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terça-feira, 27 de maio de 2025

OLHAR AS CAPAS

Terra

Sebastião Salgado

Texto de Introdução: José Saramago

Versos: Chico Buarque

Capa: Lélia Wanick Salgado

Editorial Caminho, Lisboa, Fevereiro de 1997

Cabral de Melo Neto

Oxalá não venha nunca à sublime cabeça de Deus a ideia de viajar um dia a estas paragens para certificar-se de que as pessoas que por aqui mal vivem, e pior vão morrendo, estão a cumprir de modo satisfatório o castigo que por ele foi aplicado, no começo do mundo, ao nosso primeiro pai e à nossa primeira mãe, os quais, pela simples e honesta curiosidade de quererem saber a razão por que tinham sido feitos, foram sentenciados, ela, a parir com esforço e dor, ele, a ganhar o pão da família com o suor do seu rosto, tendo como destino final a mesma terra donde, por um capricho divino, haviam sido tirados, pó que foi pó, e pó tornará a ser. Dos dois criminosos, digamo-lo já, quem veio a suportar a carga pior foi ela e as que depois dela vieram, pois tendo de sofrer e suar tanto para parir, conforme havia sido determinado pela sempre misericordiosa vontade de Deus, tiveram também de suar e sofrer trabalhando ao lado dos seus homens, tiveram também de esforçar-se o mesmo ou mais do que eles, que a vida, durante muitos milénios, não estava para a senhora ficar em casa, de perna estendida, qual rainha das abelhas, sem outra obrigação que a de desovar de tempos a tempos, não fosse ficar o mundo deserto e depois não ter Deus em quem mandar.

Se, porém, o dito Deus, não fazendo caso de recomendações e conselhos, persistisse no propósito de vir até aqui, sem dúvida acabaria por reconhecer como, afinal, é tão pouca coisa ser-se um Deus, quando, apesar dos famosos atributos de omnisciência e omnipotência, mil vezes exaltados em todas as línguas e dialectos, foram cometidos, no projecto da criação da humanidade, tantos e tão grosseiros erros de previsão, como foi aquele, a todas as luzes imperdoável, de apetrechar as pessoas com glândulas sudoríparas, para depois lhes recusar o trabalho que as faria funcionar –  as glândulas e as pessoas. Ao pé disto, cabe perguntar se não teria merecido mais prémio que castigo a puríssima inocência que levou a nossa primeira mãe e o nosso primeiro pai a provarem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. A verdade, digam o que disserem autoridades, tanto as teológicas como as outras, civis e militares, é que, propriamente falando, não o chegaram a comer, só o morderam, por isso estamos nós como estamos, sabendo tanto do mal, e do bem tão pouco.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

VELHOS RECORTES

Jorge Calado,  de uma crónica publicada no Expresso.

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

UM CHEIRINHO DE ALECRIM

             cantiga de amigo

                 tripartindo-se

  para o Chico Buarque de Hollanda

 

Chico
anda ver o meu país de generais.

Anda ver os marinheiros
nesta faina do peixe e do patrão.
O meu país de lobos e cordeiros.
Com generais a mais. E um novo capitão.
Anda ver Chico meu irmão
tanto Judas. E só trinta dinheiros.

2

Que festa é esta que estala
por dentro do coração?
É um cravo ou uma bala
que a gente põe na canção?
Que festa é esta que festa
que é feita de solidão?

Meu amigo meu amigo
tanto mar que nos separa!
Quanto mais loiro é o trigo
mais vermelha é a seara.
Estás comigo. E eu contigo.
Connosco está Victor Jara.

A canção é uma arma.
Se alguém lhe toca dispara.

3

Ai flores ai flores do alecrim
ai flores que te não mando
porque já murcham em mim.

Ai flores ai flores dói alecrim
porque te queimam a ti
porque me doem a mim?

Verde ramo. Rubro cravo.
Papoila negra do mando.
Já fui escravo. Livre escravo.
Serei escravo até quando?

Verde canção que cantada
mói por dentro. Dói por fora.
Os cravos da madrugada
morrem aqui. E agora.

Ai flores ai flores do alecrim
ai flores que te não mando
porque já murcham em mim.

Ai flores ai flores do alecrim
porque te queimam a ti
porque me doem a mim?

Joaquim Pessoa em Amor Combate

quinta-feira, 27 de abril de 2023

UM CRAVO E UM CHEIRINHO DE ALECRIM

Na véspera do 25 de Abril, finalmente Chico Buarque de Holanda, recebeu o Prémio Camões que lhe foi concedido em 2019.

Tal como ele muito bem lembrou:

«No que se refere ao meu país, quatro anos de um governo funesto duraram uma eternidade, porque foi um tempo em que o tempo parecia andar para trás. Aquele Governo foi derrotado nas urnas, mas nem por isso podemos nos distrair, pois a ameaça fascista persiste, no Brasil como um pouco por toda parte. Hoje, porém, nesta tarde de celebração, reconforta-me lembrar que o ex-Presidente teve a rara fineza de não sujar o diploma do meu Prêmio Camões, deixando seu espaço em branco para a assinatura do nosso Presidente Lula.»

