

 De facto, os votos de Saraiva ultrapassaram as suas prováveis débeis expectativas.

Por Abril desse ano aconteceu o dia de todas as surpresas.

segunda-feira, 29 de julho de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Os dois volumes da História Ilustrada da Literatura Portuguesa, o 1º volume da autoria de António José Saraiva, o 2º volume da autoria de Óscar Lopes são parte do 8º volume da História Ilustrada das Grandes Literaturas, iniciativa da Editorial Estúdios Cor.

Desta História Ilustrada das Grandes Literaturas não constam outros volumes senão estes da Literatura Portuguesa.

Citação tirada do site do Alfarrabista Castro e Silva:

HISTÓRIA ILUSTRADA DAS GRANDES LITERATURAS.

Editorial Estúdios Cor. Lisboa. 1955, 1956, 1957, 1958, 1959, 1960 e 1961.

7 volumes de 25x19 cm. Com 595; 477; 245; 335; 453, [viii]; 231 e 400 págs. Encadernação em pele. Preserva capas de brochura. Ilustrado.

I - Literaturas Clássicas.

II - Literatura Francesa.

III - Literatura Italiana.

IV - Literatura Espanhola.

V - Literatura Russa.

VI - Literatura Inglesa.

VII - Literatura Alemã.

Esta obra pesa mais de 11 Kg. e está sujeita a cobrança de portes adicionais.

O trabalho de António José Saraiva e Óscar Lopes nesta História Ilustrada das Grandes Literaturas baseia-se na História da Literatura Portuguesa que foi fonte principal do estudo da Literatura Portuguesa no 3º Ciclo dos liceus (6º e 7º anos).

Legenda: ilustração de Fernando de Azevedo.

sexta-feira, 19 de julho de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Houve um tempo em o Ministério da Cultura, com o apoio da Direcção-Geral da Comunicação Social, se dedicou a reunir e a publicar obras dos nosso intelectuais e políticos. O caso desta Antologia, em 2 volumes, da obra de Raul Proença é um exemplo que, durante o declínio do regime republicano foi mestre de toda uma geração de intelectuais, mais do que António Sérgio.

Raul Proença nasceu nas Caldas da Rainha no dia 19 de Maio de 1884 e morreu no Porto no dia 29 de Maio de 1941.

Foi uma figura maior do pensamento político no primeiro quartel do século XX. Trabalhou como bibliotecário da Biblioteca Nacional de Lisboa desde 1911, onde colaborou com Jaime Cortesão e, escreveu grande parte dos textos do Guia de Portugal, mas acima de tudo, faz parte do grupo fundador da Seara Nova de que foi director.

José Gomes Ferreira, no seu livro A Memória das Palavras, lembra a alegria da saída do 1º número da Seara Nova:

«Nunca fui seareiro, como sabem. Mas nesse dia qualquer de 1921 vadiei toda a tarde pelas ruas de Lisboa, a cantar sozinho, de mãos na algibeira…

E à noite, mesmo debaixo do famoso quadro de Columbano, na nova tertúlia no Leão de Ouro, para onde emigráramos de pois da guerra civil do martinho – olhávamos uns para os outros e desatámos a rir, felizes de haver vida e haver futuro.»

No pedacinho que colocámos da Carta ao Futuro, Raul Proença  colocara esta epígrafe:

Óscar Lopes sobre Raul Proença:

«No seu apostolado político de quem deseja o «triunfo do socialismo», e que ele levou a cabo «com uma tenacidade dura e agressiva se sem cerimónias, e arrojo suficientes para desapiedar sendo preciso», reconhece-se a herança da Gerção de 70».

domingo, 11 de fevereiro de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


A História da Literatura Portuguesa de António José Seguro e Óscar Lopes tem sido a base de estudo e trabalho de quem andou, e anda, a interessar-se pela Literatura Portuguesa.

A obra começou a ser publicada em 1953 e, segundo informação colhida num JL, já vai em 17 edições. A História daLiteratura Portuguesa que existe na Biblioteca da Casa é a 3ª edição e, como habitual em algumas obras e editoras, não tem a data da edição. Uma lacuna, mas enfim…

Do prefácio da 1ª edição:

«Como os autores tinham em vista que este livro fosse um instrumento de trabalho e estimulasse a iniciativa dos estudantes e estudiosos, procuraram completar cada capítulo com uma indicação bibliográfica das principais fontes e textos e dos estdos interpretativos de maior interesse».

Ao longo das sucessivas edições foram introduzidas as necessárias correcções. A partir de uma certa altura, os autores começaram a introduzir novos colaboradores que, aos poucos, foram conduzindo o trabalho e o hão-de continuar.

Não foram muito fáceis as relações de trabalho entre António José Saraiva e Óscar Lopes. Existe, aliás, um livro, Correspondência entre António José Saraiva e Óscar Lopes, onde surgem interessantes trocas de ideias e métodos de trabalho. Principalmente quando o assunto é Agustina Bessa-Luís por quem Saraiva tinha uma veneração quase louca e que esbarrava em Óscar Lopes que estava um tanto ou quanto longe de tanto endeusdamento.

