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sexta-feira, 1 de maio de 2026

O MEU PRIMEIRO DE MAIO

Sozinho, sempre sozinho,

mesmo quando vou a teu lado.

 

De ti que constróis o rumor das cidades

e no campo, semeias, lavras,

e pisas

o sabor do vinho.

 

Sozinho, sempre sozinho.

aqui  vou a teu aldo

eu, o poeta, operário de palavras

- as palavras «sonho?, «bandeira*, «esperança», «liberdade» -

instrumentos de pureza irreal

que tornam a Realidade

ainda mais real

e transformam os bairros de lata

em futuras cidades de cristal

num planeta de paisagens de prata

onde as bocas das flores, das manhãs, dos vulcões,

da brancura do linho

e das foices de gume doirado

cantarão um dia connosco a Internacional

- que eu continuarei a cantar sozinho,

sempre sozinho,

a  teu lado.


José Gomes Ferreira em O Diário, s/d

sábado, 11 de abril de 2026

POEMAS AUTOGRAFADOS


José Gomes Ferreira é o único autor que tem 3 livros publicados na Colecção Poetas de Hoje da Portugália Editora.

Em 20 de Março de 2025 apresentámos o Poema Autografado da Poesia I , no dia 21 de Março de 2026 apresentámos o da Poesia II e hoje apresentamos o da Poesia III.

Na Poesia III encontro os poemas do Zé Gomes de que mais gosto.

Temos por lá «Eléctrico», poemas de 1943 – 1944 – 1945, «Província» 1945 e «Café».

Zé Gomes o poeta de andar a falar sozinho pelas ruas de Lisboa, pontapeando pedras e José Manuel Mendes fala da mágoa de não o considerarem neo-realista:

«O Mário Dionísio, que tinha sido e se manteve, até ao fim da vida, uma referência do movimento em apreço, um crítico finíssimo e escrupuloso, tinha as suas reservas, expressas em textos bastante conhecidos que não vale a pena aqui reproduzir. Mas aquela mágoa, uma mágoa muito mais encenada do que real, que o Zé Gomes alardeava, por não ter sido considerado neo-realista numa época de neo-realismo, mágoa do avesso, uma espécie de enunciação saboreada de singularidade, apenas sublinhava o quanto a sua obra era contaminada não só pelas referências finisseculares  a que aludi, também por uma tangência surrealizante, no Eléctrico notória, entre experimentações e ousadias de vária índole.»

E é este o Poema Autografado de José Gomes Ferreira:

 

Dia de chuva na cidade

triste como não haver liberdade.

 

Dia infeliz

com varões de água

a fecharem o mundo numa prisão.

E alguém a meu lado com voz múrmura que diz:

“está a cair pao.”

 

Ah! que vontade de gritar àquela criança seminua

sem pão, nem sol de roupa:

“Eh pequena! Deita-te na rua

e abre a boca…”

 

(Dia em que urdo

este sonho absurdo.)

sábado, 21 de março de 2026

POEMAS AUTOGRAFADOS


José Gomes Ferreira é o único autor que tem 3 livros publicados na Colecção Poetas de Hoje da Portugália Editora.

Em 20 de Março de 2025 apresentámos o Poema Autografado da Poesia I e hoje apresentamos o da Poesia II.

Chove…

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove…

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Fernandes Fafe escreveu:

«O Fafe proclama: «José Gomes Ferreira é o meu maior amigo! José Gomes Ferreira é o meu maior poeta».

Hoje, lá ninguém lê José Gomes Ferreira. Os que não o fazem, perdem algo que nem podem calcular.

Como leitor fiz descobertas sem mapa, sem bússola, lembro José Gomes Ferreira, José Saramago, mais o Saramago que o Zé Gomes.

Havia a biblioteca do meu pai, havia os suplementos literários, quase todos a publicarem-se à quinta-feira.

Líamos os críticos, colhíamos orientações que eram, ou não, seguidas, mas orientações.

Lembro Eduardo Prado Coelho que terá sido, por aqui, o último moicano da crítica literária. 

