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segunda-feira, 21 de abril de 2025

LIBERDADE ONDE ESTÁS?

Liberdade, onde estás? Quem te demora?

Quem faz que o teu influxo em nós não Caia?

Porque (triste de mim!) porque não raia

Já na esfera de Lísia a tua aurora?

 

Da santa redenção é vinda a hora

A esta parte do mundo que desmaia.

Oh! Venha... Oh! Venha, e trémulo descaia

Despotismo feroz, que nos devora!

 

Eia! Acode ao mortal, que, frio e mudo,

Oculta o pátrio amor, torce a vontade,

E em fingir, por temor, empenha estudo.

 

Movam nossos grilhões tua piedade;

Nosso númen tu és, e glória, e tudo,

Mãe do génio e prazer, oh Liberdade!

 

Bocage

sexta-feira, 1 de março de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 

Este livro, capa castanha, encadernado de origem, com as Poesias de Bocage, é um dos que o meu avô paterno trouxe para a Biblioteca da Casa quando foi viver para a casa dos  meus pais.

O livro não tem indicação da tipografia que, em Lisboa, o editou no ano de 1910 e tem poesias que na edição das obras do poeta não foram publicadas em Lisboa numa edição no ano de  1853.

Tem uma «Advertencia Preliminar» que termina assim:

«Sirvam estas razões de salvo-conduto com que grangeemos obter vénia perante os ânimos sensatos e despreocupados: quanto  áqueles, para quem (na phase de um nosso amabilissimo contemporâneo) é mais escândalo escrever um beijo do que tomar cento; -  esses teem em si mesmos contra o veneno do livro um preservativo tão fácil quanto infalível: - Não  o comprem, nem o leiam, e ficaremos em boa paz.»

 Falar de Bocage sem lembrar Alexandre O’ Neill?

 Auto-Retrato  de Alexandre O’ Neill à maneira de Bocage: tirado de Poemas Com Endereço :

 ONeill (Alexandre), moreno

português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele ONeill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sobre a ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse...

Um outro poema do O’ Neill sobre Bocage:

 

A UM POETA QUE DEIXOU DE COMPARECER  NAS ANTOLOGIAS

 

Tinha de suceder deixares de suceder

a ti próprio.

 

Já Bocage não és? - claro! -

e quem sabe se alguma vez o foste?

Digo-te mais : nunca o serás,

nem apocrifamente.

 

Não almejavas tanto?

 

Bravo, rapaz, parece que caíste

em ti!

 

Como queres que uma antologia se acrescente

sem, tarde ou cedo, se diminuir?

 

Sabes por que se diz « gemem os prelos»?

Não penses que é por ti.

 

Sê razoável!

 

Teus versos hão-de espiritualizar muita família.

 

Entre netos, uma velha senhora esquecerá a meio

um soneto dos teus.

 

Se a sorte não te for de todo adversa,

Um lusófilo, algures,

citará entre barras versos da tua lavra

numa elegante nota de rodapé.

OLHAR AS CAPAS


 Poesias

Eroticas, Burlescas e Satyricas

M.M. de Barbosa du Bocage

Bruxellas, 1910


XIII


É pau, e rei dos paus, não marmeleiro,

Bem que duas gamboas lhe lombrigo;

Dá leite, sem ser arvore de figo,

Da glande o fructo tem, sem ser sobreiro:

 

Verga, e não quebra, como o zambujeiro;

Occo, qual sabugueiro tem o umbigo;

Brando às vezes, qual vime, está comsigo;

Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

 

À roda da raiz produz carqueja:

Todo o resto do tronco é calvo e nu;

Nem cedro, nem pau-sancto mais negreja!

 

Para carualho ser falta-lhe um u;

Adivinhem agora que pau seja,

E quem adivinhar metta-o no cu.      

quinta-feira, 1 de abril de 2021

OLHAR AS CAPAS


Sonetos

Bocage

Introdução, Selecção e Notas de Vitorino Nemésio

Colecção Clássicos Portugueses nº 27

Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1943

Olha, Marília, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?

Vê como ali, beijando-se, os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores.

Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folhas a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurrando gira.

Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se eu não te vira
Mais tristeza que a noite me causara.