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domingo, 17 de maio de 2020

OLHAR AS CAPAS


Hiroshima, Meu Amor

Marguerite Duras
Tradução: Maria José Palla e M. Villaverde Cabral.
Capa: Rogério Petinga
Quetzal Editores, Lisboa, 1987

Ele - Tu não viste nada em Hiroshima.
Ela - Vi tudo. Tudo.
Ela - ... do décimo quinto dia também.
Hiroshima cobriu-se de flores. Havia por toda a parte centáureas e gladíolos e trepadeiras e lírios amarelos que renasciam das cinzas com um com um extraordinário vigor, até então desconhecido nas flores. Nada inventei.
Ele - Inventaste tudo.
Ela - Nada.
Ela – Como tu, eu sei o que é o esquecimento-
Ele – Não, tu não sabes o que é o esquecimento.
Ela – Como tu, também eu sou dotada de memória. Conheço o esquecimento.
Ele – Não, tu não és dotada de memória.
Ela – Como tu, também eu tentei lutar com todas as minhas forças contra o esquecimento. Como tu, esqueci. Como tu, desejei ter uma memória inconsolável, uma memória de sombras e de pedra.

quinta-feira, 26 de março de 2020

ROGÉRIO PETINGA (1935-2020)


Em princípios de Fevereiro, repeguei em O Papagaio de Flaubert de Julian Barnes, que me agrada muito e que tem uma bonita capa do Rogério Petinga.

Andei a catá-lo, apanhei mais um parágrafo e, no dia 5 de Fevereiro, fiz um Postal Sem Selo.

Nestes tempos tão difíceis, os olhos virados para outras direcções, só agora soube que o Rogério Petinga, com 85 anos, deixou-nos no dia 21 de Março.

Era senhor de um estilo de capas de livros que são muito do meu agrado.

Más notícias, atrás de más notícias.

Dias tão difíceis.

sábado, 31 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


 O Papagaio de Flaubert

Julian Barnes
Tradução: Ana Maria Amador
Capa: Rogériio Petinga

Quetzal Editores, Lisboa, 1984

Talvez houvesse mais outra coisa. Algumas pessoas, quando envelhecem, parecem ficar mais convencidas da sua própria importância. Outras ficam menos convencidas. Há algum significado na minha existência? A minha vida vulgar não terá ficado resumida, encerrada, esvaziada de sentido pela vida um pouco menos vulgar de outra pessoa? Não estou a dizer que é nosso dever negarmo-nos face ao que julgamos mais interessantes. Mas a vida, neste aspecto, é parecida com a leitura. E como disse antes, se todas as nossas reacções a um livro já foram duplicadas e alargadas por um crítico profissional, então qual é o interesse de lermos? Apenas o facto de ser a nossa leitura. Da mesma maneira, para quê vivermos a nossa vida? Porque é nossa. E se uma tal resposta se tornar gradualmente menos convincente?

sábado, 19 de janeiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


O Jogo do Reverso

Antonio Tabucchi
Prefácio: José Cardoso Pires
Tradução: Maria José de Lencastre, Maria Emília Marques Mano, José Colaço
                   Barreiros
Capa: Rogério Petinga
Livros Quetzal, Lisboa, Abril de 1999

À noite falávamos de Fitzgerald ouvindo Tony Bennett que cantava Tender is the Night. Do filme, para dizer a verdade, ninguém tinha gostado, nem sequer o senhor Deluxe, embora não fosse de gostos difíceis. Mas o Tony Bennett tinha uma voz «pungente como o romance», e o Gino tinha de voltar a pôr o disco uma quantidade de vezes. Inevitavelmente pediam-me o início do livro, todos achavam delicioso que eu soubesse de cor o início dos romances de Fitzgerald: só os inícios, que eram uma das minhas paixões. O senhor Deluxe, sério como de costume, pedia silêncio, eu procurava esquivar-me, mas não era possível dizer que não, o disco do Tony Bennett tocava em surdina, o Gino tinha servido os bacardis, eu olhava fixamente para ti, tu sabias qua quele início te era dedicado, era quase como se tivesse sido eu a escrevê-lo, acendias um cigarro na boquilha, também aquilo fazia parte da representação, brincavas à flapper, mas não tinhas nada de uma flapper, nem a franja, nem as meias de rayon e muito menos o espírito; tu pertencias a outra categoria, poderias ter entrado talvez num romance de Drieu, ou de Pérez- Galdós, tinhas um sentimento trágico da vida, talvez fosse o teu egoísmo sem solução como um castigo.