O Eduardo Prado Coelho era o Eduardo Prado Coelho, como em tempos recuados o João Gaspar Simões era o João Gaspar Simões.

Assim como uma espécie de instituições.

Quando morreram ficámos a saber da falta que nos ficaram a fazer, depois de, amiúde, termos andado a chamar-lhes todos os nomes e dando de barato que por vezes, um e outro, se punham a jeito.

Francisco Vale, que é editor da Relógio d’Água, também jornalista, também escritor, lembra Pierre Bayard que escreveu um livro, Como Falar dos Livros Que Não Lemos.

Deixa no ar que os críticos, por vezes, falam dos livros que nem sequer leram.

Será?

Também nos diz dessa coisa horrorosa de os críticos darem estrelas aos livros que criticam: «a classificação que se justifica nos hotéis, como questão de conforto dos quartos e serviço de bar, e que talvez faça sentido nas estrelas do Guia Michelin, é de todo inadequada para leitura e ensaio.»

Pegando no Expresso, no Público, ressalta que nas poucas críticas (?) que fazem o que por ali se nota é um certo amiguismo, a influência que as editoras mexem e remexem.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

HORAS DE IR PARA O EMPREGO

Deixei em casa

a palavra lua, a palavra flor, a palavra pássaro

e desci as escadas

já com o emperro dos dias

de máquina vã

 

No patamar

uma garrafa de leite

- pequeno monstro branco de sentinela

o mau hálito luminoso da manhã


José Gomes Ferreira em Poeta Militante, 3º volume

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

O SOL ABRIU EM ASAS

O sol abriu em asas
um charco de água podre
e uma nuvem surgiu
no silêncio da tarde.

Mas quem se atreve a ver no céu
um pântano a voar?
Quem procura no coração dos anjos
o sangue do lodo?
Quem tem a coragem de gritar aos deuses:
«Vi-os subir dia terra!»?

Ninguém, ninguém...

Todos te contemplam
como se caísses doutro céu mais longe
para chover nas bocas sequiosas
a esperança do pântano esquecido.
E bradar nos vales das montanhas
a cólera do pântano revoltado.
E molhar até aos ossos
a febre dos mendigos
que desprezam os charcos
mas imploram de joelhos,
num latim de lágrimas,
a tua água atravessada de céu.

Ó homens que chorais
perdidos nos desertos
a abrir sulcos de cobra e vento nas areias
com lágrimas de sede.

Prendei, prendei nos astros
os gritos dos relâmpagos
que não cabem nas bocas
dos homens de joelhos.

Olhai, olhai nas nuvens
as águias orgulhosas
a agonizar silêncio
em olhos de humildade.

Tremei, tremei de medo,
a rezar de mãos-postas
às vossas próprias lágrimas de angústia
com asas de tempestade.

Tapai, cegai o sol
Com mãos de névoa e súplica
para que o mistério do sonho
seja maior do que o homem.

E nas noites misteriosas
com esqueletos de frio
enforcados no luar,
lançai às estrelas
as almas transidas
para aquecê-las
em nuvens de cinzas...
… de rojo no chão sem reparar
que, na terra onde caís
a magoar os joelhos numa prece,
crepita uma chama
funda e sombria...
A sarça ardente das coisas vis
que tudo cria…
A pobre fogueira a arder na lama
que nos aquece...
Enquanto de joelhos,
com os olhos a voarem do corpo,
todos procuram no fumo
a explicação do fogo.

Todos, menos eu!

Eu que nas tardes viris do mundo
só olho para o céu
quando o azul é mais profundo
sem ilusões de nuvens.

E se tenho sede
debruço-me no lodo
para beber com orgulho
a água imunda dos lameiros
que andou pelas estrelas
mas voltou à terra
com o sabor a sangue
de todos os astros.

José Gomes Ferreira

terça-feira, 6 de maio de 2025

AH! SE EU VIVESSE COMO OS OUTROS

Ah! se eu vivesse como os outros

alheio ao espanto de existir!

 

Se ouvisse apenas no coração

o Pêndulo do Tempo Parado…

- feliz porque os mortos e os vivos

andam há séculos a tecer um céu de teias de aranha

para esconder o globo das estrelas.

