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segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

ESTA VIDA ARREPIADA...

12 de Setembro de 1968

Levanto-me – para quê?, é a amargura que todos os dias me invade. Leio, mal ou bem, até às tantas, sofro sonhos desabridos em que desponta ao acordar, uma ou outra ideia, que se esvai, por não a conduzir até à secretária. Inicio a rotina com sarro na boca e, nos intervalos dela, garatujo que porei um dia, aqui, o que agora não faço. Faço projectos para a hora a que regressar a casa, mas, chegado lá, o ciclo fecha-se, não há forças que o rompam.

Reduzo-me, assim, à paisagem interior que is livros visitam. Será isto viver? Valerá a pena teimar? Não é nem vale, mas assim me «cumpro», não sei por que teima abjecta. Uma protérvia, esta vida arrepiada!

Mário Sacramento em Diário

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

QUE RAIO DE COISA!

6 de Agosto de 1968

Esta noite tive um sonho em-que-não-me-deram-a-palavra. Que raio de coisa!

Mário Sacramento em Diário

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

UMA AUTENCIDADE ESPANTOSA

18 de Julho de 1968

Envergando a sua fina camisa de boa seda, bem engravatado e sem casaco, o N. – recordo-o agora – mostrou-me um cartão da Maria Judite de Carvalho em que esta guitarra cigana tão dolente e fina, penetrante e nostálgica, não se sabe de quê, recusou dar uma entrevista ao suplemento do jornal, a pretexto de que é antiliterária. Com a sua incapacidade de entender o que não meta cifrões, o N. (que a admira, está claro, pois as incomparáveis crónicas dela são pólen adejante que entra pela mais ténue frincha) comentou:

-Veja lá, não tem consciência do valor que tem…

Disse-lhe que pelo contrário!

A autenticidade dessa mulher é realmente espantosa, se tivermos em conta, por demais, que não sofreu qualquer influência visível do Urbano, o que é bem difícil, se levarmos em conta a irradiação que o caracteriza. Apetece ajoelhar diante dela, para lhe beijar humildemente os pés.

Mário Sacramento em Diário.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

ACORDO AO DESACORDO

11 de Maio de 1968

Descobri ontem (suponho) que o meu agravamento gástrico está relacionado com os cigarros de folha de tabaco que ultimamente uso. Os de papel faziam-me bastante mal aos brônquios (catarreira, etc.), o que estes monoraram imenso. Mas deixam um depósito escuro na língua, que degluto. Está claro, e vai incidir no tubo digestivo. Volto ao papel: mais vale tosse que dor. Tudo é morrer – mas viva o conforto! Eis-nos de acordo ao desacordo.

Que é tudo isto senão a presença, já palpável da morte? Há quem a adorne e quem a desadorne. Quem a almofade e quem a desalmofade. Quem se «esconda» dela increpando a companhia que tem. Tudo é morrer, que importa? Mas há quem se importe, e é o diabo! Ao menos é-se pessoal e intransmissível nisso… Que bom! Que lindo!

Mário Sacramento em Diário

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

FISCALIZAÇÕES...

1 de Maio de 1968

Em entrevista célebre de Novembro de 1945, o Senhor Presidente do Conselho referiu-se assim à censura: «Declaro não ter nunca percebido esta incoerência que ninguém ainda me explicou claramente: por que motivo se exige atenta fiscalização dos géneros deteriorados – o arroz, o bacalhau, a manteiga – e se descura completamente a higiene do espírito, não a aceitando para os baixos sentimentos?

Mário Sacramento em Diário

terça-feira, 23 de novembro de 2021

É PRECISO SABER FAZÊ-LA

13 de Fevereiro de  1968

Recolha de textos de Guevara, da colecção «Novo Rumo». Com este dístico do próprio à entrada: «Muitos consideram-me um aventureiro e na verdade sou-o, mas de um tipo diferente, do tipo dos que arriscam a pele para provar o que dizem.» Frase-resumo, em que há Sol e Trevas – e que incendeia a imaginação do radicalismo pequeno-burguês, neo-romântico ainda, em sua masturbação. Não basta querer a revolução. É preciso saber fazê-la.

