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domingo, 19 de janeiro de 2025

E O QUE DISSE FOI...

No decurso de um simpósio internacional sobre literatura de mulheres, realizado na Universidade de Lima, em 1999, disse pela primeira vez em público uma frase que mais tarde vi outros repetirem, transformada num cliché coletivo. Perdoem-me a gabarolice (ai, a vaidade) de reclamar a autoria da frase, mas talvez tenha sido a única ocasião em que um pensamento adquiriu vida própria e passou a fazer parte das máximas anónimas de uma sociedade. E o que disse foi: quando uma mulher escreve um romance protagonizado por uma mulher, toda a gente considera que está a falar de mulheres; quando um homem, pelo contrário, escreve um romance protagonizado por um homem, toda a gente considera que está a falar do género humano.

Rosa Montero em A Louca da Casa

domingo, 25 de fevereiro de 2024

CONVERSANDO

De um modo geral ensina-se muito mal nas escolas. A poesia, por exemplo.

No seu livro A Louca da Casa, Rosa Montero lembra uma frase de Franz Kafka:

«Se o livro que lemos não nos acorda, como um murro na cabeça, para que o lemos?»

sábado, 3 de fevereiro de 2024

ENQUANTO INVENTAMOS HISTÓRIAS

Também somos eternos enquanto inventamos histórias. Escreve-se sempre contra a morte.

 Rosa Montero em A Louca da Casa

domingo, 29 de outubro de 2023

ESCREVER É FLUTUAR NO VAZIO

Quero dizer que escrevemos na escuridão, sem mapas, sem bússolas, sem sinais reconhecíveis do caminho. Escrever é flutuar no vazio.

Rosa Montero em A Louca da Casa

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 A imagem mostra a contra capa da 1ª edição de Manual de Pintura e Caligrafia de José Saramago.

Saramago classificou este livro como um ensaio de romance.

Numa conversa com Carlos Reis, Saramago disse-lhe:

«Provavelmente não siu um romancista; provavelmente eu sou um ensaísta que precisa de escrever romances porque não sabe escrever ensaios».

Nas  fichas de leitura do serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, assinada por Joana Varela:

«Se José Saramago quisesse ser exacto e gostasse de desvendar segredos, em vez de Manual de Pintura e Caligrafia, chamaria muito simplesmente ao seu livro Manual de Vida, porque, no fundo, é só disso que se trata.

Mário Soares comprou  o seu exemplar do Manual de Saramago na Livraria Moraes e, em alto e bom som, terá dito:

«Manual de Pintura e Caligrafia? Mas o que é que o Saramago sabe disto?»

Nas fichas de leitura do serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, assinada por Joana Varela:

«Se José Saramago quisesse ser exacto e gostasse de desvendar segredos, em vez de Manual de Pintura e Caligrafia, chamaria muito simplesmente ao seu livro Manual de Vida, porque, no fundo, é só disso que se trata.»

Quando em Dezembro de 1976 José Saramago publica Manual de Pintura e Caligrafia, rodeou o livro de uma esperança de que teria uma boa aceitação por parte da crítica e pelos eseus leitores que, certamente, Saramago desconhecia quantos seriam.

Leitor assumido de Saramago, comprei o livro e dele muito gostei, gosto que, com o andar dos tempos, não se perdeu.

Robert Walser, citado por Rosa Montero em A Louca da Casa, após a publicação do seu primeiro livro, escreveu:

«É uma verdadeira desgraça quando um escritor não obtém sucesso com o seu primeiro livro, como me aconteceu a mim.»

Ainda Rosa Montero:

«Estou a pensar no pobre Robert Walser. Hoje é uma personagem de culto, um nome importante, embora não popular, da literatura contemporânea em alemão Mas a verdade é que, enquanto foi vivo, ninguém lhe deu a menor importância.

Finalmente, em 1905, o jovem Walser conseguiu que lhe publicassem o seu primeiro livro e até que lhe fizessem um contrato para o segundo. Esta conquista, que deve ter sido um dos momentos mais felizes da sua vida, implicou, a sua perdição. Walser, entusiasmado, deixou o trabalho de empregado de escritório assim que assinou o contrato, decidido a dedicar-se profissionalmente à escrita mesmo antes de sair a sua primeira obra e sem ter em conta o êxito que podia ter. Ou melhor, que não teve, porque foi um completo fracasso. Fizeram-lhe dias excelentes críticas, uma delas assinada por Herman Hesse, mas o livro com uma tiragem de mil e trezentos exemplares, só vendeu quarenta e sete cópias, e o editor franziu o nariz e decidiu não cumprir o acordo e não publicar a segunda obra.»

