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quarta-feira, 13 de maio de 2020

OS AMANTES DO TEJO


COLUMBIA ESRF 1034 - edição francesa

Lado 1

Barco Negro (Mãe Preta)
Solidão (Canção do Mar)

Lado 2

Fallaste Corazon
Lisboa Não Sejas Francesa

Apenas Barco Negro e Solidão fazem parte da banda sonora de Os Amantes do Tejo.

Barco Negro é uma versão, com poema de David Mourão-Ferreira, de Mãe Preta, que foi escrita em 1954 por Piratini para uma música de Caco Velho.

Uma forte referência ao racismo, «enquanto a chibata batia em seu amor mãe preta embalava o filho branco do sinhô», canção que Salazar proibiu que fosse passada na rádio.

Este é o poema e, mais abaixo se reproduz o vídeo em que a canção é interpretada pela fadista portuguesa Maria da Conceição:

Velha encarquilhada
carapinha branca
gandola de renda
caindo na anca
embalando o berço
do filho do sinhô
que há pouco tempo
a sinhá ganhou
era assim que mãe preta fazia
criava todo branco
com muita alegria
enquanto na senzala
seu bem apanhava
mãe preta mais uma lágrima enxugava
mãe preta, mãe preta,
mãe preta, mãe preta
enquanto a chibata
batia em seu amor
mãe preta embalava
o filho branco do sinhô.


Este é o poema de David-Mourão-Ferreira, cantado por Amália no filme e reproduzido em O Qu’é Que Vai no Piolho. 

Aqui, ficamos com a interessante versão de Ney Matogrosso:          


De manhã, que medo, que me achasses feia!
Acordei, tremendo, deitada n'areia
Mas logo os teus olhos disseram que não,
E o sol penetrou no meu coração.[Bis]

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
E o teu barco negro dançava na luz
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas
Dizem as velhas da praia, que não voltas:

São loucas! São loucas!

Eu sei, meu amor,
Que nem chegaste a partir,
Pois tudo, em meu redor,
Me diz qu'estás sempre comigo.

No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta, no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo.


Resta-nos abordar Solidão.

Esta é a letra:

Solidão de quem tremeu
A tentação do céu
E dos encantos, o que o céu me deu
Serei bem eu
Sob este véu de pranto


Sem saber se choro algum pecado
A tremer, imploro o céu fechado
Triste amor, o amor de alguém
Quando outro amor se tem
Abandonado, e não me abandonei
Por mim, ninguém
Já se detém na estrada

A Canção do Mar tem música de Ferrer Trindade e letra de Frederico de Brito e é o tema musical do filme. 

Amália canta-a com o título Solidão.

O autor da letra será também David Mourão-Ferreira, mas não encontrei o garante dessa autoria.

Na contra capa do EP, o assunto é tratado a pontapé.

A autoria das versões de Barco Negro e Solidão é atribuída a D. J. Ferreira.

Curiosamente os Pink Martini, que gravaram Solidão no seu álbum Je Dis Oui!, registam David Mourão-Ferreira como autor da letra.

Por mera curiosidade deixo-vos também a interpretação que Chavela Vargas fez para Solidão.

Diga-se, por fim, que Canção do Mar, junta-se a Coimbra e Lisboa Antiga como os trechos da música portuguesa mais divulgados no estrangeiro, ao ponto de o CD, que contém a versão de Canção do Mar da Dulce Pontes, aparecer nas mãos de Richard Gere no filme A Raiz do Medo e o pormenor foi um pedido do actor.


quinta-feira, 26 de abril de 2018

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


As realizadoras Catherine Gund e Daresha Kyi reuniram uma série de testemunhos e documentos, mais as canções e fizeram um documentário de Chavela a cantora da voz rouca e sofrida, voz única, e ninguém como ela cantou a solidão.

Este género de filmes costuma estar muito tempo em exibição.

O lixo cinematográfico, esse, prolonga-se por meses em qualquer sala da cidade.
É como os livros que interessam: alguns nem chegam às livrarias, outros estão um ou dois dias nos escaparates. Os Josés Rodrigues dos Santos eternizam-se nos diversos espaços das livrarias.

Chavela, é um filme biográfico a não perder.