Mário Sacramento em Diário

terça-feira, 16 de novembro de 2021

O S IGNOMINIOSO

9 de Fevereiro de 1968

Passagem por Aveiro do Rogério Paulo, em tournée pela província. Afectuoso e aberto, como sempre. Contou-me que, além do Urbano, também está preso o Sousa Tavares, supõe-se que com o pretexto duma entrevista que deram, há um ano (!) à televisão italiana.

Com os seus quarenta anos, o Rogério já tem pequenos sinais de decadência física, coitado, - jus da vida no pântano que é a nossa! Tirar o ferrete que marca o «gado» português o – S ignominioso – é tudo o que espera já. Entretanto, vai cumprindo com brio o seu profissionalismo.

Mário Sacramento em Diário

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

SAFARDANAS PIDESCOS

6 de Fevereiro de 1968

O L.U. voltou a sacanear-me: não fui incluído entre os radiologistas que vão trabalhar para a Caixa dos C.T.T. Mais pidescos que a própria PIDE, estes safardanas.

Mário Sacramento em Diário

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

DO EMPENHAMENTO

1 de Fevereiro de 1968

Mário Sacramento num bate-papo com estudantes numa república em Coimbra:

«Disse-lhes que a minha geração está para a deles como a do 31 de Janeiro para a do 5 de Outubro. E incitei-os a terem presente que a Universidade são eles. Contrariei o demagogismo e o golpismo e apelei para o sentido científico (em que sensibilidade, imaginação e capacidade políticas se conjugam) da intervenção e do empenhamento. Às tantas perguntaram-me se eu acreditava no futuro do socialismo! Fiquei tão espantado com a pergunta, que me saiu deste jeito a resposta: se não acreditasse, dava um tiro na cabeça! – Frase que reúne tudo, em boa e sincera verdade.»

Mário Sacramento em Diário

terça-feira, 19 de outubro de 2021

É DIFÍCIL DIZER O QUE SINTO

Os primeiros dias do ano de 1968, trouxeram para Mário  Sacramento a morte de seu pai no dia 16 de Janeiro. O Diário, durante alguns dias, regista essa morte.

«É difícil dizer o que sinto. Um Pai é sempre um Pai. Mas o horror que era a sua vida, quantas vezes me fez desejar – por ele – a sua morte? Cego há vinte e tal anos, surdo há não sei quantos, ouvindo apenas, e a custo, com um aparelho de prótese auditiva, conservando um amor feroz à vida que nunca o deixou resignar-se ou dispor-se a atentar contra ela, sofrendo e fazendo sofrer… Solidão total! Agarrado ao aparelho de transmissão-escuta de radioamador, o seu frenesim de homem que fora o mais que é possível extrovertido enchia os dias de allos-allos infatigáveis! Que espanto a vida! Como é possível querer-lhe alguém deste modo, mesmo no abismo da détresse!»

Uma frase tirada do contexto:

«Por qualquer ponta que a tomemos, a morte está sempre errada.»

Um pormenor tirado também do contexto:

«Três radioamadores de Coimbra deslocaram-se de propósito para estarem apenas um minuto connosco! É mais fácil unir os homens do que muitos cuidam! Disseram-me: Era uma voz que nós conhecíamos – e deixámos de ouvir…»

Ainda uma outra frase solta:

«Um homem só está vivo enquanto se projecta no futuro.»

terça-feira, 5 de outubro de 2021

JÁ ESTOU ARREPENDIDO DISSO...