 

O discurso de Chico Buarque de Holanda:

 

«Ao receber este prémio penso no meu pai, o historiador e sociólogo Sergio Buarque de Holanda, de quem herdei alguns livros e o amor pela língua portuguesa. Relembro quantas vezes interrompi seus estudos para lhe submeter meus escritos juvenis, que ele julgava sem complacência nem excessiva severidade, para em seguida me indicar leituras que poderiam me valer numa eventual carreira literária. Mais tarde, quando me bandeei para a música popular, não se aborreceu, longe disso, pois gostava de samba, tocava um pouco de piano e era amigo próximo de Vinicius de Moraes, para quem a palavra cantada talvez fosse simplesmente um jeito mais sensual de falar a nossa língua. Posso imaginar meu pai coruja ao me ver hoje aqui, se bem que, caso fosse possível nos encontrarmos neste salão, eu estaria na assistência e ele cá no meu posto, a receber o Prêmio Camões com muito mais propriedade. Meu pai também contribuiu para a minha formação política, ele que durante a ditadura do Estado Novo militou na Esquerda Democrática, futuro Partido Socialista Brasileiro. No fim dos anos sessenta, retirou-se da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo em solidariedade a colegas cassados pela ditadura militar. Mais para o fim da vida, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, sem chegar a ver a restauração democrática no nosso país, nem muito menos pressupor que um dia cairíamos num fosso sob muitos aspectos mais profundo.

O meu pai era paulista, meu avô, pernambucano, o meu bisavô, mineiro, meu tataravô, baiano. Tenho antepassados negros e indígenas, cujos nomes meus antepassados brancos trataram de suprimir da história familiar. Como a imensa maioria do povo brasileiro, trago nas veias sangue do açoitado e do açoitador, o que ajuda a nos explicar um pouco. Recuando no tempo em busca das minhas origens, recentemente vim a saber que tive por duodecavós paternos o casal Shemtov ben Abraham, baptizado como Diogo Pires, e Orovida Fidalgo, oriundos da comunidade barcelense. A exemplo de tantos cristãos-novos portugueses, sua prole exilou-se no Nordeste brasileiro do século XVI. Assim, enquanto descendente de judeus sefarditas perseguidos pela Inquisição, pode ser que algum dia eu também alcance o direito à cidadania portuguesa a modo de reparação histórica. Já morei fora do Brasil e não pretendo repetir a experiência, mas é sempre bom saber que tenho uma porta entreaberta em Portugal, onde mais ou menos sinto-me em casa e esmero-me nas colocações pronominais. Conheci Lisboa, Coimbra e Porto em 1966, ao lado de João Cabral de Melo Neto, quando aqui foi encenado seu poema Morte e Vida Severina com músicas minhas, ele, um poeta consagrado e eu, um atrevido estudante de arquitectura. O grande João Cabral, primeiro brasileiro a receber o Prêmio Camões, sabidamente não gostava de música, e não sei se chegou a folhear algum livro meu.

Escrevi um primeiro romance, "Estorvo", em 1990, e publicá-lo foi para mim como me arriscar novamente no escritório do meu pai em busca de sua aprovação. Contei dessa vez com padrinhos como Rubem Fonseca, Raduan Nassar e José Saramago, hoje meus colegas de Prêmio Camões. De vários autores aqui premiados fui amigo, e de outras e outros – do Brasil, de Portugal, Angola, Moçambique e Cabo Verde - sou leitor e admirador. Mas por mais que eu leia e fale de literatura, por mais que eu publique romances e contos, por mais que eu receba prêmios literários, faço gosto em ser reconhecido no Brasil como compositor popular e, em Portugal, como o gajo que um dia pediu que lhe mandassem um cravo e um cheirinho de alecrim. 

Valeu a pena esperar por esta cerimônia, marcada não por acaso para a véspera do dia em os portugueses descem a Avenida da Liberdade a festejar a Revolução dos Cravos. Lá se vão quatro anos que meu prêmio foi anunciado e eu já me perguntava se me haviam esquecido, ou, quem sabe, se prêmios também são perecíveis, têm prazo de validade. Quatro anos, com uma pandemia no meio, davam às vezes a impressão de que um tempo bem mais longo havia transcorrido. No que se refere ao meu país, quatro anos de um governo funesto duraram uma eternidade, porque foi um tempo em que o tempo parecia andar para trás. Aquele Governo foi derrotado nas urnas, mas nem por isso podemos nos distrair, pois a ameaça fascista persiste, no Brasil como um pouco por toda parte. Hoje, porém, nesta tarde de celebração, reconforta-me lembrar que o ex-Presidente teve a rara fineza de não sujar o diploma do meu Prêmio Camões, deixando seu espaço em branco para a assinatura do nosso Presidente Lula. Recebo este prêmio menos como uma honraria pessoal, e mais como um desagravo a tantos autores e artistas brasileiros humilhados e ofendidos nesses últimos anos de estupidez e obscurantismo.

Muito obrigado.»

 

Legenda: imagem do Público

sábado, 28 de janeiro de 2023

MÚSICA PELA MANHÃ

Numa entrevista à agência Associated Press, no início desta semana, o Papa Francisco declarou que «ser homossexual pode ser pecado, mas não é crime».

Crime e Pecado.

É provável que há quem fique um tanto ou quanto à nora com a afirmação do Papa, que tem sido visto como um Papa de vistas largas. Mas também se sabe que pelo Vaticano ainda passeiam uma série de mentalidades completamente retrógradas, autênticos velhos do Restelo como se diria por aqui.

