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terça-feira, 18 de setembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Há homens que não são fáceis de adjectivar.

Dinis Machado na morte do seu camarada de profissão e amigo Roussado Pinto, vulgo Ross Pynn, em Gráfico de Vendas Com Orquídea 

terça-feira, 19 de outubro de 2010

OLHAR AS CAPAS


A Mulher Nua

Ross Pynn
Capa de Maria de Lurdes Paes
6ª edição, Abril de 1983 com tiragem de  10.000 exemplares. Portugal Press
A 1º edição saiu em Outubro de 1962
Em Janeiro de 1063, A Mulher nua  foi apreendido pela Direcção dos Serviços de Censura, tendo sido alegado que, encontrando-se o país em guerra, e sendo o personagem Joe Stassio contra a guerra,  a sua publicação era contraproducente.

Um homem como eu pode acordar de manhã em diversos sítios. Tudo depende da noite anterior. Acordar numa casa, num banco de jardim, atrás de uma pilha de caixotes, num valado ou numa prisão – tudo é possível. Não que seja vagabundo. O bilhete de identidade, além do nome Joe Stassio – diz: “sem profissão” – mas foi com ele que me apresentei quando da questão do  paralelo 39 (lembram-se, não é verdade?), e por lá mordi as pedras em Pork Chop Hill.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

ROSS PYNN


Chegaste tarde - dizia ele - O que vale é que é pouca coisa.
Pouca coisa, dizia ele: uma resma de material: artigos, notícias, horóscopos, o consultório sentimental, funerais, a sessão solene, os crimes na cidade. Era trabalho para quase uma semana e eu tinha que o despachar todo num dia.
Estávamos na antecâmara da morte decretada do "Diário Ilustrado". A rapaziada tinha abandonado o barco, e com razão. Ele ficou. Comprometeu-se a fazer o jornal até ao fim: um jornal que ninguém lia, feito de remendos, cheio de buracos que ele preenchia com textos esotéricos, ou vulgares, ou invenções, ou fotografias.
Eu disse:
- Vou-me embora, Ross. Quem mandou fechar o jornal, que mande o material para a tipografia.
Ele disse:
- Vai-me ser difícil fazer tudo sozinho.
Fiquei. Ficámos na solidão de uma grande sala, cheia de secretárias abandonadas; dividimos o trabalho: um caderno para ti, outro para mim. Trabalhámos muito depressa, com ele trabalhei sempre muito depressa. Depressa, e muitas vezes mal. Às vezes bem. A certa altura as teclas da sua máquina de escrever paravam de saltar, de espetar saom nas paredes. Ele diz ia: vamos comer qualquer coisa.
Tínhamos alguns gostos comuns: o Chandler, certos sub-produtos literários fascinantes, a B.D., a pescada cozida, os gangsters do cinema, as notícias com ar amalucado. Ele às vezes sorria, gordo, simples. Sabia sorrir.
Sempre o vi vagamente solto, um pouco disfarçado, comprometido apenas com o seu trabalho e as suas obsessões. E a urgência disso. Como se as 24 horas de cada dia fossem um erro da natureza. Alguém se enganava na medição do tempo e ele, para acertar com o que procurava, fugia para a frente.
às vezes dizia coisas assim:
- Comecei esta manhã um romance policial. Tenho que o acabar depois de amanhã.
Era uma espécie de código da pressa. Aquilo não tinha explicação.
Despedimo-nos à porta do jornal, feito o último número, a sorrir. Tínhamos sido bombeiros sem água num incêndio que não existia, roçámos o absurdo do trabalho mais estúpido, da mais risível das inutilidades.
Telefonou-me passados anos.
- Vou-me embora da Íbis - disse - Vou fazer a minha editora. Pensei em deixar-te o meu lugar.
- Qual é o ordenado?
Ele disse-mo: era três vezes mais do que eu ganhava nos jornais.
- Está bem, vou - disse-lhe.
- Vê se apareces já amanhã ou depois. Passo-te isto. É fácil.
Fácil, dizia ele. Tinha erguido um império de fancaria, tinha feito uma panóplia de imbecilidades e algumas coisas notáveis. De Corin Tellado aos livros de anedotas, valia tudo. Fiquei a fazer os mais desgraçados trabalhos da literatura de massas. Mas eis que, de repente, encontrava ouro. Por exemplo o contrato para a edição portuguesa de "O Compromisso", de Elia Kazan. Coisas do Ross, pensava eu: Corin Tellado versus Elia Kazan.
O tempo correu. Chegavam-me notícias dele: o Ross está a fazer isto, o Ross está afazer aquilo, o Ross deixou um abraço, o Ross está afazer o "Jornal do Incrível", o Ross vai fazer outra vez "o "Cuto", o Ross planeia. Nunca mais o vi, mas imaginava-o naquela corrida louca, poética e mercenária.
Quando se fizer o inventário de tudo sobre o que ele lançou à sua sombra, talvez apareçam interessantíssimas surpresas. Há homens que não são fáceis de adjectivar.
No momento de fechar este texto parece que o estou a ver a morrer depressa, muito rapidamente, a escrever à máquina com um tiro na boca, dado pela vida. À Hemingway, mas de maneira lateral.
Uma morte portuguesa com veleidade americana.