Terá
que trocar um livro que lhe deram pelo Natal, mas como já o tinha, obriga-se a
escolher algo.
«No
Natal o prazo estende-se até 31 de Janeiro de 2006», pode ler-se no talão
devolutivo.
Quer
resolver a situação no momento.
Pega
em Que se Passa com o Baum, primeiro romance de Woody.
Que
se pode esperar?
Tudo?
Nada?
À
falta de outros elementos, lê a badana:
«Baum, um jornalista
judeu de meia-idade que se tornou romancista e dramaturgo, vive consumido de
ansiedade por tudo o que mexe. Os seus livros densamente filosóficos recebem
críticas mornas, e a sua prestigiada editora nova-iorquina deu-lhe com os pés.
O seu terceiro casamento está por um fio, e ele desconfia de que o seu irmão mais
novo seduziu a sua mulher. Sente-se desconfortável com a relação próxima desta
com o filho, um autor mais bem-sucedido do que ele, e suspeita da proximidade
dela com o vizinho. Para piorar a situação, num impulso irracional, tentou
beijar uma jovem e bonita jornalista durante uma entrevista — o que ela está
prestes a divulgar.
Será de admirar que
Baum tenha começado a falar sozinho? Desconhecidos abanam a cabeça e desviam-se
dele na rua. Entretanto, descobre um segredo surpreendente que poderá provocar
um terramoto se for revelado. Deverá guardá-lo para si ou contá-lo.»
O
começo do livro revelam as preocupações neuróticas sobre a futilidade e
o vazio da vida de Baum.
«Ultimamente, Asher
Baum tinha começado a falar sozinho. Não apenas os murmúrios ocasionais de um
homem que tenta clarificar os seus pensamentos ou acalmar-se antes de alguma
tarefa complicada».
Ele,
volta e meia, também já se apanha a falar sozinho em casa, na rua.
Lembra-se
que o poeta Zé Fomes Ferreira não se importava, absolutamente nada, de ser
apanhado a falar sozinho, a tropeçar, nas suas caminhadas por Lisboa.
No
meio de tudo isto viu a fila para a compra de livros aumentar. Não quer dar
mais voltas aos escaparates repletos de autores que desconhece por completo.
Que
se lixe! O Woody sempre é um rapaz cá da casa.
Também não podia falar com a sua segunda mulher,
Tyler.
Para começar, ela vivia na Nova Zelândia, mas, mais
importante do que a distância, ela deixara Baum e fora-se embora com um
baterista de rock qualquer que
ficara muito rico muito jovem, e que se reformara aos trinta anos, comprara uma
quinta em Walter Peak Station e criava ovelhas.
«Diane Keaton brilhou
em clássicos de Allen como "Manhattan", "Play It Again,
Sam" e "Love & Death". Mesmo nos últimos anos, quando já não
estavam tão próximos, Allen manteve grande admiração por ela. Na cerimónia do
45.º AFI Life Achievement Award, em 2017, declarou: "Desde o momento em
que a conheci, foi uma grande inspiração. Muito do que alcancei na minha vida
devo, sem dúvida, a ela. Ver a vida pelos seus olhos. É extraordinária. É uma
mulher que é óptima em tudo o que faz.»
Casamento de Woody Allen com a actriz Louise Lasser (1966 a 1970).
«No seu pequeno discurso, o juiz disse que casara
vários casais e nenhum alguma vez se divorciara. Claro que os recordes são
feitos para serem quebrados.»
«Ritz» foi a marca dos últimos cigarros que o pai
fumou.
Já o disse:
um dia apanhou um susto, colocou o maço de lado e nunca mais lhe tocou. Um
gesto que lhe permitiu viver mais uns anos do que aqueles que não teria vivido,
se não cortasse com os cigarros. Cigarros que, como ele dizia, lhe poderiam
provocar a morte, mas também o ajudaram a viver. Lembra-se que fumava três
maços de cigarros «Unic», tabaco negro, a bela conta de três maços por
dia
Quando deixou
de fumar permitiu sempre que fumassem junto dele.
Há dias na
sua crónica do Público de 30 de Agosto, Ana Cristina
Leonardo conta esta história:
«Dou
por mim a recordar uma viagem a Madrid (tudo por conta do madrileno Javier
Marías, mesmo se infeliz e prematuramente morto). Num restaurante, um amigo
acende um cigarro após a refeição. Discretamente, assinalo-lhe um velho muito
velho que almoça numa mesa perto de nós. Percebendo o meu gesto, logo o
velhíssimo espanhol comenta: “No se preocupe! Fume usted lo que quiera. Yo ya
no puedo fumar pero el humo me estimula...”. Era ainda o tempo do Madrid me
mata. E o tempo continua a matar-me (nos), embora com muito menos graça (basta
pensar em Pedro Sánchez).»
1.
Na breve
proximidade do 5 de Novembro, quando ficaremos a saber que presidente querem os
americanos escolher, lembremos o que há alguns anos disse Woody Allen:
«Jamais imaginei que Donald Trump
quisesse ser presidente dos Estados Unidos. Jamais imaginei que ele o
conseguisse.»
Serão os
americanos que têm, no boletim a depositar nas urnas, o desfecho do que irá
acontecer.
Entretanto,
pelo mundo fora, vamos sabendo o que determinados líderes estrangeiros
querem que aconteça: a eleição de Donald Trump:
Os que
seguem, já sabemos o que querem, mas há mais:
Vladimir
Putin, presidente da Rússia
Benjamin
Netanyahu, chefe do governo de Israel
Viktor Orbán,
primeiro ministro da Hungria
Javier Milei,
presidente da Argentina
Kim Jong-Lin
– líder da Coreia do Norte
No meio do
carrossel pode ser que Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, se bem que não
tenha direito a voto, afine a pontaria e deixe de estar na dúvida para onde vai
a sua preferência.
