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quarta-feira, 13 de novembro de 2024

BLOGUEANDO POR AÍ


«Em «Simetrias — os 5 actos nos filmes de John Ford», Paulino Viota elogia os textos de Javier Marías sobre o realizador americano. Como estou sempre na disposição de me desviar do caminho traçado, fui procurá-los.

O que Marías escreveu sobre o olhar de John Wayne depois de beijar Maureen O’Hara no cemitério é formidável (El reino de la posibilidad, El País Semanal, 16 de março de 2014). Eles estão encharcados pela chuva e colados um ao outro e apaixonados, sim. Mas há uma certa gravidade nos olhos de Wayne — como se tivesse encontrado e perdido não se sabe o quê nesse preciso instante —, qualquer coisa que é quase uma tristeza (uma tristeza doce, diria Walser).

Através desse olhar, percebemos como são complicadas as relações entre homens e mulheres.

Como nos filmes Passion, de Godard.

Ou em Onde Jaz o teu Sorriso?, quando Danièle (que é uma verdadeira mulher de Ford, como todas queremos ser) diz: Sicilia!... se nos apaixonámos e nos apeteceu fazer o filme foi porque, em 1972, quando andávamos por Itália, à procura de lugares para filmar Moisés e Aarão, que rodámos em 1974, fizemos 30 000 quilómetros a passo de caracol e, um dia, em cima de uma ponte, dissemos um para o outro: «que cheiro tão estranho, não é desagradável, mas é muito intenso, que será?» E vimos quintais de laranjas despejadas num rio. Isso ficou-nos cá dentro e quando lemos o início de Conversazione in Sicilia, veio-nos à ideia, como uma recordação muito forte. Dito isto, como é que um homem e uma mulher fazem para aguentar... é a palavra certa — AGUENTAR — juntos?

Também tem a ver com as laranjas no rio...»

Cristina Fernandes em Bicho Ruim

sábado, 26 de setembro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


 Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

O QU’É QUE VAI NO PIOLHO?

 Gosto dos filmes que começam com uma voz off.

 A Fundação Calouste Gulbenkian, para comemorar o seu cinquentenário, nomeou João Bénard da Costa, como responsável pela selecção dos filmes para o ciclo Como Era Belo o Cinema.

 O ciclo abriu, a 4 de Novembro de 2006, com O Vale Era Verde de John Ford, baseado no romance de Richard Llewellyn.

 Escreveu João Bénard da Costa em Os Filmes da Minha Vida não há filme que me faça mais saudades.

 Para além de um filme de doces nostalgias, Bénard da Costa não deixa de salientar o cunho político-laboral que o filme encerra, quando o pai, à greve dos mineiros, em que os filhos estão envolvidos, chama socialist nonsense, recusando-se a aderir e tentando proibir os filhos de a fazer.

 A discussão azeda em torno da velha mesa patriarcal. E o pai proíbe que continue. Quem quiser coisas  dessas não tem lugar naquela casa. E é então que, um a um, os cinco filhos mais velhos se levantam e saem. Fica só o mais novo, criança ainda e fica um enorme silêncio perante aquele primeiro “assassinato do pai”. De pois, o miúdo tosse e, sem o olhar, o pai diz muito devagar: “Yes, my son, I know you are there.

 Cena deliciosa esta, uma das muitas que marcam indelevelmente o filme.

Jorge Silva Melo no seu Século Passado:

Mas vê-se sempre O Vale era Verde, de maneira diferente porque de todas as vezes se chora de maneira diferente. Já ao ver este filme, chorei infâncias perdidas, quando mais para aí me dá o sentimento; ou a morte dos pais; ou a miséria da mina, ventre infernal do capitalismo; ou a honra dos trabalhadores; ou a coragem das mães; ou as refeições em silêncio; ou o casamento da irmã; ou as longas doenças da infância com os primeiros romances lidos na cama; ou  a chegada da Primavera, ou o cheiro a sabão azul e branco, o acreditar que “um homem não chora”, o acreditar no silêncio dos homens e na determinação das mulheres, na honra, no valor do trabalho, no fluir inexorável da vida, na impossibilidade do regresso, na consciência da luta. E também nos aventais brancos, nas grandes almofadas, no banho na celha, na água a ferver...

 Digo eu, agora: também a lindíssima Maureen O’Hara, nos seus 21 anos de cabelos ruivos, no preto e branco do filme, a atingirem um brilho esplendoroso.

Um filme em que não há nada, mas mesmo nada, que não esteja no lugar certo.

A perfeição é possível?


