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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O POEMA TRANSGRIDE PELA MANHÃ

O poema transgride pela manhã
e cobre gloriosamente a trepadeira púrpura;
agora, que tudo e todos se odeiam,
na impenetrável aurora
sentem-se melhor.

A precisão maligna de impulsos
à astúcia de um pressuposto de luz
(pedaço a pedaço revelando a morte
e o nojo reprimidos)
declina o Tempo zodiacal:
a violenta partição do fluxo:
da Via Láctea ao vírus;
da epifania à produção em série;
do incesto ao tributo pago;
do continente à subida das ágüas;
da fala à sílaba;
da geografia à Arca; …

A gavinha do poema lambe caliça
num recanto de sombra, re-canta:
as escolhas e permutas na cidade-cluster.

De mão estendida o poema alastra.
Já sem núcleo, uma onomatopeia cindida.

Paulo da Costa Domingos

sábado, 27 de setembro de 2025

DISTO, DAQULO E DAQUELOUTRO

Esta secção nasceu com o propósito de ser semanal, mas nunca conseguimos seguir esse propósito. Resta apresentar os necessários pedidos de desculpa.


De Donald Trump há que esperar tudo, mais alguma coisa  e ainda a procissão vai no adro.

Como um país, como a América, consegue colocar um louco a governá-lo, é algo que ultrapassa todos os limites da incompreensão, dizer ainda dos milhões de admiradores que ele tem pelo vasto mundo, do qual Portugal não escapa.

O discurso que Trump proferiu esta semana nas ONU, está repleto de ameaças e lá vieram os imigrantes -  «é tempo de acabar de com a experiência falhada das fronteiras abertas. Têm de acabar com isso agora. Posso dizer-vos que sou muito bom nestas coisas. Os vossos países vão para o inferno».

Mas o mais surpreendente foi  ouvi-lo lamentar-se de que em tempos, foi preterido como empreiteiro num concurso para a renovação do edifício das Nações Unidas.

1.

Os preços das casas em Portugal Continental subiram 21,6% em Agosto face a igual período do ano passado. Há quase 40 anos que não se verificava uma subida tão acentuada em Portugal.

 

2.

João Ferreira da CDU, apresenta-se como o mais bem preparado candidato à Câmara Municipal de Lisboa.

«Carlos Moedas e Alexandra Leitão, candidatos à Câmara Municipal de Lisboa estavam mesmo convencidos de que iam ser favas contadas. Quando já estava decretada a corrida a dois, um desastre: os confortáveis debates frente a frente, apenas um contra o outro (tão ao gosto dos nossos comentadores do espectáculo político), foram travados pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social , que repôs a justiça (e a lei) e forçou a comunicação social a incluir todas a forças políticas com vereadores eleitos na autarquia – sendo a CDU a única candidatura excluída.

Nem mesmo a opção absurda de incluir o Chega (sem que nenhum critério o justificasse) alterou o resultado dos dois primeiros debates (na SIC e no Observador): «Ferreira venceu. Moedas pouco melhor que Leitão», declarou o Observador («João Ferreira ganha de novo e Leitão perde para Moedas», repetiram dias mais tarde); «Com Moedas à defesa, João Ferreira impôs-se no debate de Lisboa e levou Alexandra Leitão ao prolongamento», concluiu o Expresso; o podcast da equipa de política do Público é peremptório no título escolhido – «A vitória de João Ferreira».

Lido em Abril, Abril

3. 

«Um genocídio na Palestina, guerra na Ucrânia, tensão nos EUA e entre os EUA e Venezuela, autárquicas à porta... mas a televisão pública dedica os primeiros 22 minutos do Jornal da Tarde à mudança de treinador no Benfica. E está a repetir a desgraça no Telejornal. Isto não é apenas doentio, é indecoroso. É a miséria em que estamos metidos».

Lido no blogue Antologia do Esquecimento

4.

Os dirigentes das principais universidades do país e dois dos mais prestigiados investigadores nacionais arrasam a extinção da Fundação para a Ciência e Tecnologia, a medida do governo é radical, não tem fundamento e compromete a ciência.

5.

«De acordo com dados da empresa, há quatro concelhos sem pontos de venda de imprensa; cerca de duas dezenas só com um; 61% das freguesias, onde residem 19% do portuguesas não têm pontos de venda de jornais. Com exceção para a Grande Lisboa e Grande Porto, Setúbal, Coimbra e Braga, o resto do país tem rentabilidade negativa.

