Mostrar mensagens com a etiqueta Daniel Filipe Poemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Daniel Filipe Poemas. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

RECADO PARA A AMIGA DISTANTE


Dorme Menino dorme
teu sonho quieto lúdico
enquanto longe estoura
a bomba no atol

Que outra coisa Menino
poderemos fazer
ante o inominado
desconhecido crime
que de entre as chamas nasce
no silêncio da noite?

Que palavra inventada
que rubro gládio pode
definir o temor
do começo do mundo?

Que estranho abjeto ritmo
em cogumelo alastra
sobre o teu sono puro
Menino sobre a esperança?

(Um tigre humano vem
a cada esquina oculto
no rumor da manhã
saciar-se de sangue)

 

Daniel Filipe

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

MAIS LÚCIDO O METAL

Mais lúcido o metal
das espadas coroa
a divina pessoa
que em ti, serena e igual,

espera desde criança,
no país ocupado,
o som claro e doirado
da trombeta da esperança.


Daniel Filipe de Balada Para a Trégua Possível em A Invenção doAmor

terça-feira, 18 de novembro de 2025

MAIS LÚCIDO O METAL

Mais lúcido o metal
das espadas coroa
a divina pessoa
que em ti, serena e igual,

espera desde criança,
no país ocupado,
o som claro e doirado
da trombeta da esperança.


Daniel Filipe de Balada Para a Trégua Possível em A Invenção doAmor

sexta-feira, 25 de abril de 2025

EI-LA A CIDADE


 Quarenta e sete anos, dez meses e vinte e quatro dias, durou a barbárie salazarenta/marcelista, o tempo do desprezo, como lhe chamou Mário Dionísio.

Éramos um país que vivia debaixo de um atraso sem medida, tempos terríveis que só quem neles viveu tem a justa medida – quem passa por elas é que sabe!

O avô senta o neto nos joelhos e conta: foi assim.

Acreditávamos.

Tão só.

«Quem não viveu, esqueceu ou renunciou às delícias das ilusões desses grandes dias nunca vai conhecer o exacto perfume das flores.»

A festa foi bonita, pá.

Manuel António Pina:

«Durou, o sonho, só uma semana, mas esse é um património que ninguém nos tirará. Na tarde do 1º de maio, já nos confrontávamos uns com os outros.

De então para cá, tem sido o que se sabe. Carlyle escreveu que as revoluções são sonhadas por idealistas, realizadas por radicais, e que quem delas se aproveita são os oportunistas de todas as espécies.»

Cinquenta e um anos sobre a madrugada, lembrando Sophia, que esperávamos, quando emergimos da noite e do silêncio.

Também escreveu José Saramago:

«Nenhum dia é festivo por ter já nascido assim: seria igualzinho aos outros se não fossemos nós a «fazê-lo» diferente.»

Ao longo destes anos, tenho vindo a ouvir os que, a partir de um certo tempo, sempre anunciarem que o 25 de Abril se tornaria num 5 de Outubro.

Nunca acreditei e ainda não vi a possibilidade de isso vir a acontecer.

Gente que pensa que a memória do 25 de Abril é algo difuso, que com o tempo se tornará insignificante, gente que advoga o silêncio como um argumento.

Serenamente vos digo:

Não há nenhum 25 de Abril em que não me venha à memória, o 1º poema de Canto e Lamentação na Cidade Ocupada, incluído em  A Invenção do Amor e Outros Poemas, de Daniel Filipe lido, relido vezes sem conta, nos tais tempos difíceis:

Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma

em praças ruas becos boîtes e monumentos

Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria

e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo
Ei-la a cidade prometida

esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor

Legenda: Desenho da Prisão de Álvaro Cunhal

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

PELO SILÊNCIO NA PLANÍCIE

Pelo silêncio na planície pela tranquilidade em tua voz
pelos teus olhos verdes estelares pelo teu corpo líquido de bruma
pelo direito de seguir de mão dadas na solidão nocturna
lutaremos meu Amor
Pela infância que fomos pelo jardim escondido que não teve o nosso amor
pelo pão que nos recusam pela liberdade sem fronteiras
pelas manhãs de sol sem mácula de grades
lutaremos meu Amor

Pela dádiva mútua da nossa carne mártir
pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial
pela cidade escravizada pela doçura de um beijo à despedida
lutaremos meu Amor

Pelos meninos tristes suburbanos
contra o peso da angústia contra o medo
contra a seta de fogo traiçoeira cravada
em nosso doce coração aberto
lutaremos meu Amor

Na aparência sozinhos multidão na verdade
lutaremos meu Amor

 

Daniel Filipe em A Invenção do Amor e Outros Poemas

segunda-feira, 24 de junho de 2024

MAS HÁ A NOITE

Mas há a noite. O estar sozinho

e no entanto acompanhado -- servo de um deus estranho

cumprindo o ritual jamais completo.