Ainda João Bénard da Costa: Há quem diga que tudo o que vive é sagrado, Ford, que o não disse filmou-o.

A tal voz off, que eu tanto gosto nos filmes, inicia-nos os passos para o desenrolar do filme:

Estou a embalar os meus pertences no xaile que a minha mãe levava ao mercado, e vou-me embora do meu vale. Desta vez jamais voltarei. Deixo para trás as minhas memórias de 50 anos. A memória. Que estranho que a mente esqueça tanto do que só agora acabou de passar, ainda que mantenha viva a memória do que aconteceu há anos atrás, dos homens e mulheres há tanto tempo falecidos. Mas quem dirá o que é ou não real? Como posso crer que todos se foram, quando as suas vozes permanecem gloriosas nos meus ouvidos? Não. E levantar-me-ei sempre para voltar a dizer não, porque eles continuam a ser uma verdade viva na minha mente. Não há nem cerca nem sebe, em torno do tempo que passou. É possível ter de volta o que se gostou, se o recordarmos. Por isso posso fechar os olhos ao que o meu vale é agora e que já se foi, e vê-lo tal qual como ele era quando eu era miúdo. Verde como era e possuído pela abundância da terra. Em todo o País de Gales não havia outro tão bonito.Tudo o que alguma vez aprendi enquanto criança, aprendi-o com o meu pai, e nunca achei que nada do que ele me disse estivesse errado ou fosse inútil. As lições que me ensinou permanecem tão intensas e claras na minha mente como se as tivesse ouvido apenas ontem. Nesses dias, a escória negra, os resíduos dos poços de carvão, só então tinham começado a cobrir a encosta da nossa colina, mas ainda não tinham desfigurado o campo ou escurecido a beleza da nossa aldeia. A mina de carvão só então começara a enfiar os magros dedos negros por entre o verde. Ainda consigo ouvir a minha irmã Angharad a chamar-me. Mineiros eram o meu pai e os meus irmãos e orgulhosos do seu oficio. Alguém começava a cantar, e o vale repicava ao som de tantas vozes. Porque o cantar está para o meu povo como ver está nos olhos.

Como isto não é um exercício de crítica ao filme, antes uma relembrança do quanto é belo o cinema, deixo o discurso de Mr. Gruffydd, o padre que vai ser julgado pelo conselho dos diáconos, gente que, ao longo dos tempos, a Igreja sempre guardou em si, como defensores de uma moral obsoleta, hipócrita, tão característica dos beatos e beatas de sacristia.

O meu avô paterno, anticlerical militante, adorava este discurso, o discurso de Mr. Gruffydd, interpretado por Walter Pidgeon:

Esta é a última vez que tomo a palavra nesta capela. Vou deixar o vale com mágoa, por aqueles que me ajudaram aqui, e que deixaram que eu os ajudasse. Mas... para os restantes, aqueles que provaram que desperdicei o meu tempo entre vós, só tenho uma coisa a dizer. Não houve um único entre vós que tenha tido a coragem de vir ter comigo e me acusar de alguma má acção. Mesmo assim, seja como fôr, se houve algum pecado, sou eu quem deve ser considerado pecador. Há alguém que queira erguer a voz, aqui e agora, para me acusar? Não. Também são cobardes para além de hipócritas. Mas eu não vos culpo. A culpa é tanto minha como vossa. As línguas ociosas e a pobreza de espirito que têm demonstrado, significam que não consegui transmitir à maioria a lição que me foi dada para ensinar. Quando era jovem pensava que  podia conquistar o mundo com a  verdade. Pensava vir a dirigir um exército maior do que Alexandre alguma vez sonhou. Não para conquistar nações mas para libertar a espécie humana.

Com a verdade. Com o som dourado da palavra. Mas só uns quantos escutaram. Só uns poucos de vocês compreenderam. Os restantes vestiram-se de preto e sentaram-se na capela. Porque é que cá vêm? Porque vestem de preto a vossa hipocrisia e a exibem perante Deus aos domingos? Por amor? Não. Já demonstraram que têm o coração demasiado definhado para receberem o amor do Vosso Pai Divino. Eu sei porque vieram. Vi-o nas vossas caras todos os domingos enquanto estavam aqui de pé perante mim. Foi o medo que vos trouxe cá. Um medo horrível e supersticioso. Medo da retribuição divina. Um relâmpago e o fogo dos céus, a vingança do Senhor e a justiça de Deus. Mas esqueceram-se do amor de Jesus. Ignoraram o seu sacrifício. A morte. O medo. As chamas, o horror e as roupas negras. Reúnam então o vosso conselho. Mas saibam que se estão a fazer isto em nome de Deus e na casa de Deus, estão a cometer uma blasfémia contra Ele e a sua palavra.