Num texto de homenagem a Óscar Lopes, Manuel António Pina, escreve:

«Na minha primeira aula de Literatura no Porto dei com um professor severo e distante que, de uma penada, varreu toda a confiança que eu trazia do Liceu de Aveiro: “Não recomendo manual nenhum. Disse ele indiferentemente; mas se recomendasse, recomendaria a História da Literatura de Óscar Lopes”. Foi a primeira vez que ouvi o nome de Óscar Lopes. Mais tarde, no Café Diu, os colegas explicar-me-iam, com ar vagamente conspirativo, o mistério da singular recomendação-não-recomendação de António Salgado Junior: História da Literatura de Óscar Lopes era um livro “proibido”; o próprio Óscar Lopes, professor também do Manuel II, estaria “proibido” de dar aulas de Literatura…»

Manuel António Pina, ao tempo, quis comprar o livro, mas os trocos eram escassos e teve que esperar por um Natal para encontrar um “livro de estudo” no sapatinho:

«Guardo-a ainda. Essa velha edição da História da Literatura Portuguesa, porque, de alguma forma, ela me abriu a inteligência e o coração para um mundo então absolutamente novo: o secreto e fascinante mundo das relações da literatura com o pensamento e a vida».

quarta-feira, 21 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ANTES DE 25


21 de Abril de 1974

Calhou a um domingo.

 Pela última vez estiveram todos juntos à mesa.

O Diário de Notícias dava conta que, no Palácio de Belém, o chefe de estado ofereceu um almoço íntimo em que estiveram presentes, para além da veneranda figura, Marcelo Caetano, os presidentes da Assembleia Nacional, da Câmara Corporativa e do Supremo Tribunal de Justiça, os ministros da Defesa Nacional, da Justiça,, das Finamças, o procurador geral da República, os conselheiros de estado dr. Albino Reis, prof. Costa Leite (Lumbrales), dr. Luís Supico Pinto, o governador civil de Lisboa, o deputado contra almirante Henrique Tenreiro.

Não se sabem razões para a realização do festim.

O jornal O Século dá conta do vincado cunho de cordialidade, mas ficámos sem saber do menú do almoço das importantes figuras do regime.

1.

Dinis de Almeida no seu livro Origens e Evolução do Movimento dos Capitães, regista que a redacção do programa do Movimento havia-se entretanto processado a partir de um documento inicialmente discutido entre Almada Contreiras, Martins Guerreiro e Melo Antunes.

Nessa redacção intervêm:

Pela Armada: Crespo, Contreiras, Lauret, Simões Teles, Vidal Pinho.

Pelo Exército: Melo Antunes, Costa Brás, Charais, Vítor Alves, José Maria Azevedo.

Pela Força Aérea, praticamente fora do assunto, só se faz sentir a sua opinião já no final, em 24 de Abril de 1974.

A versão definitiva do programa, passada à máquina directamente pelo próprio Hugo dos Santos, focou estabelecida em casa de Vítor Crespo, no dia 21 de Abril de 1974, domingo (epílogo das muitas reuniões efectuadas sobre o programa).

2.

Na praia da Aguda, em Gaia, e por iniciativa do jornal Opinião, realizou-se um jantar de homenagem  a Óscar Lopes.. A censura interveio com uma série de cortes pelo que as notícias publicadas, pouco ou nada referem. As fotografias e as legendas da homenagem teriam que ser enviadas ao Dr. Ornelas.

3.

Em Abril de 1974 Portugal era um país onde coexistiam a maior miséria e a riqueza mais faustosa. Com oito milhões de habitantes, em cada mil crianças nascidas 56 morriam antes de completarem um ano de idade e em cada mil habitantes 15 morriam de tuberculose pulmonar. Apenas 40 por cento da população tinha água em casa e 75 por cento não dispunha de esgotos. Em cada 100 portugueses 37 eram analfabetos e em cada 100 alunos que frequentavam o ensino primário 30 não o completavam e apenas 2 por cento vinham a obter uma graduação universitária.

E havia uma guerra em África. 

Milhares e milhares de mortos, feridos, estropiados.

 A Pátria não se discute, defende-se!

Poema Uma Vez Eu,… de Jorge de Sena publicado em 40 Anos de Servidão:

Uma vez eu, chegando a Portugal
após muitos anos de ausência minha e alguns
de guerras africanas, encontrei uma vizinha
muito estimável que era casada com
um operário categorizado e antigo republicano.
O filho dela estava nas Africas, arriscando
a vida dele e a dos outros em defesa
do património da pátria de alguns (muito mais
que das gerações brancas que vivem nas Áfricas).
Eu condoí-me, todo embebido de noções políticas.
E ela, com um sorriso resignado, respondeu-me:
- Pois é, mas ele está a ganhar tão bem!

4


Hoje, olhamos a capa deste EP e sorrimos quando no topo lemos: Dr. José Afonso, e que as letras e as música também têm a autoria designada como «Dr.» .

Este velho disco rodou milhares de voltas por causa dos Vampiros: senhores à força mandadores sem lei, eles comem tudo e não deixam nada.

Mas diga-se que as outras canções do EP são muito bonitas, principalmente Menino do Bairro Negro.


Menino pobre o teu lar

Queira ou não queira o papão

Há-de um dia cantar

Esta canção

Inevitavelmente, José Afonso era acompanhado à viola por Rui Pato.