Sem leitura, aumenta a dependência das redes sociais como fonte primária de informação. Ora, sabemos bem como essas plataformas são terreno fértil para teorias da conspiração e manipulações. A ausência de informação profissional e verificada deixa o espaço público vulnerável.

Ler continua a ser um ato político, no sentido mais nobre do termo. Ler amplia horizontes, combate preconceitos e fortalece a cidadania. Mas para que isso seja possível é necessário que o Governo assuma a sua responsabilidade: garantir que a imprensa chega a todo o território, apoiar uma rede de distribuição que não pode ser deixada ao abandono, e reforçar políticas públicas que promovam a leitura desde cedo e ao longo da vida.»

Do editorial de Valentina Marcelino no Diário de Notícias de 23 de Setembro

6.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística, cada português desperdiça por ano 182,7 quilos de alimentos, e os dados de 2023 indicam que nesse ano desperdiçaram-se no país 1,9 milhões de toneladas de alimentos, sendo 66,8% desse desperdício atribuídos às famílias.

7.

Também uma frase do poeta e editor Paulo da Costa Domingos:

«É cada vez mais nos livros velhos que devemos buscar as verdades novas.»

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

POSTAIS SEM SELO


 Escreve-se imaginando um leitor que saiba ler.

Paulo da Costa Domingos

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

DO «OFÍCIO DE VIVER» (CESARE PAVESE)

Por fim, escreve-se imaginando

que o leitor sabe ler.

 

Movendo-me em torno do informe

entoo em silêncio um pensamento

ritmado, sempre o mesmo talvez.

Palavras e ligamentos

dão colorido ético à nova musical,

materializando-se, o que é o mais

importante. Resta voltar aí

repetidamente, a esses poucos versos

iniciais. Torturá-los, interrogá-los,

pô-los sob tensão, até que descubro

o tom justo, o verdadeiro enigma

que, ligado ao núcleo, exclui

o erro. Até que as possibilidades

intrínsecas ao ponto de partida

se tornam individualizadas

segundo as minhas forças. Núcleos

rítmicos visíveis: a magia

do poema a formar-se.

 

Fumo um cigarro, tento pensar agora

Noutra coisa, mas sorrio

Estimulado pelo meu segredo.

Escreve-se imaginando um leitor

Que saiba ler. Farrapos.

 

Paulo da Costa Domingos, em Resumo: a poesia em 2010.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 Sophia Mello Breyner Andresen sempre se admirou por as pessoas celebrarem a passagem do ano, dizia ela que o ano está sempre a passar. Há quem nunca deseje bom ano a ninguém, dizem que dá azar. E há a velha sabedoria que nos diz que os anos só são novos enquanto os novos somos nós.

Se viram um amável filme da norte-americana Rob Reiner, com Meg Ryan e Billy Cristal, When Harry Meet Sally, quase no final, numa festa de fim de ano, Harry reencontra Sally, começam a ouvir-se os acordes de Auld Lang Syne, e Henry diz que nunca entendeu o significado da canção pois diz que os velhos conhecidos devem ser esquecidos ou que se os esquecemos devemos recordá-los, mas como recordar se já os esquecemos? Sally não tem resposta mas, sorrindo, acaba por lhe dizer: seja o que for é uma canção sobre velhas amizades.
Chegamos a bom porto: velhas amizades, lembrar os que já não estão connosco, e os que ainda fazem do Natal a festa dos amigos, celebrar a amizade, e o desejo que a viagem, pelos dias do novo ano, seja uma viagem tranquila.

1.

De trás para a frente, da frente para atrás para que, após lamentável atraso, aconteça a lei que o catolicismo do presidente tem criado dificuldades várias. Marcelo Rebelo de Sousa decidiu enviar para o Tribunal Constitucional o diploma relativo à Eutanásia para confirmar se as exigências formuladas em 2021 estão devidamente rectificadas no novo diploma.

De trás para a frente, da frente para até que, após lamentável atraso, aconteça a lei que o catolicismo do presidente tem criado obstáculos.

Um antiga afirmação de Teresa Beleza, que não tem nada a ver com esta lei, com o que quer que seja:

«Mas a formação dos magistrados é absolutamente essencial, porque já se tornou por demais evidente que ainda hoje há decisões judiciais absolutamente indignas de um país que se diz ser um Estado de direito democrático e tem uma Constituição da República correspondente, que aliás recebe expressamente no seu texto a Declaração Universal como ponto de referência interpretativo privilegiado em matéria de direitos liberdades e garantias.»

