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sábado, 25 de julho de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


 

Luís Represas: a voz dos Trovante.

Um tempo e uma voz que partem.

O caminhar dos dias.

Lembrar o 1º LP, ouvido, quase religiosamente.

Lembrar, não esquecer, é o que nos resta.





sexta-feira, 22 de julho de 2022

JOSÉ MILHAZES DEU INÍCIO À FESTA DO AVANTE!


É a maior festa de sempre.

Em que sentido? No sentido da sua duração. A Festa do Avante! tem duas partes: uma que acontece durante três dias na Quinta da Atalaia, no Seixal, e a da luta no espaço público que a antecede. São as duas boas, mas, sem desfazer da primeira, a da luta que precede a festa propriamente dita é extraordinária.

Este ano foi José Milhazes que, na SIC-Notícias, abriu a pista. Afirmou-se surpreendido por existirem artistas dispostos a atuar nos palcos de um evento que, recordou, é político. Mostrou o cartaz do evento, onde se podem ver nomes como Carminho, Paulo Bragança, Paula Oliveira e Ricardo Ribeiro.

Recordemos que já atuaram no Avante! Camané, Carlos do Carmo, Bernardo Sassetti, Blind Zero, Capicua, Ana Moura, Carlos Paredes, Zeca Afonso, Da Weasel, GNR, Jorge Palma, Madredeus, Trovante, Sérgio Godinho, Xutos e Pontapés e tantos outros. Difícil é encontrar grandes nomes da música em Portugal que não tenham atuado na festa.

O que mudou agora?

 Para Milhazes, e não está isolado nessa posição, a festa de um partido com mais de cem anos deve ser cancelada em razão das posições que tem assumido relativamente à invasão da Ucrânia. Os artistas deveriam, na sua ótica, alinhar neste cancelamento ou boicote.

Milhazes lançou os artistas, que figuram no cartaz deste ano, num escrutínio popular que, sabemos, é feroz e intolerante. Estes artistas viram-se assim envolvidos numa discussão na qual provavelmente nunca participaram nem desejaram fazê-lo. Conseguiu o que queria. Muitas pessoas alinharam nessa crítica e na destilação de ódio ao partido e à Festa do Avante!. Outros, em menor número, escolheram defender a festa e a liberdade de ir ou de participar. É oficial: a festa começou.

Atuar na Festa do Avante!, ou ir lá, não implica necessariamente ser comunista. É certo que, quem lá vai, não sentirá pelo PCP o repúdio que José Milhazes sente. Não é caso único. Mais jornalistas, supostamente isentos porque o fazem no exercício desta profissão, continuam a vir a público premir o gatilho contra o partido ou incitar a que outros o façam.

As posições que o PCP defende relativamente à guerra são diferentes das que lhe são atribuídas. Mas adiante – já não é assunto. Sobretudo, não são merecedoras de um apagamento de cem anos de História e de luta ao lado dos trabalhadores portugueses. Disse um amigo que não é comunista: “Portugal não é grande coisa, mas seria muito pior sem o PCP.”

Não gostaria de viver num país onde os artistas se recusassem atuar no Avante!. Seria sinal de tristes tempos. Tenho a convicção que parte dos artistas que aceitou atuar na festa não o fez por concordar com as posições do partido relativamente à guerra na Ucrânia ou tão pouco para marcar presença em prol do fim da precariedade laboral. Ter-se-ão limitado a reconhecer naquele evento um momento de divertimento, convívio e democracia que faz parte do calendário das festividades dos portugueses.

Retirar consequências políticas da presença no cartaz, e num tema tão polarizador como a guerra, não é sério e não é justo. Milhazes quer rebaixar o PCP à categoria de partido repulsivo e faz campanha pública nesse sentido. Sucede que, se fosse bem sucedido nessa demanda, não era a Rússia ou Putin que ficariam a perder; seriam os trabalhadores portugueses, a esquerda de um modo geral e a própria democracia.

Não se deve levar a mal porque estes episódios já são a festa. Aconteceu também no ano passado, mas com a pandemia. Houve o terrível escândalo de se atreverem a realizar o evento e de terem autorização para o efeito. Muita tinta correu. Recorde-se que fizeram tudo de forma organizada e exemplar. E que não houve notícia de qualquer surto. Recorde-se também que havia pessoas de grupos de risco a participar. Ou seja: recorde-se que, no fim, deram uma lição de como fazer as coisas bem feitas.

Alguém deveria informar Milhazes, e seus congéneres, que esta forma de combater o Partido Comunista Português não resulta. Sá Carneiro ao menos sabia qual era – e é – a empreitada do PCP

Já no mês passado, em Tomar, na apresentação do seu livro, respondendo à provocação de poder vir a enriquecer com a venda, Milhazes anunciou que compraria a Quinta da Atalaia. Já queria festa. Nem o Natal se prepara com tanta antecedência.

Alguém deveria informar Milhazes, e seus congéneres, que esta forma de combater o Partido Comunista Português não resulta. Estão a radicalizar quem tiver uma mera simpatia, a chamar para as trincheiras quem só estava a apanhar sol. Sá  aqui não resisto: “A melhor maneira de combater o comunismo é melhorar as condições dos trabalhadores.” Sá Carneiro ao menos sabia qual era – e é – a empreitada do PCP.