sábado, 3 de novembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Amante

Marguerite Duras
Tradução: Luísa Costa Gomes e Maria da Piedade Ferreira
Capa: Rogério Petinga
Difel. Lisboa, Setembro 2000

Quando se aproximava a hora da partida, o barco lançava três apitos de sirene, muito compridos, de uma força terrível, ouvia-se na cidade toda e para os lados do porto o céu ficava negro. Então os rebocadores aproximavam-se do barco e puxavam-no para o meio do rio. Depois, os rebocadores soltavam as amarras e voltavam para o porto. Então o barco dizia adeus ainda mais uma vez, lançava de novo os seus mugidos terríveis e tão misteriosamente tristes que faziam as pessoas chorar, não só as da viagem, as que se separavam, mas também as que tinham vindo ver, e as que estavam ali sem uma razão precisa, que não tinham ninguém em quem pensar. O barco depois, muito lentamente, com as suas próprias forças, embrenhava-se no rio. Via-se durante muito tempo a sua forma alta avançar para o mar. Muita gente ficava ali a olhá-lo, a acenar cada vez mais lentamente, cada vez mais desencorajadamente, com os seus xailes, os seus lenços. E depois, por fim, a terra levava a forma do barco na sua curvatura. Em tempo claro, víamo-lo afundar-se lentamente.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Mulher de Porto Pim
e outras histórias

Antonio Tabucchi
Prólogo: Antonio Tabucchi
Tradução: Mari Emíli Marques Mano
Capa: Rogério Petinga
Difel, Lda, Lisboa s/d

Post Scriptum

Uma baleia vê os homens

Sempre tão atarefados, e com longas barbatanas que agitam com frequência. E como são pouco redondos, sem a majestosidade das formas acabadas e suficientes, mas com uma pequena cabeça móvel onde parece encontrar-se toda a sua estranha vida. Chegam deslizando sobre o mar mas não nadam, quase como se fossem pássaros, e infligem a morte com fragilidade e graciosa ferocidade. Permanecem longo tempo em silêncio, mas depois entre eles gritam com fúria repentina, com um amontoado de sons que quase não varia e aos quais falta a perfeição dos nossos sons essenciais: chamamento, amor, pranto de luto. E como deve ser penoso o seu amar-se: e áspero, quase brusco, imediato, sem uma capa de gordura, favorecido pela sua natureza filiforme que não prevê a heróica dificuldade da união nem os magníficos e ternos esforços para a realizar.
Não gostam da água e têm medo dela, e não se percebe porque a frequentam. Também eles andam em bandos mas não levam fêmeas e adivinha-se que elas estão algures, mas são sempre invisíveis. Às vezes cantam, mas só para si, e o seu canto não é um chamamento, mas uma forma de lamento angustiado. Cansam-se depressa, e quando cai a noite estendem-se sobre as pequenas ilhas que os transportam e talvez adormeçam ou olhem para a Lua. Vão-se embora deslizando em silêncio e percebe-se que são tristes.

sábado, 19 de maio de 2018

OLHAR AS CAPAS


Obra Poética
(1972-1985)

Nuno Júdice
Capa: Rogério Petinga
Quetzal Editores, Lisboa, Junho de 1999

A Imagem do Vento

para a Manuela

No princípio, desenvolveu a ideia de que o arco-íris era
uma ponte: aparecia sobre os barcos, no fim dos temporais,
e o marinheiro da gávea avistava uma mulher de cabelos
de ouro, agitados pelo vento, a atravessá-la; alguns desses
marinheiros enlouqueceram. Conheceu-os, durante os meses
em que estudou os costumes dos portos – sentavam-se à
parte, nas tabernas, e acendiam uma vela. Diziam que o brilho
da chama evocava os cabelos dourados dessa mulher; e
que o azul do álcool os fixava, como um olhar celeste.
Tentou, então, viver essa experiência: embarcou num velho
cargueiro e, durante dois ou três anos, percorreu os mares.
Mas nunca encontrou a deusa; nem os arco-íris formavam
o arco completo da ponte que imaginara. Também ele enlou-
queceu, e dizem que sobe ao telhado da casa nas noites
de temporal, e grita pelo sol, a quem dá um nome de mulher;
até ficar rouco e o trazerem para o quarto. Aí, até
adormecer, murmura esse nome sem corpo, sem imagem, sem luz.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Requiem

