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sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

POSTAIS SEM SELO


«Neste inverno há homens que enlouquecem e outros que se salvam. Todos caem, alguns saberão levantar-se.»

― Nuno Camarneiro em Debaixo de Algum Céu

terça-feira, 6 de abril de 2021

POSTAIS SEM SELO

Deve ser aborrecido a morte sem vivos que nos escrevam.


 Nuno Camarneiro em Debaixo de Algum Céu

terça-feira, 23 de março de 2021

POSTAIS SEM SELO


Quando alguém conta um dia ou uma vida está a calar quase tudo, as vidas são imensas e não se podem contar só por palavras. Haveria que inventar artes de encher o silêncio e de descobrir nele o peso certo do que somos. O que se é só se pode encontrar no que não é dito, nas culpas deixadas dentro, nos castigos que se vão escolhendo.

Nuno Camarneiro em Debaixo de Algum Céu

Legenda: imagem Shorpy

domingo, 6 de dezembro de 2020

POSTAIS SEM SELO

O medo nasce em qualquer lugar, como erva daninha por dentro. O medo suporta tudo e cresce no escuro até ser adulto, até ser do tamanho de um homem, e lhe tomar o corpo e pensar por ele.

Nuno Camarneiro em Debaixode Algum Céu

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

DEMORAR NO QUE DÓI

Somos todos uns sentimentais e por isso demoramos no que nos dói. Temos o choro fácil que dá ou não dá em lágrimas, guardamos as dores cheias de pormenor enquanto as felicidades ficam por ali, confusas, com algumas caras, alguns sons, incertas e vagas. Lembramos os sapatos que calçávamos quando alguém morreu, a hora da notícia, o programa que passava nesse instante e até as vergonhas que pensámos. Folheemos as páginas do riso e pouco encontraremos, algumas frases, momentos caricatos, elementos de uma paisagem. Pouco e mal contado, estávamos distraídos, demasiado ocupados na felicidade para lhe fazermos o retrato. Somos tolos e sentimentais, temos arcas cheias de mágoas que não esquecemos e que abrimos a todo o momento a ver se ainda nos doem, e doem sempre. Descuramos o arquivo do bem que apesar de tudo nos vai acontecendo, somos tolos de lágrimas.

 Nuno Camarneiro em Debaixo de Algum Céu

 Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

domingo, 10 de maio de 2020

POSTAIS SEM SELO




Há uma idade a partir da qual nenhuma realidade supera a memória, por isso os velhos falam pouco e ficam horas virados para dentro, por isso se deitam cedo e esperam o sono como um amigo antigo.

Nuno Camarneiro em Debaixo de Algum Céu  

domingo, 12 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DiFÍCEIS



Já vos disse, do arrepio dos dias que vão correndo deste isolamento que nos impuseram.

Não quero discutir se, este isolamento, foi excessivo, ou se podia ter sido algo diferente.

Pela manhã, começo por olhar a nesga de rua que vejo na frente do prédio em que vivemos há quase 50 anos.

Passa uma ou duas pessoas, carros quase nenhuns, volta e meia o «30» Picheleira/Picoas e volta, quase vazio, faz a sua passagem.

Depois vou até à varanda das traseiras. Aqui o caso muda largamente de figura.

Mas neste domingo, não quero que olhem a cidade, antes a nespereira que vêem quase em primeiro olhar.

Ali é o quintal do Orlando.

Se há um tempo de cerejas, também há um tempo de morangos e de nêsperas.

Aliás há um tempo de tudo, dispensávamos era este tempo de Covi-19.

A fotografia não é muito feliz e talvez não consigam perceber que as nêsperas já estão gordas, bem amarelecidas, prontas para serem apanhadas, antes que os pássaros, com aqueles seus olhos de lente as biquem, finórios que são, sabem o que é bom.

Talvez mais uns dias e o Orlando há-de aparecer com um cestinho com nêsperas bem rijas e a desfazerem-se em mel e não faltar´~ao para compor o cenário, algumas folhas da respectiva árvore
.
São nêsperas terrivelmente biológicas porque o Orlando não lhe põe um grama que seja de qualquer químico.

Daí não aguentarem mais que um dia ou dois, mas tanto não é necessário para que o cestinho seja devolvido vazio até à próxima apanha.

Por nêsperas, se dirá que hoje não haverá música.

Será o tempo de o Senhor Mário Viegas dizer um poema, de outro senhor: o Mário-Henrique Leiria.


Rifão quotidiano

«Uma nêspera
estava na cama
Deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece»


Sim, foi Domingo de Páscoa.

Se alguém nos chamou, não respondemos.

Dizer o quê?

1.

Marcelo Rebelo de Sousa, há uns meses atrás, muito antes do Covid-19, dizia que colocava uma sua recandidatura à presidência da república, nas mãos de Deus.

2.

