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quarta-feira, 13 de março de 2024

ESTA PALAVRA SAUDADE

Junto de um catre vil, grosseiro e feio,
por uma noite de luar saudoso,
Camões, pendida a fronte sobre o seio,
cisma, embebido num pesar lutuoso...

Eis que na rua um cântico amoroso
subitâneo se ouviu da noite em meio:
Já se abrem as adufas com receio...
Noites de amores! Que trovar mimoso!

Camões acorda e à gelosia assoma;
e aquele canto, como um antigo aroma,
ressuscita-lhe os risos do passado.

Viu-se moço e feliz, e ah! nesse instante,
no azul viu perpassar, claro e distante,
de Natércia gentil o vulto amado...

Gonçalves Crespo

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

O ROSÁRIO

Quando à noite contemplo taciturno
Estas contas antigas, o rosário
Das minhas orações,
Vejo em minh'alma o poema legendário
Dos velhos tempos das lonjínquas eras
De santas devoções.

A cruz ebúrnea, onde agoniza o Cristo,
É de um lavor subtil, que nos revela
Um génio magistral,
Obra de monge em merencória cela,
Piedoso artista há muito adormecido
Em velha catedral.

Tem séculos; talvez que nestas contas
Passásse outrora suas mãos esguias
A castelã senil,
Pensando triste nos ditosos dias
Em que a seus pés um menestrel vibrava
O mimoso arrabil.

Talvez que este rosário minorásse
As saudades da noiva lacrimante,
Que debalde esperou
Em cada nau, que vinha do Levante,
O seu donzel amado que partira
E nunca mais voltou.

Sobre a cota de um jovem cavaleiro,
Que o beijava por noites estreladas
Pensando em sua mãe,
Ele assistiu às guerras das cruzadas,
Atravessou talvez a Terra Santa
E viu Jerusalém.

Talvez alguma freira, em triste claustro,
De seus anos na doce primavera,
Só dele confiou
Seus loucos sonhos de falaz quimera,
E, apertando o rosário ao peito ansioso,
Consolada expirou.

Isto, o que leio no rosário antigo;
E, quando melancólico lhe beijo
As contas de marfim,
No ar escuto indefinido harpejo,
E então a crença, a mística toada,
Murmura dentro em mim.

Gonçalves Crespo


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

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Indo ao Outro Lado das Estantes deu para encontrar as Selectas Literárias em que estudei  nos meus anos de liceu.

Folheando fui parar a um poeta, Gonçalves Crespo, de que a Biblioteca da Casa não tem qualquer livro.

O  poema A Sesta, tem, anotado a lápis, a palavra «musicalidade». Terá sido uma observação do professor que eu terei apanhado e colocado ao lado do poema que hoje se publica no https://caisdoolhar.blogspot.com/2024/02/a-sesta.html

Os elementos biográficos do autor, publicados na Selecta, e que acima de reproduz, falam também da sensibilidade quase feminina e o langor tropical de Gonçalves Crespo.

Pego na História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes, e reproduzo:

«Quase todos os principais poetas portugueses de 1870 a 1890 aderem à mística progressiva e humanitária e lançam o seu protesto contra as mais flagrantes injustiças sociais, as prepotências das autocracias europeias, ou contra os acontecimentos, atitudes políticas, os casos do dia mesmo, em que se denunciavam certas hipocrisias e deficiências do regime monárquico constitucional. Como veremos, até num parnasiano como Gonçalves Crespo e num lírico realista como Cesário Verde se encontram expressões de protesto ou aspirações humanistas que, por enraizarem nesta ou naquela fibra mais íntima da sua respectiva personalidade, mantêm hoje profunda comunicalidade»

António Cândido Gonçalves Crespo (1864-83) foi, cronologicamente, o primeiro e também o mais destacado parnasiano português. Nascido no Rio, de mãe negra, formou-se em Direito,  e a sua delicadeza insinuante, o seu talento de poeta e recitador de um estilo mais discreto granjearam-lhe um círculi de admiradores, entre os quais a escritora Maria Amália Vaz de Carvalho, com quem casou e que, por seu turno, o pôs em contacto, no seu salão, com a roda dos consagrados, e lhe possibilitou uma carreira de deputado».

Não foi em vão o olhar sobre as Selectas onde estudei.

A SESTA

Na rede, que um negro moroso balança,
      qual berço de espumas,
formosa crioula repousa e dormita,
enquanto a mucamba nos ares agita
      um leque de plumas.

Na rede perpassam as trémulas sombras
     dos altos bambus;
e dorme a crioula de manso embalada,
pendidos os braços da rede nevada
     mimosos e nus.

A rede, que os ares em torno perfuma
     de vivos aromas,
de súbito pára, que o negro indolente
     espreita lascivo da bela dormente
as túmidas pomas.

Na rede, suspensa de ramos erguidos
    suspira e sorri
a lânguida moça cercada de flores;
aos guinchos dá saltos na esteira de cores
    felpudo sagui.

Na rede, por vezes, agita-se a bela,
     talvez murmurando
em sonhos as trovas cadentes, saudosas,
     que triste colono por noites formosas
descanta chorando.

A rede nos ares de novo flutua,
     e a bela a sonhar!
Ao longe nos bosques escuros, cerrados,
de negros cativos os cantos magoados
     soluçam no ar.

Na rede olorosa… Silêncio! Deixa-a
     dormir em descanso!...
Escravo, balança-lhe a rede serena;
mestiça, teu leque de plumas acena
     de manso, de manso...

O vento que passe tranquilo, de leve,
     nas folhas do ingá;
as aves que abafem seu canto sentido;
as rodas do engenho não façam ruído,
     que dorme a Sinhá!

Gonçalves Crespo