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sábado, 25 de junho de 2022

JUST A SWEET COUNTRY DREAM


Este texto é dedicado ao meu Amigo João Pedro, que há cinquenta anos atrás, sempre que me queria “picar” acerca do meu - mau, segundo ele… -  gosto pela “Folk Music” me atirava à cara a cantora índia canadiana Buffy Sainte-Marie. Não sei se ele alguma vez a ouviu cantar, embora suspeite que não. Dar-lhe-ei, agora, uma nova oportunidade…  

Nos tempos em que os portugueses se pareciam preocupar muito com a Covid, lembro-me de ter lido no “Público” uma reportagem acerca do desejo de abandonar as grandes cidades e ir viver para o campo, que se teria instalado em muito boa gente.

Ar puro, produtos naturais, vida mais barata, menos trânsito, menor “stress”, maior descanso e muito mais tempo livre para cada um dedicar a si próprio é à Família… 

Com as televisões por cabo e a Internet, a ligação ao mundo dito “civilizado”, para quem quisesse ou tivesse necessidade de o fazer, não seria problemática.

Estar-se-ia com um pé num universo e o outro pé noutro completamente distinto, à medida dos desejos de cada um.

Toda esta mistura parecia ser suficientemente atrativa para alguns dos nossos compatriotas, garantia o “Público”, que se deu ao trabalho de ir ao encontro de alguns deles. Lembro-me que uns trocaram Lisboa por Portalegre, pelo simples facto de ter pensado para com os meus botões que Portalegre seria um dos sítios onde, certamente, nunca me apanhariam a viver…

Mas cada um sabe se si e aqueles que deixaram as grandes cidades tinham, seguramente, boas condições materiais para isso, porque não acredito que o tivessem feito apenas à custa dos “magníficos apoios” atribuídos pelos sucessivos governos deste País como incentivo à deslocalização para o interior.

Este sonho pelo campo não é coisa dos tempos de hoje. É uma atração antiga e surge de forma recorrente, à medida em que a evolução das Sociedades vai impondo maiores constrangimentos à vida nas grandes cidades.

Agora é a Covid mas antes já era o custo da habitação, o trânsito caótico, as dificuldades de estacionamento, a proliferação de “tuk tuks” e turistas, e por aí fora...  

Na Literatura este tema deu pano para mangas, pelo menos a partir de Rousseau e do seu mito do bom selvagem, a que Henry Thoreau e tantos diversos autores do Romantismo deram sequência.

Como tudo o que é humano não é estranho à Folk Music, não é de admirar que, ao longo dos tempos,  há muito ela tenha deixado correr este tema por muitas das suas canções.

Como não vos quero maçar muito mais, deixo-vos aqui quatro exemplos, acompanhados das respetivas “letras”. 

A mais antiga data do último quartil do Séc. XIX, mais propriamente do início da década de 1870, uma vez que a sua data precisa parece ser muito duvidosa e John Lomax, no seu livro “Folk Song USA” que já aqui citei por diversas vezes, até admita que ela possa ser ainda mais antiga 

Começou por se chamar “My Western Home” e foi escrita, enquanto poema, por um tal Brewster M. Higley, ao qual, mais tarde, um seu amigo (Daniel E. Kelley) haveria de acrescentar a música.

Tendo fugido da mulher (é Alan Lomax, no seu livro “Folksong USA”, quem o afirma…) e ocupado terra no Kansas, ao obrigo das Leis federais que procuravam fomentar a ocupação do interior dos Estados Unidos, Higley terá ficado extasiado com aquilo que os seis olhos viam e a inspiração para o poema ter-lhe-á surgido, naturalmente. Parece que a cabana onde se instalou ainda por lá está e é considerada Monumento Nacional.

Como sempre sucede com a Folk Music, a letra foi sofrendo pequenas alterações ao longo dos tempos e esta música passou a ser conhecida como “Home on the Range”, tendo sido publicada em papel pela primeira vez em 1925 em Santo António, no Texas, por Oscar J. Fox.

Com o tempo, tornar-se-ia uma das mais conhecidas cowboy songs da América, entrou em muitos filmes e em 1947 foi designada como canção oficial do Estado do Kansas. 

Porque tinha de ser um cowboy, das centenas de versões que existem escolhi a de Gene Autry, gravada nos anos 40.

A letra é a seguinte:

HOME ON THE RANGE 

“Oh, give me a home, where the buffalo roam
Where the dear and the antelope play
Where seldom is heard, a discouragin' word
And the skies are not cloudy all day

Home, home on the range
Where the dear and the antelope play
Where seldom is heard, a discouragin' word
And the skies are not cloudy all day

How often at night, when the heavens are bright,
With the lights from the glitterin' stars,
Have I stood here amazed, and asked as I gazed
If their glory exceeds that of ours?