 2.

Anemoia: nostalgia de um tempo no qual tu nunca viveste.

3.

Dizem que a televisão fez diminuir a convivência. Não será a dificuldade na convivência que introduz o poder da televisão.

4.

Ando sempre em demanda de livros que gostava de ter, que gostava de recuperar e percorro alfarrabistas, pergunto a amigos, frequento a Loja Frenesi. Há dias estava por lá O Nosso Amargo Cancioneiro, organização e prefácio de José Viale Moutuinho, Edições Latitude, exemplar estimado, capa suja, miolo limpo, 1ª edição, 50,00 euros e IVA e portes incluídos.

Paulo da Costa Domingos, dono da loja, cita o prefácio:

«Acertadamente refere Viale Moutinho, no seu prefácio, «um caminho – o da amargura», ao caracterizar o «momento fecundo da primeira metade de 1972» na intervenção continuada dos cantores sociais, em que um Zeca Afonso, ou um Adriano Correia de Oliveira, ou um Luís Cília, ou um José Mário Branco, ou um Sérgio Godinho foram pontos de referência à navegação de assalto às mentiras do Estado Novo. Num substancial resumo da enorme diversidade de poemas cantados nessa época, vamos encontrar a escrita directa de poetas como Afonso Duarte, Alexandre O’Neill, António Borges Coelho, António Cabral, António Gedeão, António Rebordão Navarro, Carlos de Oliveira, Daniel Filipe, Eduardo Valente da Fonseca, Fernando Assis Pacheco, Fiama Hasse Pais Brandão, João Apolinário, Ary dos Santos, José Gomes Ferreira, Saramago, Manuel Alegre, Maria Teresa Horta, Natália Correia, Orlando da Costa, Raul de Carvalho, Reinaldo Ferreira, Sophia de Mello Breyner, Urbano Tavares Rodrigues, etc.

Outros tempos, estes em que cantores cantavam poetas de referência, em vez de gargarejarem umas coisas que lhes ocorrem no banheiro.»


segunda-feira, 12 de setembro de 2022

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Por vezes as contracapas não têm quaisquer indicações.

Assim acontece em Poemas da Cidade de María Jesús Echevarría.

Apenas a continuação da ilustração da capa feita propositadamente para este livro por Maria Malheiro.

Para outras referências há que ir ao miolo do livro, onde encontramos a Nota Final feita pelo tradutor Paulo da Costa Domngos:

«María Jesús Echevarría, nascida em Madrid, em Setembro de 1932, aí veio a falecer, à beira dos trinta e um anos de idade (Agosto de 1963), tendo vivido em Nova Iorque o tempo suficiente para colher a amarga lição que este seu livro testemunha. Precisamente, é a sua experiência como estudante universitária e, em simultâneo, correspondente jornalística, o que aqui lemos transposto em arte. Não devemos, todavia, estender-nos em considerações literárias muito para além do que esta mulher-intelectual nos legou. Versos escritos em tom epistolográfico – e que as respectivas dedicatórias confirmam –, são eles notícia da desumanização e da hipocrisia da grande metrópole, a Grande Maçã podre, capital de um império que se posicionou, após a Segunda Guerra Mundial, como o polícia do mundo. Lírica sobre um cavername de ferro e betão, lírica corrida de asfalto, lírica de um desespero trágico. E mais não digo»

Talvez pudéssemos nós ir um pouco mais adiante, recolhendo, por fora, outros pormenores:

A América vai-se transformando numa decepção sem fim à vista.

Joe Biden arrisca-se a ficar na história dos Estados Unidos, como o pior Presidente de sempre.

Será mesmo possível? 

Depois dos Bushs, do Trump?

Para além de ter feito tudo para provocar a Guerra na Ucrânia, apareceu há umas semanas em conluio com os déspotas da Arábia saudita.

Antes de ser eleito, Biden garantiu aos americanos, e ao mundo, que constituiria a Arábia Saudita como um Estado Pária, mas já apareceu em conversas com toda aquela gente e manifestando-se como um «parceiro comprometido com o Médio Oriente».

Nestes breves poemas de María Jesús Echevarría ressalta parte evidente do que é a grande maçã podre.