Antonio Tabucchi
Capa: Rogério Petinga
Quetzal Editores, Lisboa,1997

Esta história que se passa num domingo de Julho numa Lisboa deserta e tórrida é o Requiem que a personagem a quem chamo «Eu» teve de executar neste livro. Se alguém me perguntasse porque é que esta história foi escrita em português responderia que uma história como esta só poderia ter sido escrita em português, e pronto. Mas à também outra coisa a especificar. Em rigor, um Requiem teria de ser escrito em latim, pelo menos é o que prescreve a tradição. Ora acontece que eu, infelizmente não me dou bem com o latim. Seja como for percebi que não podia escrever um Requiem na minha língua e que precisava de uma língua diferente, uma língua que fosse um lugar de afecto e de reflexão.
Este Requiem, além de uma "sonata", é também um sonho, durante o qual a minha personagem vai encontrar vivos e mortos no mesmo plano: pessoas, coisas e lugares que precisavam talvez de uma oração, oração que a minha personagem só soube fazer à sua maneira, através de um romance. Mas, acima de tudo, este livro é uma homenagem a um país que eu adoptei e que também me adoptou, a uma gente que gostou de mim e de quem eu também gostei.
Se alguém observar que este Requiem não foi executado com a solenidade que convém a um Requiem, não posso deixar de concordar. Mas a verdade é que preferi tocar a minha música não num órgão, que é um instrumento próprio das catedrais, mas numa gaita de beiços, que se pode levar no bolso, ou num realejo, que se pode levar pelas ruas. Como Drummond de Andrade, sempre gostei de música barata, e, como ele dizia, não quero Haendel para meu amigo, nem ouço a matinada dos arcanjos. Basta-me o que veio da rua, sem mensagem, e, como nos perdemos, se perdeu.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Lisboas

Armando Silva Carvalho
Capa: Rogério Petinga
Quetzal Editores, Lisboa, Janeiro de 2000

Louca do bairro

Tolhida, rebusca entre as caricas um sentido
que escorra, final,
de todas as garrafas que mataram
a sede
aos habitantes do bairro.
Traz laços coloridos no cabelo
e defeca com decência no passeio
onde cagam vigiados os cães da vizinhança.
Do seu nariz agudo, nem a rainha do Sabá
saberia falar a Salomão.
Na testa alta, azeitonada, alberga uma ciência
da distância.
Não olha para ninguém, nem mesmo para os pássaros
que com ela dividem o mesmo alô
de sombra solitária.
É verão e tem consigo o frio
do mundo.
Casacos, roupões de luxo
e uma estola traçada pelos desvarios
do tempo.
Não foi, é uma grande senhora,
esta teatral louca do bairro.
E o seu silêncio impõe nobreza tal
que os rapazes da droga lhe trazem do café
rissóis roubados ou um pouco de leitura
aristocrata.
Tolhida como um ícone, mantém uma beleza
doente.
E não há poema, prosa, melífula voz de incenso,
que a faça flutuar na brancura da tarde
Onde o sol reina, indiferente.


Ela não precisa de tais luzes.
Na sua face enevoada brilha um deus.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Afirma Pereira

Antonio Tabucchi
Tradução de José Lima
Capa: Rogério Petinga
Quetzal Editores, Lisboa, 1995

Mas não disso nada disso. Acendeu um charuto, limpou com o guardanapo o suor que lhe escorria da testa, desabotoou o primeiro botão da camisa e disse: as razões do coração são as mais importantes, é preciso seguir sempre as razões do coração, os dez mandamentos não dizem isto, mas digo-lhe eu, mas é precisos ter os olhos abertos, apesar de tudo, coração sim, de acordo, mas também olhos bem abertos, meu caro Monteiro Rossi, e com isto acabou-se o nosso almoço, nos próximos três ou quatro dias não me telefone, deixo-lhe todo o tempo para reflectir e para fazer uma coisa bem feita, mas mesmo bem feita, ligue-me no próximo sábado para a redacção, por volta do meio-dia.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


O Inverno em Lisboa

Antonio Muñoz Molina
Capa: Rogério Petinga
Tradução: Carlos Martins Pereira
Quetzal Editores, Lisboa s/d