2.
Por cada dois
professores que se aposentam só se forma um. Em cinco anos formaram-se
7755 professores, aposentaram-se 11 mil e saem mais quatro mil só em 2024
3.
Lisboa é a
terceira cidade da Europa a abrir mais hotéis.
Até 2026 terá
36 novos hotéis, com 4.425 quartos.
4.
Uma
reportagem publicada no Expresso de 23 de Agosto perguntava:
«Porque engorda o preço da bola de
Berlim na praia?
Na
generalidade a bola de Berlim é vendida a 2,00 euros
5.
Quase 3
mil trabalhadores ficaram sem emprego nos primeiros meses do ano.
6.
Enfim, ter cães dentro de um apartamento
dá uma trabalheira dos demónios. Mas ir passeá-los às sete da manhã e depois
mais tarde, viver numa casa atulhada de pêlos de cão e ainda partilhar –
quantas vezes – a cama com o cão, é hoje considerado um ideal perfeito de vida.
Os cães e gatos silenciosos passaram a filhos de substituição e são tratados
como tal. Acho que não sou só eu que acha isto uma loucura colectiva em que os
valores estão todos trocados.»
No obituário
da morte de Ana Faria , publicado no Público, podia ler-se:
«Numa entrevista ao Jornal de Notícias (JN) em
2004, disse:
"Trauteava músicas eruditas com letras minhas em português e isso
despertou a atenção dos meus filhos e dos seus amigos. Todos queriam ouvir-me
cantar. Depois, dava-lhes a ouvir o original." E daí nasceu Brincando
aos Clássicos (1982),um disco cheio de adaptações de
temas de compositores clássicos como Beethoven, Mozart, Chopin ou Verdi,
transformados em canções para um Luís que "nunca foi a Paris", uma
Clara com medo das pombas, uma Catarina tão tagarela que até "dá dores de
cabeça" ou um Miguel "de olhos de mel".
João Carlos Calixto não tem dúvidas de que estes álbuns foram
"importantíssimos para a educação do gosto de tantas e tantas crianças de
então". Ana Faria democratizou estes compositores, combatendo o elitismo
que caracterizara o acesso à educação e à fruição musical durante o Estado
Novo.»
Também
comprou para os filhos, para os amigos dos filhos, Brincando aso
Clássicos e tem poucas dúvidas que isso não lhes tenha sido útil.
O Luís Miguel Mira apresenta hoje, pelas 15,00
horas na Nova Atena, Universidade Senior,
na Rua Almeida Garrett, 20, em Linda-a-Velha, «O Inimigo Público» de
Woody Allen:
O INIMIGO PÚBLICO
(1969)
(Take the
Money and Run)
Realização:
Woody Allen
Argumento:
Woody Allen e Mickey Rose
Montagem:
Ralph Rosenblum, James T. Heckert, Paul Jordan e Ron Kalish
Fotografia:
Lester Shorr
Música:
Marvin Hamlisch e Felix Giglio
Direção
Artística: Fred Harpman
Interpretação:
Woody Allen (Virgil Starkwell), Janet Margolin (Louise), Ethel Sokolow (a mãe
de Virgil), Henry Leff (o pai de Virgil), Don Frazier (o psiquiatra), Jacquelyn
Hyde (mademoisele Blair), James Anderson (o guarda prisional), Marcel Hillaire
(Fritz), Lonny Chapman (Jake), Louisse Lasser (Kay Lewis), Jackson Beck
(a voz do narrador), etc
Produção:
Sidney Glazier, Charles H. Joffe e Jack Grossberg, para a Palomar Pictures
International
Duração: 85
mn
No que
respeita ao “Riso”, já por aqui passaram pela mão do Prof. Jorge Barata Preto,
no âmbito deste recente ciclo “O Riso e as Lágrimas”, alguns dos principais
vultos da Comédia Americana: Charles Chaplin, Buster Keaton, os Irmãos Marx,
Jerry Lewis, Mel Brooks.
Dos grandes
“Clássicos”, julgo que só faltaram Harold Lloyd, Harry Langdon, Stan Laurel e
Oliver Hardy (o Bucha e o Estica…), W. C. Fields e talvez Woody Allen, embora
não esteja certo de que ele não tenha por aqui passado noutro ciclo…
Para além
destes, houve uma série de comediantes americanos de grande sucesso no seu
tempo, mas para os quais a memória dos cinéfilos não foi tão generosa como em
relação aos outros que mencionei: falo-vos de nomes como Eddie Cantor, Bob
Hope, Bud Abbot e Lou Costello (o Gordo e o Magro), Danny Kaye e, muito mais
recentemente, Jim Carrey, “o novo Jerry Lewis”.
Embora tenha
com ele uma relação de Amor/Ódio, escolhi para concluir a minha intervenção
neste ciclo um filme de Woody Allen, porque ele merece estar ao lado dos
maiores.
Mas porquê esse
Amor/Ódio, perguntar-me-ão vocês, talvez intrigados, tal a unanimidade que o
autor de “Annie Hall” habitualmente suscita…?
Amor, porque
gosto muito de muitos dos filmes de Woody Allen.
Ódio (a
palavra é excessiva, confesso…), porque a ascensão de Allen correspondeu ao
declínio de Jerry Lewis, que era o meu ídolo de infância, de adolescência e até
de juventude, através dos filmes dele que frequentemente via na televisão e das
saudosas retrospetivas mais tarde organizadas nos anos 70 por Lauro António, no
Apolo 70 e no Caleidoscópio.