 «Dai-me, Senhor, o estrépito, o ruído e a miséria.», lê-se no primeiro verso do poema «Oração da cidade e eu» de Echevarría. 

OLHAR AS CAPAS


Poemas da Cidade

María Jesús Echevarría

Tradução: Paulo da Costa Domingos

Capa: Mariana Malheiro

Ilustrações: Mariana Malheiro

Barco Bêbado, Lisboa, Agosto de 2021

 

Subpoema

 

E tu, monte de trapos.

Boneco, marioneta de um teatro tristíssimo.

Manipanso carregado de terrores

seguindo em fila como um colegial da vida.

 

E tu, como uma vara frágil e antiga.

Feito de angústia, irmão meu.

 

Assustas-me sempre que se atiça

essa chispa fortíssima dos teus olhos,

esse cílio que incessantemente agitas

e esconde a delicada amiba do teu espírito.

 

Sei muito acerca de ti. Fizeram-te

de um raro material branco e brilhante,

verteram sobre ele

a aborrecida obrigação da existência.

Assim, feito de trapos.

Boneco de serradura.

Os teus modos teatrais de papelão

vão ficar em pasta com a chuva

e morrerás em lágrimas.

Ainda que também pudesses morrer de queitude

e somente abrir os olhos

nas Festas à Vida dos outros.

Como os altos e empoeirados monstros

nos esconsos das nossas catedrais.

terça-feira, 4 de maio de 2021

FOLHAS DE RELVA

De bolsos vazios

e alma cheia,

sapatos na lama,

mas, um pormenor:

o falcão em mim

pelos ares me leva.

 

Silêncio e solidão

se instalaram nesta

casa. Assim sendo,

só mais um pormenor:

são na subida os ares

tão frios quão na queda.

 

Doravante nenhum

golpe de sorte,

cuidarei eu das plantas.

Doravante, a estrada

estreita, as raízes

se tornam aéreas.

 

O gato terá seu pires

de leite e a serradura

mudada... Ou não:

serei eu inútil

no sonho-fantasma

em cadeira de baloiço.

 

Não te rales,

camarada, te dou

minha mão,

seguiremos juntos

por todo o tempo

que vivermos.

 

Mesmo nada sabendo

do voo ou dos ventos

comigo te levo

camarada, e juntos

bateremos sola:

ofício de treva.

 

Dinamicamente

resolveremos o dilema

e o paradoxo

da noite perene;

que seja essa

a nossa leveza.

 

Dinamicamente,

por sobre 

o arame

farpado,

passaremos

nosso labor.

 

Paulo da Costa Domingos em Versos Abrasileirados

terça-feira, 23 de março de 2021

TIRAR O VÉU A CARTAS DESTA VALIA


A capa do precioso livrinho já mereceu um Olhar.

Hoje, reproduzo as palavras que os editores, Emanuel Carneira e Paulo da Costa Domingues, colocam no prefácio. No meio de todo o lixo que por aí campeia, sabem bem estas palavras:

«Tem-se, por vezes, a sorte de ler aquilo que poetas e editores entre si trocam de mensagens. Fala-se de livros, fala-se do como dar a ler a oficina poética em páginas límpidas. Conspira-se sobre esboços a legar ao Futuro. Tem-se, por vezes, sorte. A sorte de testemunhar da fábrica, a sorte de sermos nós o autêntico destinatário, o alvo verdadeiramente cultural de preocupações e minúcias editoriais. Cuja implícita pedagogia é de agradecermos.
Aqui, numa toada que nos faz lembrar o bailado felino de dois gigantes criativos que se respeitam mutuamente e que, mutuamente, procuram eles (e encontram) o melhor terreno para a travessia dalguma arte vinda do outro lado do oceano. E se é um triângulo o que aqui temos, não é ele o buraco negro sorvedouro de matéria, mas, isso sim, o triângulo “amoroso” revelador do espírito de uma época culta irrepetível. Tirar o véu a cartas desta valia, que circunstâncias várias acabam, tantas vezes, por votar a uma invisibilidade perene – não fosse a acção dos que se dedicam, com obstinado entusiasmo, à preservação de arquivos e da memória histórica – favorece, pois, a possibilidade de enquadrar, de avivar protagonismos, de desenterrar detalhes dessa extraordinária aventura humana, poética e/ou editorial.
Em cena: Mário Cesariny, poeta-ex-editor proponente de um original inédito do poeta brasileiro Sérgio Lima, a Vitor Silva Tavares, editor-poeta e guardião do Subterrâneo Três. O livro a que tudo se refere – Aluvião Rei – sairia chancelado & etc, no mês de Setembro de 1992.
Da transcrição dos manuscritos, vai aproximativamente diplomática.»