A mesma voz off que nos introduz o filme, encerra-o:

Homens como o meu pai não podem morrer. Permanecem ainda hoje, comigo, tão reais na memória com o eram na carne, amando e amados. Como era verde o meu vale.

Estive a rever o filme.

Quando chegou o The End, se vos disser que os meus olhos estavam secos, não acreditem.

Texto publicado em 19 de Outubro de 2012.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Gosto dos filmes que começam com uma voz off.
A Fundação Calouste Gulbenkian, para comemorar o seu cinquentenário, nomeou João Bénard da Costa, como responsável pela selecção dos filmes para o ciclo Como Era Belo o Cinema.
O ciclo abriu, a 4 de Novembro de 2006, com O Vale Era Verde de John Ford, baseado no romance de Richard Llewellyn.
Escreveu João Bénard da Costa em Os Filmes da Minha Vida : não há filme que me faça mais saudades.
Para além de um filme de doces nostalgias, Bénard da Costa não deixa de salientar o cunho político-laboral que o filme encerra, quando o pai, à greve dos mineiros, em que os filhos estão envolvidos, chama socialist nonsense, recusando-se a aderir e tentando proibir os filhos de o fazer.
A discussão azeda em torno da velha mesa patriarcal. E o pai proíbe que continue. Quem quiser coisas  dessas não tem lugar naquela casa. E é então que, um a um, os cinco filhos mais velhos se levantam e saem. Fica só o mais novo, criança ainda e fica um enorme silêncio perante aquele primeiro “assassinato do pai”. De pois, o miúdo tosse e, sem o olhar, o pai diz muito devagar: “Yes, my son, I know you are there.
Cena deliciosa esta, uma das muitas que marcam indelevelmente o filme.



 Jorge Silva Melo no seu Século Passado:


Mas vê-se sempre O Vale era Verde, de maneira diferente porque de todas as vezes se chora de maneira diferente. Já ao ver este filme, chorei infâncias perdidas, quando mais para aí me dá o sentimento; ou a morte dos pais; ou a miséria da mina, ventre infernal do capitalismo; ou a honra dos trabalhadores; ou a coragem das mães; ou as refeições em silêncio; ou o casamento da irmã; ou as longas doenças da infância com os primeiros romances lidos na cama; ou  a chegada da Primavera, ou o cheiro a sabão azul e branco, o acreditar que “um homem não chora”, o acreditar no silêncio dos homens e na determinação das mulheres, na honra, no valor do trabalho, no fluir inexorável da vida, na impossibilidade do regresso, na consciência da luta. E também nos aventais brancos, nas grandes almofadas, no banho na celha, na água a ferver...
Digo eu, agora: também a lindíssima Maureen O’Hara, nos seus 21 anos de cabelos ruivos, no preto e branco do filme, a atingirem um brilho esplendoroso.
Um filme em que não há nada, mas mesmo nada, que não esteja no lugar certo.
A perfeição é possível?



Ainda João Bénard da Costa: Há quem diga que tudo o que vive é sagrado, Ford, que o não disse filmou-o.


A tal voz off, que eu tanto gosto nos filmes, inicia-nos os passos para o desenrolar do filme:
Estou a embalar os meus pertences no xaile que a minha mãe levava ao mercado, e vou-me embora do meu vale. Desta vez jamais voltarei. Deixo para trás as minhas memórias de 50 anos. A memória. Que estranho que a mente esqueça tanto do que só agora acabou de passar, ainda que mantenha viva a memória do que aconteceu há anos atrás, dos homens e mulheres há tanto tempo falecidos. Mas quem dirá o que é ou não real? Como posso crer que todos se foram, quando as suas vozes permanecem gloriosas nos meus ouvidos? Não. E levantar-me-ei sempre para voltar a dizer não, porque eles continuam a ser uma verdade viva na minha mente. Não há nem cerca nem sebe, em torno do tempo que passou. É possível ter de volta o que se gostou, se o recordarmos. Por isso posso fechar os olhos ao que o meu vale é agora e que já se foi, e vê-lo tal qual como ele era quando eu era miúdo. Verde como era e possuído pela abundância da terra. Em todo o País de Gales não havia outro tão bonito.Tudo o que alguma vez aprendi enquanto criança, aprendi-o com o meu pai, e nunca achei que nada do que ele me disse estivesse errado ou fosse inútil. As lições que me ensinou permanecem tão intensas e claras na minha mente como se as tivesse ouvido apenas ontem. Nesses dias, a escória negra, os resíduos dos poços de carvão, só então tinham começado a cobrir a encosta da nossa colina, mas ainda não tinham desfigurado o campo ou escurecido a beleza da nossa aldeia. A mina de carvão só então começara a enfiar os magros dedos negros por entre o verde. Ainda consigo ouvir a minha irmã Angharad a chamar-me. Mineiros eram o meu pai e os meus irmãos e orgulhosos do seu oficio. Alguém começava a cantar, e o vale repicava ao som de tantas vozes. Porque o cantar está para o meu povo como ver está nos olhos.