É que, na
verdade, entre 1969 (data do primeiro filme de Allen) e 1983 (data do último
filme de Lewis), o autor de “O Homem das Mulheres” apenas teve oportunidade de
realizar cinco filmes (um dos quais, “Le Jour oú le Clown Pleura”, realizado em
França e na Suécia em 1972, ainda hoje se mantém inédito…), enquanto o autor de
“Manhattan” realizou dez. E, a partir de então e até hoje, Allen realizaria
pelo menos um todos os anos, só falhando em 2018, 2021 e 2022.
E é claro que
culpei Woody Allen pela caída em desgraça de Jerry Lewis…
Antes de
entrar em força no Cinema já Allen era um nome sobejamente conhecido no meio
cultural americano, e sobretudo na cena nova-iorquina.
Começou a
trabalhar nos anos 50, ainda adolescente, escrevendo diálogos para a televisão.
O sucesso que
teve levou-o a ser chamado a colaborar com comediantes de cada vez maior
nomeada, para os quais escrevia sketches para shows, peças de
teatro e revistas da Boadway que viriam a obter grande sucesso.
Farto de
ficar na sombra e de ver os outros beneficiarem, em fama e proveito, do seu
próprio trabalho, Allen, embora já na altura muito bem pago para a sua idade,
decidiu ultrapassar a sua timidez natural e subir sozinho ao palco em 1961,
vindo a tornar-se um dos principais vultos da chamada stand-up comedy
americana, com digressões por teatros e night clubs de todo o país e
presença assídua na televisão. E o seu sucesso não se iria limitar aos
“monólogos” que fazia em palco, porque também já começara a escrever para
diversas publicações de prestígio, como era o caso da “New Yorker”, e as
gravações em disco de alguns dos seus espetáculos também obtiveram êxito,
levando-o, até, a ganhar um Grammy por uma delas em 1964.
Allen viria a
estrear-se no cinema em 1963, escrevendo o argumento e desempenhando um papel
secundário em “O Que Há de Novo Gatinha” (“What’s New Pussycat”), de Clive
Donner, que alguns de vós provavelmente se recordarão de ter visto no antigo
cinema São Jorge, já que por cá obteve um grande sucesso, com a inesquecível
música do Tom Jones.
Seguir-se-ia,
em 1967, “Casino Royale”, muito maltratado por diversos realizadores, entre
eles John Huston, do qual foi coargumentista, para além de ter, igualmente, um
pequeno papel como ator.
Cansado da
maneira, que considerava desajustada, como os seus argumentos eram postos em
cena (em 1969 estreara-se, também, “Don’t Drink the Water”, realizado por
Howard Morris e baseado numa peça sua), Allen começou a acalentar a ideia de
ser ele próprio a realizar os filmes que escrevia.
Mas ainda
antes disso, lançou-se numa obra bizarra: pegar num anónimo filme japonês,
misto de policial e de “kung-fu”, retirar-lhe a banda sonora original e
substituí-la por uma inteiramente concebida por si, tanto na escolha da música
como na escrita dos diálogos. O resultado deu pelo nome de “What’s Up Tiger
Lily” e foi lançado nos Estados Unidos em 1966. O DVD que tenho na minha
coleção chama-se “O Que se Passa, Tigresa?”, mas não tenho qualquer memória da
estreia deste filme em Portugal.
É só por isso
que “O Inimigo Público”, o nosso filme de hoje, surge em segundo lugar na
filmografia de Woody Allen enquanto realizador, apesar de ter sido, na verdade,
o primeiro filme escrito, realizado e interpretado por si. E esse sim,
lembro-me muito bem onde se estreou em Lisboa: no saudoso Cinema Berna, que
ficava nas Avenidas Novas, mesmo ao lado da Igreja de Nossa Senhora de Fátima.
Oito anos e
quatro comédias mais ou menos burlescas depois (para além de participação, como
ator principal, em dois outros filmes não por si realizados), Allen obteria, em
1977, o maior dos seus êxitos na América, com os quatro Óscares recebidos por
“Annie Hall”.
A partir
daqui o cinema de Woody Allen não mais seria o mesmo, mas a sua carreira não é
o principal objeto deste texto.
Fiquemo-nos,
pois, por “O Inimigo Público”, realizado em 1969.
Em tom sério
de documentário, com a voz “off” de um narrador, excertos de entrevistas ao
próprio Virgil e a outras pessoas que lhe são próximas ou que com ele se
relacionaram pontualmente (o pai e a mãe, devidamente disfarçados para não
passarem a vergonham de se verem associados ao filho, a mulher, o psiquiatra
que o acompanhou, o juiz que o condenou, colegas de prisão, vizinhos e amigos
de infância, etc), o filme conta-nos a história de Virgil Starkwell,
considerado um dos mais perigosos criminosos daquela época, desde os primeiros
tempos de delinquência juvenil no bairro desfavorecido de Baltimore onde
nascera, até à sua derradeira e mais penosa condenação.
Pelo meio são
evocadas outras peripécias da sua vida: os primeiros assaltos, as primeiras
vivências na prisão, as primeiras tentativas de fuga, a libertação que
conseguiu por se ter oferecido como cobaia para experiências com uma nova
vacina nunca antes testada num Ser Humano, a forma como conheceu a sua mulher,
ternamente contada pelo próprio Virgil, que nos confessa tê-la visto deitada na
relva de um jardim e lhe pretender roubar a mala, mas que lhe bastaram 15
minutos de conversa com ela para se aperceber que era essa a mulher dos seus
sonhos com quem se desejaria casar, e que 30 minutos depois já tinha desistido,
em definitivo, da ideia de lhe roubar a carteira...