Há uma canção do Chico, a que Ney Matogrosso deu uma interpretação deliciosamente provocante, em que se declara que não existe pecado no lado de baixo do Equador Equador.

É para lá que vanos!

Não existe pecado do lado de baixo do equador
Vamos fazer um pecado safado debaixo do teu cobertor
Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho
Um riacho de amor
Quando é lição de esculacho, olha aí, sai de baixo
Que eu sou professor

Deixa a tristeza pra lá, vem comer, me jantar
Sarapatel, caruru, tucupi, tacacá
Vê se me usa, me abusa, lambuza
Que a tua cafuza
Não pode esperar

Deixa a tristeza pra lá, vem comer, me jantar
Sarapatel, caruru, tucupi, tacacá
Vê se me esgota, me bota na mesa
Que a tua holandesa
Não pode esperar

Não existe pecado do lado de baixo do equador
Vamos fazer um pecado, rasgado, suado a todo vapor
Me deixa ser teu escracho, teu cacho
Um riacho de amor
Quando é missão de esculacho, olha aí, sai de baixo
Que eu sou embaixador

Deixa a tristeza pra lá, vem comer, me jantar
Sarapatel, caruru, tucupi, tacacá
Vê se me usa, me abusa, lambuza
Que a tua cafuza
Não pode esperar

Deixa a tristeza pra lá, vem comer, me jantar
Sarapatel, caruru, tucupi, tacacá
Vê se me esgota, me bota na mesa
Que a tua holandesa
Não pode esperar


segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

TANTA COISA PARA DIZER...


O Brasil está longe.

Grande país, gente boa, gente má, gente assim-assim.

Tiveram uma eleição presidencial para a tentativa de resolver a escolha de um escroque que colocaram há quatro anos para presidente.

Nas recentes eleições presidenciais o escroque apresentou-se para a reeleição.

Do outro lado Lula da Silva carregado de histórias não muito claras, mas mais vale um pé do Lula da Silva do que o todo do escroque.

Uma nação tão sábia não tinha um outro alguém para despejar o escroque?

O risco, enorme risco, foi o escroque quase ter ganho a eleição.

Fugiu para  Miami onde se encontra toda merdalanja de escroques universais.

O que ontem se viu através das televisões é inacreditável.

Há uma canção do Chico, com poema de Vinicius, que deixo por aqui. Poderiam ser tantas ...

Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a como
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar

São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar

segunda-feira, 25 de abril de 2022

NO IMPONDERÁVEL AZUL CELESTE


 É, andei por aí.

 Com gente, procurando gente, pontes e vales, tem sido assim esta vida. E houve aquele dia, 25 de Abril de 1974.

 Dizem que por um Abril houve uma revolução, outros dizem que houve um golpe de estado, outros ainda que houve uma abrilada, sucederam coisas gritadas nas ruas, outras soavam nas sombras clandestinas.

 Na escola disseram aos miúdos que tinham que ir para casa, estava a acontecer qualquer coisa em Lisboa.

 Que comemoramos hoje? Que resta daquele dia?

 O chefe de redacção telefonou ao repórter, gritou-lhe: Salta da cama. A Revolução está na rua e é precisos escrevê-la!

 Isso é passado, é tão passado que eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia um irresponsável celebrando qualquer coisa de que hoje não posso ver nenhum sinal, daquilo que o 25 de Abril trouxe.

 Podemos saudar o desespero que nos invadiu perante algo que falhou?

 Estragaram a tua festa pá!, cantaram no outro lado do Atlântico.

 Houve quem dissesse que as revoluções são sonhadas por idealistas e realizadas por fanáticos, e quem delas se aproveita são os oportunistas de todas as espécies.

 O 25 de Abril é um dia e são dias. É daquelas datas que se constelam que estão antes de hoje, que hoje ecoam ainda, e que tremeluzirão no depois de hoje.

 Quase sem darmos por isso, milhares de pessoas invadiram as ruas, ofereceram pão e cravos aos soldados, deram as mãos, sorriram, dos olhos saltavam sonhos e esperanças.

 Alguém perguntou como era possível tanta e tanta gente quando meses antes, semanas antes, dias antes, eram tão poucos aqueles que apareciam para escrever palavras de ordem nas paredes da cidade, colar cartazes, distribuir uns panfletos impressos a stencil…

 Será a memória curta? Apaga-se com facilidade?

 O apagamento de memória é chocante.

 Deste dia até ao 1º de Maio, é provável que muitos devem ter dormido, mas não se lembram bem. Uma semana de loucura já ninguém me tira, posso não ser feliz mas poucos chegaram tão perto disso a que chamam felicidade.

 É preciso ter vivido os anos terríveis, o tempo do desprezo, um tempo de ratazanas, para que aquele dia tivesse sido o que foi, um navio de sonho, uma nave de loucos, protagonistas duma enorme esperança, depois figurantes de um grande desencanto.

 Terá sido assim há tanto tempo?

 A ditadura acabou por ser derrubada por militares que antes desprezávamos.

 Dezassete horas e 45 minutos bastaram para abater um regime que oprimiu o povo português durante 47 anos, 10 meses, 34 dias e algumas horas.

 Teremos feito tudo para que as novas gerações fossem mais felizes?

