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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 Mantém-se o facto de que o compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida, não compreender as pessoas, não as compreender, não as compreender, e depois, depois de muito repensar, voltar a não as compreender. É assim que sabemos que estamos vivos: não compreendemos. Talvez o melhor fosse não ligar ao facto de nos enganarmos ou não sobre as pessoas e deixar andar. Se conseguirem fazer isso – estão com sorte.

Philip Roth em Pastoral Americana 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

POSTAIS SEM SELO



 

A vida é apenas um curto período de tempo em que estamos vivos.

Philip Roth em Pastoral Americana

domingo, 11 de abril de 2021

QUE ACONTECEU?



Que me surpreendeu mais nos meus primeiros dias de deambulação pela cidade? A coisa mãos óbvia – os telemóveis. Lá no alto da minha montanha ainda não tínhamos cobertura de rede, e  cá em baixo em Athena, onde a têm, raramente via pessoas a andar na rua falando despreocupadamente para dentro dos seus telefones. Lembrei-me de uma Nova Iorque em que as únicas pessoas que subiam a Broadway parecendo que iam a falar sozinhas eram malucas. Que tinha acontecido nestes dez anos para que de repente houvesse tanto para dizer – tanto e tão urgente que não pudesse esperar para ser dito? Para onde quer que fosse, havia sempre alguém que caminhava na minha direcção a falar ao telefone e alguém atrás de mim a falar ao telefone. Dentro dos carros, os condutores iam ao telefone. Quando me metia num táxi, o taxista ia ao telefone. Para quem muitas vezes passava dias seguidos sem falar com ninguém não podia deixar de me perguntar o que seria que antes refreava as pessoas e agora tinha desaparecido a ponto de as levar a falar constantemente para dentro de um telefone em vez de passearem sem terem ninguém a vigiá-las, momentaneamente solitárias, assimilando as ruas através dos seus sentidos animais e pensando as miríades de pensamentos que as actividades de uma cidade inspiram.

Philip Roth em O Fantasma Sai de Cena.

sábado, 3 de abril de 2021

SIM, É UMA BOA PERGUNTA


- Sabe, quando eu era mais nova, quando era mesmo nove, a certa altura a situação tornou-se ridícula. Um dia fui apanhada, e foi tão embaraçoso que tive de parar. Costumava pegar nos livros e escondê-los dentro da revista Seventeen para ninguém saber o que eu estava a ler. Mas ultrapassei isso. O embaraço, no caso de ser apanhada, era muito maior do que me limitasse a ler o livro, e por isso deixei de os esconder.

- Que livros escondia dentro da Seventeen?

- Quando fui apanhada tinha treze anos e estava a ler O Amante de Lady Chatterley escondido dentro da Seventeen. Gozaram comigo, mas se o tivessem lido teriam percebido que era muito mais interessante que a Seventeen.

- Gostou do Amante de Lady Chatterley?

- Gosto muito do Lawrence. O Amante de Lady Chaterley não era o meu preferido. Lamento desiludi-lo, mas não o percebi bem naquela idade. Li Anna Kerenina quando tinha quinze anos. Felizmente voltei a lê-lo mais tarde. Fartei-me de ler livros para os quais não estava preparada. Mas não me fez mal nenhum. Sim, é uma boa pergunta, o que lia quando tinha catorze anos. Hardy. Lia Hardy

- Que livros?

- Lembro-me de Tess dos Ubervilles. Lembro-me… qual é o outro? É engraçado. Não é Judas o Obscuro. Qual é o outro?

 

Philip Roth em O Fantasma Sai de Cena

sexta-feira, 26 de março de 2021

NÃO SEI QUANTOS SÃO MUITOS


-Há coisas preciosas que me foram tiradas e criaram uma situação que nem com muito trabalho posso ultrapassar, et cetera. Está a perceber o que eu quero dizer?

- Não estou a perceber muito bem. Refere-se só ao envelhecer, ou há mais qualquer coisa em particular?

- Acho que só me referia ao envelhecer.

- Agora percebo.

- Isto está a dar cabo de mim, portanto o melhor é ir-me embora. Não vou obedecer ao meu impulso de tentar beijá-la.

- É melhor não.

- Não nos levaria a lado nenhum.