Carmo Afonso no Público de hoje

domingo, 9 de julho de 2017

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Cada vez me espanto mais com os recortes que guardei ao longo dos anos sobre as coisas mais variadas e muitas – hoje – inexplicáveis.

Não é o caso do Suplemento Literário de A Capital dos dias 20 e 27 de Agosto de 1969.

Bons tempos em que havia suplementos literários, havia divulgação cultural, havia, boa ou má, crítica literária.

Esta é a apresentação que Maria Teresa Horta escreveu para o suplemento de 20 de Agosto:


Poemas e poetas antologiados:

Identidade – Miguel Torga
A Bicicleta pela Lua Dentro – Herberto Helder
XXVII – José Gomes Ferreira
Renúncia – Florbela Espanca
Fado para a Lua de Lisboa – David Mourão-Ferreira
Noite de Verão – Manuel da Fonseca
Noite Fechada – Cesário Verde
17 – João Apolinário
Apolo – Sebastião da Gama
Quando a Lua Vier Tocar-me o Rosto – Ana Hatherly
Lua – Sophia de Mello Breyner Andersen

Do poema de Manuel da Fonseca os Trovante fizeram uma canção que consta do álbum «Terra Firme» de 1987:



 Esta é a apresentação que Maria Teresa Horta escreveu para os depoimentos que solicitou:


Responderam ao inquérito:

José Gomes Ferreira, João Rui de Sousa, E,M, de Melo e Castro, David Morão-Ferreira, Maria Alberta Meneres, Manuel da Fonseca, Ana Hatherly.

Do depoimento de Maria Alberta Meneres:

«Nunca me preocupei com o lugar que a Lua tem ou não ocupado na minha poesia. Mas hoje, 14 de Agosto de 1969, lembrei-me de me preocupar. E descobri esta coisa espantosa, de perfeitamente inesperada: em vez de me ter sentido atraída, parece que devo ter tido sempre um certo medo da Lua!
Para mim agora a Lua é essencialmente um lugar. Não sei se os poetas continuarão a falar nos seus poemas da Lua de que falavam, ou de outra Lua de nunca falaram, nem sei mesmo se seria da Lua que eles falavam quando falavam da Lua. Eles o saberão ou não.
Eu apenas sei de mim: porque hei-de deixar de falar da Lua nos meus poemas, quando me apetecer, se a Lua sendo um lugar, pode ser meu caminho de passagem para outros lugares?»

Este é o depoimento escrito que José Gomes Ferreira enviou para Maria Teresa Horta:

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

CHÃO NOSSO


A imagem reproduz a actuação do grupo “Trovante” na Festa do Avante de 1977, a primeira que se realizou no Vale do Jamor.

Se os Trovante são um marco na música portuguesa devem-no, essencialmente, ao seu primeiro disco “Chão Nosso” e às actuações que ao longo dos anos tiveram na “Festa do Avante”.
Ao que parece, num virar de uma qualquer esquina, mudaram de carreiro e fizeram por ir esquecendo esses primeiros quão importantes passos. O problema não está no facto de as pessoas mudarem de ideias, o problema mergulha na circunstância de que para se mudar de ideias é necessário que elas existam, como não basta dizer que se pensa por cabeça própria, porque o busílis da questão é que para que isso aconteça  é preciso ter cabeça.

Segundo o Programa da Festa desse ano, o grupo “Trovante” actuou, no domingo pelas 17,00 Horas, no “Palco 2” e apresenta o grupo nestes termos:

 “Estreou-se há um ano, numa jornada política e de convívio em que foi realizado um sorteio das EP para a primeira festa do Avante, onde participou com êxito assinalável.

Tem como objectivo fundamental o tratamento da música popular, trabalho a que se tem dedicado, com todas as energias e espírito criador, desde a sua fundação.
Já ganhou alguma experiência artística, adquirida em mais de sessenta actuações em espectáculos, sessões de canto livre e outras iniciativas culturais promovidas por organizações populares democráticas.



Participou em várias jornadas organizadas pela FEPU durante a campanha eleitoral para as autarquias locais.

É um grupo jovem, cheio de vontade em lutar pelo desenvolvimento da cultura e da música portuguesa populares do nosso país. O grupo é constituído pelo Luis Reprezas, Manuel faria, João Gil e Artur Costa. As idades vão dos 19 aos 22 anos. Tocam piano, viola, flauta, bandolim, reco-reco, maracas entre outros instrumentos. E realizam um interessante trabalho no âmbito da música popular, que procuram enriquecer e divulgar.
O grupo “Trovante” prepara-se para apresentar uma surpresa na Festa: vai pôr à venda o seu primeiro disco um LP com o título genérico “Chão Nosso”. Trata-se de um álbum com dez canções, que abordam temas da resistência, luta e esperança do Povo Português.
O poeta Francisco Viana, colaborador permanente do grupo é o autor de todos os poemas do álbum, que surge como uma nova fase, um grande passo de qualitativo, na vida do “Trovante”