 

Mas há o sono. A lúcida surpresa

de um mundo imaterial e necessário,

com praias onde o corpo se desprende.

 

Mas há o medo. Há sobretudo o medo.

Fel, rancor, desconhecido apelo,

suor nocturno, rápido suicídio.


Daniel Filipe em A Invenção do Amor e Outros Poemas 

quinta-feira, 25 de abril de 2024

EI-LA A CIDADE


Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma

em praças ruas becos boîtes e monumentos

Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria

e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo
Ei-la a cidade prometida

esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor

Daniel Filipe em  A Invenção do Amor e Outros Poemas

Legenda: fotografia de Filipe Jorge em Lisboa Vista do Céu

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

SALA DE ESTAR

Teu sonho tem a forma de um navio,

inesperadamente enraizado

entre pólipos, limos, rapazio

do cais abandonado.

 

Para a viagem que não há, arvora

o negro pavilhão das aventuras.

– Vê-lo-ás partir um dia, no remanso da aurora,

sereno recendo o vento nas amuras.

 

Onde irá naufragar? A que praia distante

irá fazer aguada num domingo de sol?

A que estranha paisagem a brisa do levante

o levará, talvez? A que pérfido atol?

 

 (Entanto, só navio

 moldura da sala,

é quase o desafio

de quem conhece e cala.)

 

Daniel Filipe, de A Ilha Imaginada em Pátria, Lugar de Exílio

domingo, 25 de abril de 2021

EI-LA A CIDADE


Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma

em praças ruas becos boîtes e monumentos

Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria

e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo
Ei-la a cidade prometida

esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor

Daniel Filipe em  A Invenção do Amor e Outros Poemas

Legenda: fotografia de Filipe Jorge em Lisboa Vista do Céu

quinta-feira, 15 de abril de 2021

MEU PAÍS


Meu país meu pais

Do céu límpido calmo

De campos cultivados

De praias e montanhas.

 

É para ti meu canto

A minha esperança.

 

Ouço a tua voz triste

Oh, meu país sem culpa

Ouço-a nos dias mornos

No amanhecer cinzento.

 

E é para ti meu canto

A minha esperança.

 

Meu país onde a traição domina

E o medo assoma nas encruzilhadas

Meu país de prisões e covardias

E de ladrões de estradas.

 

Meu país de operários

Cavadores, marinheiros

Meu país de mãos grossas

Plebeu, sensual, resistente.

 

É para ti meu canto

A minha esperança.

 

Para ti meu país

Levanto a minha voz sobre o silêncio

Desta noite de angústias

E de medos.

 

Nada pode calar

O nosso riso aberto

Ei-lo que invade

A terra portuguesa

E vozes juvenis

formam o coro.

 

Por isso é para ti meu canto

A minha esperança.

 

Já ouço passos,

Vêm na distância

Desfraldando bandeiras e cantando

E é para ti ó meu país liberto

O seu canto de esperança e claridade.

Daniel Filipe

quarta-feira, 10 de março de 2021

RECADO PARA A AMIGA DISTANTE


Nem palavras. Nem medos. Nem serenas 

pálpebras descidas sobre o sonho. 

Apenas a tua mão na minha. E o rumor 

da música do cego, àquela esquina.

 

Amo-te. E depois? A vida escorre 

pelas paredes da prisão-país. Morrem poetas. 

Máquinas rodam no silêncio. Esperas 

acontecem, de súbito, violentas.

 

Como menino a quem foi dado o nome 

sem mistério de seus pais, 

olho sobre o teu corpo a ondulação da música 

e anseio as tuas coxas reveladas.

 

Daniel Filipe

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

NATAL


A velha imagem. Um deus à minha espera,
nu e pobre.
Com firmeza artesanal da hera,
presa ao muro que cobre.

Mas uma pedra humaníssima destrói
a estrutura vegetal do pólipo gigante:
bichinho que rói, rói,
e segue adiante.

Entanto, permanece
o mistério velado.
E uma rosa amanhece
neste Maio adiado.

Daniel Flipe em Natal… Natais

segunda-feira, 8 de julho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Notícias do Bloqueio
Nº 5

Direcção literária: Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos
                                 Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro
Gráfica: Álvaro A. Portugal
Desenhos: Querubim Lapa
Porto, Dezembro de 1958

Ofensiva da Primavera

Não basta estender as mãos vazias para o corpo
        mutilado, acariciar-lhe os cabelos e dizer: Bom dia,
        meu Amor.     Parto amanhã.
Não basta depor nos lábios inventados e frescura de
        um beijo doce e leve e dizer:     Fecharam-nos as
        portas.    Mas espera.

Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exacta nos
        contornos a que a mão se afeiçoa e dizer: A Morte
        é o caminho.

Não basta olhar o Amante como um crime ou uma
         injúria e apesar disso murmurar: Procuro o esque-
         cimento.

Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz
        distante, entre ruídos de música e interferências
        aladas.

Não basta ser feliz.

Não basta a Primavera.

Não basta a solidão.

(Poema de Daniel Filipe)

quarta-feira, 25 de abril de 2018

EI-LA A CIDADE


Quarenta e sete anos, dez meses e vinte e quatro dias durou a barbárie salazarenta/marcelista, o tempo do desprezo, como lhe chamou Mário Dionísio.

Éramos um país que vivia debaixo de um atraso sem medida, tempos terríveis que só quem neles viveu tem a justa medida – quem passa por elas é que sabe!

O avô senta o neto nos joelhos e conta: foi assim.

Acreditávamos.

Tão só.

Quem não viveu, esqueceu ou renunciou às delícias das ilusões desses grandes dias nunca vai conhecer o exacto perfume das flores.

A festa foi bonita, pá.

Manuel António Pina:

Durou, o sonho, só uma semana, mas esse é um património que ninguém nos tirará. Na tarde do 1º de maio, já nos confrontávamos uns com os outros.
De então para cá, tem sido o que se sabe. Carlyle escreveu que as revoluções são sonhadas por idealistas, realizadas por radicais, e que quem delas se aproveita são os oportunistas de todas as espécies.

Quarenta e quatro anos sobre a madrugada que esperávamos, lembrando Sophia, quando emergimos da noite e do silêncio.

Também escreveu José Saramago:

Nenhum dia é festivo por ter já nascido assim: seria igualzinho aos outros se não fossemos nós a «fazê-lo» diferente.

Ao longo destes anos, tenho vindo a ouvir os que, a partir de um certo tempo, sempre anunciarem que o 25 de Abril se tornaria num 5 de Outubro.

Nunca acreditei e ainda não vi a possibilidade de isso vir a acontecer.

Gente que pensa que a memória do 25 de Abril é algo difuso, que com o tempo se tornará insignificante, gente que advoga o silêncio como um argumento.

Serenamente vos digo:

Não há nenhum 25 de Abril em que não me venha à memória, o 1º poema de Canto e Lamentação na Cidade Ocupada, incluído em  A Invenção do Amor e Outros Poemas, de Daniel Filipe lido, relido vezes sem conta, nos tais tempos difíceis:

 Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma

em praças ruas becos boîtes e monumentos

Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria

e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo
Ei-la a cidade prometida

esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

sábado, 21 de abril de 2018

ELEGIA PARA A JOVEM SUICIDA


A que se deu por rosa, a que por flor
escondeu  o nome de seu nome;
a que por Amadis e Galaor
matou a própria fome…

A que viveu em trevas e dizia
às flores, aos animais,
o lúcilo bom dia!
De quem sabe o navio, o porto, o cais…

A que, por Junho morno,
soube ofertar a carne sem pecado;
e, entre sonho e viagem sem retorno,
foi asa de avião despedaçado…

A que, de súbito, chorou
desenhando no ar o brando gesto inútil,
morreu esta manhã.
                                     Em voo cego rasgou,
Contra a vidraça, a túnica inconsútil.

Daniel Filipe em Pátria, Lugar de Exílio

sábado, 20 de janeiro de 2018

SOBRE UM VERSO TOMADO DE EMPRÉSTIMO


É no verão que o fruto amadurece,
claro sinal do tempo definido.
E a cada passo o sol-aranha tece,
em cor, as frágeis malhas do vestido.

É no verão também que somos mais
da terra onde nascemos e esperamos
o barco que nos leve e o próprio arrais:
pelo sonho é que vamos.

Bagagem: esta esperança merecida
com sua cor de sangue verdadeira.
E é quanto basta, ó companheira,
para ser nossa, a vida!

Daniel Filipe em Pátria, Lugar de Exílio

sexta-feira, 15 de julho de 2016

REQUIEM PARA UM DEFUNTO VULGAR


Antoninho morreu. Seu corpo resignado
é como um rio incolor, regressando à nascente
num silêncio de espanto e mistério revelado.
Está ali - estando ausente.

Jaz de corpo inteiro e fato preto.
Ele, da cabeça aos pés,
trivial e completo,
estátua de proa e moço de convés.