Home,home on the range

…………………………….

Oh, give me a land, where the bright diamond sand
Flows leisurely down the stream
Where the graceful white swan goes gliding along
Like a maid in a heavenly dream
Then, I would not exchange my home on the range
Where the dear and the antelope play”

Fica este exemplo icónico mais antigo e vejamos exemplos mais recentes.

A partir de meados dos anos 60, com a marretada final dada por Bob Dylan naquela célebre noite de 25 de Julho de 1965 no Festival de Newport, a “Folkmania” então existente nos Estados Unidos viria a perder gás, progressivamente.

Os bares Folk de Greenwich Village não encerraram as suas portas  de um momento para o outro, mas deixaram de ter as enchentes do passado e trabalhar em Nova York deixou de ser rentável para muitos folksingers dessa época, alguns deles até sem grande paciência para a música “eletrificada” que começava a ser adorada pelos mais jovens, sobretudo a partir da altura em que os Beatles aterraram na América.

Muitos deles - que nada tinham a ver com o ideário “hippie” - deixaram Nova York e instalaram-se não muito longe, nas montanhas de Woodstock, para onde Bob Dylan também iria uns tempos mais tarde, instalando-se, com os seus amigos da “The Band”, na célebre “Pink House”.

Outros, mais interessados em cavalgar essa nova onda da “Pop Music”, foram para a Califórnia, que era o que estava a dar, e instalaram-se ao longo de Laurel Canyon, talvez também com essa ilusão de que viviam no campo e desceriam à cidade quando tivessem necessidade.

Não é, assim, de estranhar que o tema “fuga para o campo” viesse a surgir, de forma mais ou menos explícita, em muitas das canções desse tempo.

É o caso desta “Just a Country Dream”, escrita em finais dos anos 60 por Eric Andersen, que também viveu em Woodstock entre meados das décadas de 70 e de 80, antes de partir para a Europa e se instalar na Noruega por uns tempos.


JUST A COUNTRY DREAM 

“There was Bob on the banjo and Dave on the old mandolin

And somebody cried out oh won’t you play that again

Oh what a joy just to hear that ole music again

 Being close by your friends

 

Just sittin’ there talking and thinking bout the places we’ve been

Then someone starts singing and strumming a sad melody

And the words tell a story bout someone like you and like me 

Livin lovin and a highway where a man can be free

Goes so easily 

Just to remind us how simple this old life could be

Like David and Susan who decided to follow their dreams

About leaving the city and going to the country it seems

Out to a valley where the waters flow peacefully

Just a sweet country dream

 

Where stars shine so bright and the air always smells so sweet and so clean

Or bout Lou’s restless just thinking about goin out west

Till the day that he died his life was the family he lead

It’s been hard on the kids but I hear that she’s doing her best

I venture this guess 

She’s living and growing and learning like all of the rest

 

There was Bob on the banjo and Dave on the old mandolin

And somebody cried out oh won’t you please play that again

Oh what a joy just to hear that ole music again

Those times with your friends

Just sittin’ there talking and thinking bout the places we’ve been”

A música que se segue foi composta por John Prine com o nome “Spanish Pipe Dream”, e faz parte do seu glorioso primeiro álbum, lançado em 1971. Mas eu ouvia-a, pela primeira vez, na voz do John Denver e com outro título: “Blow Up Your TV”, que faz parte do álbum “Aerie”, também de 1971.

Não me cansarei de agradecer a John Denver e a Ian Mathews a maneira como eles me deram a conhecer tantos e tão bons folksingers daqueles anos 60/70. Tal como sucedeu com o Jerry Jeff Walker de texto recente, também só cheguei a John Prine por intermédio de Denver e por isso seria mais que justificável pôr aqui a sua versão. Mas o pobre Prine morreu há pouca mais de dois anos e eu nem uma palavrinha lhe dediquei, embora tivesse chegado a pensar nisso. Assim sendo e a título excecional, dar-vos-ei a ouvir ambas as versões. 