 Vale a pena assinalar a data quando nos esquecemos de ensinar a importância que aquele dia nos trouxe? Olham-se as pessoas de hoje, os jovens de hoje, formam um grupo largo e variado mas, olhando bem, estamos todos muito mal no retrato de conjunto…

 Algures, numa dobra da história, alguma coisa falhou. O cantor, de viola às costas, acabou por dizer que houve alguém que se enganou.

 A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém.

 Naqueles dias, quase poderíamos dizer que a paisagem mudara para sempre.

 As paisagens até podem mudar, o resto… o resto… o resto… é uma chatice… um busílis de questão…

 O escritor perguntava e respondia: para que serve a utopia? Serve para que eu não deixe de caminhar.

 Um dia voltaremos a encontrar-nos todos no imponderável azul celeste.

 E recomeçamos a busca dum país liberto, duma vida limpa e dum tempo justo.

 Mas será que ainda verei alguém desenhar os nomes daqueles que, na sombra, nos lixaram a festa?

 

Montagem concedida com textos de:

 Jorge Silva Melo, Virgílio Martinho, Baptista-Bastos, José Saramago, Rui Cardoso Martins, Chico Buarque, Manuel António Pina, Manuel Gusmão, Rodrigues da Silva, João Gobern, José Mário Branco, Eduardo Galeano, Mário Dionísio, Cristina Carvalho, Sophia de Mello Breyner Andresen.

 

Legenda: pintura de Vieira da Silva

domingo, 17 de maio de 2020

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



D. Quixote, o fiel Sancho Pança e as suas andanças, moinhos de vento, aldonza a prostituta que tem de ser salva, aventuras, sonhos impossíveis.

O filme chama-se O Homem de La Mancha e foi realizado em, 1972, por Arthur Hiller.

 Um musical com interpretações de Sophia Loren, Peter O’ Toole James Cococ, para música de Mitch Leigh, e letras de Joe Darion

Durante a inquisição espanhola Miguel de Cervantes é preso como herege por defender pensamentos ditos subversivos e metem-no numa cela ocupada por ladrões e assassinos. Julgado pelos próprios prisioneiros, Cervantes utiliza na sua defesa a história de um homem idoso que passa dias e noites a ler e apenas vê um mundo de vigaristas e gentes sem lei. Durante o julgamento Cervantes, para sua própria defesa, transforma-se em D. Quixote.

Da banda sonora faz parte a canção The Impossible Dream, um êxito que perdura pelos tempos.
Era a canção favorita do Presidente John Kennedy e foi tocada durante as cerimónias fúnebres.

Sonhar mas um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo, cravar esse chão
Não me importa saber se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu, delirar e morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

Por aqui fica o trailer do filme, a versão portuguesa de The Impossible Dream da autoria de Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra, cantada por Maria Bethânia e a versão de Frank Sinatra.




sexta-feira, 1 de maio de 2020

PRIMEIRO DE MAIO


Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas

Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu

Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhar do seu ventre
O homem de amanhã”

Chico Buarque de Holanda

Legenda: Guache de Winslow Homer

terça-feira, 31 de março de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Andrew Cuomo, governador do estado de Nova Iorque, lançou hoje um apelo urgente de ajuda a voluntários médicos e enfermeiros reformados perante o cenário aterrador de milhares e milhares de pessoas infectados pelo Covid-19 e com o número de mortos que já está perto dos mil óbitos.

«Por favor, venham para Nova Iorque ajudar-nos. Agora».

Entretanto, o presidente-tarado vai twitando a sua ignorância e o seu desprezo pelo povo.

Barack Obama, considerou hoje que o seu sucessor, Donald Trump, ignorou os avisos sobre os riscos de uma pandemia do novo coronavírus, e recordou o mesmo comportamento quanto às alterações climáticas. 

Pelos dias terríveis que se vivem em Nova Iorque, um poema de Federico Garcia Lorca cantado por Chico Buarque e Raimundo Fagner:

1.

Na India foram decretados 21 dias de confinamento social: fábricas, lojas e restaurantes encerraram as suas actividades.

A paragem de muitas das actividades produtivas deixou milhões de trabalhadores sem salários e sem condições de subsistência. Muitos estão a regressar a pé às zonas rurais de que são originários.

Segundo o jornal inglês The Guardian, Mamta, uma ex-empregada fabril de Gugaon diz que ela e a sua família, sem comida e sem dinheiro, não tiveram outra escolha senão partir e que «a fome vai matar-nos antes do Coronavirus.»

Entretanto, sucedem-se os confrontos e os trabalhadores migrantes e a polícia.

2.

A TAP vai avançar com um processo de 'lay-off' para 90% dos trabalhadores e com a redução do período normal de trabalho em 20% para os restantes colaboradores.
Governo já recebeu 3.600 pedidos de empresas para adesão ao novo lay-off

3.

A PSP deteve em Braga uma mulher de 43 anos por distúrbios no interior de uma padaria, dizendo que estava infetada com o vírus da covid-19 e cuspindo em objetos e em pessoas, chegando mesmo a agredi-las.

4.

A Direcção Geral de Saúde admite que existam em Portugal cerca de 9.500 infectados.

5.

Que leva três inspectores do SEF, no aeroporto de Lisboa, a agredirem um ucraniano ao ponto de lhe provocarem a morte?

Registe-se ainda as cumplicidades várias que tiveram para chegarem à ignomínia de informarem a embaixada de que o cidadão Igor morrera, no hospital, devido a um ataque epiléptico.