Legenda:  primeira página do Programa do MFA, tirada de Origens e Evolução do Movimento de Capitães de Dinis de Almeida.

domingo, 8 de julho de 2018

MAS LÁ QUANTO A DOUTRINA...


Muitos meses depois, já em 53, liberto pois de qualquer disciplina partidária, fiz uma série de oito conferências na Associação de Estudantes da Facul­dade de Ciências de Lisboa, por iniciativa da sua secção cultural.
Público crescente. Pois sou infor­mado de que, enquanto falava, naquele silêncio ávi­do e colaborante que é o prémio maior para qual­quer orador, se bichanava na sala a deitar por fora: «Um tipo bestial. E pena como se portou quando esteve preso. Meteu muita gente dentro». Era in­fantil. Quem me conhecia, e muitos me conhe­ciam, sabia perfeitamente que eu nunca estivera preso.
A verdade é que nenhuma organização tem cul­pa dos seus doentes nem até dos seus períodos de crise sobretudo com dirigentes importantes na ca­deia. O que não obsta a que a bola de neve comece a tentar formar-se.
Não me passou despercebido, já três anos anda­dos e o tosco processo concluído, o tipo de objec­ções que o Mário Sacramento e o meu velho ami­go Óscar Lopes acharam por bem fazer — só eles e só então — a algumas teses expostas n' A Paleta e o Mundo, não se esquecendo ambos de informar os respectivos públicos de que o autor mudara de doutrina e que, embora muito isto e mais aquilo, abandonara «o caminho comum». Quanto a «ca­minho comum», na acepção que lhe davam, era já mais que evidente. Mas lá quanto a doutrina...
Havia muita coisa por detrás, que talvez nem eles conhecessem. Pormenores de importância, ou­so pensar. E, porque a história das ideias, dos paí­ses, dos partidos, finalmente das pessoas, também de pormenores se faz, espero ainda contar os que comigo se prendem (se prenderam) quando tiver espaço para tanto. Não tem pressa. E talvez — é a minha vez de o pensar — não seja o melhor mo­mento para. Resta saber se alguma vez o será.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Mário Dionísio na Praia Grande. Fotografia de sua filha Eduarda Dionísio retirada do catálogo Passageiro Clandestino

quarta-feira, 27 de junho de 2018

NÃO TENHO ONDE PUBLICAR EM PORTUGAL


Carta de António José Saraiva, datada de Paris, Junho de 1968:

Tenho um estudo de 115 páginas sobre o «discurso engenhoso» em Vieira que gostava que lesses. Só tenho um exemplar corrigido. Terás tempo para o leres e comentares? Diz.
Interessa-me a proposta editorial. Tenho um livro sobre Inquisição e Cristãos Novos (muito diferente do meu limitado sobre a Inquisição) que gostava de editar o mais depressa possível. E talvez um livro de ensaios, miscelânico. Diz se algum deles interessa. Estou em más relações com a aEuropa-América. A Seara Nova recusa-me os artigos; o Tempo e o Modo nunca me convidou obstinadamente (apesar de sugestões de terceiras pessoas nesse sentido). De modo que, tirante o Comércio do Porto, não tenho onde publicar em Portugal. Curioso destino dum autor «à succès»!


Legenda: capa de Inquisição e Cristãos-Novos publicado em Fevereiro de 1969, mercê da influência de Óscar Lopes, pela Editorial Inova do Porto.

terça-feira, 27 de março de 2018

LEITURAS


Terminámos a viagem por O Principezinho de Antoine de Saint-Exupéry e apeteceu-me voltar ao princípio.
É um notável documento que reflecte as dificuldades dos intelectuais portugueses com a ditadura salazarista/caetanista.
As cartas, para além de outros temas político-culturais, referem também a troca de impressões que os autores foram trocando para reedições da História da Literatura Portuguesa.
Ressaltam também as mirabolâncias políticas, as dificuldades económicas de António José Saraiva em contraste com a serenidade de Óscar Lopes.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

ALGUÉM DIZ TU


Alguém diz tu. Alguém sem nome.
É a terra e o corpo e é o rasto de um sentido.
Alguém diz tu à imagem que se esgarça
à certeza de uma longínqua razão.
Longe. O passado. Nomes, errados nomes de desejo.
Cego de insónia, nem lembrar te posso.
Nem mesmo em sonho saberia ver-te.
És só o pronome, tu, a ondular-te na boca.
norte magnético num desespero em surdina.
És a sílaba que dói a dor solar de um sentido.
A história avança na cabra-cega sem rostos
e eu vivo em ti o tu mais só da minha vida.


Óscar Lopes

Nota do editor: Óscar Lopes não é conhecido como poeta. O jornalista José do Carmo Francisco conseguiu encontrar, possivelmente, o único poema que escreveu.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

ETECETERA


Até 14 de Dezembro, estará patente na Biblioteca Nacional, uma Exposição comemorativa do Centenário do Nascimento de Óscar Lopes que nasceu a 2 de Outubro de 1917, o ano da Revolução Russa:

«O sentido desta mostra documental evocativa do centenário do nascimento do Professor Óscar Lopes é o de homenagear o homem que, pelo seu pensamento dialético e hermenêutico, buscou sempre o “sentido que a vida faz”. Essa procura leva-o na sua investigação e nas suas obras a entrecruzar saberes diversos – da física à filosofia, da biologia à antropologia, da astrofísica à história, à música ou à literatura e linguística, estas as áreas preferenciais do seu trabalho.
“Nem crítico, nem ensaísta, nem mesmo essencialmente professor, linguista ou político”, a dificuldade do próprio em auto definir-se. Era tudo isto.»