11 de Dezembro de 1967

Passei um fim-de-semana tormentoso, devorando-me como um canibal! Mal li, mas escrevinhei. Sentei-me no fundo do poço e arranquei os cabelos que me restam. Perdi todos os estímulos que um homem pode ter para a vida. Só o espírito do dever me mantém à tona. Que vai acontecer, mo dia em que o perca? Divorciei-me da burguesia, em nome do futuro, e aquela não perdoa. Não me arrependo disso, mas, sem, alternativa palpável, sou impelido ao que nunca quis ser: um associal. Cada vez estou mais isolado – na profissão, na família, no burgo, na vida intelectual até. Como se a vida não fosse tão curta, as pessoas repetem à minha volta os mesmos o slogans mágicos em que se alienam! E a lucidez é incompatível com isso. É certo que há algo de ciclotímico em mim, pelo que é de esperar que a depressão passe. Mas vai preponderando, à medida que os anos correm. E não vejo solução para isso. Pudesse eu ter, ao menos, a escapatória do pequeno escritor que vive feliz com a sua mediocridade! Mas destruo quase tudo o que escrevo. Ontem, rasguei uns molhos de folhas do pseudo-romance (à Joyce) que vinha cozinhando há meses. Já estou arrependido disso: há sempre, no mau, uma página a salvar. De qualquer modo, está feito. E o mais irritante é que vou recomeçar, quem sabe?

Mário Sacramento em Diário

domingo, 26 de setembro de 2021

DESGRAÇADO PAÍS!

29 de Novembro de 1967

As verdadeiras proporções da tragédia só a pouco e pouco se estão agora definindo: centos de mortos, aldeias arrasadas, bairros de lata esmagados: no momento em que acabo de escrever, dizem os jornais que nada se sabe, ainda, duma povoação, totalmente isolada, em que viviam 400 pessoas. O exército vai…. Construir uma ponte para lá! Só há helicópteros para aluta colonial! O presidente da Câmara de Alenquer protestou junto da imprensa contra o alheamento a que os jornais tinham votado o drama dessa localidade. Correspondendo a isso, veio publicado, hoje, uma fotografia do Tomás percorrendo a vila de sapatos de verniz, os olhos baixos e atentos à tábua que atravessaram no lodaçal para que ele passasse… Cabeçalho no Janeiro: «Só o Benfica tem a bandeira a meia haste»… Desgraçado País!

Mário Sacramento em Diário

NOTA DO EDITOR: o episódio referido por Mário Sacramento, nesta entrada dos seu Diário, refere as trágicas inundações vividas, principalmente em Lisboa e nosvastos arredores, e em que a ditadura de Salazar teve um comportamentomiserável.

sábado, 18 de setembro de 2021

SARAMAGUEANDO

27 de Novembro de 1967

Neste dia, Mário Sacramento escreve no seu Diário: «o Saramago, com a imponência cachimbante de quem vale mais do que é capaz de mostrar.»

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

CHE GUEVARA

12 de Outubro de 1967

Parece que sempre conseguiram matar o Che Guevara, ao que dizem os jornais. Embora o sinta, não adiro com o mesmo sentimento que tive e tenho pelo Lumumba. É muito diferente lutar e morrer no seio do próprio povo ou agir como caixeiro-viajante da aventura revolucionária, no sei de outros. A dinastia dos Malraux nunca me foi simpática e a realidade confirma que há boas razões para isso.

Mário Sacramento em Diário

domingo, 8 de agosto de 2021

ISSO GOSTAVA EU DE SABER

22 de Agosto de 1967

 Ao darmos a identificação na Secretaria do Aljube, o of´dio que a dirigia perguntava sempre – pois havia uma alínea na ficha para isso:

- Por que motivo foi preso?

Respondi, de todas as vezes:

- Isso gostava eu de saber!

 Mário Sacramento em Diário

terça-feira, 20 de julho de 2021

NÃO SUBESTIMAR O ADVERSÁRIO

17 de Julho de 1967

Quantas vezes tenho ouvido dizer, nestes 30 anos: o fascismo está isolado, no plano interno e no plano externo… É o optimismo da miopia, que conduz ao precipício. Nunca ninguém ganhou batalhas subestimando o adversário.