 

Se passeasse pelas ruas,

neste apodrecer de caixão hirto

dento dum automóvel funerário

com brocados de imaginação de ouro

a a fingir vida com buzinas

na complicação do trânsito

a cem quilómetros à hora.

 

Se pisasse as pedras naturalmente

sem as magoar dentro de mim,

aflito com o relógio que se atrasa

e ainda bem! porque encontro um sentido no sol.

 

Se colecionasse selos

para mais sentir o carnaval das nações

com preços nítidos nos catálogos

e na boca o sabor a agonia das fronteiras.

 

Se saísse todos os domingos

de espingarda às costas

para enfeitar o céu de riscos de sangue…

E voltasse depois para casa

com cadáveres à cintura

por caminhos de sonhos lentos

e contemplações de paisagens com flores nuas de remorsos.

 

Se me dessem uma farda para morrer pela pátria

nos olhos das mulheres que querem que eu morra na cama.

Se fosse todas as noites

Ao clube de casaca

a fazer cerimónia com o meu corpo de pano com angústias de seda.

 

Se a fome dos outros aumentasse o meu apetite de nuvens

e comprasse a pasta de dentes exacta

para rir mais branco nos alões de sono a dançar.

 

Se desmontasse o motor dum automóvel

para tornar a montá-lo e a desmontá-lo outra vez…

… e a montá-lo de novo através dos séculos de musgo…  

E o desse por fim ao meu filho

para que ele continuasse a montá-lo e a desmontá-lo

com a condição de não comprar peças novas…

(Tudo isto misturado com a minha solidão de canto de ave.)

 

E principalmente

se um dia morresse na cama

sem perceber que estava a morrer…

 

Então até as árvores me tirariam o chapéu,

porque tudo seria mais pequeno do que eu.

 

José Gomes Ferreira em Poesia II

quinta-feira, 1 de maio de 2025

O MEU PRIMEIRO DE MAIO

Sozinho, sempre sozinho,

mesmo quando vou a teu lado.

 

De ti que constróis o rumor das cidades

e no campo, semeias, lavras,

e pisas

o sabor do vinho.

 

Sozinho, sempre sozinho.

aqui  vou a teu aldo

eu, o poeta, operário de palavras

- as palavras «sonho?, «bandeira*, «esperança», «liberdade» -

instrumentos de pureza irreal

que tornam a Realidade

ainda mais real

e transformam os bairros de lata

em futuras cidades de cristal

num planeta de paisagens de prata

onde as bocas das flores, das manhãs, dos vulcões,

da brancura do linho

e das foices de gume doirado

cantarão um dia connosco a Internacional

- que eu continuarei a cantar sozinho,

sempre sozinho,

a  teu lado.

 

José Gomes Ferreira em O Diário, s/d

sexta-feira, 21 de março de 2025

VIVAM, APENAS

Vivam apenas.

Sejam bons como o sol.
Livres como o vento.
Naturais como as fontes.
 
Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.
 
Mas não queiram convencer os cardos
a transformar os espinhos
em rosas e canções.
 
E principalmente não pensem na Morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só são belos
quando se desenham na terra em flores.
 
Vivam, apenas.
A Morte é para os mortos!

José Gomes Ferreira de Comício em Poesia I

quinta-feira, 20 de março de 2025

POEMAS AUTOGRAFADOS


 Regressamos aos Poemas Autografados.

José Gomes Ferreira, constantes da Colecção Poetas de Hoje, tem 3 volumes publicados.

Ficamos com o autógrafo da sua Poesia I.

É o nº 5 da colecção e o o prefácio é da autoria de Alexandre Pinheiro Torres:

«José Gomes Ferreira, um dos mais notáveis poetas da língua portuguesa deste século, nasceu no Porto, em 1900.»

O poema pertence a Heróicas, penúltimo capítulo da Poesia I:

 

Que me importa cantar!

Eu não sou poeta de canções

para embalar

ninhos nos corações.

 

Sou este ímpeto de gelo de lâmina

que se levanta mudo

diante de tudo.

 

(E quem me impede

de ter alma e sede?)