Saudámo-nos sem entusiasmo: fora sempre assim. A nossa amizade tinha sido descontínua e nocturna, fundada mais na semelhança de preferências alcoólicas – a cerveja, o vinho branco, a genebra inglesa, o bourbon – do que em qualquer espécie de impudor confessional, no que nunca ou quase nunca incorremos. Bebedores inveterados, ambos desconfiávamos dos exageros do entusiasmo e da amizade que a bebida e a noite trazem consigo: só uma vez, quase de madrugada, sob a influência de quatro imprudentes dry martinis, Biraldo me falara do seu amor por uma rapariga que eu conhecia muito superficialmente – Lucrécia – e de uma viagem que fizera com ela e de que acabava de regressar. Ambos bebemos demasiado naquela noite. No dia seguinte, quando me levantei, verifiquei que não tinha ressaca, mas que estava ainda grosso, e que esquecera tudo o que o Biraldo me contara. Lembrava-me unicamente da cidade onde devia ter terminado aquela viagem tão rapidamente iniciada e concluída: Lisboa.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


O Canto do Vento nos Ciprestes

Maria do Rosário Pedreira
Capa: Rogério Petinga
Gótica, Lisboa, Maio de 2007

Na tua boca cantou subitamente uma voz
E, ao dizeres o meu nome na rede de um abraço,
o rio que outrora bordava o campo emudeceu
com as suas pedras lisas. Então, foi possível

ouvir o vento soprar nas asas das borboletas
e os lagartos recolherem-se nos veios dos muros
e o sol ferir-se nos espinhos das roseiras.

Sobre a colina quente passou uma nuvem
e uma ave poisou, perplexa, no fio do horizonte -
por um instante, o dia mostrou as suas pálpebras tristes;

e, na brancura cega desse entardecer, a tua mão
escorregou pela inclinação do sol e veio contar
as sombras do um decote.

São assim as mais pequenas histórias do mundo.

sábado, 27 de dezembro de 2014

OLHAR AS CAPAS

Sonhos de Sonhos

Antonio Tabucchi
Tradução de Maria Piedade Ferreira
Capa: Rogério petinga sobre pormenor de pintura de Marc Chagall, Lisboa 1992

Na noite de sete de Março de 1914, Fernando Pessoa, poeta e fingidor sonhou que acordava. Tomou o café no seu pequeno quarto alugado, fez a barba e vestiu-se com esmero. Enfiou a gabardina, porque lá fora chovia. Quando saiu faltavam vinte minutos para as oito, e às oito em ponto estava na estação do Rossio, na plataforma do comboio com destino a Santarém. O comboio partiu pontualmente às oito e cinco. Fernando Pessoa tomou lugar num compartimento onde estava sentada uma senhora aparentando cinquenta anos, que lia. Era a sua mãe e não era a sua mãe, e estava imersa na leitura. Fernando Pessoa pôs-se também a ler. Naquele dia tinha de ler duas cartas que lhe tinham chegado da África do Sul e lhe falavam de uma infância longínqua.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


Profissão de Fé

Eduardo Guerra Carneiro
Capa: Rogério Petinga
Quetzal Editores,  Lisboa, 1990


A BARBA

A barba é o meu gato. Afago-a
neste jeito de quem passa os dedos
pelo dorso de um bichano. Eu sei
que estou a tocar num tigre: a barba
encrespa-se, revolve-se mesmo.
Ondas, campos de milho, searas,
também conhecem afago igual.
Mas este gato rebelde, a minha barba
apenas, é agora tudo a que me prendo.
Mestres já me dizem do excesso
de assim me virar para dentro.
Não! É para fora! Mora a barba
noutras eras, noutro espaço. É ela
que me afaga a mim: a última ternura.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

OLHAR AS CAPAS


A Casa e o Cheiro dos Livros

Maria do Rosário Pedreira
Capa: Rogério Petinga
Gótica, Lisboa, Maio de 2007

                                                             para João Guimarães

Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram
para o sul à sua procura, deixando um lugar vago
à mesa, um bilhete entalado na porta, as plantas,
o canário, um beijo e um livro emprestado: a memória
das suas biografias incompletas. Os amigos
desaparecem em agosto. Consomem-nos as labaredas do sol
e os amantes que chegam ao fim da tarde
jantam e de manhã ajudam a regar as raízes das avencas
que os amigos confiaram até setembro, quando regressam
trazem saudades e um romance novo debaixo da língua.
Levam um beijo, os vasos, as gaiolas e os amantes
deixam um lugar vago na memória, cabelos na almofada,
uma carta, desculpas, e um livro de cabeceira que os
amigos lêem, pacientes, ocupando o seu lugar à mesa.