Casado e com
novas responsabilidades familiares no horizonte, Virgil, como todo o bom
criminoso que se preza, sonha em dar o último e definitivo golpe que lhe
assegurará, para sempre, a subsistência da família, mas a coisa corre-lhe mal.
É condenado a trabalhos forçados numa prisão de alta segurança, mas,
persistente como é, dela também se consegue libertar, na companhia de outros
reclusos.
De novo ao
lado da mulher e do filho, Virgil tenta seguir caminhos mais honestos, mas não
se consegue adaptar a essa vida. Uma nova tentativa de assalto volta a
correr-lhe mal e vamos encontrá-lo, no final, condenado a 800 anos de prisão
por 52 assaltos, embora, otimista como sempre, ele esteja esperançado de que,
se tiver um comportamento exemplar, essa pena lhe possa ser reduzida a metade.
Mas nem por isso deixa de se preocupar em construir, artificialmente, uma
pistola…
Quanto à
profissão que escolheu, diz que não se arrepende de nada… “Somos onosso
próprio patrão, tem -se liberdade de horário, viaja-se imenso, conhece-semuita
gente interessante”… Que mais se pode desejar…? Uma única tristeza lhe
ficou, certamente: apesar de tão badalado e de ter sido nomeado “Gangster do
Ano”, nunca ter integrado o “Top 10” dos maiores criminosos…
Nas suas
“Memórias”, publicadas em 2020, Woody Allen não se alonga demasiado acerca
deste filme e só parece dar importância a duas coisas: o gozo que lhe deu ter
conseguido filmar no interior da célebre prisão de San Quentin e a preciosa
ajuda que recebeu de Ralph Rosenblum, chamado à última hora para o apoiar na
montagem do filme.
Em relação à
primeira escreve mesmo o seguinte: “o primeiro dia de filmagensseria
na Penitenciária de San Quentin. Todo o meu entusiasmo se prendia com o facto
de ir a uma prisão e ali estarem reclusos e eu veria uma gigantesca casa
icónica, sobre a qual apenas tinha lido ou visto versões em velhos filmes a
preto e branco. Queria lá saber que me estava a estrear como realizador. Era
pela prisão que eu estava fascinado” (1)
Quanto à
segunda, tenho de me deter mais algum vagar, porque é essencial para a
compreensão do próprio filme.
Na sua total
ignorância do que era a realização de um filme, Allen não se preocupou
demasiado com a montagem final nem com a forma como a escolha da música poderia
condicionar, em muito, o próprio ritmo do seu filme.
Preocupou-se,
unicamente e com o apoio dos técnicos que tinha ao seus dispor, em rodar corretamente
cenas cómicas umas atrás das outras, e nisto até se revelou um bom aluno porque
não só acabou as filmagens antes da data prevista, como também conseguiu ficar
aquém do orçamento previsto.
O grande
problema foi que, após realizada a preview screening (2), toda a
produção deitou as mãos à cabeça. O filme era um autêntico desastre. A pouca
música escolhida era desadequada, a montagem não fazia muito sentido, era
evidente a falta de ritmo de toda a obra e estava à vista de todos, incluindo a
de Allen, um verdadeiro descalabro.
Fez-se então
apelo a Ralph Rosenblum, um montador experiente que fez tábua rasa dessa
primeira versão de montagem, visionou todas as bobinas que haviam sido filmadas
e chegou à versão final que hoje conhecemos, à qual juntou música
diversificada, incluindo algumas peças de jazz de New Orleans para fazer
acelerar o ritmo de algumas cenas. Foi considerado o verdadeiro salvador do
filme, que viria a ter algum êxito nos Estados Unidos.
Apesar de
tudo isto, “O Inimigo Público” não deixa de ser um filme algo desequilibrado,
como desenvolverei no final.
Quando
estamos perante a primeira obra de um realizador, sobretudo quando se trata,
como no caso de Woody Allen, de um “Autor” consagrado e detentor de uma vasta
Obra, existe sempre a tendência de nele procurarmos encontrar os primeiros
sinais do “Universo do Autor”, ou seja, o seu estilo, os seus temas prediletos,
as suas obsessões, a sua visão do Mundo, os seus “tiques”…
Ora no caso
de “O Inimigo Público” não será difícil descortinar um esboço daquilo que viria
a ser o trabalho futuro do seu realizador.
Vejamos,
seguidamente, alguns exemplos.
Allen sempre incorporou em muitos dos seus
filmes aspetos autobiográficos. Na primeira versão do guião deste filme,
Virgil chamava-se … Woody Allen!; depois, a forma como retrata os pais de
Virgil é muito semelhante àquela como, ao longo da sua vida artística, nos
foi falando dos seus próprios pais, com uma ligeira diferença: ao
contrário do que sucede no filme, era o seu pai, e não a sua mãe, o mais
tolerante em relação a ele (acerca da sua mãe, Allen chegou a escrever o
seguinte: “ateoria edipiana de Freud de que todos os homens
querem, inconscientemente, matar os pais para casarem com as mães
choca com umaparede de tijolo no que diz respeito à minha mãe…”
(3)); por outro lado, o bairro desfavorecido de Baltimore onde Virgil
passa a sua infância também parece ter alguns traços de semelhança com o
de Midwood, em Brooklyn, onde o próprio Allen deu os primeiros passos e
que tão bem nos mostrou em “Os Dias da Rádio”; tal como Allen, Virgil
também parece gostar de música, mas não ter lá muito jeito para o seu
instrumento favorito; e que me dirão vocês se vos disser que Allen
escolheu para data de nascimento de Virgil (1 de Dezembro de 1935) … o dia
seguinte ao do seu próprio nascimento…; mas a mais deliciosa das private
jokes de Allen parece-me ser a de ter dado à sua mulher Louisse
Lasser, com quem então já estava em acelerado processo de divórcio, aquela
hilariante tirada final, qualquer coisa como isto (cito de memória): “Acho
que ele era um génio. Quando descobri que ele era um criminoso, não
pude acreditar, porque nunca vi ninguém que dissimulasse algo tão bem.