Ouvindo a música e lendo a sua “letra”, perceberão que a ironia de John Prine está a léguas do lirismo de Eric Andersen… 


SPANISH PIPE DREAM / BLOW-UP YOUR TV

“She was a level-headed dancer
On the road to alcohol
And I was just a soldier on my way to Montreal

Well, she pressed her chest against me
About the time the juke box broke
Yeah, she give me a peck
On the back of the neck
And these are the words she spoke

"Blow up your TV
Throw away your paper
Go to the country
Build you a home
Plant a little garden
Eat a lot of peaches
Try an' find Jesus on your own"

Well, I sat there at the table
And I acted real naive
For I knew that topless lady
Had something up her sleeve

Well, she danced around the bar room
And she did the hoochie-coo
Yeah, she sang her song all night long
Tellin' me what to do

"Blow up your TV
Throw away your paper
Go to the country
Build you a home
Plant a little garden
Eat a lot of peaches
Try an' find Jesus on your own"

Well, I was young and hungry
And about to leave that place
When just as I was leavin'
Well, she looked me in the face

I said, "You must know the answer"
She said, "No, but I'll give it a try"
And to this very day, we've been livin' our way
Here is the reason why

We blew up our TV
Threw away our paper
Went to the country
Built us a home
Had a lot of children
Fed 'em on peaches
They all found Jesus on their own

O terceiro e último exemplo será “I’m Gonna Be a Country Girl Again”, que a canadiana Buffy Sainte-Marie compôs e que faz parte do seu álbum com o mesmo nome, lançado em 1968.

Quando se refere ao campo, Buffy sabe bem do que fala porque nasceu na reserva índia de Saskatchewan, no Canada (lembram-se do filme do Raoul Walsh…?) e, não obstante ter vindo muito cedo para os Estados Unidos com os seus pais adotivos, casou com um índio e sempre permaneceu ligada a essa comunidade durante toda a vida.


I’M GONNA BE A COUNTRY GIRL AGAIN    

“The rain is falling lightly on the buildings and the cars
I've said goodbye to city friends, department stores and bars
The lights of town are at my back, my heart is full of stars
And I'm gonna be a country girl again

Oh yes, I'm gonna be a country girl again
With an old brown dog and a big front porch and rabbits in the pen
I tell you, all the lights on Broadway don't amount to an acre green
And I'm gonna be a country girl again

I spent some time in study, oh, I've taken my degrees
And memorized my formula, my A's and B's and C's
But what I know came long ago and not from such as these
And I'm gonna be a country girl again

Oh yes, I'm gonna be a country girl again
With an old brown dog and a big front porch and rabbits in the pen
I tell you, all the lights on Broadway don't amount to an acre green
And I'm gonna be a country girl again

I've wandered in the hearts of men looking for the sign
But here I might learn happiness, I might learn peace of mind
The one who taught my lesson was the soft wind through the pines
I'm gonna be a country girl again

Oh yes, I'm gonna be a country girl again
With an old brown dog and a big front porch and rabbits in the pen
I tell you, all the lights on Broadway don't amount to an acre green
And I'm gonna be a country girl again

Oh yes, I'm gonna be a country girl again
With an old brown dog and a big front porch and rabbits in the pen
I tell you, all the lights on Broadway don't amount to an acre green
And I'm gonna be a country girl again”


And that’s all, folks…!

Não vou maçar-vos com mais comentários acerca destas músicas, já que elas falam perfeitamente por si.

Todas estas músicas me parecem ser muito bonitas, mas já se sabe que eu só gosto de “músicas de passarinhos”…! 

(Não é, Querido João…?)

Oiçam-nas ao mesmo tempo que leem as “letras”, porque, se for caso disso, vos facilitará a compreensão. 


Texto de Luís Miguel Mira

sábado, 11 de junho de 2022

MR. BOJANGLES


Tenho andado por aqui com alguns problemas de consciência por ter louvado a memória de Paul Siebel e nada ter dito acerca de Jerry Jeff Walker.

No início das suas carreiras, muitas coisas aproximaram estes dois folksingers. No final, quase tudo os separou

Ambos eram originários do distrito de Nova York e ambos iniciaram as suas carreiras nos bares de Greenwich Village, em meados dos anos 60 do século passado.

Foram cúmplices e amigos, chegando até a partilhar o mesmo apartamento durante algum tempo.

E ambos gravaram o seu primeiro álbum com a ajuda indispensável de amigos comuns, à cabeça dos quais se encontrava o inseparável David Bromberg.

Apesar de 5 anos mais novo do que Paul Siebel, Jerry Jeff foi o primeiro a gravar, em 1968, com 26 anos. Siebel só gravaria o seu primeiro álbum dois anos mais tarde, com 33 anos.

A partir daqui tudo os separa.

Siebel era melancólico e introvertido.

Walker, pelo contrário, era alegre, exuberante, extrovertido

Jerry Jeff Walker teve a sorte de, logo no seu primeiro álbum, ter uma canção que se tornou um grande sucesso, não pela sua própria voz, mas, como sucedeu com tantos outros folksingers daquela época, pela voz de muitos outros intérpretes, que certamente lhe proporcionaram saborosas royalties.  Essa canção chama-se “Mr. Bojangles”, mas já lá iremos com mais calma.

