Acabamos, mais cedo ou
mais tarde, por acreditar no silêncio.
Manuel de Freitas
para o Manuel de Freitas, mon semblable
Sempre soubeste: a morte.
Sempre sentiste: a morte.
As tabernas, fechadas, eram
apenas uma espécie de refrão.
Mas isso, terás de convir,
não desculpa o facto
de andares há vinte anos
a escrever o mesmo.
Faz como as tabernas: cala-te.
Manuel de Freitas em Resumo:
a poesia em 2010
“As
eleições de domingo no Benfica
estão comprometidas; morreu
Pina Bausch, a coreógrafa alemã”. – foi assim,
de rajada, numa frase única a colar-se
ao vidro do táxi, que fiquei a saber de sua morte.
E tive pena, recordei enquanto não pedia troco
a tristeza feliz de a ver dançar Café Müller
Mas já não tenho poemas.
Nem mesmo para si, Pina Bausch.
Manuel de Freitas
Legenda: Pina Bauch
Viam-se do quarto n.º 405
e pareciam,
à
primeira vista, gente.
Mas não;
eram apenas bonecas
a tomar
diariamente chá
numa mesa
colorida pelo desespero.
A única
pessoa, já velha, era
a que
veio pôr a secar
umas largas
cuecas brancas,
em perfeito
contraste
com o tule
rosado das bonecas.
Manuel de Freitas
Há barcos que gostamos de perder, que partem devagar para outras
mortes e nos deixam juntos, sem palavras.
Manuel de Freitas
Legenda: pintura de PierreBonnard
Manuel de Freitas
Ao
fazer a mala reparou que pouco
levava daquela
lúgubre cidade.
Alguns vestidos, as
primeiras frésias
que tivera de
presente, agora murchas,
uma dezena de
exemplares de Moody
que lhe serviam
para amortalhar o resto.
Se é que alguma
coisa restava, pensou
junto ao aparador,
enquanto no espelho
se perdia o fogo
ruivo dos cabelos,
sublinhado pelo
negrume do olhar.
Ao ajoelhar-se
sobre a mala, escreveu,
em vez do seu nome,
«Goodbye to love».
Era também a sua
única morada,
até que a morte ou
a chuva a apagassem.
Manuel de Freitas em resumo:
a poesia em 2011
Legenda: fotografia
Shorpy
Nem Bach, o pai, foi capaz
de eternizar esta cadência.
Em Byrd, por vezes, reencontro-a.
Junta as folhas uma a uma,
com um pequeno ancinho,
e sorri, distante, aos que se
namoram – furtivos artesãos da
morte.
Um cigarro pende-lhe
da boca, todas as manhãs.
Talvez ouça, como nenhum
de nós, o canto da sereia
e estejam livres, afinal,
as mãos presas que nos salvam.
Manuel de Freitas
uma
vez mais, num táxi)
que
Amy morreu por excesso de álcool.
Apenas
isso, Lady Night.
Este
século, no fundo,
Era-te
estranhamente indócil.
E
nenhuma voz sobrevive.
Manuel
de Freitas em resumo: a poesia em 2012
Onde se lê Deus deve ler-se morte.
Onde se lê poesia deve ler-se nada.
Onde se lê literatura deve ler-se o quê?
Onde se lê eu deve ler-se morte.
Onde se lê amor deve ler-se Inês.
Onde se lê gato deve ler-se Barnabé.
Onde se lê amizade deve ler-se amizade.
Onde se lê taberna deve ler-se salvação.
Onde se lê taberna deve ler-se perdição.
Onde se lê mundo deve ler-se tirem-me daqui.
Onde se lê Manuel de Freitas deve ser
com certeza um sítio muito triste.