Depoimentos de Agustina Bessa-Luís, Álvaro Cunhal, Baptista-Bastos, Eduardo Lourenço, Egito Gonçalves, Eugénio de Andrade, Ilse Losa, José Cardoso Pires, Manuel António Pina, Manuel Alberto Valente, Marta Cristina Araújo, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco Graça Moura, entre outros.

Reproduzimos o depoimento de Agustina Bessa Luís

Devo a Óscar Lopes os primeiros conhecimentos sobra a crítica. A companhia que o crítico pode significar para o fugitivo da área familiar, em geral a que nos ensina primeiro a duvidar de tudo, foi para mim Óscar Lopes. Antes de A Sibila tomar lugar nas letras portuguesas, já ele se interessava pelos Contos Impopulares, melancólico salto sobre um abismo de lirismo desempregado. O crítico, como intérprete duma linguagaem, é o médium que o espírito convoca. É compreensível que o jovem autor comece por não gostar dos críticos e acabe por vê-los como sendo os médiuns próprios para desvendar a ideia.
Não sou muito adepta das homenagens que se prestam ao tempo vivido por um homem de talento. Todos os seus dias são dignos de louvor e os seus sacríficios estão mais presentes na juventude do que na idade avançada. Esta é o tempo em que devemos deixar dormir, mais do que pensar, as pessoas inteligentes. Se dormir é o cúmulo do génio, como disse um filósofo que eu muito prezo, então não despertemos com palavras barulhentas os que deixam uma obra para a posteridade.
Eu penso que o Óscar Lopes não pertence ao número daqueles que é preciso elogiar, como se faz às crianças para que elas nos obedeçam. Obedecer não é próprio dos homens. Porque devemos elogiá-los?
Por mim, eu digo que me aborreço quando me parecem consolar de alguma coisa com as honras que me prestam. Prefiro um café quente a um bom elogio. Mas nem todos são assim.
Fomos amigos em campos diversos mas não extremados. Óscar Lopes e eu. Convivemos ma mesma admiração pelos livros e na paixão das ideias. Eu, que sou avara de palavras faladas, porque o ciúme das escritas me arrasta para longe delas, no entanto, fora da minha vocação, vejo o talento de alguém e digo-lhe que é preciso ter coragem para ter talento. Aqui e em qualquer lugar. O talento briga com tudo, arranja inimigos em toda a parte porque tem que expandir a sua diferença onde quer que esteja. É por isso que as homenagens lhe cheiram a esturro. O gozo estético do talento é uma luta de morte com a própria celebridade. Ela parece sempre uma forma de fechar as contas e de partir noutra direcção, que não é a do talento, bem entendido.
As nossas contas ficam em aberto. Mais erradas do que certas. A vida é assim. Nós somos assim. Óscar Lopes e eu e muitos que têm a vocação como virtude curativa.


PSD

Hoje, começamos assim:

Manuela Ferreira Leite apoia Rui Rio para a liderança do PSD: «tem mais credibilidade do que Santana Lopes.»

Miguel Relvas, em entrevista à SIC, declarou que vai votar em Pedro Santana Lopes porque o Partido necessita de «um líder que seja capaz de agregar.»

O miasma-ventura-de-Loures  quer impedir que Rui Rio ganhe e «prejudique a identidade do partido».

INCÊNDIOS

O relatório da Comissão Técnica Independente, que analisou os incêndios do passado mês de junho, foi entregue na Assembleia da República.

Constança Urbano de Sousa, ministra da Administração Interna disse, hoje, no Parlamento que não vai pedir a demissão.

Dia 21 haverá um Conselho de Ministros Extraordinário, mas António Costa já disse:

«Pela parte do Governo, por respeito pela Assembleia da República, por respeito pelos profissionais que elaboraram este relatório, mas, sobretudo, por respeito pelas vítimas e seus familiares, o que nos compete é fazer uma reflexão serena sobre a informação disponível e as recomendações apresentadas. As responsabilidades são aquelas que resultam do relatório e assumi-las-emos totalmente.»

Palavras finais do editorial, de hoje, do Diário de Notícias:

«O relatório o que diz é que falhou quase tudo, até a ajuda dos deuses que provocaram ali condições climáticas únicas. E diz que um senhor da Proteção Civil mandou suspender a fita do tempo. Esse terá os dias contados. E o relatório também diz que face às previsões meteorológicas não foram colocados no terreno os meios possíveis e necessários». 

domingo, 18 de maio de 2014

OS IDOS DE MAIO DE 1974


De 6 a 12 de Maio de 1974

NO DIA 6 de Maio é fundado o Partido Popular Democrata (PPD).
Na comissão organizadora estão Francisco Pinto Balsemão, Joaquim Magalhães Mota e Francisco Sá Carneiro que será o secretário-geral.
O PPD é um partido voltado para o progresso social e aberto à esquerda não marxista. São justos e equilibrados os caminhos da Social-Democracia.