- Tem razão. Mas foi bom que tivesse cá vindo esta tarde. Foi muito bom.

- Você é uma sedutora?

- Não, não, de maneira nenhuma.

- Tem um marido, tem um amante, e agora quer ter-me a mim como amigo. Colecciona homens? Ou são os homens que a coleccionam a si?

- Acho que já colecionei homens e eles já me coleccionaram a mim.

- Você só tem trinta anos. Já colecionou muitos homens?

- Não sei quantos são muitos.

- Quero eu dizer, desde que deixou a faculdade, entre a festa de fim de curso e esta tarde, que terminou consigo a colecionar-me com o seu poder de sedução… Mas agora está a comportar-se como uma criança, como ase não tivesse esse poder. Nunca ninguém lhe disse que tinha esse poder?

- Já me disseram. Mas agora estava-me a rir porque se você se considera um homem coleccionado, não sei como hei-de contar os homens que já colecionei.

 

Philip Roth em OFantasma Sai de Cena

sábado, 24 de outubro de 2020

POSTAIS SEM SELO

Conseguem imaginar a velhice? É claro que não. Eu não conseguia. Não era capaz. Não fazia a mínima ideia de como era. Não tinha sequer uma falsa ideia – não tinha imagem nenhuma. E ninguém quer outra coisa qualquer. Ninguém quer enfrentar nada disto antes de ter outro remédio. Como vai ser? O embotamento é de rigueur.

 Philip Roth em O Animal Moribundo

domingo, 17 de novembro de 2019

O MEU RESPEITO PELOS SEUS PODERES


Ela estava tão profundamente implantada na minha consciência que durante o meu primeiro ano de escola eu julguei, tanto quanto me lembro, que cada uma das minhas professoras era a minha mãe disfarçada. Assim que soava o último toque eu precipitava-me para casa, perguntando a mim próprio, enquanto corria, se seria possível chegar ao nosso apartamento antes de ela conseguir transformar-se. Mas ela já estava invariavelmente na cozinha quando eu chegava, pronta a servir-me o leite e as bolachas. Em vez de pôr fim ao meu delírio, no entanto, tal proeza limitou-se a intensificar o meu respeito pelos seus poderes. Aliás, era sempre um alívio não a apanhar entre encarnações, se bem que eu nunca deixasse de tentar; sabia que o meu pai e a minha irmã ignoravam a verdadeira natureza da minha mãe, e o peso da traição que — imaginava eu — recairia sobre mim se alguma vez a apanhasse desprevenida era mais do que eu me sentia capaz de suportar aos cinco anos de idade. Acho que receava mesmo ser morto se porventura a avistasse, vinda a voar da escola, a entrar pela janela do quarto, ou a aparecer membro após membro, saindo de um estado invisível e preenchendo o seu avental.
Quando ela me pedia que lhe contasse tudo o que fizera durante o dia no jardim-escola, eu, é claro, fazia-o escrupulosamente. Não tinha a pretensão de entender todas as implicações da sua ubiquidade, mas que esta se destinava a descobrir que género de rapazinho eu era quando julgava que ela não estava presente — eis o que era indiscutível. Uma consequência desta fantasia, que subsistiu (sob esta forma particular) até à primeira classe, foi que, verificando não ter alternativa, eu me tornei honesto.

Philip Roth em O Complexo de Portnoy

sábado, 20 de abril de 2019

POSTAIS SEM SELO


A vida é apenas um curto período de tempo em que estamos vivos.

Philip Roth em Pastoral Americana

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


Sente-se grato por estar em contacto com o que resta. Sente-se feliz por isso,: sente-se emocionado, e já está ligado, profundamente ligado a ela, por causa dessa emoção. Não é de família que se trata, a biologia já não lhe serve para nada. Não é família, não é responsabilidade, não é dever, não é dinheiro, não é uma filosofia partilhada ou o amor à literatura, não são grandes discussões de grandes ideias. Não, o que o liga a ela é a emoção. Amanhã descobre-lhe um cancro e acabou-se. Mas, hoje, agora tem essa emoção.

Philip Roth em A Mancha Humana

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sábado, 26 de maio de 2018

POSTAIS SEM SELO


Quando vou para a cama à noite, sorrio e penso: vivi outro dia.