João Lopes no seu Covid-20:

«O cancelamento de tudo o que seja espectáculo (com) público constitui uma catástrofe para o mercado de trabalho. Mais do que isso: é um sintoma civilizacional. Abre uma ferida cruel, porventura insanável, que, sendo de natureza económica, é acima de tudo visceralmente cultural. E só ficaremos surpreendidos se nos esquecermos que o cultural é a instância em que mais directamente se exprime, edifica e transfigura o económico. Perversamente, tudo isto tende a favorecer a consolidação de uma sociedade em streaming, esse paraíso prometido, promovido e comercializado pelos GAFA (Google + Amazon + Facebook + Apple). Não foram eles que criaram o vírus, claro — evitemos a paranóia das conspirações. O certo é que já tinham inventado a paisagem viral que passámos a encarar como se fôssemos os primeiros habitantes de uma nova ideia de Natureza.»

3.

A presidente da Comissão Europeia diz que os idosos podem ter de isolar-se até ao fim do ano.

4.

«Somos todos uns sentimentais e por isso demoramos no que nos dói.»

Nuno Camarneiro em Debaixo de Algum Céu

terça-feira, 7 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Neste tempo parado no tempo, o tempo dá para tudo: pensar em chocolates, numa sopa de tomate com ovos escalfados à alentejana, prometida há muito à Aida, lembrar coisas de que nunca se pensa que nos iríamos lembrar tanto, a importância da memória, os suores frios quando topamos que a memória começa a tropeçar, a angústia de perder a memória.

Porque a memória segura um edifício que é a maneira como olhamos a rua onde nascemos, onde corremos, demos e levámos porrada, de onde olhamos o mundo, de onde tudo se olha.

Porque somos aquilo que fomos fazendo e a recordação do que fizemos.

O tempo agora é o tempo de não termos medo de perder tempo.

A memória do tempo. No tempo da memória. Para que a memória não esqueça.

Chegar a um poema de Jorge de Sena, um lindíssimo e dramático poema, palavras de quem, muito tarde na noite, se sente cansado, ouve a sonata para violino e piano de César Franck, sente que o cansaço não o larga e antevê o profundo silêncio do que há-de chegar.

«É tarde, muito tarde da noite,
trabalhei hoje muito, tive de sair, falei com vária gente,
voltei, ouço música, estou terrivelmente cansado.
Exactamente terrivelmente com a sua banalidade
é o que pode dar a medida do meu cansaço.
Como estou cansado. De ter trabalhado muito,
ter feito um grande esforço para depois
interessar-me por outras pessoas
quando estou cansado demais para me interessarem as pessoas.

E é tarde, devia ter-me deitado mais cedo,
há muito que devera estar a dormir.
Mas estou acordado com o meu cansaço e a ouvir música.
Desfeito de cansaço,incapaz de pensar, incapaz de olhar,
totalmente incapaz até de repousar à força de cansaço.
Um cansaço terrível
da vida, das pessoas, de mim, de tudo.
E fumo cigarro após cigarro no desespero
de estar tão cansado. E ouço música
(por sinal a sonata para violino e piano de César Franck,
e depois os Wesendonck Lieder)
num puro cansaço de dissolver-me
como Brunhilda ou como Isoldano que não aceitarei nunca,
l' amor che muove il sole e l' altre stelle.
Nada há de comum entre esse amor de que estou cansado,
e o outro que não ama, apenas queima e passa ,
e de cuja dissolução no espaço e no tempo em que vivo
estou mais cansado ainda. Dissolvam-se essas damas
que eram princesas ou valquírias, se preferem, no eterno.

Eu estou cansado de não me dissolver
continuamente em cada instante da vida,
ou das pessoas, ou de mim, ou de tudo.
Qu' ai-je à faire de l' eternel? I live here.
Non abbiamo confusion. E aqui é que morrerei
danado de cansaço, como hoje estou
tão terrivelmente cansado.»

                                        

1.

Julio Anguita, militante espanhol da Esquerda Unida:

«Muitos vão ter que apertar o cinto, o problema é que há gente já que nem cinto tem.»

2.

Pelo menos 33.366 empresas já se candidataram ao ‘lay-off’ simplificado, o que correspondente a um universo de 556.751 trabalhadores.

3.

A Organização Internacional do Trabalho considera que o mercado de emprego está a enfrentar com a pandemia do coronavírus a sua crise mais grave desde a Segunda Grande Guerra. Há 1,25 mil milhões de trabalhadores em risco elevado de despedimento ou de redução salarial.

4.

«Os Richmonds estão inundados e a electricidade foi-se. Deus está-nos a testar e eu por mim quero estar preparada. Onde é que está a vodka?»

- Diane, a personagem de Elaine Strich em Setembro, filme de Woody Allen.

5.

Os negros números:

Itália

17.127 mortes

Espanha

13.912 mortes

Estados Unidos

10.335 mortes

França

10.328 mortes

Grã-Bretanha

6.159 mortes

Irão

3.872 mortes

China

3.212 mortes

Holanda

2.101 mortes

Bélgica

2.035 mortes

Alemanha

1.983 mortes

Portugal

345 mortes

Mundo

81.200 mortes

 6.

