Andando às voltas com um poema de Rui Caeiro, ficamos a saber que morre-se de muita coisa, morre-se por tudo e por nada, morre-se muito.
Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Caeiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Caeiro. Mostrar todas as mensagens
segunda-feira, 5 de agosto de 2024
terça-feira, 5 de setembro de 2023
QUEM VIVE PARA O AMOR ESTÁ LIXADO
Quem vive para o amor está lixado
não
tarda, que o amor é um amplo espaço
vazio
sem cor nem forma e um silêncio
tumular
por dentro. Mau, muito mau
para
se levar alguém. Mas tu vieste
e
de imediato tudo fôra já decidido
como
quando alguém nasce e olha em torno
–
pouco importa se estranha ou não a paisagem.
Tínhamos
o nosso espaço e tínhamo-nos
a
nós, um ao outro por natural companhia
era
o amor, tudo indicava. Podia-se morrer
disso.
E tínhamos o tempo todo para ver.
Rui
Caeiro em Resumo: a poesia em 2011
quarta-feira, 17 de junho de 2020
O FÓSFORO
Já tens o cigarro preso nos lábios, buscas
o pau de fósforo que o acenda e justifique
Nesse preciso instante a garantia
do teu futuro ou a salvação da tua
alma não são, se é que alguma vez
foram, o problema crucial da tua vida
sequer uma questão prioritária, o magno
problema é o fósforo, mas onde pus eu
a caixa?, e quando por fim a encontras
se a encontras, extrais dela o almejado
couto de madeira, esfregas não tarda
a cabeça vermelha na lixa da caixa,
aproximas a chama do cigarro, sorves
com avidez e deleite – e essa coisa frágil
absurda, milagrosa, que uma vida
sempre é – e por que raio havia a tua
de ser diferente? – está nesse preciso
momento plenamente justificada.
o pau de fósforo que o acenda e justifique
Nesse preciso instante a garantia
do teu futuro ou a salvação da tua
alma não são, se é que alguma vez
foram, o problema crucial da tua vida
sequer uma questão prioritária, o magno
problema é o fósforo, mas onde pus eu
a caixa?, e quando por fim a encontras
se a encontras, extrais dela o almejado
couto de madeira, esfregas não tarda
a cabeça vermelha na lixa da caixa,
aproximas a chama do cigarro, sorves
com avidez e deleite – e essa coisa frágil
absurda, milagrosa, que uma vida
sempre é – e por que raio havia a tua
de ser diferente? – está nesse preciso
momento plenamente justificada.
Rui Caeiro em Resumo: a poesia em 2010
segunda-feira, 22 de abril de 2019
POIS MORRE-SE DE MUITA COISA
Pois morre-se de muita coisa, de muita coisa
se morre, morre-se por tudo e por nada
morre-se sempre muito
Por exemplo, de frio e desalento
um pouco todos os dias
mas de calor também se morre
e de esperança outro tanto
e é assim: como a esperança nunca morre
morre a gente de ter que esperar
Morre-se enfim de tudo um pouco
De olhar as nuvens no céu a passar
ou os pássaros a voar, não há mais remédio
ó amigos, tem que se morrer
Até de respirar se morre e tanto
tão mais ainda que de cancro
De amar bem e amar mal
de amar e não amar, morre-se
De abrir e fechar, a janela ou os olhos
tão simples afinal, morre-se
Também de concluir o poema
este ou qualquer outro, tanto faz
ou de o deixar em meio, o resultado
é o mesmo: morre-se
Data-se e assina-se – ou nem isso
Sobrevive-se – ou nem tanto
Morre-se – sempre
Muito
se morre, morre-se por tudo e por nada
morre-se sempre muito
Por exemplo, de frio e desalento
um pouco todos os dias
mas de calor também se morre
e de esperança outro tanto
e é assim: como a esperança nunca morre
morre a gente de ter que esperar
Morre-se enfim de tudo um pouco
De olhar as nuvens no céu a passar
ou os pássaros a voar, não há mais remédio
ó amigos, tem que se morrer
Até de respirar se morre e tanto
tão mais ainda que de cancro
De amar bem e amar mal
de amar e não amar, morre-se
De abrir e fechar, a janela ou os olhos
tão simples afinal, morre-se
Também de concluir o poema
este ou qualquer outro, tanto faz
ou de o deixar em meio, o resultado
é o mesmo: morre-se
Data-se e assina-se – ou nem isso
Sobrevive-se – ou nem tanto
Morre-se – sempre
Muito
Rui Caeiro em Sobre a Nossa Morte Bem Muito Obrigado
Subscrever:
Mensagens (Atom)