Jaz como se dormisse (pelo menos
é o que dizem as velhas carpideiras).
Jaz imóvel, sem gestos, sem acenos.
Jaz morto de todas as maneiras.

Jaz morto de cansaço, de pobreza, de fome
(sobretudo, de fome). Jaz morto sem remédio.
É apenas, sobre um papel azul, um nome.
De ser mais qualquer coisa, a morte impede-o.

Jaz alheio a tudo à sua volta,
à grita dos parentes, companheiros,
como um cavalo à rédea solta
ou no mar largo, os rápidos veleiros.

Jaz inútil, feio, pesado,
a colcha de crochet aconchega-o na cama.
Nunca esteve tão quente e animado.
Nunca foi tão menino de mama.

Os filhos olham-no e fazem contas cuidadosas:
padre, enterro, velório, certidão
de óbito... E discutem, com manhas de raposas,
os parcos bens e a possível divisão.

Entanto, sobre o leito que foi da vida de casado,
Antoninho jaz morto. Definitivamente.
Os parentes e amigos falam dele no passado.
A viúva serve copos de aguardente.


Daniel Filipe em Pátria, Lugar de Exílio


Legenda: fotografia de Jeanloup Sieff

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


A Invenção do Amor

Daniel Filipe
Prefácio: Francisco Espadinha
Colecção Forma
Editorial Presença, Lisboa s/d

Mas há a noite. O estar sozinho
e no entanto acompanhado — servo de um deus estranho
cumprindo o ritual jamais completo.

Mas há o sono. A lúcida surpresa
de um mundo imaterial e necessário,
com praias onde o corpo se desprende.

Mas há o medo. Há sobretudo o medo.
Fel, rancor, desconhecido apelo,
suor nocturno, rápido suicídio.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

DANIEL FILIPE


Há 90 anos, na Ilha da Boavista em Cabo Verde, nascia Daniel Filipe.

Em todas as esquinas da cidade, nas paredes dos bares um cartaz denuncia o nosso amor.

É assim que começa o belíssimo poema a Invenção do Amor.

Um cartaz denuncia que um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel, numa tarde de chuva, e inventaram o amor com caracter de urgência.

Apenas em alfarrabistas – e é necessário ter um grão de sorte – é que é possível os livros deste poeta de quotidianos de homens e mulheres que tinham olhos, coração e fome de ternura.

Foi tudo calculado com rigores matemáticos. Já não podem escapar.

Escaparam.

Com dificuldades múltiplas até que chegou aquele dia inicial inteiro e limpo em que olhámos a cidade prometida e esperámos por ela tanto tempo.


Pátria, Lugar de Exílio

Neste ano de 1962
não como Nazim Hikmet no avião de pedra
mas na minha cidade
livre de ir onde quiser
e no entanto prisioneiro
neste ano de 1962
exactamerite
em Lisboa
Avenida de Roma número noventa e três
às três horas da tarde

Neste ano de 1962
encostado a urna esquina da estação do Rossio
 esperando talvez a carta que não chega
um amor adolescente
meu Paris tão distante
minha África inútil
aqui mesmo

aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura
cumprindo os pequenos ritos quotidianos
cigarro após o almoço
café com pouco açúcar
má-língua e literatura

Aqui mesmo a não sei quantos graus de latitude
e de enjoo crescente
solitário e agreste
invisível aos olhos dos que amo
ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado
com um erro de contas
incapaz de dizer toda a minha ternura
operária de fábrica com três filhos famintos

Aqui mesmo envolto na placidez burguesa
higienicamente limpo e com os papéis em ordem
vestido de nylon dralon leacril
com acabamentos sanitized
e lugar marcado junto do aparelho de TV
eu
enjoado de tudo e contemporizando com tudo
eu
peça oleada do mecanismo de trituração
eu
incapaz de suicídio descerrando um sorriso-gelosia
eu
apesar de tudo vivo apesar de tudo inquieto
apesar de tudo farto
eu
neste ano de 1 962
exactamente
não ontem mas precisamente às três horas da tarde
pela hora oficial
exilado na pátria

Daniel Filipe em Pátria, Lugar de Exílio

sábado, 2 de março de 2013

EI-LA QUE FICA E SOBREVIVE


Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida

Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma
em praças ruas becos boîtes e monumentos

Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz

Ei-la resplandecente de amor teoria
e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la que fia e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo

Ei-la a cidade prometida
esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor

Daniel Filipe em Canto e Lamentação na Cidade Ocupada de A Invenção do Amor, Editorial Presença, Lisboa s/d.