Siebel, por seu lado, nunca teve um verdadeiro grande sucesso, embora “Louise” tenha sido a que dele mais se aproximou. Como vos contei, gravou dois álbuns de originais de enfiada em 1970 e 1972, na mesma editora (a Elektra). Depois só voltaria a dar sinais de vida com um novo álbum ao vivo nos finais dessa década, para a seguir  desaparecer, de vez, vindo a acabar os seus dias há pouco mais de dois meses numa cidadezinha do Maryland, completamente esquecido e tendo como última profissão conhecida a de honrado, mas humilde, funcionário camarário. 

Jerry Jeff Walker gravou várias músicas de Paul Siebel, mas este nunca teve oportunidade de lhe retribuir o gesto. 

De Jerry Jeff existem muitos registos filmados disponíveis no YouTube. De Siebel, praticamente nada…

Não admira…

Ao longo da sua carreira, sem contar com coletâneas, discos ao vivo e colaborações com outros intérpretes, Jerry Jeff terá gravado mais de vinte álbuns de originais, embora relativamente poucos nos seus últimos 20 anos de vida. Um dos últimos foi, aliás, o muito agradável “Jerry Jeff Jazz”, de 2003, no qual se aventurou pelos standards da música popular americana, muito antes de Bob Dylan ter feito o mesmo.

Enquanto Siebel sempre gravou os seus originais na Elektra, Jerry Jeff também por lá passou, mas gravou, igualmente, na Vanguard, na ATCO e na MCA, antes de lançar, em 1986, a sua própria editora (a “Tried & True Music”).

Em meados dos anos 70 Jerry Jeff mudou-se, de vez, para Austin, no Texas, e aí se juntou a um grupo de músicos que integrava Willie Nelson e Waylong Jennings (que já lá estavam antes…), mas também Guy Clark, Townes Van Zandt e, mais tarde, Lucinda Williams, os quais foram responsáveis por uma autêntica renovação da “Country Music”, elevando-a a patamares de qualidade mais elevados e levando muito boa gente a afirmar que foi Austin, e não Nashville, o centro nevrálgico da “country” de maior qualidade nas últimas décadas.   

É também em Austin que se realiza um dos melhores Festivais de Música  dos Estados Unidos: o “Austin City Limits”, onde os “foleiros” de Nashville não entram e só lá vai gente de grande qualidade.


Enquanto Siebel terá vivido os seus últimos anos de vida de uma forma remediada, Jerry Jeff teve uma vida relativamente desafogada e até se deu ao luxo de possuir uma casa de praia em Belize, na qual chegou a gravar um disco (“Cowboy Boots & Bathing Suits”, de 1998).

Morreria em Outubro de 2020, de um cancro na garganta. Mas ainda foi a tempo de publicar uma autobiografia, “Gypsy Songman”, cujo título retoma o de uma das suas últimas coletâneas de música.

Mas da vida de Jerry Jeff já basta… 

Passemos a “Mr. Bojangles”, que faz parte do seu primeiro álbum de originais com o mesmo nome, lançado em 1968, como já atrás vos disse.

Tenho-vos dito aqui que umas das maravilhas da Folk é a fazer música sobre todos os aspetos da vida e de retratar personagens muito distintos uns dos outros, desde figuras notáveis (por bons ou por maus motivos…)  da História dos Estados Unidos até aos mais humildes e miseráveis da sua Sociedade. E de dar tanta dignidade humana a uns como a outros, como vos mostrei recentemente com a “Louise” do Paul Siebel.

“Mr. Bojangles” trata de outro desses vencidos da vida…


Parece que em 1965, devido a posse e/ou consumo de estupefacientes, Jerry Jeff Walker terá passado algum tempo (não sei quanto…) numa prisão de New Orleans e, entre os  prisioneiros que lá se encontravam, estava um que se recusava a dizer o seu verdadeiro nome e se apresentava como sendo “Mr. Bojangles”, em homenagem ao ator/dançarino negro Bill “Bojangles” Robinson que nos lembramos de ver em musicais dos anos 30 a dançar com o Shirley Temple. 

Esse homem – branco, ao que consta… -  era um “sem abrigo” que ganhava a sua vida a executar nos bares e na rua números de sapateado à maneira do verdadeiro “Bojangles” e  tinha ido dentro, na companhia de outros comparsas, sob suspeita de ter participado num assassinato local. Parece que o terão arrebanhado numa lógica de ele ser, sempre, um dos “suspeitos do costume”…  No passado teria sido um ator de  minstrel shows que percorrera todo o Sul na companhia de um cão, com o qual partilhava um número. Mas o cão, entretanto, morrera, deixando o pobre “Bojangles” entregue à sua sorte.