O QUE FOI NÃO VOLTA A SER

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Costumo achar piada a estes encontros, desta vez fiquei com uma sensação de desilusão, O Trovante foi responsável por algumas das melhores músicas portuguesas, um projecto inovador que misturou música tradicional com pop, poderá dizer-se que fizeram história, e asseguraram lugar de destaque na mesma. No sábado passado voltaram ao mítico palco da Festa! aquele onde muitas bandas se transcendem, por onde passou a grande maioria da boa música que se tocou em Portugal nos últimos 35 anos, um palco que marca quem por lá passa, segundo testemunhos variados. O Trovante está intimamente ligado a esse palco e a essa Festa! mesmo que durante alguns anos um dos protagonistas o tenha renegado, até que no passado fim de semana se lembrou que afinal estiveram presentes desde a FIL, crescendo de mão dada com a Festa! e com o Partido que lhe dá alma.

Não há regras nestas coisas, há grupos que se reúnem ao fim de décadas, e aquilo parece que funciona como então, há outros que não, como foi o caso, na minha opinião. As músicas estão lá todas, e é verdade que a actuação foi em crescendo,  entraram com o “caravela” mal amanhado, mas depois lá se recompuseram, e tecnicamente até estão bem, mas notou-se perfeitamente que o fio condutor, a centelha que faz a diferença, perdeu-se entre eles. Aquilo é mais Represas e velhos amigos, do que Trovante. Nem sei se foi boa ideia ter assistido ao concerto, eu que os vi várias vezes quando eles eram a novidade e faziam sentido, mas agora já está, e como cantam os Xutos, o que foi não volta a ser…e no fim a Carvalhesa salvou a noite. Não há Festa! como esta.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A MINHA FESTA DO AVANTE!

FestaDoAvante_1981

Fui à grande maioria das Festas do Avante, desde 1976 na FIL, onde com 10 anos acompanhei os meus pais naquela que foi a primeira a ser realizada, e tenho vagas memórias da imensidão de gente que transbordava naquele espaço exíguo para a maior manifestação cultural que se tinha realizado em Portugal até então. Desci a serra de Carnaxide para ir ao Jamor, quando ali foram realizadas as seguintes Festas, depois de o trabalho Militante ter conquistado o terreno ao mato e canaviais que proliferavam no outrora hipódromo do Jamor. Depois quando o terreno estava limpo e decidiram que afinal aquele terreno, até ali abandonado, fazia falta para uma pista de crosse, naquele que foi o início dos ataques à incómoda Festa! E que perduram até aos nossos dias. Dizia eu que depois descia os Cabos de Ávila, e subia o Monsanto, até ao Alto da Ajuda, onde depois de se retirarem toneladas de pedra de um terreno onde pensaram ser impossível realizar o que quer que fosse, aconteceram as melhores e maiores Festas de que me lembro. Como disse no início, entre 1976 na FIL e 2010 na Quinta da Atalaia, terreno comprado pelo PCP para não ter que andar sempre a limpar terras abandonadas para os outros depois as rentabilizarem, fui a quase todas as Festas do Avante, mas a que me ficou sempre na memória como “A minha Festa!”, foi a de 1981 no Alto da Ajuda. Há acontecimentos que nos marcam para a vida, essa Festa foi um deles, talvez pelos meus 15 anos, pela envolvência da época musical que se vivia em Portugal, com um renascer em força do Rock Português, e numa época anterior aos “festivais de verão”, em que tocar no palco principal da Festa! era a consagração máxima que um artista português atingiria. Em clip_image0021981 tudo me encheu as medidas, a juntar ao idealismo próprio de quem estava no meio da adolescência, e de sentir todo aquele ambiente de solidariedade próprio da Festa! que na altura estava no seu auge, tive a felicidade de assistir aquele que foi para mim o melhor programa de sempre, passaram pelo palco 25 de Abril praticamente todos as grandes bandas Portuguesas de então. Desde os Salada de Frutas, com a lindíssima Lena d´Água clip_image004 que pouco depois saiu da banda, UHF na primeira de muitas aparições no evento, naquele que António Manuel Ribeiro considera como um dos maiores feitos da banda, ao tocarem para mais de 100.000 pessoas quando tinham pouco mais de um ano de gravações. Um verdadeiro programa de luxo, além dos já referidos, vi também Brigada Vítor Jara, Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo, Rui Veloso, Júlio Pereira, Os Tubarões, Trovante, Carlos do Carmo, Ary dos Santos, Ivan Lins e Lúcia Lina, José Afonso, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Edmundo Silva, Fernando Chaby entre outros, e aquele que para mim foi o melhor concerto da minha vida, Dexys Midnight Runners !! juntar um naipe de artistas deste numa colectânea discográfica já seria difícil, vê-los em palco, sucedendo-se em ritmo alucinante, foi uma coisa que me marcou para sempre, daí considerar esta a “Minha Festa do Avante”. Como dizem os Xutos, “o que foi não volta a ser” e é bem verdade...