Mas quando canto

- as minhas canções ásperas

de vagabundo

sabem ao espanto

dum rio sem foz…

 

E na minha voz

sangra o desespero do mundo.

segunda-feira, 22 de julho de 2024

JÁ QUANTAS VEZES GRITEI ASSIM?

Ah! que vontade de esbofetear o Silêncio!

De rasgar o céu com unhas de lágrimas

para  ver cair da Noite um sangue qualquer

nesta bola de ira

onde uma criança quase nua,

sozinha no Universo,

abre os olhos para haver estrelas…

 

Sim, estrelas

postas talvez ali de propósito para lhe enfeitarem a fome

com migalhas dum pão que ninguém come.

 

José Gomes Ferreira em Poesia III

quinta-feira, 9 de maio de 2024

QUERO VOAR

Quero voar
-mas saem da lama
garras de chão
que me prendem os tornozelos.

Quero morrer
-mas descem das nuvens
braços de angústia
que me seguram pelos cabelos.

E assim suspenso
no clamor da tempestade
como um saco de problemas
-tapo os olhos com as lágrimas
para não ver as algemas...

(Mas qualquer balouçar ao vento me parece Liberdade.)

José Gomes Ferreira em Poesia I

quarta-feira, 1 de maio de 2024

O MEU PRIMEIRO DE MAIO

Sozinho, sempre sozinho,

mesmo quando vou a teu lado.

 

De ti que constróis o rumor das cidades

e no campo, semeias, lavras,

e pisas

o sabor do vinho.

 

Sozinho, sempre sozinho.

aqui  vou a teu aldo

eu, o poeta, operário de palavras

- as palavras «sonho?, «bandeira*, «esperança», «liberdade» -

instrumentos de pureza irreal

que tornam a Realidade

ainda mais real

e transformam os bairros de lata

em futuras cidades de cristal

num planeta de paisagens de prata

onde as bocas das flores, das manhãs, dos vulcões,

da brancura do linho

e das foices de gume doirado

cantarão um dia connosco a Internacional

- que eu continuarei a cantar sozinho,

sempre sozinho,

a  teu lado.

 

José Gomes Ferreira em O Diário, s/d

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

AH! SE EU IMITASSE...

Ah! se eu imitasse a alegria das árvores e do vento

que riem sem motivo.

 

Mas não. Ando triste.

 

Já não me contento

em sentir-me vivo…

(E que outro destino Existe?)

 

José Gomes Ferreira em Poesia III

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

NÃO, NÃO QUEREMOS CANTAR

 

                           (Junto a minha voz ao coro dos poetas mais novos.
                           Recuso-me a ter mais de vinte anos.)

 

Não, não queremos cantar 
as canções azuis 
dos pássaros moribundos. 

Preferimos andar aos gritos 
para que os homens nos entendam 
na escuridão das raízes. 

Aos gritos como os pescadores quando puxam as redes 
em tardes de fome pitoresca para quadros de exposição. 
Aos gritos como os fogueiros que se lançam vivos nas fornalhas 
para que os navios cheguem intactos aos destinos dos outros. 
Aos gritos como os escravos que arrastaram as pedras no Deserto 
para o grande monumento à Dor Humana do Egipto. 
Aos gritos como o idílio dum operário e duma operária 
a falarem de amor 
ao pé duma máquina de tempestade 
a soluçar cidades de fome 
na cólera dos ruídos... 

Aos gritos, sim, aos gritos.

E não há melhor orgulho 
do que o nosso destino 
de nascer em todas as bocas... 

...Nós, os poetas viris 
que trazemos nos olhos 
as lágrimas dos outros.

José Gomes Ferreira em Poesia I

domingo, 19 de junho de 2022

MAIO 67 EM PORTUGAL


Em Maio de 1967 o poeta soviético Evtuchenko esteve em Portugal.

Aquiaqui e aqui, há pormenores sobre essa historieta.

Muitos de nós embarcámos no canto de sereia.

José Gomes Ferreira foi um dos que não foi em cantigas.

Exactamente em 1967, José Gomes Ferreira entendeu escrever poemas no quarto do filho Alexandre.