MIGUEL TORGA, no dia 6 de Maio escreve no seu Diário:
Continua a revolução, e todos se apressam a assinar o ponto.
- O senhor não diz nada? – Interpelou-me há pouco despudoradamente, um dos novos prosélitos.
E fiquei sem fala diante da irresponsabilidade de semelhante pergunta. Foi como se me tivessem feito engolir, cinquenta anos de protesto

VASCO Vieira de Almeida, delegado da Junta de Salvação Nacional, no Ministério das Finanças, esclareceu que as deliberações adoptadas pelo MFA apenas visaram impedir acções especulativas a todos os níveis, fugas da massa monetária e reprimir subidas abusivas de preços. Informou também que o mercado da bolsa continuará encerrado e da reabertura dará, quando tomar posse o Governo Provisório.

COMEÇOU a funcionar a sede provisória do Partido Comunista Português na Rua António Serpa, onde funcionava o comando 4 da extinta Legião Portuguesa.

CERCA de 50 000 pessoas participaram num comício organizado por um movimento político criado pela população branca de Moçambique FICO-Frente Independente de Solidariedade Ocidental. Os seus dirigentes manifestaram o seu inteiro apoio ao general António Spínola e tencionam conduzir uma campanha contra o abandono dos territórios africanos por parte de Portugal.

JORGE Paulo Teixeira, director de informação e Propaganda do MPLA declarou em Argel: «Rejeitamos a ideia apresentada pelo general Spínola para um Estado Federal, porque é necessário ter em conta que somos entidades diferentes. Angola não é Portugal, como é a Guiné-Bissau, nem Moçambique. Recusamo-nos a ser considerados portugueses de pele negra».

MÁRIO Soares afirmou que o Partido Socialista não é um partido burguês e se tentará organizar sobre a base da classe operária, onde os representantes de outras classes terão igualmente lugar.

AGOSTINHO Neto, declarou em Copenhaga que o «general Spínola não disse em momento algum que seja aceitável para nós» e por essa razão «continuamos a lutar até que os portugueses decretem publicamente que temos, plenamente, direito á independência». Acrescentou ainda que «não percebe como é que Portugal se pode transformar num estado democrático, sem que os povos das colónias obtenham a sua independência».




O GRANDE Ditador, escrito, produzido e realizado por Charles Chaplin é finalmente exibido em Portugal na sua versão integral.

NUNO Calvet de Magalhães anuncia para breve o texto do programa do Partido Cristão Social-Democrata do qual é um dos fundadores.

ASCENDE a 560 contos o dinheiro apreendido pela extinta PIDE/DGS aos presos políticos.

OS FUNCIONÁRIOS da CARRIS dizem não ao boné. Após o Sindicato dos Motoristas ter decidido a abolição do uso do boné, é a vez dos cobradores aprovarem idêntica decisão.

DADO a empresa proprietária de O Século e os seus trabalhadores não terem chegado a acordo, aquele jornal não se aplica há três dias.
ÓSCAR Lopes foi nomeado pela Junta de Salvação Nacional para director da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

EM CONSEQUÊNCIA de desinteligências no seio do Partido Cristão Social-Democrata verificou-se uma cisão de que resultou o Partido da Democracia Cristã.

CHAMPALIMAUD elogia Spínola: espero que nunca mais voltemos aos tempos passados.

DUAS únicas apresentações do grupo espanhol AGUAVIVA no Monumental.

RELAÇÕES diplomáticas cum a URSS são um caso a estudar.

SEGUNDO Miller Guerra o PPD virá a ser um partido dominante pois o programa poderá ser facilmente aceite pela fracção burguesa a que o Movimento dos Capitães deu força e significação.

SITUAÇÃO tensa na Timex. A administração recusa receber os trabalhadores. Dois mil trabalhadores estão em greve.

MIL moradores de bairros da lata ocupam 23 blocos de Chelas, vazios há dois anos.

A INTERSINDICAL estuda transformar o A Época num jornal diário de trabalhadores.

Divulgado programa político do MES, Movimento de Esquerda Socialista.

VERGÍLIO Ferreira, no dia 10 de Maio, escreve no seu Conta-Corrente:
Seria útil dar o balanço de quinze dias de revolução. Mas tudo se mantém ainda confuso. No entanto, alguma coisa se vai esclarecendo: de um lado a ideia de que a revolução é para o interesse de cada um de nós, singularizado no esquecimento dos outros; do outro lado, a visível manifestação a todos os níveis, de núcleos comunistas. Seria uma revolução PC? Greves. Já começaram. Que não se propaguem em epidemia e ferem o caos. Para onde vamos? Por sobre tudo, uma certeza: os militares continuam de armas aperradas.


Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Maio de 74 Dia a Dia, Edição de Teorema e Abril em Maio, Lisboa, Maio de 2001, Portugal Hoje edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo,  A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa

terça-feira, 22 de abril de 2014

PODIA SER UM VIRA


22 de Abril de 1974

Os jornais trazem nas suas primeiras páginas fotografias do almoço íntimo que o chefe de estado Almirante Américo Tomás ofereceu, ontem, no Palácio Nacional de Belém do Chefe do Governo.
Sem protocolo, revestido de cunho de cordialidade, num ambiente extraordinariamente amistoso, estiveram presentes o Chefe do Governo Marcelo Caetano, os presidentes da Assembleia Nacional, da Câmara Corporativa e do Supremo Tribunal de Justiça, os ministros da Defesa Nacional, do Interior, da Justiça e das Finanças, o Procurador Geral da República, diversos conselheiros de estado, o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, alguns deputados com saliência para almirante Henrique Tenreiro assim como outras personalidades do regime e da íntima    confiança de Tomás.
Olha-se a fotografia e vemo-los descontraídos e sorridentes.
Desconheciam ainda que almoçavam, todos juntos, pela última vez, tal como desconheciam que poucos dias faltavam para deixarem de sorrir.
O pânico haveria de tomar conta das suas excelsas e distintas pessoas.

O República conseguiu, numa pequena notícia, dar conta que quatrocentos democratas marcaram presença na homenagem a Óscar Lopes.

No mesmo jornal, o jornalista e escritor Álvaro Guerra, encarregado pelos capitães da ligação com a imprensa, no seu habitual Ponto Crítico abordava a meteorologia e se pudéssemos decifrar as entrelinhas ficaríamos a saber que o tempo ia mesmo mudar.

A Primavera continua chuvosa, um resto de invernia que se arrasta, retardando o sol aquém, de tantos sóis adiados, se vai fartando e chegando ao Inverno da vida com um levíssimo e já frio raio de luz teimando penetrar na floresta desencantada da memória.
Naturalistas, alegóricos, nostálgicos, vamos seguindo os caprichos do clima, mitigando a ausência das palavras primaveris com a decifração de eternos boletins meteorológicos.

Otelo Saraiva de Carvalho comunica aos seus camaradas que tem pronto o Plano Geral das Operações.

Grândola é escolhida para segunda senha do Movimento dos Capitães. Almada Contreiras em 25 de Abril Memórias, explica: escolhi a Grândola, em primeiro lugar, porque sou alentejano, depois porque gosto muito da canção. Se fosse minhoto, provavelmente a senha seria um “vira”, não sei.

Este é o registo que Dinis de Almeida deixa em Origens e Evolução do Movimento dos Capitães:




segunda-feira, 21 de abril de 2014

MANDAR FOTO E LEGENDA!


21 de Abril de 1974

Um domingo com algumas notícias miúdas do quotidiano de um país cinzento e triste.

A censura voltava a martelar no jantar de homenagem que , num mero restaurante da Praia  da Aguda em Gaia, um grupo de intelectuais prestava a Óscar Lopes.

O censor dr. Ornelas determinava:

Foto e legenda da homenagem a Óscar Lopes – MANDAR.

Contudo, há um acontecimento de que poucos têm conhecimento: fica pronta a versão definitiva do Programa do MFA, passada à máquina directamente pelo próprio Hugo dos Santos, em casa de Vítor Crespo.

É o que se pode ler na pág. 309 de Origens e Evolução do Movimento de Capitães de Dinis de Almeida.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

EXPRESSÕES ATENTÓRIAS DA MORAL PÚBLICA



18 de Abril de 1974

No Tribunal Plenário de Lisboa continua o julgamento de cidadãos acusados de pertencerem à Acção Revolucionária Armada (ARA) A censura (recorte retirado de Os Segredos da Censura de César Príncipe) determina que as notícias do julgamento devem ser reduzidas à expressão mais simples.
Proibidas também todas as notícias da homenagem ao professor Óscar Lopes, assim como as notícias sobre um jantar de confraternização de antigos alunos do Colégio Militar.


Qualquer notícia sobre as sessões do julgamento das Três Marias, serão todas CORTADAS.



Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta eram acusadas de a partir da data de 1 de Março de 1971 terem escrito em conjunto, mediante prévia combinação, um livro ao qual deram o título de Novas Cartas Portuguesas que contém diversas passagens de conteúdo imoral e pornográfico, atentórias da moral pública.
Para os coronéis-censores pornografia e expressões atentórias da moral pública seria, possivelmente algo como as últimas palavras da última carta do livro:
Nas ancas tenho ainda a marca dos teus dedos; a marca da tua boca, o traço molhado da tua língua, dos teus dedos.
Desço:
Macio deve ser o chão que as árvores conservam com a sua seiva.
Não necessariamente meu amor sem ti a liberdade ou a pressa da morte do meu corpo.

Esta é a primeira carta do livro:  


quinta-feira, 10 de abril de 2014

OLHAR AS CAPAS


Os Arquivos do Silêncio

Egito Gonçalves
Prefácio: Óscar Lopes
Colecção Poetas de Hoje nº 10
Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1963

MORTE NO INTERROGATÓRIO

Às três da madrugada eu dormia sem sonhos.
Minha mulher dormia a meu lado. Eu tinha
uma das mãos pousada sobre a sua coxa.

Uma lua de outono brilhava sobre as ruas;
um ar agreste preparava as noites para o inverno.