Mário Sacramento em Diário

terça-feira, 22 de junho de 2021

A SOLIDÃO ABSOLUTA

25 de Junho de 1967

Homem solidário, chego assim à conclusão de que, salvo mutações radicais e a curto prazo improváveis, vou acabar os meus dias na solidão absoluta. Fiel a mim mesmo, está claro, e sem descer no plano da intervenção cívica e social (pois destruir isso seria suicidar-me), mas só e frustrado. Sempre com mais e nunca com menos problemas. E à beira dos primeiros grandes desgosto autênticos. É possível que renasça, daí, mais profundamente humano… Mas a saúde, o vigor dizem-me que não, que é tarde. Será?

Mário Sacramento em Diário

terça-feira, 1 de junho de 2021

UMA VIDA DE CÃO

20 de Junho de 1967

Diz-se que o homem são é o homem adaptado. Mas quem pode adaptar-se ao fascismo senão renegando a sua condição de homem? Quando comecei a fazer clínica na minha vila natal, pressionado por um casamento «precoce» para as realidades burguesas e pela cegueira do meu Pai, bem que tentei adaptar-me! Qual foi o resultado? Levei uma vida de cão, mal ganhando para viver, acorrendo de dia e de noite a quantos pobretanas não tinham outro que lhes acudisse. Logo fui um cachorro branco em ninhada de pretos. Quem precisava, abusou; quem não precisava, perseguiu. Era lá possível que alguém se atrevesse a calcar o risco do cálculo e da hipocrisia.

Mário Sacramento em Diário

segunda-feira, 24 de maio de 2021

PESADELOS DE CONSCIÊNCIA

18 de Junho de 1967

Além das terríveis insónias e das distonias e neurovegetativas que me tornam penosas as noites (sobretudo o adormecer, que é uma espécie de luta entre o inconsciente e o consciente em que este se não deixa eclipsar por aquele), o meu sono é sempre dos tais em que se acorda mais cansado que ao deitar. Os sonhos são intermináveis discussões comigo mesmo ou com os outros, espécies de perpétuos exames de consciência em que o aluno fica sempre reprovado… As minhas manhãs são por isso sorumbáticas e amargas. Pesadelos de consciência. Foi uma boa praga, isto de me fazerem médico! Como pode debruçar-se atentamente sobre o sofrimento dos outros quem está em ferida por dentro?

Mário Sacramento em Diário

sábado, 15 de maio de 2021

MAS SALVE-SE A ILUSÃO


10 de Junho de 1967

Faz hoje trinta anos exactos que fui preso, a primeira vez pela polícia do fascismo – ao tempo, a P.V.D.E. É dia comemorativo! Assinalá-lo abrindo nele este diário, que será de reflexões ou apontamentos e não de factos, pois foi o perigo destes que me fez evitar o gosto do jornal íntimo. Se nunca houve carta ou rabisco que os cães de fila não esquadrinhassem à lupa! Entre prisões (5) e buscas (3), quantas recordações não perdi, voluntária ou involuntariamente! Até o diarismo, companheiro e confidente da frustração, foi boicotado…

Envelhecer é desvalorizar o futuro dum ponto de vista pessoal. E reganhar, de certo modo, o passado. Se estas linhas, escritas entre duas consultas, podem ajudar-me a encher o vazio do imediato, por que evitá-las, hoje? Bem se me dá que as levem ou as destruam! Não deixarei nelas o que quer que seja que prejudique terceiros.

Passei estes anos a preparar uma maturidade inútil, descubro-o agora: no plano social, procurando condições políticas que, realizando as aspirações gerais, viabilizassem as minhas; no plano intelectual, adquirindo uma utensilagem que estruturasse uma intervenção idónea. Com a saúde que resta e o tempo que nunca sobra, já pouco ou nada poderei fazer, mesmo que as condições mudem a tempo. O que foi foi, não o discuto, nem o deploro. Nunca houve alternativa possível. Mas salve-se a ilusão desta lápide.

Mário Sacramento em Diário