Escreveu apenas duas poesias incluídas em A Poesia Continua.

E anotou:

«A segunda criticava um bom poeta soviético, então de visita a Portugal – Ievtuchenko – que caíra, por inadvertência ou ignorância dos truques fascistas, na armadilha de se deixar fotografar por debaixo de um galo, espécie de brasão do S.N.I. Não pôde com certeza evitá-lo, o poeta.»

É este o poema:

Meu filho, queres saber
porque recusei fazer o papel de paisagem
e não entrei no elenco
da farsa que houve aí de homenagem
a Ievtuchenko?

Primeiro: porque já estou velho para pagem.
Depois, porque quase chorei quando vi
que foram fotografá-lo
debaixo do galo
do S.N.I.

Ah! Ievtuchenko,
que pensarão das tuas fotografias
e desse galo torto
(que tão bem te define)
as raivas do coração fundo
dos presos de Caxias!

E Lenine?

Que pensará o camarada Lenine
que - sabias? -
até depois de morto
fez a revolução no outro mundo?

Conclusão, meu rapaz:
nunca queiras ser cartaz.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

POESIA DE PAREDE


                  Uma vez exactamente em 1967, em pleno fascismo, à maneira

                  dos «jornais de parede lembrei-me de escrever «poesias de pa-

                  rede», para colar no quarto do meu filho Alexandre.


Alexandre: faz como eu.

Fecha-te nestas quatro paredes,

mas sonha que andas lá por fora

(na terra sem céu)

a matar as sedes

da gente que chora.

 

O moleiro mói melhor a farinha para o pão

no isolamento do moinho,

mas com a condição

 de ouvir bater no coração

o do vizinho.

 

Acredita, Alexandre, que a solidão

é boa para não se estar sozinho

José Gomes Ferreira em APoesia Continua

terça-feira, 9 de março de 2021

NUM CARRO PARA CAMPOLIDE


Uma mulher de carne azul,

semeadora de luas e de transes,

atravessou o vidro

e veio, voadora,

sentar-se ao meu colo

na nudez reclinada

dum desdém de espelhos.

 

(Mas que bom! Ninguém suspeita 

que levo uma mulher nua nos joelhos.)


José Gomes Ferreira de Eléctrico em Poesia III

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

ARDIL


Nesta mesa

desenhada pelo Keil

onde como e bebo

-ou melhor bebia –

e às vezes concebo

o que se assemelhe

com a poesia…

… nesta mesa,

á luz acesa

de um candeeiro de pé alto,

sinto agora o sobressalto

de quem ouve fundamente

trovões diversos

do que dantes ouvia

e hoje ninguém sente,

talvez escreva versos

com outra poesia

 

(Enfim! estratagemas

Para fingir poemas.)

 

José Gomes Ferreira, poema encontrado num JL datado de Março de 81

domingo, 28 de junho de 2020

DE TANTO TE IMAGINAR


De tanto te imaginar, de olhos fechados,
sei lá se te perdi!
E se esta sombra com quem voo nos telhados
és tu em vez de ti.

Só sei que quando vieres, real,
a cheirar a pele e a punhal,
com entranhas e caveira...

...terei de coser a tua sombra à minha,
atar o rio à Nuvem da tardinha,
a labareda ao fumo da fogueira.

José Gomes Ferreira em Poesia IV

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

APONTAMENTO PARA UM EXERCÍCIO SOBRE STRAVINSKY


Tudo.

Ser tudo,
igual e diferente,
águia empalhada com bicos de veludo.

Desejo de voltar para trás,
repetir pó novo nas pegadas mortas,
Proteu dos tempos,
sempre o mesmo pêndulo de arame no coração,
sexo do princípio do mundo,
valsas nos serões de fantasmas dos palácios velhos,
tragédias gregas em latim francês de Cocteau,
êmbolos de fábricas de coisa nenhuma,
suor matemático de Bach,
gosto de saltar de costas,
latas de vento a baterem no muro,
ranger de portas…

Saudades de não poder inventar o futuro.

José Gomes Ferreira em Poesia IV

Legenda: Igor Stravinsky