Philip Roth

quarta-feira, 23 de maio de 2018

PHILIP ROTH (1933-2018)


Merecia ter ganho o Prémio Nobel da Literatura, talvez não o tenha ganho por ser judeu, mas isso agora não importa para nada: a Academia Sueca está, hoje, pelas ruas da amargura e o Nobel da Literatura nunca mais recuperará a eventual importância que o rodeava.
«Sabe o que aprendi sobre vocês, os ricos e simpáticos liberais que dominam o mundo? Não há nada mais afastado da vossa compreensão que a natureza da realidade», escreveu Roth em A Pastoral Americana.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Eu sou, resumidamente, alguém que passa o dia a escrever.

Philip Roth   

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

FESTA DE SÁBADO À NOITE EM SPRINGFIELD


Há em Springfield uma pequena estação de rádio em FM que nas noites de sábado, das seis à meia-noite, pões de lado a habitual programação clássica e transmite música de big-band nas primeiras horas e depois, mais tarde, jazz. Do meu lado da montanha só ouvimos estática quando sintonizamos essa frequência, mas na encosta onde Coleman vive a recepção é boa e, nas ocasiões em que ele me convidava para tomar uma bebida, aos sábados, todas aquelas delicodoces melodias de dança que os miúdos da nossa geração ouviam continuadamente no rádio e tocavam nas jukeboxes, nos anos 40, me chegavam aos ouvidos, vindas de sua casa, assim que me apeava do carro no seu caminho de acesso. Ele ouvia-as no volume máximo, não só no aparelho estereofónico da sala mas também no rádio ao lado da cama, no rádio ao lado do chuveiro e no rádio ao lado doa caixa do pão, na cozinha. Fosse o que fosse qu estivesse a afazer em casa aos sábados à noite, e até a estação encerrar à meia-noite – depois dos trinta minutos rituais de Benny Goodman -, não estava um minuto sequer fora do alcance auditivo dos aparelhos.
Curiosamente, dizia, nenhuma da música séria que ouvira durante toda a sua vida adulta lhe tocara na corda sensível da emoção do modo que a avelha música de swing lhe tocava agora: «Tudo o que há de estóico dentro de mim se solta e o desejo de não morrer, de nunca morrer, é quase demasiado grande para ser suportável. E tudo isto», explicava, «por ouvir Vaughn Monroe.»
Havia noites em que cada verso de cada canção assumia um significado tão estranhamente momentosos que ele acabava a dançar sozinho o fozetrote arrastado, leve, repetitivo, banal e, contudo, maravilhosamente útil para criar ambiente que costumava dançar com as raparigas do liceu de East Orange, contra as quais comprimia, através das calças, as suas primeiras erecções significativas. E, enquanto dançava, nada do que sentia, disse-me era simulado, nem o terror (da extinção) nem o êxtase (das palavras «You sigh, the song begins. You speak, and I hear violins«). As lágrimas caíam todas espontaneamente,  por muito que pudesse surpreendê-lo a pouca resitência que tinha a Helen O’ Connell e a Bob Eberly cantando alternadamente os veros de «Green Eyes», por muito que pudesse maravilhá-lo o condão de Jimmy e Tommy Dorsey para o transformarem no género de velho vulnerável que nunca julgara poder vir a ser. «Mas deixem alguém nascido em 1926». Dizia, «tentar ficar sozinho em casa num sábado à noite, em 1998, e ouvir Dick Haynes cantar “Those Little White Lies”. Deixem-nos fazer isso e deixem-nos dizer-me, depois, s não compreenderam finalmente a famosa doutrina da catarse desencadeada pela tragédia.»

Philip Roth em A Mancha Humana

Legenda: Helen Forrest com a Orquestra de Harry James

sábado, 15 de outubro de 2016

LOUVOR E DECEPÇÃO À VOLTA DO NOBEL



A atribuição do Nobel de Literatura a Bob Dylan provocou em Portugal reacções tão desencontradas como significativas.

O Nobel é o principal prémio literário internacional. Mas nem por isso deixa de estar confinado ao horizonte da Academia Sueca, por mais que esta tente alargá-lo, encomendando traduções de autores das mais variadas línguas e geografias.