Excelente trabalho de ator. E eu que pensava que ele era um idiota…!”;
2.Tal como
Vigil Starkwell, muitos dos personagens principais dos filmes de Allen são
homens (quase sempre, mas também há mulheres…) torturados e inseguros, com
alguma timidez e complexo de inferioridade resultante, por vezes, de uma
infância castradora, todos estes problemas confluindo numa enorme insegurança
no relacionamento com as mulheres. E, em relação, a Allen, isto também terá
qualquer coisa de autobiográfico…;
3.Pelos
motivos que referi no ponto anterior, muitos dos personagens dos seus filmes
recorrem, ou já recorreram no passado à psicanálise, e isso é sempre mencionado
em tom jocoso. Ora referências à psicanálise são coisas que abundam no filme de
hoje, em especial na hilariante cena em que o seu psicanalista é satirizado,
explicando-nos o papel do violoncelo na mente tortuosa de Virgil… E é também
evidente que, subjacente a todo o filme, está a teoria determinista, então
muito em voga naqueles tempos na Psicologia e na Sociologia, de que é a
família, a educação e o meio envolvente quem mais determina a formação de uma
personalidade. E foi o próprio Allen quem, na altura, afirmou que Virgil
poderia muito bem ter sido ele próprio, se em momentos-chave da sua
adolescência tivesse enveredado por outros caminhos, como alguns dos seus
companheiros do passado o fizeram;
4.Um certo
fatalismo, quase que ilustrando a Lei de Murphy (se algo pode correr mal, é
certo que irá correr (mesmo) mal…) parece acompanhar a vida e a “carreira” do
pobre Virgil, como também a de muitos dos personagens do cinema de Allen;
5.É sabido
que Woody Allen estudou cinema na sua juventude e frequentou avidamente as
salas de cinema, primeiro levado pela mão de uma sua prima 5 anos mais velha e,
mais tarde, por conta própria. Esta cinefilia é algo que se torna evidente em
muitos dos seus filmes. Os seus personagens são, muitas vezes, pessoas ligadas
ao cinema e/ou à televisão, o seu cinema homenageia e cita frequentemente
realizadores como Bergman, Fellini e Antonioni, muitas são as cenas dos seus
filmes que decorrem no interior ou à porta de cinemas ditos “de Arte e Ensaio”,
em cujos letreiros luminosos se anunciam clássicos do cinema americano e
europeu, etc. No filme de hoje, que Allen pretendia realizar a preto e branco e
a Produtora recusou, para além da memória dos velhos documentários que no
passado abriam as sessões de cinema e aos quais me refiro no ponto seguinte, a
inspiração veio-lhe dos velhos filmes de “gangsters” com fundo social, bem como
dos “filmes de prisão” dos anos 30 e 40, em particular “Anjos de Cara Suja” e
“I’m a Fugitive From a Chain Gang”, do qual chega a copiar uma cena inteira. E
as “delicodoces” cenas nos parques e à beira-mar, que aqui surgem claramente
como sátira, eram coisas que abundavam no cinema americano dos anos 60…; como
homenagem à cena final de “Bonnie and Clyde”, Allen chegou a filmar um final
diferente para este filme, no qual Virgil era apanhado numa emboscada e
fuzilado, como no filme de Arthur Penn, cena esta que foi abandonada na
remontagem de que atrás vos falei; mas, para os cinéfilos mais inveterados, a
cereja no topo do bolo das “homenagens” é Allen ter filmado uma cena no
interior do célebre Restaurante Ernie’s, em São Francisco, onde Hitchcock
também havia rodado duas cenas capitais em “Vertigo / A Mulher que Viveu Duas
Vezes”, hoje um verdadeiro “filme de culto”
6.Indiscutivelmente,
um dos motivos de atração deste filme é o tom de documentário no qual ele é
estruturado, e uma boa parte do seu humor reside no profundo contraste entre a
seriedade da locução e a comicidade das imagens que, em contraponto, nos são
mostradas. Allen tinha na memória, como vos disse atrás, os velhos
documentários do passado e levou esta homenagem a um tal ponto de
perfeccionismo que quem foi convidar para locutor foi Jackson Beck, a própria
voz dos documentários da Paramount dos anos 40. E essa mesma estrutura em
documentário, aqui e além acompanhada por imagens da época, acabou por ser um
esboço para “Zelig”, um dos grandes filmes de Allen realizado 14 anos depois, e
esse sim, inteiramente baseado em documentários de época;
Mais exemplos
haveria para salientar, mas creio que já vos macei demasiado…
E se comecei
falando-vos de Jerry Lewis, com ele irei terminar. É que este filme era para
ter sido realizado por Lewis, e não por Woody Allen. Suspeitando (e, pelos vistos,
com alguma razão…) da capacidade e da experiência deste como realizador, a
Produtora começou por dar o seu acordo ao filme, mas na condição de este ser
realizado por Lewis, e Allen concordou, embora com alguma relutância.
Seguiram-se
contactos entre Allen e Lewis, mas este acabou por declinar a oferta por não se
sentir muito convencido do projeto, em especial devido à estrutura do guião
demasiado baseada em sucessivos sketches, que Allen se recusava a
alterar significativamente. Esta recusa de Lewis deve ter sido recebida com
grande alívio por parte Allen, em cujo ego não cairia, certamente, muito bem o
facto de, num projeto tão pessoal, se ver dirigido pelo seu maior rival, com
quem poderia, fatalmente, entrar em conflito, como sucedeu com Peter Sellers no
“Casino Royale”.