«O medo nasce em qualquer lugar, como erva daninha por dentro. O medo suporta tudo e cresce no escuro até ser adulto, até ser do tamanho de um homem, e lhe tomar o corpo e pensar por ele.»

Nuno Camarneiro em Debaixo de Algum Céu

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

POSTAIS SEM SELO


Não é o sentido da vida que me preocupa, mas o meu sentido na vida.

Nuno Camarneiro em Debaixo de Algum Céu

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


O amor não é fácil em nenhuma idade e dói tanto ceder-lhe como fugir-lhe. Mas o amor é o que há, e eu estou velho para morrer sozinho.

Nuno Camarneiro em Debaixo de Algum Céu

Legenda: fotografia de Jane Fleming

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Somos todos uns sentimentais e por isso demoramos no que nos dói. Temos o choro fácil que dá ou não dá em lágrimas, guardamos as dores cheias de pormenor enquanto as felicidades ficam por ali confusas, com algumas caras, alguns sons, incertas e vagas.

Nuno Camarneiro em Debaixo de Algum Céu

Legenda: imagem Shorpy

terça-feira, 30 de julho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Debaixo de Algum Céu

Nuno Camarneiro
Capa: Rui Garrido
Leya, Lisboa, Março de 2013

O problema é desenhar a vida em forma de montanha, dar um cume à vida e querer atingi-lo como se o seu sentido dependesse desse acto. O sentido da vida, a existir, há-de ser como o sentido de uma montanha, e não muda por lhe chegarmos ao topo ou nos perdermos pelas encostas. Penso assim porque fiquei a meio, pior ainda, porque fiquei a escassos metros do topo. Mas o provlema de atingir um objectivo é decidir o que fazer depois de o atingir, e em nada é diferente a minha situação por o não ter atingido. Com que devo preocupar-me agora, que não tenho com que me preocupar?

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

O CONSULTÓRIO DO SENHOR SIMÕES



- Sabe que no meu tempo era a fome que matava, agora é a comida que faz mal.
Quem fala é o senhor Simões, a propósito de uma notícia sobre alergias alimentares.
- Olhe que no outro dia, palavra de honra, vieram aqui três rapazitos e uma rapariga e sentaram-se para almoçar. Ela disse logo que era vegetariana, se lhe fazíamos uma salada com tomate e cenoura ou assim; houve outro que perguntou se os filetes tinham glúten, veja lá você, filetes de pescada tão fresquinhos... Era quinta-feira e a Aida tinha feito cozido, ainda perguntei aos outros se queriam mas até se arrepiaram, que não comiam carnes vermelhas nem enchidos.
Encolho os ombros, pois, são modas, senhor Simões.
- Então mas eu tenho culpa? Olhe, tive de lhes dizer que isto aqui é um restaurante, não é o médico de família.

Nuno Camarneiro no Diário de Notícias on-line

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

OS JORNAIS, O PEIXE E A VERDADE


Dizia-se antigamente que as notícias e as crónicas de jornais, após serem lidas, só serviam para embrulhar o peixe ou as castanhas assadas. O advérbio "só" acentuava a vacuidade do gesto, a pretensão do autor e o pragmatismo do leitor. Passadas algumas décadas talvez devêssemos trocar o "só" por um "ainda". Sim, era possível reutilizar as notícias, dar-lhes um propósito e um fim digno e utilitário.
Talvez nos embrulhemos a nós, protegendo não as mãos mas as cabeças de tanto ruído, de tantos boatos, de tanta manipulação produzida por fontes incertas ou mal-intencionadas.
Uma pergunta segue a constatação: Para que servem os jornais de hoje? Que fim lhes havemos de dar se, muitas vezes, nem matéria são, capazes de isolar o calor ou de absorver a gordura que não queremos nas mãos? Que poderemos embrulhar nos muitos bits e bytes que nos chegam a todo o momento?
Talvez nos embrulhemos a nós, protegendo não as mãos mas as cabeças de tanto ruído, de tantos boatos, de tanta manipulação produzida por fontes incertas ou mal-intencionadas. Os jornais continuam a embrulhar ideias, factos e, de vez em quando, um pouco de poesia. É pouco? Não, não é nada pouco.

Nuno Camarneiro no Diário de Notícias, on-line

terça-feira, 20 de novembro de 2018

UMA DAS MELHORES FORMAS DE ESCREVER


"Nenhuma cidade deve ser tão grande que não possa ser percorrida a pé numa manhã", a frase pertence ao escritor e crítico inglês Cyril Connolly que a escreveu na década de 40, quando a sua Londres contava já com mais de quatro milhões de habitantes e precisava de bem mais do que uma manhã para ser percorrida.
Não sei em quanto tempo se poderá dar uma volta completa a Lisboa, mas o Bairro dos Anjos leva-me pouco menos de duas horas, incluindo becos, travessas e escadinhas e uma pausa para café. Caminhar é umas das melhores formas de escrever, já que as ideias vão atrás dos olhos, tentando ligar as personagens aos locais, o que se mostra ao que está escondido, a realidade à ficção.

Nuno Camarneiro em Diário de Notícias on-line