Além disso, se colocarmos num prato da balança os escritores que receberam o Nobel e resistiram à passagem dos anos, e no outro os grandes romancistas que nunca o receberam, de Conrad, Proust e Virginia Woolf a J. L. Borges, é bem provável que o equilíbrio se rompa a favor destes últimos.

E ainda claro que há uma ou duas dezenas de escritores que poderiam receber o prémio este ano, de Javier Marías a Cormac McCarthy, e que, mesmo entre os poetas de canções, haveria alternativas como Leonard Cohen e Chico Buarque.

Mas parece que a Academia Sueca está decidida a inovar, desiludida talvez com a inexistência de grandes romances na última década. Isso explica escolhas inesperadas como foram no seu tempo a de Churchill, a da primeira mulher a receber o Nobel (Selma Lagerlöf) ou os textos jornalísticos de Svetlana Alexievich.

Até por isso as reacções são significativas. Abstraindo do «paternalismo» e visão conspirativa do crítico e escritor Bruno Vieira Amaral, que afirma que a Academia atirou o prémio à cabeça e que Bob Dylan não merecia tal gesto, houve dois tipos de reacções.

A dos poetas e críticos ligados à música, de Miguel Esteves Cardoso a Pedro Mexia, que se mostraram favoráveis ou até entusiasmados.

E, no pólo oposto, a de alguns editores, críticos e escritores, que tinham na sua lista de expectativas nomes que iam de Philip Roth a Murakami, e tiveram reacções perplexas ou desfavoráveis.

Há editores que condicionam o seu catálogo à procura dos nobelizáveis e que estão cada vez mais condenados a uma desilusão anual em Outubro
.
E o mesmo sucede com certos autores que a meio da vida vão acomodando a escrita à procura de um prémio que afinal só traz uma fama anual, uma viagem invernosa a Estocolmo, vendas não muito acrescentadas e solicitações, capazes de perturbar a mais fecunda das imaginações.
Foi assim que tivemos Alice Vieira a acusar esta atribuição do Nobel de desvirtuamento e a indicar Murakami como alternativa, e os habituais defensores de Pynchon.

Recorde-se que, quando o Nobel foi atribuído em 2013 a Alice Munro, a escritora Inês Pedrosa «denunciou» o facto de o prémio ser atribuído a uma simples contista (o que não impede que o seu último livro seja de contos e que sublinhe agora a importância deste género literário).

Ou seja, há ainda muitos críticos e autores ligados ao perfil que durante décadas serviu de referência à Academia Sueca e que Javier Marías resumiu no seu artigo «Não tão Memoráveis»:

«O escritor “conhecido” e popular terá além disso de (…) proclamar que apoia os oprimidos do mundo; ser um pouco perseguido no seu país (ou, à falta disso, dizer que o é); clamar muito no deserto e ser voz estridente das consciências adormecidas; deverá ser solene ou um pouco sombrio, a amargura nunca é de mais; a sua obra deve reflectir a miséria do homem contemporâneo, ou a fragilidade do homem contemporâneo, ou o desconcerto do homem contemporâneo, ou o seu egoísmo, ou o seu sofrimento, ou a sua maldade, ou a sua desorientação (em qualquer caso, algo negativo do homem contemporâneo, ou melhor, um lugar-comum a todas as contemporaneidades); por último, não deve falar muito de literatura nem ter qualquer sentido de humor.»

De qualquer modo, em favor de Bob Dylan pode dizer-se que com a sua obra musical, literária e pictórica será um dos vencedores do Nobel a perdurar. Levou o melhor da poesia à música das suas canções, absorvendo influências que vão desde Walt Whitman a Ashbery, passando por Allen Ginsberg e outros autores da Beat Generation. Nas suas letras criou personagens que nada devem às de obras de narrativa ficcional. E as suas crónicas inacabadas constituem uma referência de literatura autobiográfica.