Curiosamente,
nem Lewis nem Allen se referem a este facto nas respetivas autobiografias, mas
quem o relata com algum detalhe é John Baxter, na sua obra de referência sobre
o autor de “Manhattan” (4).
Disse-vos
atrás que, em minha opinião, este é um filme algo desequilibrado, com evidentes
problemas de ritmo na sua parte final, em contraste com a forma frenética como
o filme se inicia. Por exemplo, a cena dos prisioneiros acorrentados uns aos
outros, se no início tem a sua graça, a partir de determinada altura torna-se
algo penosa, tantas foram as vezes que foi repetida. E o mesmo se diga das
sucessivas cenas do bilhete com os supostos erros ortográficos no assalto ao
banco, que de tanto serem repetidas acabam por perder alguma eficácia.
Nada disso
altera, porém, o interesse que tem o visionamento deste filme histórico, o qual
contém, certamente, muitas cenas que poderíamos selecionar para uma antologia
do humor de Woody Allen: as impagáveis cenas em que intervêm os pais de Virgil,
disfarçados de Groucho Marx; as diversas cenas de assaltos e de fugas
fracassadas, com os gags das pistolas; a cena ao espelho com a toalha é
cintura; a teoria do psiquiatra em relação ao violoncelo; as hilariantes
tiradas de humor judaico…
Woody Allen
é, indiscutivelmente, um dos grandes realizadores do nosso tempo. Ao contrário
de outros grandes realizadores clássicos, de quem não chegámos a ser
contemporâneos, enquanto cinéfilos, com Allen tivemos a oportunidade de
acompanhar a construção de todo o edifício da sua Obra, tijolo após tijolo, e
julgo ser imperdível ver este momento inicial em que, timidamente, começou a
dar os primeiros passos.
Espero que
estejam de acordo comigo e se divirtam.
Sendo esta a
minha última intervenção, mais uma vez os meus agradecimentos a quem me
convidou e a quem teve a paciência de me ler e de me ouvir.
2. Desde
os primórdios da Indústria Cinematográfica era habitual os Estúdios e/ou os
produtores dos filmes realizarem, antes da sua estreia oficial, sessões prévias
de apresentação para uma audiência selecionada, a fim de testarem a reação do
público. Em função desta e dos inquéritos individuais lançados à assistência,
os filmes podiam ser modificados, por forma a colmatar as principais
insuficiências detetadas. No caso deste primeiro filme de Allen, foram
escolhidos como publico um grupo de soldados americanos em licença no país,
tendo o filme sido projetado com uma muito reduzida e suave banda sonora. A
reação da plateia foi péssima…
A crónica de Ana
Cristina Leonardo no Público (22 de Março) intitulava-se «Galinhas, robots e tacos de basebol» e terminava
assim:
«As técnicas de propaganda também não variam muito desde que o educadíssimo
Goebbels as aprimorou com competência inegável. Em Portugal, o grupo étnico
escolhido para ser difamado pela extrema-direita foram os ciganos. Empola-se um
problema que pode ser real ou imaginário (a beleza suprema da propaganda está
em – se necessário – dispensar a realidade), cria-se um inimigo responsável
pela maioria dos males e apresenta-se uma solução final. E como seria de
aceitação reduzida se “alguém assomasse à cena do mundo e dissesse: ‘Quero
reabrir Auschwitz’”, a alternativa moderna é os “portugueses de bem” (e
repare-se como as referências morais substituíram as genéticas) porem-nos na
ordem – e aos que se puder, porem-nos na rua.
Face à avalanche, os democratas têm escolhido dois caminhos. O primeiro, e o de
maior contributo para o avanço da extrema-direita, tem sido negar que existam
problemas ou, a existirem, argumentar que podia ser pior (como se poder ser
pior não fosse a condição ontológica de qualquer ser humano). O segundo é
acreditar que as crenças se combatem com factos: dêem-me um fact check e eu resgatarei uma multidão de enganados!
Facto que me recordou um diálogo do filme Manhattan de Woody Allen em que, à pergunta de Isaac
(interpretado por Allen) sobre se alguém sabia da manifestação neonazi em Nova
Jérsia e à sua sugestão de que deviam ir lá levando consigo alguns tijolos e
tacos de basebol, um conviva refere que sobre a manifestação saíra um demolidor
artigo satírico no New York Times.
Isaac volta à carga: “Bom, um artigo satírico no Times é uma coisa, mas tijolos e tacos de basebol vão directos
ao assunto”.
Walter – De
repente, dizemos a deus a um advogado de sucesso e temos de aceitar um
diplomata psicótico!
Marion – A vida é
dela, Walter. A nossa filha tem vinte e três anos.
Walter – Ninguém
está a dizer que a vida não é dela. Eu só quero que ela faça o que é melhor
para ela, mais nada…
Marion – Portanto…
Walter – Portanto,
o que eu lhe disse é que está certo. Este sujeito é aquilo a que, nas apostas,
nós costumávamos chamar um perdedor!
Marion –
Licenciou-se em Yale.
Walter – Yale também
se engana.
Marion – Walter,
por favor, não te metas onde não és chamado.
Walter – Ela nunca
teve tão más perspectivas. Olha, preferia aquele com quem esteve para casar, o
que não foi nem à recruta, porque esse, ao menos, era um sucesso – até enganava
o exército!
Marion – Permite-me
que te lembre que quando casei contigo, o teu futuro não parecia especialmente
seguro.