Como isto não é um exercício de crítica ao filme, antes uma relembrança do quanto é belo o cinema, deixo o discurso de Mr. Gruffydd, o padre que vai ser julgado pelo conselho dos diáconos, gente que, ao longo dos tempos, a Igreja sempre guardou em si, como defensores de uma moral obsoleta, hipócrita, tão característica dos beatos e beatas de sacristia.


O meu avô paterno, anticlerical militante, adorava este discurso, o discurso de Mr. Gruffydd, interpretado por Walter Pidgeon:
Esta é a última vez que tomo a palavra nesta capela. Vou deixar o vale com mágoa, por aqueles que me ajudaram aqui, e que deixaram que eu os ajudasse. Mas... para os restantes, aqueles que provaram que desperdicei o meu tempo entre vós, só tenho uma coisa a dizer. Não houve um único entre vós que tenha tido a coragem de vir ter comigo e me acusar de alguma má acção. Mesmo assim, seja como fôr, se houve algum pecado, sou eu quem deve ser considerado pecador. Há alguém que queira erguer a voz, aqui e agora, para me acusar? Não. Também são cobardes para além de hipócritas. Mas eu não vos culpo. A culpa é tanto minha como vossa. As línguas ociosas e a pobreza de espirito que têm demonstrado, significam que não consegui transmitir à maioria a lição que me foi dada para ensinar. Quando era jovem pensava que  podia conquistar o mundo com a  verdade. Pensava vir a dirigir um exército maior do que Alexandre alguma vez sonhou. Não para conquistar nações mas para libertar a espécie humana.




Com a verdade. Com o som dourado da palavra. Mas só uns quantos escutaram. Só uns poucos de vocês compreenderam. Os restantes vestiram-se de preto e sentaram-se na capela. Porque é que cá vêm? Porque vestem de preto a vossa hipocrisia e a exibem perante Deus aos domingos? Por amor? Não. Já demonstraram que têm o coração demasiado definhado para receberem o amor do Vosso Pai Divino. Eu sei porque vieram. Vi-o nas vossas caras todos os domingos enquanto estavam aqui de pé perante mim. Foi o medo que vos trouxe cá. Um medo horrível e supersticioso. Medo da retribuição divina. Um relâmpago e o fogo dos céus, a vingança do Senhor e a justiça de Deus. Mas esqueceram-se do amor de Jesus. Ignoraram o seu sacrifício. A morte. O medo. As chamas, o horror e as roupas negras. Reúnam então o vosso conselho. Mas saibam que se estão a fazer isto em nome de Deus e na casa de Deus, estão a cometer uma blasfémia contra Ele e a sua palavra.
A mesma voz off que nos introduz o filme, encerra-o:
Homens como o meu pai não podem morrer. Permanecem ainda hoje, comigo, tão reais na memória com o eram na carne, amando e amados. Como era verde o meu vale.
Estive a rever o filme.
Quando chegou o The End, se vos disser que os meus olhos estavam secos, não acreditem.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

OLHAR AS CAPAS


John Ford: A Filmografia Completa

Scott Eyman
Tradução Constança Santana
Taschen, Colónia 2005

Os westerns de Ford têm tanto um sentido da vida como uma aura de lenda. Podemos ouvir o ranger da madeira nas suas combinações de temas da odisseia com o seu sentido da humanidade desleixada. Os westerns de Ford preenchem a necessidade essencial de qualquer coisa duradoura acerca da América – são sobre promessas, e por vezes sobre a traição a essas promessas. O mundo de Ford é feito de soldados e padres, de alcoólicos e médicos e empregados e prostitutas e homens enlouquecidos, guiados pela sua necessidade da solidão, mesmo quando viajam em direcção a casa, em direcção a uma reconciliação.
A melancolia irlandesa de Ford manifestava-se num sentimento de perda – por uma inocência desaparecida, por um amor perdido, uma comunidade, uma casa. Muitos dos filmes de Ford são grandiosos, quase épicos, mas são ao mesmo tempo íntimos, pois contém o mesmo calor, pormenor doméstico e intimidade dos filmes pequenos. Tinha sentido de humor, evidentemente, mas tinha também uma seriedade intensa e sustida e um sentido do dramático – tanto com as paisagens como com as pessoas. A sua afinidade com os homens e mulheres dos seus filmes era notável; Ford é um mundo de humanidade genial – não de pecados cardeais, mas de pecados venais, hedonísticos.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



Wyatt Earp – Mac, já alguma vez estiveste apaixonado?
Mac – Não. Fui taberneiro toda a vida.

