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domingo, 29 de março de 2020

NO PRINCÍPIO ERAS TU...



No princípio eras Tu, no fim Tu serás 
e no meio dormem os homens um longo, 
longo sono onde o tormento se faz carne 
e habita entre nós. Porque ninguém jamais 
Te viu. Outros virão, outros, outros e outros 
para consumar o círculo da vida, os que chegam 
depois de Ti e nunca antes, ou não fosses Tu 
o princípio, ordem e silêncio de todas as coisas.

No princípio eras Tu, no fim Tu serás 
e no meio conhecem os homens a dor 
e a devastação, a fome e a ruína, a solidão 
e a injustiça. Porque ninguém jamais Te 
viu. Nem os que choram, nem os que riem 
nem os aflitos, nem os doentes, nem os que 
envelhecem nem os que, fatigados, morrem.

Eloi, Eloi
quem te ama chora.

No princípio eras Tu, no fim Tu serás.

Ana Marques Gastão em Três Vezes Deus

sexta-feira, 19 de abril de 2019

NO PRINCÍPIO ERAS TU


No princípio eras Tu, no fim Tu serás
e no meio dormem os homens de um longo,
longo sono onde o tormento se faz carne
e habita entre nós. Porque ninguém jamis
Te viu. Outros virão, outros, outros e outros
para consumar o círculo da vida, os que chegam
depois de Ti e nunca antes, ou não fosses Tu
o princípio, ordem e silêncio de todas as coisas.

No princípio eras Tu, e no fim Tu serás
e  no meio conhecem os homens a dor
e a devastação, a fome e a ruína, a solidão
e a injustiça. Porque ninguém jamais Te
viu. Nem os que choram, nem os que riem
nem os aflitos, nem os doentes, nem os que
envelhecem nem os que, fatigados, morrem.

Eloi, Eloi
Quem te ama chora.

No princípio eras Tu, no fim Tu serás.

Ana Marques Gastão em Três Vezes Deus

quarta-feira, 27 de março de 2019

MORRER POR NADA


Morrer por nada
ter alcançado
e morrer exausto
porque deus emudeceu
em nosso diálogo
extremo e irrazoável.

Ana Marques Gastão de O Silêncio de Deus em Três Vezes Deus

Legenda: fotografia tirada do blogue ultimaemociom

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

DIZENDO-ME: AQUI ESTOU!


Um dos livros herdados da biblioteca do meu pai, é um calhamaço, mais de 700 páginas, da Editorial Inquérito: A História das Religiões de Chantepie de la Saussaye.

Tinha os meus 17 anos, passei os olhos, apanhei o que consegui entender e, passados uns tempos, não lembro quanto tempo, comecei a ler o Albert Camus.

Quanto a religiões fiquei vacinado.

Respeito a fé, as crenças, tudo, de quem entenda a isso dedicar-se.

Gostaria que respeitassem o facto de não frequentar deuses, mas não acontece facilmente.

Só Deus sabe da tranquilidade do meu ateísmo e do respeito que tenho pela fé dos outros.

Sobre Deus há um poema dramático de António Rego Chaves:

Olhava o mar
As ondas
O último esgar
Dos afogados.

Dizia: não salvo.
Vejo e contemplo.
Como se fosse Deus.

Parto para outras citações:

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

Alberto Caeiro

Como será possível acreditar num Deus criador do Universo, se o mesmo Deus criou a espécie humana? Por outras palavras, a existência do homem, precisamente, é o que prova a inexistência de Deus.

José Saramago, Cadernos de Lanzarote

Muitos não o perceberam: a grande acusação que José Saramago faz a Deus é Ele não existir, a não ser criado pelos homens.

José Manuel dos Santos

Alguns fundamentalistas católicos citam:

Deus não é silencioso. Nós é que somos surdos.

O que censuro ao cristianismo, é ser uma doutrina de injustiça.

Albert Camus

Um milhão de velas ardendo pela ajuda que nunca veio.

Leonard Cohen

não creio como eles creem,
não vivo como eles vivem,
não amo como eles amam…
morrerei
como eles morrem.

Marguerite Yourcenar

A Bíblia refere a pergunta de Jesus:

Meu Deus, meu Deus por que me abandonaste?

No livro Três Vezes Deus, de Ana Marques Gastão, António Rego Chaves, Armando da Silva Carvalho, a vez de António Rego Chaves chama-se A Morte de Deus.

São 24 poemas.

O primeiro foi atrás transcrito, os restantes irão surgindo.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Três Vezes Deus

Ana Marques Gastão
António Rego Chaves
Armando Silva Carvalho
Prefácio José Tolentino Mendonça
Assírio & Alvim, Lisboa, Dezembro de 2001

Com os anos, a morte começa a desenhar-se
na calmia das tardes quando tudo parece
esperar as maçãs de um rosto glorioso.
Às vezes esquecemo-nos de tacar os sapatos.
Saímos para a rua com as meias trocadas pela alegria
e nos lábios o riso que combina bem
com a camisa do tempo.
Somos senhores do mundo.
Temos as medidas certas da terra
aberta à nossa frente.


Armando Silva Carvalho