Walter – Era diferente,
não tem comparação possível. . Eu cá tenho joie de vivre.
Marion – Para que
lhe serve a segurança material se ele não se sentir feliz?
Walter –
Mas o que é que a felicidade tem a ver com isto? Eu estou a falar de casamento!
Quando uma pessoa casa desiste de ser feliz!
Aproxima-se o Outono, a estação
preferida de Woody Allen tal como escreve na sua autobiografia: «O Outono é uma questão completamente
diferente, mas não menos emocional. Para mim, é a altura do ano mais bela».
Woody Allen esteve ontem na Cinemateca à
conversa com Ricardo Araújo Pereira, seguindo-se a exibição de «Mannhatan de
que gosto muito.
Quando me falaram que a conversa ia acontecer,
pensei em ir.
Primeiro porque entendi mal e pensei ser
uma conversa do Ricardo a falar de Allen. Era um diálogo sem tradução e o meu
inglês-cais-do-sodré, não dá para tanto. Por fim, pensei que aquilo seria um
Kaos, não só pelo realizador Tenho o meu
público fiel e limitado", mas mais por causa dos admiradores de Ricardo
Araújo Pereira.
Metade da sala da Cinemateca
destinava-se a convites e a bicha para adquirir os bilhetes, segundo os
jornais, chegava à Avenida da Liberdade.
A maior pena que me resta é que seria,
provavelmente, a última vez que podia ver «Manhattan» na sala escura de um
cinema.
Mas o Outono está a chegar, com ele o suave
e maravilhoso cheiro das maçãs-reineta assadas no forno, da marmelada nova.
Sempre lembro de me perguntar: os
marmelos anunciam o fim do Verão ou o princípio do Outono?
Uma pergunta, como outra qualquer, e
para a qual não se exige resposta.
A minha avó fazia a marmelada no findar
de Setembro.
Ficava sempre uma tigela guardada para a
véspera de Natal.
Também enchia grandes frascos com
quartos de marmelo que eram cosidos em água e açúcar.
José Gomes Ferreira a abrir, 1 de
Outubro de 1965 o 1º volume dos seus Dias
Comuns:
«Entreguei há 3 dias, na Portugália, (e com que desalento desabrido) o meu
Diário Inventado. E hoje, talvez para amortecer este fogo frio, que tanto me
tortura nas antevésperas da publicação de livros novos, acordei a perguntar-me;
“e se eu agora escrevesse (mas só para mim) um diário real dos dias comuns – no
seguimento do fadário diarístico que me persegue desde a infância?” (Diários,
diários, diários!....). Demais, está uma manhã de sol dourado, com folhas secas
a apodrecerem o chão de amarelo e aquele brisa fina de haver alguém no ar a
esgrimir um florete de toque invisível que nos arrepia a pele – tema mesmo de
propósito para esta primeira página. Pois, se bem me recordo, quase todos os
meus diários do passado nasceram sob o signo do friozinho outonal e dos
marmelos assados – oferecidos no lusco-fusco dos pregões friorentos de Lisboa…
Mas vou desfazer o tema. Basta de literatura e de marmelada.»
Legenda: a imagem, fotografia de Rui
Gaudêncio no Público, mostra parte do Kaos à porta da Cinemateca.
Todas as segundas-feiras, começou a
tocar clarinete no Michael’s Pub.
Depois passou para o Carlyle Hotel.
Agora anda em digressões pela Europa.
Volta e meia vem a Portugal e os preços
são proibitivos para a minha reforma.
Mas irá tocar em Lisboa na Praça do Campo Pequeno.
Os preços giram à volta dos 35,00 e
150,00 euros.
Mereceria um esforçozinho para ver o
sacana, mas as condições da Praça de Touros são horríveis: principalmente em
questões de som.
E eu que gosto de grande parte dos
filmes de Woody Allen, bem como o jazz de New Orleans, vou deixar passar a
banda.
Woody Allen assume que não é
propriamente um grande músico e quem viu o documentário de Barbara
Kopple, Wild Man Blues, sobre algumas digressões da New
Orleans Jazz Band, fica com a ideia de que são um verdadeiro enfado
para o artista.
O rapaz já tem 88 anos, tempo de sopas e
descanso, mas Woody Allen tem que continuar a pagar as avultadíssimas despesas
com advogados por causa das cegadas em que senhora Mia Farrow o meteu. Uma
competição desenfreada, tal como ele escreveu na sua Autobiografia.
«Não se pode fazer nada contra a morte. Não pode a ciência, nem pode a filosofia,
nem pode a comédia. Não há escapatória. É um mau negócio. A única coisa que podemos
fazer é não pensar nela.»
Woody
Allen
Legenda: não
foi possível identificar o autor/origem da imagem.
Temperaturas extremas
em Londres – Londres a cinzenta, quem diria? – danificaram uma parte da pista de aterragem e
descolagem do aeroporto de Luton, a 55 quilómetros de Londres. A pista esteve
fechada durante quase duas horas e obrigou a desviar e atrasar voos.
Por cá, ficamos a
saber que as altíssima temperaturas voltam amanhã.
Dou-me pessimamente
com o calor. Quando trabalhava, mandava as férias sempre para Setembro.
Vou agora ter com a Autobiografia Woody Allen para ele me contar da Primavera e do Outono em Central Park.