Estará esta mentalidade, de violência e mentira, generalizada nas forças de segurança que temos?

Este, o país dito dos brandos costumes!...

Numa sua canção, o catalão Pi de La Serra diz:

«Se os filhos da puta voassem, nunca veríamos mais o sol.»

6.

Os números negros:

Itália

12.428 mortos

Espanha

8.464 mortos

Estados Unidos

3.415 mortos

França

3.523 mortos

China

3.187 mortos

Irão

2.898 mortos

Grã-Bretanha

1.789 mortos

Holanda

1.039 mortos

Portugal

160 mortos

Mundo

42.032 mortos

7.

Vergílio Ferreira no 2º volume de Conta-Corrente:

A velhice é isso - sermos só nós a nossa testemunha.

quarta-feira, 18 de março de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS



Como se vivem estes dias difíceis?

Não sei.

Ando para aqui a apanhar papéis, pedaços de livros, músicas, rasgos de quotidianos, sei lá que mais.

As palavras já não me saltam para exprimir o que quero dizer…

Alguma coisa se passa.

Raios parta o Covid-19!

Vou juntar todos os pedaços e, ao terminar do dia, coloco-os aqui.

A primeira canção é a do Chico Buarque de Holanda do álbum Construção em que ele nos diz para fazer tudo como se fosse a última vez …

Que seja!


1.


Numa das mais famosas passagens de Tanta Gente Mariana de Maria Judite Carvalho, pode ler-se: «Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana. E ninguém vai fazer nada por nós.»

Alexandre O’ Neill entendia que a solidão procurada é boa, a não procurada é muito chata.

Inauguramos a solidão quando nascemos?

«… estava isolado e quem está isolado está perdido.»

Será?

2.

O escritor Mário de Carvalho disse um dia que «a maior alegria que me podiam dar era proibir a porcaria do jogo da bola e meter na cadeia essa pardalada.»

O senhor Pedro Proença, presidente da Liga de Futebol, não gostou de ouvir o primeiro-ministro António Costa dizer que o futebol não é prioridade nas ajudas económicas que o governo poderá disponibilizar perante o cenário de pandemia que vivemos.

«Essas declarações do primeiro-ministro espantaram-me, no mínimo. Terão sido inapropriadas e inadequadas face ao momento. O futebol não é um mundo à parte, tem de ser tratado como o turismo, a distribuição ou a cultura.»

Há muito que o estado devia ter posto esta malta do futebol no seu devido lugar. Talvez ainda se vá a tempo… talvez…

Digo que gosto muito do futebol jogado mas dispenso os trolhas-dirigentes, toda a corrupção que envolve o futebol.

Quando era puto os velhos diziam: «não há dinheiro, não há palhaços!»

Se eu mandasse, não viam um cêntimo.

O ambiente que rodeia o futebol, nos dias de hoje, é extremamente triste.

3.

Obrigados a permanecer em casa devido às medidas de prevenção impostas face à ameaça do COVID-19, as pessoas começam a sentir os mais diversos tipo de dificuldades.

Um cidadão espanhol, na comunidade de Castela e Leão, foi surpreendido pela polícia, na rua a passear um cão de peluche.

Segundo as medidas aplicadas pelo governo espanhol só podem sair à rua para: ir à farmácia, ao médico, ao hospital , ao supermercado para comprar apenas bens estritamente de primeira necessidade.

4.

Um livro para estes dias: A Peste de Albert Camus.

«Visto que a ordem é regulada pela morte, talvez valha mais para Deus que não acreditamos nele e que lutemos com todas as nossas forças contra a morte, sem erguer os olhos para o céu onde ele se cala.»


Camus conta a história do eclodir de uma epidemia numa cidade. Rieux, um dos médicos, combate a doença até ao momento, após muitas mortes, em que ela fica controlada, mesmo sabendo-se que algumas das vitórias serão sempre provisórias. Ao longo das páginas Camus mostra-nos a reacção da população que vai da apatia à acção, os riscos que correm.

5.

Daqui a instantes, vigorará o estado de emergência decretado pelo Presidente da República, aceite pelo governo e aprovado pela Assembleia da República.

O leigo que sou na matéria, não me permite uma opinião clara. 

Mas sempre direi que talvez não houvesse necessidade de chegarmos onde o presidente, e uma falange histérica, nos colocou.

As regras terão de ser muito claras e ninguém pode mentir a ninguém.

Será que é assim que vai conhecer?

sábado, 12 de outubro de 2019

APESAR DE VOCÊ


O presidente Bolsonaro não assinará o diploma do Prémio Camões concedido a Chico Buarque de Holanda.

Chico reagiu de imediato:

«A não assinatura do Bolsonaro no diploma é para mim um segundo Prémio Camões».

quarta-feira, 22 de maio de 2019

CHICO BUARQUE ENSINOU O QUÊ?