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

OLHAR AS CAPAS


 Fruta da Época

Jorge Fallorca

Capa: Paulo da Costa Domingues

Frenesi, Lisboa, Maio de 2001

 

Aprendia a caminhar devagar porque o calçado também

se gasta, e além disso não tinha pressa nenhuma.

Está tudo à mão, só é preciso saber chegar-lhe.

Não?

Digo eu, não sei:

se  vai à vela, remos ou motor, mas que já não largou o porto é certo

«Senta aí, homem.»

«Sento porque eu quero. O corpo é meu»

Era sempre assim,

        começavam

Foram a Sines pelo caminho velho.

Assomaram ao campo que foi de aviação, e torpes lá che-

garam  a Sines.

Ele, tretas & tretas doutros escaldões.

Ele visitou a mana que habita o largo e volto-me já.

Foram:

       o miúdo ao patinhas

       ela às louças

       ele com os olhos lambendo as paredes, dono das cores.

Depois, voltaram ao porto e foram à maré.

Completos:

        galritos

        caniço

        o peixe doutro nome como isco

        cacilhos nos beiços que se apagam cedo.

Desceram:

       pedra riscada, juliana (fora) a prima da abrótea, mais

uns caramujos de enteter.

Burriés?

Sim.

Mas não tem som.

Só as gralhas do porto:

         escreve-se na areia o que o papel nunca diz, depois

vem o que esquece tudo e nunca soube de nada.

Vento também há, menos.

Cheira.

Pega-se-nos cheio de linhas, telegráfico.

Espécie de renda coando a intimidade das janelas.

Vento:

Cada um a sua, e quantas vezes salpicadas de estrelas,

latindo para as canas.

Disputam-nas:

        berreiros, gamanços, canadas, porrões, copos, pois, e

mais copos por uma cana.

Sendo vidrada, melhor.

Atestado de água boa – sabia-lhe os sítios – foi-se a estes

montes sem dizer:

         andou, andou, andar-se até à beirinha de uma pedra

a olhar pró pessegueiro.

Ham!, é uma forma de dizer, sabe-se lá se não era mas é

a ilha o que estava a ver?

terça-feira, 9 de junho de 2020

POSTAIS SEM SELO


Porque a leitura faz de nós melhores pessoas. Aprendi eu isso. E isso consolidou em mim o autodidacta.

Paulo Da Costa Domingos em Narrativa

Legenda: desenho a grafite da autoria de Vitor Silva Tavares

segunda-feira, 13 de abril de 2020

SOCORRENDO-SE APENAS DA MEMÓRIA...


Nunca li o livro de Mário Sacramento « Fernando Pessoa da Hora Absurda», mas aqui podem recordar uma história mirabolante de Luiz Pacheco tirada do seu «Memorando, Mirabolando» e não resisto a republicar este pedacinho desse texto:

«Nunca vi o dr. Mário Sacramento, apenas fotos suas nos jornais. Durante a atribulada edição do livro, que demorou anos [entre 1953 e 1959], apenas nos correspondíamos por carta e ele tanto me remetia o original e provas de Aveiro como do Forte de Caxias, nas muitas perseguições que a PIDE lhe moveu.»
Paulo da Costa Domingos, na Frenesi Loja, acrescenta:

«Consta – o que torna este ensaio acerca da obra de Pessoa uma obra de culto – que o Autor, à falta de livros de apoio na cadeia, o terá redigido socorrendo-se apenas da memória para as citações que justificam o seu raciocínio e o ilustram.»

quinta-feira, 28 de março de 2019

POSTAIS SEM SELO


Escreve-se imaginando um leitor que saiba ler.

Paulo da Costa Domingos

Legenda: pintura de Françoise Collandre

sexta-feira, 29 de junho de 2018

OLHAR AS CAPAS


Versos Abrasileirados

Paulo da Costa Domingos
Capa e ilustrações: Bárbara Assis Pacheco
&etc, Lisboa, Novembro de 2012

Alexandre O’Neill – Fernando Assis Pacheco – Carlos Drummond de Andrade, Ida e Volta

Minha amiga, seu leite
está todo à mostra
derramado pela montra;
até seus dentes de marfim
parecem teclas de um piano
que, por racismo, houvesse
expulso as pretas. E mais
lhe digo: mesmo míope
já se vê que você é
porto franco do cocuruto à
unha do pé. Consigo,
nem vale a pena escandir sílaba:
vamos lá pela respiração;
que a limpeza desse estendal
derreia qualquer asmático… e
o que não sofrerão cardíacos!