De um texto publicado no suplemento Mais Artes da edição do Diário de Notícias de 7 de Abril:

Cantava como quem morre e punha a vida na voz. Chavela Vargas (1919--2012) nasceu na Costa Rica mas fugiu para o México ainda jovem e integrou a tradição musical ranchera do país, fazendo-se respeitar numa sociedade patriarcal. Usava calças e bebia tequila como os homens. Não se assumiu publicamente como lésbica até aos 81 anos, mas entre as suas muitas amantes conta-se Frida Khalo. Depois de uma fase marcada pelo alcoolismo, regressou aos palcos, desta vez do mundo, pela mão de Almodóvar, que a eternizou nas bandas sonoras dos seus filmes.
Foi antes desse retorno aos palcos que Catherine Gund a entrevistou, em 1992, como relata: "Quando conheci Chavela Vargas, e filmei a nossa interação, ela tinha 72 anos e toda uma vida de canto, tendo sofrido com a bebida durante muito tempo. Tornou-se uma espécie de reclusa. Filmá-la naquele momento significou realmente preservar algo da sua memória para a posteridade. Eu estava convencida de que a carreira dela estava completa." São essas filmagens que abrem o filme, mostrando uma mulher sem medo. "Quem é que faz um comeback com aquela idade?", espanta-se Daresha Kyi.
Quando lhes perguntamos como definem Chavela e o seu canto rouco e abismal, as respostas são poéticas. "Era uma sereia cantando das profundezas de um mar de emoção", diz Daresha. Já Catherine descreve a sensação: "Quando a música acaba ainda estou completamente imersa no seu crepúsculo. Não tenho a certeza se isso equivale a absolvição, sobrevivência, transformação ou tudo ao mesmo tempo, mas sei que a sua música me deixa transformada.


sábado, 5 de agosto de 2017

MUITO MAIS HOMEM QUE MULHER


Gosto de charutos e de boleros.

Alguém disse que, enquanto houver quem ouça boleros e fume charutos, continuará a ser nula a taxa de suicídio entre essas gentes.

Fiz apontamento.

Devo muitas coisas às bandas sonoras dos filmes de Pedro Almodovar.

Lembro Luz Casal e Chavela Vargas.

Chavela Vargas morreu no dia 5 de Agosto de 2012.

Lembrei-me de um excelente texto publicado por Manuel S. Fonseca:

A voz de Chavela era mais do que flores. Não sei se diga rouca se diga transgressora. Por muito que goste dela, e gosto, Chavela não é a minha cantora de boleros favorita, mas é a que tem a biografia mais excitante. Muito mais homem do que mulher, Chavela vestia calças, poncho vermelho e pistola à cinta. Charuto na boca, saía, num tempo em que as mulheres não conjugavam o verbo, com o alcalde de su ciudad y otros amigos pelas mais nocturnas das ruas, emborrachava-se tanto como ele e os outros e disparava, antes ou depois, sobre o que eles disparassem. Terá dormido com mais mulheres do que eles todos juntos o que, mesmo que não seja verdade, também não é uma rematada mentira. Womanizer sem desculpa, foi o que foi.
Fez um tremendo sucesso com as suas rancheras, mas o que a ela me faz voltar e tantas vezes, é a sensibilidade dos boleros. O êxito fê-la saltar da ciudad para o mundo, Europas e Hollywood. Não deixou, por isso, de ser o homem que era, mulher portanto, roubando dos outros homens belas mulheres que nunca quiseram ser homens – logo ela que em pequena nunca tinha brincado com bonecas. Dizem que beijou a boca fresca de Ava Gardner que a ela (ou ele?) se terá rendido de tiro e queda. Boa pontaria, digo eu. Agora, apareceu uma carta de Frida Kahlo a confessar tremores e olhar nublado: “…es erótica. Acaso es un regalo que el cielo me envia” escreveu a pintora em carta descoberta há pouco e que acusam de apócrifa.
Será, mas apócrifa é tudo o que não é a estarrecedora interpretação da canção que a Frida sempre La Chabela dedicou. La llorona que se pode ver e ouvir abaixo.
Chavela tinha 93 anos. Continuava a gostar de armas e a dizer que quando se faz o que se gosta se deve fazê-lo a noite inteira.