Com medo de se comprometer caso falasse demais, o homem pouco mais contava da sua vida e, em plena prisão, expressava-se pela dança. Ria em permanência e saltava alto, muito alto, o que fazia a alegria dos presentes, incluindo a de Jerry Jeff que lhe apanhou o “boneco” para a música cuja letra vos passo a apresentar:  

“I knew a man "Bojangles", and he danced for you
In worn out shoes
Silver hair, a ragged shirt and baggy pants
The old soft shoe

He jumped so high
He jumped so high
And then he'd lightly touch down

Mr. Bojangles
Mr. Bojangles
Mr. Bojangles
Dance

I met him in a cell in New Orleans, I was
Down and out
He looked to me to be the eyes of age
As the spoke ran out

He talked of life
He talked of life
He laughed, clicked his heels and stepped

He said his name "Bojangles", and he danced a lick
Across the cell
He grabbed his pants and feathered stance
Oh, he jumped so high
Then he clicked his heels

He let go a laugh
He let go a laugh
Shook back his clothes all around

Mr. Bojangles
Mr. Bojangles
Mr. Bojangles
Dance

He danced for those in minstrel shows and county fairs
Throughout the south
He spoke with tears of fifteen years how his dog and him
Travelled about
The dog up and died, he up and died
After twenty years he still grieves

He said, "I dance now at every chance in honky tonks
For drinks and tips
But most the time I spend behind these county bars
'Cause I drinks a bit"

He shook his head
And as he shook his head
I heard someone ask him "Please"
Please

Mr. Bojangles
Mr. Bojangles
Mr. Bojangles
Dance”


E assim se fez um sucesso na Folk Music

Não pela voz do próprio Jerry Jeff, como já vos disse, cuja versão nunca voou muito alto. Mas por gente célebre como Sammy Davis Jr, Nina Simone, John Denver, Bob Dylan, Neil Diamond ou os The Nitty Gritty Dirt Band, que foram aqueles que parece terem tido maior sucesso de vendas, embora eu não ache muita graça à sua versão. 

Lembro-me de ter ouvido pela primeira vez essa música pela voz de John Denver, no álbum “Whose Garden Was This”, de 1970, e só depois fui saber quem era Jerry Jeff Walker. 


Deixo-vos com três versões: a de John Denver, por ter sido a primeira que ouvi, a da Nina Simone, porque é um registo diferente de todos os outros, e uma versão do próprio Jerry Jeff, não a original de 1968, mas outra que fez quase vinte anos mais tarde para a coletânea “Gypsy Songman” e que é instrumentalmente mais rica.   

Quanto a Jerry Jeff Walker, esse deve ter acendido uma velinha e abençoado o polícia que o obrigou a passar aquela noite na prisão… 


Texto de Luís Miguel Mira

terça-feira, 24 de maio de 2022

ERNEST TUBB RECORD SHOP




 

“Now the Opry’s gone and the streets are bare

Ernest Tubb’s Record Shop is dark

(John Hartford)

 

A propósito da “Country Music” e do “Grand Ole Opry”, já vos contei que, algures nos finais dos anos 60, a nossa televisão passou uma série de programas musicais antigos que só muito mais tarde me vim a aperceber que eram alguns dos episódios do “Opry” que foram gravados pela televisão americana e, mais tarde, vendidos para o estrangeiro.

Também vos confessei que esses programas, de tão foleiros que na altura me pareciam ser, não fizeram muito pelo meu gosto pela “Country Music”, bem pelo contrário…

Mas lembro-me perfeitamente que, em quase todos eles, aparecia um tipo muito alto e muito magro, sempre vestido de claro e com um grande chapéu à cowboy na cabeça, que andava sempre aos saltos, sempre em movimento, sempre a dizer graçolas que me pareciam não ter graça nenhuma, assim tipo um João Baião american style.  E, de vez em quando, cantava qualquer coisinha, que raramente me encantava.

Vim a perceber, também muito mais tarde, que se tratava de Ernest Tubb, uma das figuras lendárias do “Grand Ole Opry” e de Nashville.

Ernest Tubb nasceu em Crisp, no Texas, em 1914, e por isso em Nashville lhe puseram a alcunha de “Texas Troubadour”, nome que veio a dar mais, tarde, à sua própria banda de apoio.