Deixemos Robert Walser, deixemos Rosa Montero, voltemos a José Saramago:

Joaquim Vicente no seu Rota de Vida,  conta que Nelson de Matos terá dito que o Manual tinha vendido três exemplares, um dos quais comprado por Mário Soares, que quando o adquiriu  na Livraria Moraes, terá dito: «Manual de Pintura e Caligrafia? Mas o que é que o Saramago sabe disto?»

É uma história, malévola história, de quem detesta Saramago, no fundo dos fundos também uma história muito mal contada. Eu comprei o livro. E ao tempo, sei de mais pessoas que o compraram.

«É talvez o meu livro mais autobiográfico», reconhecerá o próprio Saramago.

O escritor Mário de Carvalho:

«O livro não entusiasmou ninguém. Julgo ter percebido, então, o quanto aquele livro era importante para José Saramago e a incomodidade por que deve ter passado perante apreciações mais ou menos evasivas ou condescendentes. Tinha apostado muito forte. Creio que ainda hoje valoriza muito o Manual… Mas nas opiniões então dominantes, que, no essencial me parecem acertadas, não era ainda o romance de um grande escritor. Não tinha sido desta…»

José Manuel Mendes inserirá o livro do amigo na coerência de um percurso literário: «Se lermos com atenção os dois livros que ele escreveu antes, Terra do Pecado e Claraboia (sobretudo Claraboia), entendemos que está ali integralmente um homem capaz de fazer uma obra de grande envergadura. Depois, a tarimba do jornal e particularmente da crónica, mais do que os artigos de opinião, servem-lhe para experimentação de mecanismos de escrita e de procedimentos textuais de vária ordem. E quando um dia parte para a escrita do Manual de Pintura e Caligrafia, livro que valorizo bastante, ele está maduro para fazer esse tipo de experiência e levá-la a bom porto, a um bom resultado. O romance é um bom romance.»

 Começa nestas páginas o estilo que Saramago aperfeiçoará constantemente ao longo da sua obra.

 «Poderei escrever sempre, até ao fim da vida.»

 «Que quero eu? Primeiramente, não ser derrotado. Depois, se possível, vencer.»

 E quase definitivo:

 «Não sou já, não sou ainda, não sei que serei.»

José Saramago vai ter com Nelson de Matos à Moraes para que lhe publique Levantado do Chão. 

Nelson de Matos diz que não pode. 

Os motivos, e o resto, estão neste excerto de uma entrevista que deu ao Expresso de 27 de Novembro de 2004.

Nela se fica a saber o motivo porque não aconteceu continuar a ser o editor do que seria o futuro Prémio Nobel de Literatura, do amigo, do camarada…

Nelson de Matos tem razões suficientes para, cada vez que se lembra do episódio, murmurar de si para si, que o destino é mesmo um tipo sem moral nenhuma.

«- Quando estava na altura na editora Moraes, você não publicou o terceiro original de José Saramago.

- Nós não temos a mesma leitura dos acontecimentos, porque o Saramago conta isso de uma maneira e eu conto de outra. Peço desculpa ao Saramago por considerar que ele conta mal, porque ele acha que existiram influências sinistras da minha decisão. E a verdade é que não existiram, foi uma coisa bastante mais prosaica. Ou seja: eu publiquei um livro de contos que se chamava “Objecto Quase” e um romance, “Manual de Pintura e Caligrafia”.

- Qual era o terceiro?

- O “Levantado do Chão”, que o Saramago me apresentou, que eu li, e gostei – nada a dizer sobre o livro, que é um excelente romance. Mas nessa altura a Moraes estava no fim.

- Falida?