Às três da madrugada os companheiros
dormiam quase todos. Um deles, porém,
regressava, fatigado, de um trabalho nocturno.

Era a hora dos fogos-fátuos sobre as campas;
a hora em que os exilados buscam o sono em comprimidos.


Às três da madrugada sua mulher ainda velava.
Embrulhada num xaile tinha um livro entre as mãos;
insone, acendera a luz havia meia hora.

Na sala o interrogatório atravessava o tempo;
lâmpadas de mil vátios tornavam a vida irrespirável.

Às três da madrugada o coração fraquejou
e os dois comissários ficaram perante um homem morto
e dois cinzeiros com trinta pontas de cigarros.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

UM SENHOR DE MATOSINHOS


No livro Óscar Lopes – um Homem Maior Que o Seu Tempo estão incluídos dois textos assinados por Vasco da Graça Moura: O Direito de Esperar e Óscar Lopes, o Professor dos Professores.

Neste último escreve:


Nunca fui aluno directo de Óscar Lopes e todavia sempre me senti como se o tivesse sido. Foi no convívio fascinado com muito do que ele escreveu e com muito do que lhe ouvi, que aprendi a ler os nosso grandes autores antigos e modernos, a lançar pontes de uns para ao outros, a procurar neles o que os torna tão vitalmente “nossos contemporâneos”, apesar das distâncias que são, pre vezes, consideráveis no tempo e no espaço.

Mas Vasco Graça Moura tem um lindíssimo poema dedicado a Óscar Lopes, a que chamou Um Senhor de Matosinhos, que consta do seu  livro Uma Carta no Inverno e publicado, em 1999, pela Quetzal 


andava eu no liceu: no salão nobre
dos paços do concelho em matosinhos,
um professor, o óscar lopes, vinha

mostrar à noite que a literatura

importa a toda a dignidade humana.
iam autores ouvi-lo, jornalistas,

estudantes, gente que ali morava

e outra que do porto em carro eléctrico,
o “um” para leixões, o “dezasseis”,

passando à carvalhosa, vinha sempre,

lá estavam joão guedes, tonitruante,
e júlio gesta, afável e risonho,

manuel dias da fonseca, mais calado,

augusto gomes e suas lentes grossas
a enevoar-lhe o olhar de ver as praias

rasas de cinza e luto, com vareiras

por trágicos naufrágios ululando,
o egito, que então já se escrevia

com os poetas todos deste mundo,

o eugénio, de cachecol esvoaçante,
a modelar os gestos e os ditongos

medindo mãos e frutos, depurando

sílaba a sílaba, a sua incandescência
devia ser outono, ou mesmo inverno,

e fazer frio, e não faltava um torpe

sujeito de soslaio e bloco-notas,
tomando apontamentos com minúcia,

que a subversão quanto mais culta mais

impalatável era. fuzilavam-no
amigas minhas com o olhar, ficavam

mais belas só por essa exaltação

contida e faiscante de amazonas,
foi quando eu soube que as mulheres sabiam

resistir por instinto e se tornavam

mais agilmente elásticas no corpo,
mais livres e arriscadas nos seus gestos,

e no limite a cor afogueava-as,

e tão fulva energia em nenhum verso
coube jamais, que eu saiba, então na sua

voz calma e portuense, óscar falava

dos livros, dos autores, como quem trata
de assuntos de família e os desarruma

para os mostrar melhor, e acontecia

que isso era irrepetível e sem pompas,
como outra intimidade ao nosso alcance:

é sempre desconforme a literatura.

é mal-estar, princípio de prazer,
é trabalho forçado e liberdade

e um modo mais verbal de estar no mundo,

e nesse mar óscar lançava as redes
da pesca milagrosa, aquela terra

tinha essas tradições mais literais,

orlas de oralidade e maresia,
e embarcávamos todos na traineira

e era outra vez o senhor de matosinhos

com ex-votos à roda: impaciências
de passado e presente na palavra

e, entre a vida e a morte, o seu fulgor

em que, por crespas ondas, falar era
também filosofar e rebeldia.

tinham saído alguns discos recentes,

gravados por poetas: eu recordo
a voz do régio num, que achei roufenha

dos ensimesmamentos presencistas,

e vozes de combate que também
prestavam para pouco, mas sabia

tão bem partir a louça no salão

daquela edilidade, assim nas barbas
de toda a gente, era porém mais justa

a medida de que óscar nos falava

pois fazia pensar e punha em causa.
e alguém pedia às vezes um poema

quando a noite avançava e alguém dizia

outras coisas em código e ficavam
depois pequenos grupos à saída

como em cinemas de província, como

quem tem mais a dizer e veio vindo
devagar até aqui e aqui se encontra,

à espera de outro eléctrico ronceiro,

e vai falando tempos esquecidos,
sem pressa e sem vontade de ir embora.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

À LUPA


Não gosto de escrever nas ondas necrológicas, porque elas são hipócritas no pior sentido do termo: fazem uma vénia à morte, mas tratam o falecido como nunca o trataram em vida, quer porque o atacaram, quer porque o esqueceram. Agora que está morto, é sempre um poço de virtudes. 