Fortemente influenciado por Jimmie Rogers, de quem já aqui vos falei, Tubb iniciou a sua carreira musical em 1936 e andou por diversas rádios e diversos palcos de diferentes cidades do Texas, até que, em 1941, obteve um enorme sucesso com “Walking the Floor Over You”, uma canção precursora do chamado estilo “honky-tonk” que lhe abriria as portas de Nashville e do “Grand Ole Opry”, onde entrou em 1943 para nunca mais de lá sair. Era uma das figuras mais carismáticas da cena da Música Country”, e veio a falecer em 1984, na sequência de um enfizema pulmonar contraído dois anos antes.

Mas vamos ficar por aqui, porque o meu objetivo de hoje não será acompanhar, com detalhe, a carreira de Ernest Tubb, mas apenas falar-vos da sua célebre “record shop” e de outros factos importantes na História da “Country Music”, que com ela estão relacionados.

Ernest Tubb foi visionário e em 1947, alguns anos depois de chegar a Nashville, abriu uma loja de discos que teve a particularidade de ter sido a primeira a nível nacional a dedicar-se, exclusivamente, à ”Country Music”, quando esta estava a levantar voo mas ainda não era o fenómeno de massas que viria a ser uns anos depois.

 


Essa loja situou-se, inicialmente, na 720 Commerce Street, uma rua paralela à Broadway, mas em 1951 foi transferida para o local onde ainda hoje se encontra, no 417 Broadway Street.

 


E se a abertura dessa loja já foi, por si só, muito importante para a “Country Music”, outro acontecimento houve que se tornou tão ou mais importante para a sua História. É que, aproveitando o sucesso do “Grand Ole Opry”, Ernest Tubb imaginou e passou a emitir a partir da sua loja um novo programa musical dedicado à “Country”, com a particularidade de ser emitido também aos sábados à noite, logo após o final da emissão do “Opry”. E ainda com uma outra característica… É que muitos dos artistas que nessa noite atuavam no “Opry”, sobretudo os mais novos e menos conhecidos, atravessavam a rua a correr e iam para a “Record Shop” do Ernest Tubb, onde eram acolhidos com carinho, benevolência e com direito a maior tempo de antena. Se na “Opry” se limitavam a cantar uma ou, no limite, duas músicas, aqui era-lhes concedido bastante mais tempo.

Esse programa chamou-se “Midnite Jamboree” e durou quase até hoje (já vão perceber o porquê do “quase”…), sendo apenas superado pelo “Opry” como o programa de rádio mais antigo dedicado ao seu género musical  nos Estados Unidos. Entre 1947 e 1976 foi emitido diretamente das próprias instalações da ”Record Shop”, mas a partir daí transferiu-se para mais perto das novas instalações do “Grand Ole Opry”, mas sempre com entradas gratuitas. Compreende-se porquê: se os artistas saiam de um a correr para entrarem no outro, eles teriam de se encontrar a uma curta distância um do outro.



Já neste século, o “Jamboree” começou a ter algumas dificuldades financeiras e as emissões foram suspensas durante algum tempo, tendo sido retomadas em Julho de 2021, de novo a partir das instalações da “Record Shop”, como nos bons velhos tempos.  

 


“Midnite Jamboree” tinha uma particularidade: a abertura de cada programa era sempre feita com “Walking the Floor Over You”, talvez o maior sucesso de Ernest Tubb, seguida de uma qualquer canção de Jimmie Rogers, que foi a sua grande fonte de inspiração, como no início vos referi.


Uma outra marca deste programa era, como também já vos disse, as oportunidades que proporcionava aos novos talentos. Parece que Ernest Tubb era conhecido por ser um homem muito generoso, nada invejoso do sucesso dos outros e sempre disponível para ajudar alguém que dele se aproximasse e cujo talento ele reconhecesse. Essa ajuda podia passar por “meter uma cunha” aos responsáveis do “Grand Ole Opry” para os receberem no programa, permitir que atuassem no “Jamboree”, convidá-los para que o acompanhassem nas suas muito frequentes “tournées” pelos Estados Unidos, ou até integrá-los na sua própria banda de apoio, quando surgia uma boa oportunidade. Muitas das futuras grandes vedetas de Nashville lhe ficaram eternamente gratas pelo apoio que Ernest Tubb lhes deu, e daí o imenso carinho que nunca deixaram de lhe devotar. 

Carismático, ou não, nunca consegui mudar radicalmente as minhas primeiras opiniões de adolescente acerca da música de Ernest Tubb.  Ainda hoje o oiço de vez em quando, à espera que qualquer coisa se passe, mas, como diriam os espanhóis, não passa nada… Para falarmos da mesma época e do mesmo estilo, prefiro-lhe, de longe, Roy Acuff.

Mas nem por isso deixei de ir visitar a sua “Record Shop”, um dos derradeiros ícones da velha Nashville.