Quando recebi no telemóvel o alerta "Chico Buarque ganha o Prémio Camões" senti-me no direito de comemorar uma vitória: "ganhei eu, caramba, ganhei eu!".
Fui ler a notícia. Os seis membros do júri explicavam a razão desta atribuição do galardão literário pela "contribuição para a formação cultural de diferentes gerações em todos os países onde se fala a língua portuguesa".
E o que é que este português, de 55 anos, que escreve estas linhas, aprendeu com Chico Buarque?
Aos cinco anos de idade o meu corpo saltitava sempre que no rádio grande do meu pai soava "A Banda", a música que, quando passava, diz o verso final do refrão, ia "cantando coisas de amor". Chico Buarque impulsionou-me a dança.
Aos 10 anos de idade percebi como um indivíduo sozinho nada pode contra o cerco violento da indiferença. Bastou-me ouvir a história circular do operário de "Construção", que "morreu na contramão atrapalhando o sábado". Chico Buarque ensinou-me a identificar a injustiça social.
Aos 11 anos de idade percebi a inutilidade da divindade quando o coro masculino MPB4 repetia, em Partido Alto, "Diz que Deus dará/ Não vou duvidar, ô nega/E se Deus não dá?/Como é que vai ficar, ô nega?". Chico Buarque deu-me razões para ser ateu.
Aos 12 anos de idade intui, com os versos de Fado Tropical, como a brutalidade da colonização sangrou a pele dos povos e como as cicatrizes prevalecentes demoram séculos a fechar: "E o rio Amazonas/Que corre Trás-os-montes/E numa pororoca/Desagua no Tejo/Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai tornar-se um Império Colonial". Chico Buarque ofereceu-me uma identidade, um medo e uma esperança na Lusofonia.
Aos 13 anos de idade percebi, pela letra do pseudónimo Julinho da Adelaide (um autor inventado, usado para ludibriar a censura da ditadura brasileira, que até falsas entrevistas deu aos jornais...), que confiar na polícia pode ser perigoso, como constata "Acorda amor": "Tem gente já no vão de escada/Fazendo confusão, que aflição/São os homens/E eu aqui parado de pijama/Eu não gosto de passar vexame/Chame, chame, chame, chame o ladrão, chame o ladrão". Com Chico Buarque descobri que, às vezes, está tudo certo se se ficar do lado errado.
Aos 14 anos de idade conspirei o sentido da canção "O que será (à flor da pele)": "Será, que será?/O que não tem decência nem nunca terá/O que não tem censura nem nunca terá/O que não faz sentido..." Chico Buarque revelou-me o secreto significado da palavra "liberdade".
Aos 15 anos de idade compreendi, ao ouvir "Mulheres de Atenas", que a minha mãe, a minha irmã e a minha namorada viviam num mundo pior do que o meu: "Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas/Geram pro seus maridos os novos filhos de Atenas/Elas não têm gosto ou vontade/Nem defeito nem qualidade/Têm medo apenas". Chico Buarque justificou-me o feminismo.
Aos 16 anos de idade espantei-me com o atrevimento de "O Meu Amor". "Eu sou sua menina, viu?/E ele é o meu rapaz/Meu corpo é testemunha/Do bem que ele me faz". Chico Buarque fez-me entender como o sexo pode, ou não, fazer um par com a palavra afeto.
Aos 17 anos comovi-me com "Geni", a prostituta que salva a cidade mas que a cidade despreza: "Joga pedra na Geni!/Joga bosta na Geni!/Ela é feita pra apanhar!/Ela é boa de cuspir!/Ela dá pra qualquer um/Maldita Geni!". Chico Buarque confrontou-me com a dignidade dos indignos.
Aos 18 anos de idade a história de "O Malandro" exemplificou-me como é sempre o mexilhão que se lixa: um tipo que foge de um tasco sem pagar a cachaça que bebeu provoca uma crise mundial. Mas, no final das crises, há sempre um bode expiatório: "O garçom vê/Um malandro/Sai gritando/Pega ladrão/E o malandro/Autuado/É julgado e condenado culpado/Pela situação". Chico Buarque antecipou-me a globalização e fez de mim um comunista.
Aqueles anos foram os tempos do meu caminho até à chegada à idade adulta, uma época anterior aos romances que Chico Buarque escreveu e que completam, com a verdadeira poesia de muitas das suas canções, um currículo mais do que suficiente para a atribuição do mais importante prémio literário em Língua Portuguesa.
Aqueles anos foram os tempos que moldaram o meu carácter.
Aqueles foram os tempos que moldaram o carácter de tantos outros e de tantas outras que, como eu, cresceram a ouvir estas canções mas que entenderam nelas tantas coisas que eu não entendi, que compreenderam nelas tantas coisas que eu não percebi, que tiraram conclusões destes textos muito diferentes das que eu tirei.
Mas, tenho a certeza, apesar de pensarem e sentirem de maneiras tão diferentes da minha, ontem, milhões de vós, ao saberem da notícia do Prémio Camões atribuído a Chico Buarque, tiveram o mesmo impulso que eu e comemoram: "ganhei eu, caramba, ganhei eu!".

Pedro Tadeu no Diário de Notícais

SARAVÁ; CHICO!


Chico Buarque de Holanda venceu o Prémio Camões 2018.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

AMANHÃS...


Jair Bolsonaro tomou posse como o 38º presidente do Brasil.

«Uma das nossas metas para tirar o Brasil das piores posições nos 'rankings' internacionais sobre educação é lutar contra o lixo marxista que se instalou nas instituições de ensino».

O Brasil junta-se aos grandes países que são dirigidos por gente demasiado perigosa.

Como vais ser, Futuro?

Chega-te aí e canta, Chico.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

TEMPO APÓS UM CONTRATEMPO


No primeiro dia do ano que vem, Jair Bolsonaro será o 38º presidente do Brasil.

