Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar
alguns textos que por aqui foram sendo publicados.O QU’É QUE VAI NO
PIOLHO?
Gosto dos filmes que começam com uma voz off.
A Fundação Calouste Gulbenkian, para comemorar o seu
cinquentenário, nomeou João Bénard da Costa, como responsável pela selecção dos
filmes para o ciclo Como Era Belo o
Cinema.
O ciclo abriu, a 4 de Novembro de 2006, com O Vale Era Verde de
John Ford, baseado no romance de Richard
Llewellyn.
Escreveu João Bénard da Costa em Os Filmes
da Minha Vida : não há filme que me faça mais saudades.
Para além de um filme de doces nostalgias, Bénard da
Costa não deixa de salientar o cunho político-laboral que o filme encerra,
quando o pai, à greve dos mineiros, em que os filhos estão envolvidos,
chama socialist nonsense, recusando-se a aderir e tentando
proibir os filhos de a fazer.
A discussão azeda em torno da velha mesa patriarcal. E
o pai proíbe que continue. Quem quiser coisas dessas não tem lugar
naquela casa. E é então que, um a um, os cinco filhos mais velhos se levantam e
saem. Fica só o mais novo, criança ainda e fica um enorme silêncio perante
aquele primeiro “assassinato do pai”. De pois, o miúdo tosse e, sem o olhar, o
pai diz muito devagar: “Yes, my son, I know you are there.
Cena deliciosa esta, uma das muitas que marcam
indelevelmente o filme.
Jorge Silva Melo no seu Século
Passado:
Mas vê-se sempre O Vale era Verde, de maneira
diferente porque de todas as vezes se chora de maneira diferente. Já ao ver
este filme, chorei infâncias perdidas, quando mais para aí me dá o sentimento;
ou a morte dos pais; ou a miséria da mina, ventre infernal do capitalismo; ou a
honra dos trabalhadores; ou a coragem das mães; ou as refeições em silêncio; ou
o casamento da irmã; ou as longas doenças da infância com os primeiros romances
lidos na cama; ou a chegada da Primavera, ou o cheiro a sabão azul e
branco, o acreditar que “um homem não chora”, o acreditar no silêncio dos homens
e na determinação das mulheres, na honra, no valor do trabalho, no fluir
inexorável da vida, na impossibilidade do regresso, na consciência da luta. E
também nos aventais brancos, nas grandes almofadas, no banho na celha, na água
a ferver...
Digo eu, agora: também a lindíssima Maureen O’Hara, nos
seus 21 anos de cabelos ruivos, no preto e branco do filme, a atingirem um
brilho esplendoroso.
Um filme em que não há nada, mas mesmo nada, que não
esteja no lugar certo.
A perfeição é possível?
Ainda João Bénard da Costa: Há quem diga que tudo o que vive é sagrado, Ford, que o não disse filmou-o.A tal voz off, que eu tanto gosto nos filmes, inicia-nos os passos para o desenrolar do filme:
Estou a embalar os meus pertences no xaile que a minha mãe levava ao mercado, e vou-me embora do meu vale. Desta vez jamais voltarei. Deixo para trás as minhas memórias de 50 anos. A memória. Que estranho que a mente esqueça tanto do que só agora acabou de passar, ainda que mantenha viva a memória do que aconteceu há anos atrás, dos homens e mulheres há tanto tempo falecidos. Mas quem dirá o que é ou não real? Como posso crer que todos se foram, quando as suas vozes permanecem gloriosas nos meus ouvidos? Não. E levantar-me-ei sempre para voltar a dizer não, porque eles continuam a ser uma verdade viva na minha mente. Não há nem cerca nem sebe, em torno do tempo que passou. É possível ter de volta o que se gostou, se o recordarmos. Por isso posso fechar os olhos ao que o meu vale é agora e que já se foi, e vê-lo tal qual como ele era quando eu era miúdo. Verde como era e possuído pela abundância da terra. Em todo o País de Gales não havia outro tão bonito.Tudo o que alguma vez aprendi enquanto criança, aprendi-o com o meu pai, e nunca achei que nada do que ele me disse estivesse errado ou fosse inútil. As lições que me ensinou permanecem tão intensas e claras na minha mente como se as tivesse ouvido apenas ontem. Nesses dias, a escória negra, os resíduos dos poços de carvão, só então tinham começado a cobrir a encosta da nossa colina, mas ainda não tinham desfigurado o campo ou escurecido a beleza da nossa aldeia. A mina de carvão só então começara a enfiar os magros dedos negros por entre o verde. Ainda consigo ouvir a minha irmã Angharad a chamar-me. Mineiros eram o meu pai e os meus irmãos e orgulhosos do seu oficio. Alguém começava a cantar, e o vale repicava ao som de tantas vozes. Porque o cantar está para o meu povo como ver está nos olhos.