A vasta sequência de fotografias que aqui vos mostro ilustra bem por que motivo vos disse anteriormente que John Hartford se tinha enganado e que, nos dias de hoje, ela estava tudo menos “dark”. 

Penso que estas fotografias ilustram bem o que é o interior da “Record Shop”, mas dar-vos-ei apenas um esclarecimento no que respeita àquela pequena zona que se vê no fundo da loja, dedicada a Loretta Lynn, que ainda é viva e acabou de fazer 90 anos.

 


Porquê a Loretta Lynn, perguntar-me-ão vocês…

Porque era precisamente naquela zona do fundo da loja que atuavam os convidados do “Midnite Jamboree” e por Loretta Lynn ter sido, talvez, a mais célebre das figuras da “Country” que por lá passou, tendo ficado eternamente grata a Ernest Tubb por essa oportunidade.

 

E talvez que o facto de Loretta e Tubb terem cantado em dueto também tenha contribuído para estreitar, ainda mais, a amizade entre ambos. 

A partir de meados dos anos 60 estiveram em moda em Nashville os duetos mistos, compostos por um cantor e uma cantora em que pelo menos um deles já beneficiava de uma certa notoriedade (quase sempre o homem…). Houve muitos, mas talvez os exemplos mais conhecidos tenham sido Johnny Cash e June Carter, George Jones e Tammy Wynette, ou Porter Wagoner e uma muito jovem Dolly Parton.

 

Por esta altura, Ernest Tubb aceitou ser parceiro de Loretta Lynn e gravaram juntos três álbuns entre 1964 e 1969, o que também iria contribuir, em muito, para a projeção da autora de “Coal Miner’s Daughter”.

 No biopic de 1980 que Michael Apted dedicou a Loretta Lynn, que se chama, precisamente, “Coal Miner’s Daughter” e tem Sissi Spackek no papel de Loretta, Ernest Tubb é uma das poucas celebridades de Nashville que nele aparecem in person, sendo que Roy Acuff e Minnie Pearl também lá estão, mas apenas por breves segundos e como figurantes no palco do “Ryman”.

Este filme tem, aliás, uma outra curiosidade que até se relaciona com o teor deste texto. É que nele vemos Ernest Tubb receber com grande simpatia uma muito jovem Loretta Lynn no “Opry” e depois vemo-la já no inte


rior da “Record Shop” em pleno “Midnite Jamboree” e a fazer a célebre dedicatória de “I Fall to Pieces” a Patsy Cline, então internada no hospital devido a um grave acidente de automóvel, que havia de as tornar amigas e companheiras de trabalho inseparáveis, até Patsy Cline desaparecer num trágico acidente de aviação em Março de 1963.  O recente (2019) e simpático telefilme “Patsy & Loretta”, de Callie Khouri, que por cá tem passado num dos canais cabo, retrata com maior detalhe esta relação. O horroroso “Sweet Dreams” (1985), que Karel Reisz dedicou aos últimos anos da vida de Patsy Cline , com Jessica Lange no papel de Patsy, passa ao lado de tudo isto…

Desculpem-me este longo parêntesis, mas estas coisas da música e do cinema são como as cerejas…    



E a nossa conversa de hoje teria ficado por aqui, não fora eu ter sentido necessidade de ir à net procurar uma informação que não encontrei em nenhum dos livros da biblioteca cá de casa.

 


A informação de que necessitava era muito simples: em que ano se mudou a “Record Shop” da Commerce Street para a Broadway.

Encontrei-a muito facilmente.

Mas, infelizmente, encontrei também outra, bastante mais inesperada e indesejável.

A “Ernest Tubb  Record Shop”, que eu tinha visto tão cheia de luz poucos anos antes, encerrou as suas portas no passado dia 11 de Março e o “Midnite Jamboree” deixou de ser emitido mais ou menos na mesma altura. Estava apenas prevista uma emissão especial no dia 3 de Maio, para comemorar os 75 anos do programa.

 

Parece que conflitos entre os atuais acionistas da loja e entre estes e o proprietário do edifício onde ela estava instalada conduziram a este desenlace.

Mas onde é que eu já vi este filme…?