Quase onze milhões de votos separam Bolsonaro (57.797.466 = 55,2%)  de Haddad(47.040.859 = 44,8%).

O Brasil está dividido.

Muitos dos que votaram em Bolsonaro, votaram na mudança.

Que mudança?

Esperar para ver, como diz o cego do costume.

No discurso de vitória ,Bolsonaro, jurou defender a liberdade, a democracia e ser o presidente de todos independentemente de região, cor ou orientações.

Não podemos mais flirtar com o comunismo, o socialismo, o extremismo.
O Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.

Amen, foi dizendo a futura primeira-dama, Michele de seu nome, a cada frase se Bolsonaro.

O resto não poderá ser o silêncio.

Devagar não se vai longe, tal como disse o poeta.

sábado, 27 de outubro de 2018

SARAMAGUEANDO


«Haverá um governo, disse o primeiro cego. Não creio, mas no caso de o haver, será um governo de cegos a quererem governar cegos, isto é, o nada a pretender organizar o nada, Então não há futuro, disse o velho da venda preta, Não sei se haverá futuro, do que agora se trata é de saber como poderemos viver neste presente, Sem futuro, o presente não serve para nada, é como se não existisse, Pode ser que a humanidade venha a conseguir viver sem olhos, mas então deixará de ser humanidade, o resultado está à vista, qual de nós se considera ainda tão humano como antes cria ser.»

José Saramago em Ensaio Sobre a Cegueira

No dizer de Baptista-Bastos, Ensaio Sobre a Cegueira é uma verdadeira descida aos infernos.

Maria Alzira Seixo, num artigo no JL, «considera-o um livro impressionante, de leitura muito incómoda, mas que nos mantém presos até à última linha, e ainda bem, porque os últimos capítulos são uma espécie de libertação para as personagens, mas muito especialmente para o leitor, que se sente reconciliado com os problemas que lhe foram sendo postos ao longo dos capítulos, numa reconciliação que não é apagamento, mas antes intensificação dos problemas e das perplexidades que o texto levanta e configura, em proposta de reflexão e advertência para um olhar mais atento sobre o quotidiano.»

A ideia do livro ocorreu a Saramago, no dia 6 de Setembro de 1991, enquanto esperava que lhe servissem o almoço no restaurante Varina da Madragoa:

A pergunta que faz a si mesmo: E se nós fôssemos todos cegos?

De imediato saiu-lhe a resposta: Mas nós estamos todos cegos.

Mais tarde escreverá:

Estamos cada vez mais cegos porque cada vez menos queremos ver.

Segundo se pode ler no 3º volume de Cadernos de Lanzarote, Saramago terminou o livro no dia 8 de Agosto de 1995 quase quatro anos após o surgimento da ideia.

«E lutei, lutei muito. Só eu sei quanto, contra as dúvidas, as perplexidades, os equívocos que a toda a hora me iam atravessando na história e me paralisavam. Como se isto não fosse bastante, desesperava-me o próprio horror do que ia narrando. Enfim, acabou, já não terei de sofrer mais.»

Um jornalista do Públic” perguntou-lhe como gostaria de ser recordado.

José Saramago respondeu:

«Como o escritor que criou a personagem do cão das lágrimas, no “Ensaio sobre a cegueira”. É um dos momentos mais belos que fiz até hoje como escritor. Se no futuro puder ser recordado como “aquele tipo que fez aquela coisa do cão que bebeu as lágrimas da mulher” ficarei contente.»


É este o pedacinho de oiro: 

«Não há dúvida, está perdida. Deu uma volta, deu outra, já não reconhece nem as ruas nem os nomes delas, então, desesperada, deixou-se cair no chão sujíssimo, empapado de lama negra, e, vazia de forças, de todas as forças, desatou a chorar. Os cães rodearam-na, farejam os sacos, mas sem convicção, como se já lhes tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar prantos. A mulher toca-lhe na cabeça, passa-lhe a mão pelo lombo encharcado, e o resto das lágrimas chora-as abraçada a ele. Quando enfim levantou os olhos, mil vezes louvado seja o deus das encruzilhadas, viu que tinha diante de si um grande mapa, desses que os departamentos municipais de turismo espalham no centro das cidades, sobretudo para uso e tranquilidade dos visitantes, que tanto querem poder dizer aonde foram como precisam saber onde estão. Agora, estando toda a gente cega, parece fácil dar por mal empregado o dinheiro que se gastou, afinal há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte, só ele sabe o que lhe terá custado trazer aqui este mapa para dizer a esta mulher onde está. Não estava tão longe quanto cria, apenas se tinha desviado noutra direcção, só terás de seguir por esta rua até uma praça, aí contas duas ruas para a esquerda, depois viras na primeira à direita, é essa a que procuras, do número não te esqueceste. Os cães foram ficando para trás, alguma coisa os distraiu pelo caminho, ou então muito habituados ao bairro e não querem deixá-lo, só o cão que tinha bebido as lágrimas acompanhou quem as chorara, provavelmente este encontro da mulher e do mapa, tão bem preparado pelo destino, incluía também um cão».

Legenda: capa de  Ensaio Sobre a Cegueira publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Chico Buarque de Holanda.

sábado, 15 de outubro de 2016

LOUVOR E DECEPÇÃO À VOLTA DO NOBEL



A atribuição do Nobel de Literatura a Bob Dylan provocou em Portugal reacções tão desencontradas como significativas.