Como isto não é um exercício de crítica ao filme, antes
uma relembrança do quanto é belo o cinema, deixo o discurso de Mr. Gruffydd, o
padre que vai ser julgado pelo conselho dos diáconos, gente que, ao longo dos
tempos, a Igreja sempre guardou em si, como defensores de uma moral obsoleta,
hipócrita, tão característica dos beatos e beatas de sacristia.
O meu avô paterno, anticlerical militante, adorava este
discurso, o discurso de Mr. Gruffydd, interpretado por Walter Pidgeon:
Esta é a última vez que tomo a palavra nesta capela.
Vou deixar o vale com mágoa, por aqueles que me ajudaram aqui, e que deixaram
que eu os ajudasse. Mas... para os restantes, aqueles que provaram que
desperdicei o meu tempo entre vós, só tenho uma coisa a dizer. Não houve um único
entre vós que tenha tido a coragem de vir ter comigo e me acusar de alguma má
acção. Mesmo assim, seja como fôr, se houve algum pecado, sou eu quem deve ser
considerado pecador. Há alguém que queira erguer a voz, aqui e agora, para
me acusar? Não. Também são cobardes para além de hipócritas. Mas eu não vos
culpo. A culpa é tanto minha como vossa. As línguas ociosas e a pobreza de
espirito que têm demonstrado, significam que não consegui transmitir à maioria
a lição que me foi dada para ensinar. Quando era jovem pensava
que podia conquistar o mundo com a verdade. Pensava vir a
dirigir um exército maior do que Alexandre alguma vez sonhou. Não para
conquistar nações mas para libertar a espécie humana.

Com a verdade. Com o som dourado da palavra. Mas só
uns quantos escutaram. Só uns poucos de vocês compreenderam. Os restantes
vestiram-se de preto e sentaram-se na capela. Porque é que cá vêm? Porque
vestem de preto a vossa hipocrisia e a exibem perante Deus aos domingos? Por
amor? Não. Já demonstraram que têm o coração demasiado definhado para receberem
o amor do Vosso Pai Divino. Eu sei porque vieram. Vi-o nas vossas caras todos
os domingos enquanto estavam aqui de pé perante mim. Foi o medo que vos trouxe
cá. Um medo horrível e supersticioso. Medo da retribuição divina. Um relâmpago
e o fogo dos céus, a vingança do Senhor e a justiça de Deus. Mas esqueceram-se
do amor de Jesus. Ignoraram o seu sacrifício. A morte. O medo. As chamas, o
horror e as roupas negras. Reúnam então o vosso conselho. Mas saibam que se
estão a fazer isto em nome de Deus e na casa de Deus, estão a cometer uma
blasfémia contra Ele e a sua palavra.
A mesma voz off que nos introduz o filme, encerra-o:
Homens como o meu pai não podem morrer. Permanecem
ainda hoje, comigo, tão reais na memória com o eram na carne, amando e amados.
Como era verde o meu vale.
Estive a rever o filme.
Quando chegou o The End, se vos disser que os
meus olhos estavam secos, não acreditem.
Texto publicado em 19
de Outubro de 2012.