José Pacheco Pereira sobre a morte de Óscar Lopes no Abrupto

Legenda: fotografia retirada do livro Óscar Lopes - Um Homem Maior Do Que O Seu Tempo.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

À LUPA


Óscar Lopes dedicou toda a sua vida às ideias – e a uma ideia muito própria de justiça. Já não há muitos assim.

sábado, 23 de março de 2013

ÓSCAR LOPES (1917-2013)


Um sentimento unânime: com a morte de Óscar Lopes desapareceu um dos vultos maiores da cultura portuguesa do século XX.
Uma qualquer morte mata sempre um pouco a nossa memória.
Na minha primeira aula de Literatura do 6º ano, o professor, deu as boas-vindas e de imediato disse que quem quisesse saber, mas saber mesmo, qualquer coisa da matéria, havia que comprar -  e ler - a História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes.
Editada pela Porto Editora, o meu exemplar é a 3ª edição corrigida.
Em finais de 1969, comprei o meu primeiro livro, a solo, de Óscar Lopes: Ler e Depois.
Este livro representa um conjunto de tentativas no sentido da síntese agora possível, por parte, não de um investigador ou crítico literário profissional (há anos que nem sequer ensino literatura no Liceu), mas de um simples leitor que vai lendo e pensando, e depois continua pensando, sobre o que lê e é, a ponderar intuições, informações (aquelas que lhe chegam), estéticas, morais, práticas, científicas, políticas, umas com outras, e uma contra outras mesmo sem sair de cada um dos domínios de ser e do valer.
O livro tem dedicatória:
Recordação de Mário Sacramento, recordação de todos os momentos em que me saíu da boca a palavra «TU» num alvoroço de camaradagem ou de ternura.
Óscar Lopes ensinou-me a ler, porque ler, como disse alguém, não é apenas juntar as letras.
Militante do Partido Comunista desde 1944, perseguido pela ditadura, proibido de leccionar, contou que a sua avó chorou de desgosto quando soube que ele era comunista. "E eu chorei, porque ela chorou", foi alguém, tal como escreveu Baptidta-Bastos, maior do que o seu tempo.
Já ficou no Olhar as Capas o comovente e judicioso depoimento que Agustina Bessa Luís escreveu e que está incluído no livro comemorativo dos noventa anos de Óscar Lopes.
Mas, necessariamente, voltarei a Óscar Lopes.
Um Homem que, para além de muitas outras coisas, gostava de gatos e de flores.

Legenda: Óscar Lopes no jardim de sua casa, tirado do livro Óscar Lopes – um homem maior do que o seu tempo.

OLHAR AS CAPAS


Óscar Lopes – Um Homem do Seu Tempo

Diversos
Prefácio: Isabel Pires de Lima
Coordenação: José da Cruz Santos
Direcção Gráfica: Armando Alves
Edição Câmara Municipal de Matosinhos, Outubro de 2007

Devo a Óscar Lopes os primeiros conhecimentos sobra a crítica. A companhia que o crítico pode significar para o fugitivo da área familiar, em geral a que nos ensina primeiro a duvidar de tudo, foi para mim Óscar Lopes. Antes de A Sibila tomar lugar nas letras portuguesas, já ele se interessava pelos Contos Impopulares, melancólico salto sobre um abismo de lirismo desempregado. O crítico, como intérprete duma linguagaem, é o médium que o espírito convoca. É compreensível que o jovem autor comece por não gostar dos críticos e acabe por vê-los como sendo os médiuns próprios para desvendar a ideia.

Não sou muito adepta das homenagens que se prestam ao tempo vivido por um homem de talento. Todos os seus dias são dignos de louvor e os seus sacríficios estão mais presentes na juventude do que na idade avançada. Esta é o tempo em que devemos deixar dormir, mais do que pensar, as pessoas inteligentes. Se dormir é o cúmulo do génio, como disse um filósofo que eu muito prezo, então não despertemos com palavras barulhentas os que deixam uma obra para a posteridade.
Eu penso que o Óscar Lopes não pertence ao número daqueles que é preciso elogiar, como se faz às crianças para que elas nos obedeçam. Obedecer não é próprio dos homens. Porque devemos elogiá-los?

Por mim, eu digo que me aborreço quando me parecem consolar de alguma coisa com as honras que me prestam. Prefiro um café quente a um bom elogio. Mas nem todos são assim.

Fomos amigos em campos diversos mas não extremados. Óscar Lopes e eu. Convivemos ma mesma admiração pelos livros e na paixão das ideias. Eu, que sou avara de palavras faladas, porque o ciúme das escritas me arrasta para longe delas, no entanto, fora da minha vocação, vejo o talento de alguém e digo-lhe que é preciso ter coragem para ter talento. Aqui e em qualquer lugar. O talento briga com tudo, arranja inimigos em toda a parte porque tem que expandir a sua diferença onde quer que esteja. É por isso que as homenagens lhe cheiram a esturro. O gozo estético do talento é uma luta de morte com a própria celebridade. Ela parece sempre uma forma de fechar as contas e de partir noutra direcção, que não é a do talento, bem entendido.

As nossas contas ficam em aberto. Mais erradas do que certas. A vida é assim. Nós somos assim. Óscar Lopes e eu e muitos que têm a vocação como virtude curativa.

Porto, 1 de Junho de 1996
Agustina Bessa -Luís