O Nobel é o principal prémio literário internacional. Mas nem por isso deixa de estar confinado ao horizonte da Academia Sueca, por mais que esta tente alargá-lo, encomendando traduções de autores das mais variadas línguas e geografias.

Além disso, se colocarmos num prato da balança os escritores que receberam o Nobel e resistiram à passagem dos anos, e no outro os grandes romancistas que nunca o receberam, de Conrad, Proust e Virginia Woolf a J. L. Borges, é bem provável que o equilíbrio se rompa a favor destes últimos.

E ainda claro que há uma ou duas dezenas de escritores que poderiam receber o prémio este ano, de Javier Marías a Cormac McCarthy, e que, mesmo entre os poetas de canções, haveria alternativas como Leonard Cohen e Chico Buarque.

Mas parece que a Academia Sueca está decidida a inovar, desiludida talvez com a inexistência de grandes romances na última década. Isso explica escolhas inesperadas como foram no seu tempo a de Churchill, a da primeira mulher a receber o Nobel (Selma Lagerlöf) ou os textos jornalísticos de Svetlana Alexievich.

Até por isso as reacções são significativas. Abstraindo do «paternalismo» e visão conspirativa do crítico e escritor Bruno Vieira Amaral, que afirma que a Academia atirou o prémio à cabeça e que Bob Dylan não merecia tal gesto, houve dois tipos de reacções.

A dos poetas e críticos ligados à música, de Miguel Esteves Cardoso a Pedro Mexia, que se mostraram favoráveis ou até entusiasmados.

E, no pólo oposto, a de alguns editores, críticos e escritores, que tinham na sua lista de expectativas nomes que iam de Philip Roth a Murakami, e tiveram reacções perplexas ou desfavoráveis.

Há editores que condicionam o seu catálogo à procura dos nobelizáveis e que estão cada vez mais condenados a uma desilusão anual em Outubro
.
E o mesmo sucede com certos autores que a meio da vida vão acomodando a escrita à procura de um prémio que afinal só traz uma fama anual, uma viagem invernosa a Estocolmo, vendas não muito acrescentadas e solicitações, capazes de perturbar a mais fecunda das imaginações.
Foi assim que tivemos Alice Vieira a acusar esta atribuição do Nobel de desvirtuamento e a indicar Murakami como alternativa, e os habituais defensores de Pynchon.

Recorde-se que, quando o Nobel foi atribuído em 2013 a Alice Munro, a escritora Inês Pedrosa «denunciou» o facto de o prémio ser atribuído a uma simples contista (o que não impede que o seu último livro seja de contos e que sublinhe agora a importância deste género literário).

Ou seja, há ainda muitos críticos e autores ligados ao perfil que durante décadas serviu de referência à Academia Sueca e que Javier Marías resumiu no seu artigo «Não tão Memoráveis»:

«O escritor “conhecido” e popular terá além disso de (…) proclamar que apoia os oprimidos do mundo; ser um pouco perseguido no seu país (ou, à falta disso, dizer que o é); clamar muito no deserto e ser voz estridente das consciências adormecidas; deverá ser solene ou um pouco sombrio, a amargura nunca é de mais; a sua obra deve reflectir a miséria do homem contemporâneo, ou a fragilidade do homem contemporâneo, ou o desconcerto do homem contemporâneo, ou o seu egoísmo, ou o seu sofrimento, ou a sua maldade, ou a sua desorientação (em qualquer caso, algo negativo do homem contemporâneo, ou melhor, um lugar-comum a todas as contemporaneidades); por último, não deve falar muito de literatura nem ter qualquer sentido de humor.»

De qualquer modo, em favor de Bob Dylan pode dizer-se que com a sua obra musical, literária e pictórica será um dos vencedores do Nobel a perdurar. Levou o melhor da poesia à música das suas canções, absorvendo influências que vão desde Walt Whitman a Ashbery, passando por Allen Ginsberg e outros autores da Beat Generation. Nas suas letras criou personagens que nada devem às de obras de narrativa ficcional. E as suas crónicas inacabadas constituem uma referência de literatura autobiográfica.

P. S. Declaração de interesses. A Relógio D’Água publicou em 2006 uma ampla antologia da poesia de Bob Dylan (Canções 1962-2001).

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

NOTÍCIAS DO CIRCO


O Brasil é longe – tanto mar! – tão grande, que dele quase nada sabemos.

O que os meios de comunicação social nos dão a ver, a ler, chega-nos deficiente, truncado.

Mas lemos Jorge Amado e outros, ouvimos Chico Buarque e outros.

Temos a nossa ideia.

Erros terão existido, mas a destituição de Dilma Rousseff da presidência do país, é um golpe.

Custa, mas custa mesmo, saber que Portugal tomou o partido dos golpistas:

O Governo português vem reiterar a sua vontade de continuar a aprofundar as relações bilaterais de excelência que ligam Portugal e o Brasil, alicerçadas num elo único e fraterno entre os dois povos", refere um comunicado do gabinete do ministro Augusto Santos Silva enviado às redacções. O comunicado é justificado pela "tomada de posse do Presidente Michel Temer" que se fez "no cumprimento das disposições constitucionais brasileiras", precisam os Negócios Estrangeiros,  rejeitando a tese de "golpe".

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO



 A memória é uma vasta ferida.

Chico Buarque em Leite Derramado

Legenda, fotografia de Ernst Haas