- Exactamente. Os livros anteriores do Saramago não tinham vendido. Ele tinha estado no “Diário de Notícias” e estava a atravessar aquele período negativo posterior, muito marcado politicamente. Tive que lhe dizer: “José, fiz duas experiências, não resultaram, lamento não ter condições para poder fazer a terceira.” E não publiquei. Esse livro, por coincidência e por felicidade – e digo-o sem nenhum rancor…

- … foi a explosão

- … foi o início da explosão de Saramago e do seu sucesso futuro. Portanto, passei a ter no meu currículo de editor o ter recusado publicar um futuro Prémio Nobel.

- Essa é uma nódoa inapagável!

- E não é a única! Na vida dos editores, essas coisas acontecem com relativa frequência: o não se apostar num autor e ter uma grande surpresa.

- Ficou surpreendido quando ganhou o Nobel?

- Claro, porque um Nobel nunca se espera. Quando me disseram, eu estava em Frankfurt, no meio de uma reunião. Claro que fiquei contente. Mas foi mais um contentamento do que uma surpresa.- Voltou a chamar-se a si próprio: “Que grande estúpido que eu fui!”
- Sim…Lembro-me que, depois, estive com o Saramago, sentado, no “stand” da “Dom Quixote”, num momento de descanso. Estivemos a falar e divertimo-nos um pouco com essa situação.

- Não ficaram sequelas entre os dois?

- Da minha parte, nunca. Da parte do José Saramago, creio que ele ficou desgostoso e suponho que nunca me perdoou ou entendeu esse gesto. Sempre relatou isso como se eu tivesse tido pressões para não o editar. E isso não é verdade.

- Que tipo de pressões?

- Políticas, empresariais, eu sei lá!

- Mas vocês pertenceram ao mesmo partido, ainda por cima.

- Sim, sim, sim

- Você ainda estava no PCP?

- Ainda, o que mostra o absurdo da situação.»

sábado, 14 de outubro de 2023

... POR UM PREÇO TÃO BAIXO!...

E depois existem, claro as pequenas prebendas, as ambições lícitas e ilícitas, o snobismo, o medo, a vaidade… Pode vender-se a alma ao poder por tantas coisas! E, o que é pior, por um preço tão baixo.

Rosa Montero em A Louca da Casa

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 Andou a fazer umas passeatas pelo país, tomar o pulso aos militantes, mostrou o seu cínico sorriso em jantaradas seguidas de discursatas e chegado ao remanso do lar, concluiu que vir a ocupar o cargo de primeiro-ministro do pedaço, não é tarefa fácil, apesar dos marcelistas elogios, a tentativa da imprensa de direita de lhe dar um certo apoio bem como uma artigallhada que a múmia de Boliqueime/Belém fez publicar no direitista Público, em que o governo de António Costa é desancado.

Poderá sempre dizer como um seu correleginário que talvez apareça escrito nas etrelas que um dia será primeiro ministpo do reino, mas não há qualquer certeza que ias palavras apareçam escritas.

A não ser… ah! sim, omais fiável é juntar-se aos racistas-xenófobos-do partido-esgoto-do Ventura.

E não há que hesitar!

Os trabalhos já começaram.

1.

 

Ricardo Salgado fez muita coisa no BES enquanto por lá se sentou.

Mas tudo só foi possível porque no Banco de Portugal quem também por lá andou sentado, tudo permitiu.

Medo?

Compadrio?

Falta de memória?

Lembro-me quando Mário Soares o mandou vir do Brasil, para onde fugira a seguir ao 25 de Abril, porque seria muito útil à Democracia.

Mas o que é a Democracia?

Aquelas coisas do Soares…

2.

«Como na frase de Nani Moretti, poderia pedir-se ao Governo: «Digam qualquer coisa de esquerda!» Neste caso pedir sobretudo que façam, por favor, que façam qualquer coisa de esquerda.»

Carmo Afonso , Público

3.

«A prescrição moral não está regulada juridicamente, está sujeita ao julgamento final. Se perante um crime, o julgamento de direito admite a prescrição como um valor que preserva a segurança do funcionamento jurídico, já na moral cristã não há prescrições: um assassino será sempre um assassino; um ladrão, ladrão; um abusador será sempre abusador. Só a confissão, o arrependimento e penitência atenuam, convocando o perdão. Perante os casos de suspeitas e denúncias de abusos sexuais que se acumulam, todos os meses, pendendo na jugular da Igreja Católica portuguesa como um cutelo, uma parte das suas mais altas figuras permanece muda ou envolvida num manto desculpabilizador absolutamente intolerável. Mais perto do arrependimento mas ainda longe da penitência, nem sequer confessa abertamente os seus pecados. Perante tudo o que se passou, soma aos factos uma atitude sem perdão. A Igreja continua a defender-se com a teoria dos factos à época, como se fossem cometidos na Idade Média.»