Diálogo de A Paixão dos Fortes de John Ford.

Esta cena passa-se no bar de Tromstone, mas não é a cena do diálogo.

Foram infrutíferas as tentativas para encontrar essa cena, a cena em que Earp, mãos em cima do balcão, garrafa de whisky no meio, um candeeiro de petróleo, está face a face com Mac e faz-lhe a pergunta:


Wyatt Earp – Mac, já alguma vez estiveste apaixonado?
Mac – Não. Fui taberneiro toda a vida.

Com A Paixão dos Fortes, John Ford regressou a um seus cenários favoritos: Monument Valley, em plena Reserva dos Indios Navajos, na fronteira do Arizona com o Utah.

Um filme de persistentes silêncios, céus rasgados.

Manuel Cintra Ferreira chamou-lhe a quinta essência do western clássico.




Nenhum filme como este nos dá a sentir o cheiro das flores do deserto e o espírito da música popular nessa sequência única na história do cinema que conduz Wyatt Earp da porta da barbearia ao cimo da colina onde tem lugar o baile. E ninguém soube filmar os bailes como Ford, fazendo de cada movimento um verdadeiro ritual.

Como escreveu Scott Eyman: 

Fonda a mover-se com o passo deliberado de uma elegante cegonha.




John Ford morreu, de cancro, no dia 31 de Agosto de 1973. Tinha 79 anos.

Uma hora antes de morrer, John Ford gritou:

Alguém tem para aí um charuto?

Deram-lhe um. Fumou-o e apagou-o. Passados alguns momentos morreu.

Pedir um charuto, os seus tão amados charutos que fumava inteiros ou metades cortadas a canivete, terão sido as últimas palavras do homem que fazia westerns, que adorava fazer filmes, mas não gostava de falar deles e, tal como disse a Peter Bogdanivich, o seu filme preferido era sempre o próximo.

Mas na vida, nos filmes de Ford, as histórias tornam-se quase todas lendárias.

Assim como, sempre, ter dito que nasceu num bar da Irlanda.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


“The Grapes of Wrath retrata tempos de crise. Mostra uma família rural que perdeu a quinta para o banco e, com os bens decrépitos atulhados numa camioneta miserável, segue estrada fora em busca de trabalho e da Califórnia redentora. Tom Hard, Henry Fonda, é o filho, neto e sobrinho dessa família. Acossados, humilhados, roubados de tudo por bancos, impostos, polícias, só lhe resta a razão última da sua dignidade. Na mais escura das noites, Tom despede-se da mãe prometendo-lhe “I’ll be all around in the dark, I’ll be everywhere”, e é nessas sombras que mergulha para, bem-aventurado e sedento de justiça, estar em todo o o lado. Nos olhos de Henry Fonda, na sua voz calma e de uma vibração segura, a mãe, Ma Joad, descobre a força e a razão para não voltar a ter medo, “co’s we’re the people”, porque somos o povo que vive. E hoje, neste Portugal que atafulha os bens decrépitos numa camioneta de peneus furados, em cada grito zangado, no medo de cada mãe perplexa, no riso de cada miúdo que ignora o futuro hipotecado, volto a ouvir a voz do Tom Joad, volto a ver o olhar claro, a fé de Henry Fonda. Henry Fonda é mais do que o pai dos seus filhos. Nesse filme de John Ford, Henry Fonda é o povo que se vê “all around”, em todo o lado. Pode o povo copiar-lhe a voz firme e, ao olhar, roubar-lhe uma razão da esperança?”

Manuel S. Fonseca, numa crónica publicada no suplemento “Actual” do “Expresso” de 9 de Abril de 201ll.

Legenda: fotograma do filme de John Ford “As Vinhas da Ira”,  baseado no livro, com o mesmo nome, de John Steinbeck.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS



Segundo João Bénard da Costa, A Taberna do Irlandês, de John Ford, é o mais surpreendente Natal que o cinema mostrou.