Quanto a música, os homens
que passam, ante uma pauta assim,
apreciadores do spread das notas,
não há quem a veja que não
tocasse, dizem eles, com certeza
dez oitavas bem medidas.
A duas mãos. Porque no improvisos,
afinal as pretas se refugiaram todas
bem do centro do seu jardim.
Mulheres então não perdem
pela demora é um ver se t’avias,
púcaro a púcaro, bilha a bilha,
num coro de partir loiça.

Se eu tivesse alguma fé supersticiosa,
benzer-me-ia entre murmúrios
de; Meu Deus, que puta!

quinta-feira, 10 de maio de 2018

LER, NÃO CHEGA...


Fabriquei eu todo o vidro preciso nas janelas de uma casa à minha medida. Uma parte-de-casa, digo, algures, ou de alguém. Importava ficar-se ao abrigo de ventos de granizo, ter uma referência nascida do empreendimento destas mãos. O que me imiscuiu em tantas e perdulárias moradas. Logo em muito miúdo habituara-me a pequenos domínios como o cantinho de uma marquise solarega, clara, onde o vão entre quatro pés do tanque em cimento me bastava para tecer cobiçosas intrigas. Jamais me atrevia a espiar o território adulto, verdadeiro campo de treino para a desconfiança e o desatino. Era como escolher encosta íngreme da ravina o mergulho directo num casulo.
Vivi, pois, durante uma época, ainda que muito brevemente, numa casa cujas janelas me inclinavam para as traseiras de um poeta: Raul de Carvalho. Cantava; ouvia-se-lo cantarolar sobre quintais e saguões, à luz de ouro no Outono lisboeta. E ia pondo a sua roupa lavada no estendal, na alegria doce de quem vive, não sozinho: na companhia de versos em louvor dos nadas do dia-a-dia. E o seu vidro saía cortado à medida da sua casa. Algo de que nunca eu me cansei, repetindo, repetindo iguais gestos, decerto, na minha própria construção. Ler, não chega; há que ver e ouvir pela abertura do coração, comovidamente. 

Paulo da Costa Domingos em Narrativa

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

CAEM


Caem. Direitas à terra, crianças
que se dependuraram nas varandas
a secar. Prumos de sangue,
suicidadas pelos pais. Entre o povo
é assim: sempre sobram
mais filhos para deixar cair
no esquecimento. É o que acontece
por maternidades indesejadas
de noivas de pechisbeque

Paulo da Costa Domingos em Resumo: a poesia em 2010.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

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CARTA DE VITOR SILVA TAVARES

22.7.09

                                                     Caro Paulo

Disseste-me que o teu livro não é aquilo a que se pode chamar “um livro de memórias”. Em rigor em rigor, acho que é e não é. Não é, por certo, um livro “jornalístico” (o autor vai ali ao calendário da sua vida e dá notícia) mas é sim senhor, quanto a mim, um mergulho visceral – entenda-se, visceralmente poético, logo interventivo – naquele magma de impressões redivivas, experiências e encontros determinantes, obsessões e traumas que musculam mais que uma vocação – aliás, afirmada . um sentido de e para a vida (pelena).
Encaixa o que tem de encaixar, rejeita o que afinal não passou de acidentes de percurso, necessários embora.
O teu livro, até na sua formulação linguística, nada funcionária, funde-se no complexo da tua obra poética. Não ilumina, não revela, não toca e foge – faz parte.
Surpresa propriamente dita, não a tive. Mas foi-me grato o reencontro com a persona.
                                                        
                                                      Um abraço do teu
                                                                                   VST


Legenda: Paulo da Costa Domingos, Vitor Silva Tavares e Jorge Fallorca na Brasileira do Chiado, Janeiro 2009

OLHAR AS CAPAS


Narrativa

Paulo da Costa Domingos
Carta-Prefácio de Vitor Silva Tavares
Desenho da capa a grafite de Vitor Silva Tavares
Alambique, Lisboa, Maio de 2016