Miguel Guedes no Jornal de Notícias

4.

«As pessoas nunca são tão completa e entusiasticamente más como quando agem por convicção religiosa"»

Umberto Eco

5.

«Um sacerdote não pode continuar a ser sacerdote se for um abusador.»

Padre Francsco

6.

«A ridícula ideia de não voltara a ver-te.»

Rosa Montero

7.

 «Um ministro não ganha para o que faz.»

 Francisca Van Nunen, ex-ministra da Justiça

8.

O filme O Livro de Imagem, derradeira longa-metragem de Godard — a meu ver tão significativo para a modernidade cinematográfica como Les Demoiselles d’Avignon (1907), de Pablo Picasso, para a pintura do século XX — estreou-se nas salas portuguesas, com distribuição da Midas Filmes, no dia 6 de dezembro de 2018. Segundo os dados oficiais do ICA -Instituto do Cinema e do Audiovisual, O Livro de Imagem esteve em exibição seis semanas, até 16 de janeiro, tendo sido visto por um total de 1343 espectadores.

A pequenez de tal número é apenas uma variante de um fenómeno das últimas décadas: são muito poucos os que, realmente, viram os filmes de Godard. O certo é que, perante o clamor de exaltação e reverência suscitado pela notícia da sua morte, dir-se-ia que, depois do lançamento de Gabriela (16 de maio de 1977), os nossos horários nobres têm sido preenchidos apenas e só com filmes de Godard...

Num curtíssimo filme (2 minutos) que aborda uma fotografia da guerra da Bósnia — Je Vous Salue, Sarajevo (1993) —, Godard fala da cultura como a “regra” e da arte como a “excepção”. E refere alguns “objectos” que estipulam a regra que “todos dizem”. São eles: “cigarro, computador, t-shirt, televisão, turismo, guerra”. Acrescenta que “ninguém diz a excepção”. Porquê? Porque “isso não se diz, escreve-se: Flaubert, Dostoievski; compõe-se: Gershwin, Mozart; pinta-se: Cézanne, Vermeer; filma-se: Antonioni, Vigo. Ou isso vive-se e, então, é a arte de viver: Srebrenica, Mostar, Sarajevo.” E termina citando Louis Aragon (peço desculpa pela tradução literal): “Quando for necessário fechar o livro, será sem lamentar nada. Vi tanta gente viver tão mal e tanta gente morrer tão bem.”

João Lopes em  Sound + Vision

9.

Tirado do anúncio ao Livro de Imagem do Jean-Luc Godard:

«Ainda te lembras como costumávamos treinar o nosso pensamento?
A maioria das vezes partíamos de um sonho…
Perguntávamo-nos como, na total escuridão,cores de tal intensidade podiam emergir dentro de nós.
Numa voz suave e fraca
Dizendo coisas grandiosas,
Coisas importantes, surpreendentes, profundas e exactas.
Imagem e palavra
Como um pesadelo escrito numa noite de tempestade.
Sob os olhos do Ocidente.
Os paraísos perdidos.
A guerra está aqui…»

10.

Os Bancos já custaram ao Estado mais de 22 mil milhões de euros desde 2008.

11.

Existem 2,3 milhões de portugueses em risco de pobreza ou exclusão social, o equivalente a 22,4% da população. Portugal passou de 13.º para 8.º na lista de países europeus com maior risco de pobreza ou exclusão social.

12.

Em Lisboa, por dia, são recolhidos 990 toneladas de lixo.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

OLHAR AS CAPAS

A Louca da Casa

Rosa Montero

Tradução: Helena Pitta

Capa. Pormenor de Martha de Georg Schrimpf

Colecção Miniatura nº 1 (Nova Série)

Livros do Brasil, Lisboa 2017

Habituei-me a ordenar as recordações da minha vida através de uma relação de namorados e de livros. Os diversos amores que tive e as obras que publiquei são as balizas que marcam a minha memória, convertendo a balbúrdia informe do tempo em algo organizado.