«Veja, o verão em
Nova Iorque são más notícias. É quente, sufocante, estão todos fora, e sim,
podemos andar de um lado para o outro com menos trânsito, mas é entediante,
tendo todos os amigos partido e estando tudo pegajoso e húmido. De qualquer maneira,
chega o outono e a cidade começa a mexer. Os nova-iorquinos regressam de
férias, o tempo arrefece. Quando eu era miúdo, em Brooklyn, os verões eram uma
dádiva, porque significava que não havia escola e eu podia jogar à bola todo o
dia e ir ao cinema. Era divertido, mas mesmo então, o outono significava que
todas as raparigas giras regressavam dos campos de férias, e embora o pesadelo
dos livros e das aulas pairasse no horizonte, pelo menos havia alguma anatomia
sigmoide para acelerar o fluxo sanguíneo.»
Pelos dias quentes,
vou também ter com o Billy Wilder, no filme O Pecado Mora ao Lado.
A imagem que encima o
texto, tem Marilyn, da janela olhando, o vizinho do andar de baixo
Quando Marilyn Monroe, a regar as flores, numa daquelas noites do Verão de
Manhattan, quase espeta com um tomateiro na cabeça de Tom Ewel que, no terraço
em baixo, lê o jornal.
Ele levanta-se com uma fúria desmedida, mas depara com o rosto de Marilyn entre
os vasos de flores, e convida-a para uma bebida.
Marilyn aceita o convite e acontece este delicioso diálogo:
- Vou à cozinha vestir-me.
- À cozinha?
- Sim! Quando está calor guardo a roupa interior no congelador.
Quando a televisão no que toca à Sétima Arte não se
tinha tornado no esgoto a céu aberto que hoje é, semanalmente o Eduardo publicava
uma crónica na revista semanal TV Filmes
que publicitava os filmes a transmitir pela televisão, a geral e as de Cabo, salvo
erro apenas o Canal Hollywood.
A Teorema, em devido tempo, publicou essas crónicas em
livro, a que deu o mesmo título das crónicas Outras Fitas, livro que o Eduardo dedicou ao Alberto Pinto e às amigas e amigos do Grupo Jantarista do Cais do Sodré.
Os itinerários do Eduardo tinham o caminho dos
pequenos restaurantes e dos pequenos cafés do Bairro Alto.
Por uma noite andava à procura de tema para a crónica
e, sentado num daqueles pequenos restaurantes a coisa apareceu, e acabou por
sair, mais tarde, do cinema com uma vontade doida e única de dançar em plena
Avenida da Liberdade e talvez gritar Toda Gente Diz que te amo.
Assim, tal qual se lê na página 55 do livrinho:
Eram seis meninas, num jantar de aniversário, num
restaurante do Bairro Alto, e lá estava ele, sozinho, numa mesa em frente,
ouvidos atentos à conversa. Falavam de festas, de roupas, de namorados. E,
quase todas, à volta dos 19 anos, recordavam episódios com o pai de cada uma.
Quando chegou a altura do Parabéns a você – a aniversariante
chamava-se Mafalda – juntou a sua voz ao coro e ergueu o copo num brinde.
Trouxeram-Ihe uma fatia do bolo de anos e, assim, uma certa cumplicidade se
instalou na saleta. Eugénio, o patrão, aumentou a simpatia e ofereceu-1he um
charuto cubano.
À saída, ele perguntou à Mafalda qual o último filme que tinha
visto, esperançado que fosse o Toda a Gente Diz que te Amo, do Woody
Allen. Mas, surpreendido, ela falou-Ihe no Poder Absoluto, do Clint
Eastwood, de que parece não ter gostado. E outro?, indagou ainda. O Paciente
Inglês, respondeu a Mafalda. Desse já falei, disse ele, e
despediu-se, deixando as seis meninas atrapalhadas com o insólito daquele
questionário, quase a queima-roupa.
Pois é, o tipo procurava um pretexto para
ligar a fita do Woody Allen, que ainda não tinha visto, a uma situação que
podia ter a ver com os enredos dos filmes desse realizador que ele tanto
admira. Os pais divorciados, a psicanálise, o contraste das gerações e as
aproximações inter-etárias.
Para ligar mais as coisas, no dia de Santo António,
patrono dos namorados, avançou, ao fim da tarde, até ao São Jorge, de tão
gratas memórias, para ver Toda a Gente Diz que te Amo. E, mais uma
vez ele agradece ao Woody Allen, o ter-lhe proporcionado momentos de quase
exaltação, com esta comédia, mais que musical, de homenagem ao musical.
Entre Nova
Iorque, Veneza e Paris, a história gira à roda de encontros e desencontros,
pontuada com momentos musicais, alguns bem divertidos, como a cena dos bailados
num hospital ou na cena do velório do avô, com fantasmas bailarinos a
insistirem que a vida são dois dias e nós já vamos no segundo.
Depois há o
enredo amoroso entre Woody Allen e Julia Roberts (cada vez mais bonita), com
esse delicioso "jogging" pelo percurso labiríntico das ruelas de
Veneza, junto aos canais, e o encontro nocturno, numa escadaria, com as
"deixas" de Woody, ensinadas pela sua filha na fita, que sabia tudo
da personalidade da outra, por tê-la ouvido e visto, às escondidas, em sessões
de psicanálise.
O humor está sempre presente em Toda a Gente Diz
que te Amo, com as personagens definidas pelo realizador, em diálogos
certeiros e hábeis momentos musicais. De realçar a homenagem, quase no final,
aos irmãos Marx, num Natal parisiense, e a apoteose, com a dança de Woody Allen
e Goldie Hawn, com Goldie a flutuar sob as pontes do Sena.
Saiu do São Jorge,
também com vontade de dançar na Avenida da Liberdade e, como de costume, a
sentir-se uma das personagens da fita que tinha acabado de ver. Agora, se
voltar a ver aquelas seis meninas do início da história, especialmente a tal
Mafalda, ele, sem razão aparente, irá murmurar apenas isto: Toda a Gente
Diz que te Amo.