P. S. Declaração de interesses. A Relógio D’Água publicou em 2006 uma ampla antologia da poesia de Bob Dylan (Canções 1962-2001).

domingo, 18 de setembro de 2016

RECADOS

Quando Keble desceu do pódio e, antes de voltar para o seu lugar, passou a apertar a mão a cada um dos filhos de Coleman, esse simples gesto só serviu para intensificar a emoção quase violenta ateada pelo seu discurso. Que iria acontecer a seguir? Durante um momento, foi como se não houvesse nada além do silêncio, do caixão e da embriaguez emocional da multidão. Depois Lisa levantou-se, subiu os poucos degraus e disse, da estante do couro:
- O último movimento da Terceira Sinfonia de Mahler.
E pronto. Valeu tudo. Tocaram Mahler em toda a sua imponência.
Bem, há ocasiões em que não podemos ouvir Mahler. Quando ele nos agarra para sacudir, não pára. No fim, estávamos todos a chorar.

Philip Roth em A Mancha Humana

sábado, 3 de setembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


O Destino, o enigma mais antigo do mundo civilizado.

Philip Roth em Pastoral Americana

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

POSTAIS SEM SELO


A maior parte das vezes não diziam nada, porque não dizer nada intensificava o prazer que sentiam.

Philip Roth em A Mancha Humana, Publicações Dom Quixote, Lisboa Julho de 2007

Legenda: pintura de Jack Vettriano

quinta-feira, 19 de julho de 2012

OLHAR AS CAPAS



Mulheres Que Lêem São Perigosas

Stefan Bollmann
Tradução Maria Filomena Duarte
Prefácio Elke Heidenreich
Tradução do prefácio: Paulo Rêgo
Quetzal Editores, Lisboa Abril 2007

Entender-se-iam homens e mulheres melhor se os homens lessem tanto como as mulheres? Saberiam eles mais acerca das nossas vidas, dos nossos pensamentos, dos nossos sentimentos, se lessem Sylvia Plath, Virginia Woolf, Carson McCullers, Jane Bowles, Annemarie Schwarzenbach ou Dorothy Parker, do mesmo modo que nós lemos Hemingway, Faulkner, Updike, Roth, Flaubert e Balzac? «As mulheres lêem de maneira diferente», observa Ruth Kluger ao abordar este interessante tema. Elas também lêem mais. E, ao ler, são ambas as coisas, homem e mulher, não têm sexo, sofrem com o herói, com a heroína, com o autor, com a autora, é-lhes indiferente. Estão reféns do livro. Apenas consigo amara homens que lêem, que de repente erguem a cabeça com aquela expressão no olhar, vinda de bem longe, suave, uma expressão repleta de um conhecimento não apenas de si, mas também acerca de mim. No entanto, regra geral, os homens não gostam de mulheres que lêem. E só muito de quando em quando é que homens e mulheres lêem em conjunto.

(Citação retirada do prefácio)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

POSTAIS SEM SELO


Quanto paga aos seus operários na fábrica de Ponce, em Puerto Rico? Quanto paga aos operários que lhe cosem as luvas em Hong Kong e na Formosa? Quanto paga às mulheres que ficam cegas a bordarem, nas Filipinas, para satisfazerem as damas que vão às compras ao Bonwit? Não passa de um capitalistazeco de merda que explora os negros e os amarelos deste mundo e que vive luxuosamente por detrás dos portões à prova de negros da sua mansão.

Philip Roth em Pastoral Americana

Legenda: fotografia da Life

quarta-feira, 20 de julho de 2011

À CONVERSA...


Perguntaram-lhe:

Hoje diz que não se envolve em manifestações nem acredita em grandes causas.

Respondeu;

Não gosto de me manifestar. Fi-lo nos anos do Vietname, mas prefiro escrever sobre isso a marchar. Mas marcho. Se for preciso marcho. A única causa pela qual a literatura deve lutar é a própria causa da literatura. E essa é uma batalha perdida parece. Daqui a uns anos duvido que a literatura continue a ser algo importante. Ler livros será um gesto, e uma escolha de uma minoria. A literatura não pode competir com nada. Nem com o cinema, nem com a televisão, e muito menos com a inrernet. Precisa de tempo. E ou o leitor se compromete com o que está a ler, da mesma forma que o escritor se compromete com o livro, ou não acredito que se possa sequer ler.. Ler é um exercício de atenção. Tal como escrever. Pelo envolvimento que exige, escrever não deixa espaço para mais nada. Eu sou, resumidamente, alguém que passa o dia a escrever.

Philip Roth, entrevista ao “Público”