Não esqueço.
Aqueles a quem roubaram o sorriso. Portugal é isto: uma fila de velhos muito pobres, verdade e fingimento, à porta de um dispensário, num coro constante de tosses; também ramela. Queixumes e câmbios de mazelas e, no fundo, ninguém quer que lhe tirem as doenças. Nada mais possuem. Depois como era!!?... E há os intelectuais: os intelectuais têm muita graça.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


& Etc. – Prolegómenos a uma Editora
Catálogo da Exposição

Coordenação editorial, capa e concepção gráfica: Paulo da Costa Domingos
Autores de textos e imagens:
Alberto Pimenta, Almeida Faria, Carlos Ferreiro, Inês Dias, João E. Cutileiro, Jorge Silva Melo, Maria Inês Cordeiro, Paulo da Costa Domingos, Ricardo Álvaro, Telma Rodrigues, Vitor Silva Tavares
Livraria Letra Livre, Biblioteca Nacional, Lisboa. Fevereiro de 2017

Vitor Silva Tavares foi um Homem raro. Genuíno, naturalmente vertical, lúcido, felino, livre-livre como um pardal-de-telhado que transporta a Liberdade no voo, Senhor de uma «grande razão» e de uma sabedoria e dimensão existencial para além das medidas curtas desta mesquinha alfaiataria humana, certo até à medula da sua altitude e profundidade. Vitor Silva Tavares despediu-se deste mundo e já não mora aqui. O editor-poeta da nossa Legião dos Únicos, dos «últimos dos últimos», viaja na sua Automotora a caminho do Fundão, da «chafarica», Pasárgada, & et. Obrigado por esta boleia generosa e atá à próxima estação.

(Do texto de Ricardo Álavro)

sábado, 26 de setembro de 2015

V.S.T. & ETC


A Colecção &etc não está numerada.
Mas Coisas, um volume colectivo, é o primeiro livro editado.
Vi o anúncio da sua publicação na folheca nº 18, Dezembro de 1973.
Fiquei atento.
Mas à cautela pedi ao Carlos Porto, um dos autores antologiados, por esse tempo colaborador do República e um dos donos da Livraria Opinião, que me reservasse, logo que desse à luz, um exemplar.
Foi assim que o livro chegou às minhas mãos.
Tanto quanto me lembro, o livro não teve distribuição pelas livrarias.
Ainda existia a censura e a PIDE e era necessário tomar cautelas e caldos de galinha.
Os textos são da autoria de Adelino Tavares da Silva, António Manaças
Baptista-Bastos, Carlos Porto, José Martins, Nelson de Matos, Paulo da Costa Domingos, Pedro Oom, Virgílio Martinho e de Vitor Silva António Manaças.
Cada texto é antecedido de um desenho.
Os desenhos são da autoria de Ferreiro, Eurico, Lud, com dois desenhos, Figueiredo Sobral, João Rodrigues, Ana Machado, Gonçalo, Aurélia e Aldina.
Ao tempo da publicação de Coisas a &etc situava-se na Rua da Mãe d’Água nº 13-2º.Dtº.
A dedicatória do Vitor Sila Tavares, é colocada no livro, mais mês menos mês, quarenta anos depois da sua publicação.


O texto do Vitor Silva Tavares, publicado em Coisas, termina assim:

Que tal um lar saudável com espaços verdes à volta (na famosa costa do sol)? Nos subúrbios, tanto ranho nas ventas da criançada! Maria, vaza o penico. Morre-se confortado pela Santa Madre Igreja. Os mortos têm todo o tempo a seu favor. Que excitação para os pequeninos espectadores! BIB BIC BIC, a minha terceira escrita. Sofro de cancro na bic. E na tola. E enfim. E mais um automóvel: o Marine é de facto um carro a sério, um fora de série, e por isso dizemos que é tudo quanto se pode desejar num automóvel. Pois pois. Quem sabe comprar, sabe pagar! Segue-se um programa de variedades. Poetas doidos rebentam de sonho e fel nas noitadas a bagaço e cervejame. Como é triste Veneza ll n’y a plus rien. Para o mês que vem veremos. Cá vamos chorando e rindo. Tanta conversa fiada dá-me cabo da molécula. Assim como assim. Tive uma ideia maluca para pôr aqui. Esqueci. Bebi. Cichi. (…)

                 «Imoderato chorabile» é um excerto (ex certo) do texto
                 «Falar desta castração», escrito no Verão de 1972 e con-
                  servado (ainda bem!) inédito.