Infelizmente, no que respeita às chamadas “lojas históricas”, o panorama parece ser idêntico em todo o lado, e sempre com a mesma justificação: o fraco peso da História, por um lado e, por outro, o fortíssimo direito inalienável dos proprietários dos edifícios a fazerem o que lhes der na real gana. Mas a verdade é que nunca esperei que, na América, uma loja com o peso histórico que esta tinha pudesse vir a sofrer este destino. Sei que uma associação que se chama “Saving Country Music” está disposta a lutar com todas as suas forças contra o encerramento da loja e o fim do programa radiofónico, mas duvido que consigam ter algum sucesso…

 


Os YouTubes, as Spotify, as Tidal, as Netflix, os Mubis e tantas outras fizeram com que objetos tais como os CD’s e os DVD’s se tenham deixado de vender…

Aqui na minha cidade, na Seção de Cultura e Lazer do “El Corte Inglês” deixei de encontrar livros, filmes e discos. Encontro aparelhagens e jogos de computador… E programas de viagens. Muitas e diversificadas “viagens de sonho”, às mais paradisíacas praias deste planeta… 

Na FNAC, a zona de DVD’s e de CD’s tem vindo a ser reduzida, quase de dia para dia…   

É triste que, ao fim de 50 anos, a profecia de John Hartford se tenha tornado, finalmente, realidade e que a “Ernest Tubb Record Shop” tenha sido obrigada a apagar as suas luzes e a fechar as suas portas. E, com ela, a “Midnite Jamboree”.

 

A partir de agora, ambas passarão a ser memória, como quase tudo na velha Nashville da “Country Music” me parece ser, nos dias de hoje, apenas memória…

De quem viveu e de quem, como eu, apenas ouviu contar…

Recomendação de leituras:

Duvido, sinceramente, que este tema possa interessar, verdadeiramente, algum dos meus simpáticos leitores, mas, se for esse o caso, recomendo a leitura do artigo “Loretta Lynn at 90, and the Ernest Tubb Record Shop”, que foi publicado no ano passado pelo site “Saving Country Music” e pode ser encontrado na net.


Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

segunda-feira, 9 de maio de 2022

LOUISE


Faz pouco mais de um mês que faleceu Paul Siebel. Tinha 84 anos e levou-o a sequela de uma fibrose pulmonar.

Por cá não vi a notícia em lado nenhum, nem sequer nos suplementos ditos “culturais” dos principais jornais.

Nos Estados Unidos, seu país natal, deve ter sucedido o mesmo, embora eu esteja esperançado que alguma das chamadas “revistas da especialidade” lhe dedique um ou dois parágrafos de despedida e de agradecimento, porque ele merece.

Mas não é de estranhar tanto esquecimento…

A morte do Paul Siebel que fazia pão num restaurante de província, do Paul Siebel que construía barquinhos de madeira para vender aos turistas, ou do Paul Siebel modesto empregado camarário numa cidadezinha do Maryland não é notícia.

E Paul Siebel, o “folksinger” que, por breves momentos, atingiu a ribalta no início dos anos 70 do século passado, esse já tinha morrido há quase 50 anos.

Se Paul Siebel não tivesse nascido com o dom de compor e de cantar, não se poderia afirmar, em boa verdade, que a “Folk Music” teria ficado muito mais pobre.

Mas eu sim…

É que Paul Siebel foi o autor de “Louise”, uma das canções de que mais gosto e que, por ironia do destino, transportava comigo no carro e tinha acabado de ouvir várias vezes, na precisa altura em que, por mera coincidência, tomei conhecimento da sua morte.

Mas já lá iremos…

Como tantos outros desse tempo, Paul Siebel deu nas vistas quando, no final dos anos 60, atuava nos bares “folk” de Greenwich Village. Foi aí que chamou a atenção de alguém a quem poderemos acusar de tudo menos de não ter “dedo” para descobrir novos talentos na “Folk Music”: Jac Holzman, o todo-poderoso patrão da Elektra Records, talvez a editora mais importante e influente do seu tempo nesse género musical (entre tantos outros, lançou Tom Paxton, Judy Collins, Judy Henske, Phil Ochs, Tom Rush, Tim Buckley…)

A Elektra propôs a Siebel a gravação de um álbum, embora lhe tivesse proporcionado parcas condições para isso: apenas quatro sessões de gravação de 3 horas cada uma. Siebel reuniu alguns músicos amigos, à cabeça dos quais David Bromberg, e cumpriu as suas obrigações contratuais. O LP daí resultante, “Woodsmoke and Oranges”, foi lançado em 1970 e considerado um “marco histórico” pela influente revista “Rolling Stone”. Da noite para o dia, Siebel atingia o estrelato na “Folk Music”.

Mas Paul Siebel fugia da ribalta e não tinha muita paciência para se promover. Fugia dos jornalistas, fugia das ações publicitárias, recusava-se a fazer atuações ao vivo de enfiada, umas atrás das outras, e o resultado foi que o êxito da crítica não foi acompanhado por idêntico sucesso comercial. 

No ano seguinte, com melhores condições de produção, sairia “Jack-Knife Gypsy”, que não repetiria o êxito da critica do anterior e venderia ainda menos.

Foi o fim da curta carreira de Paul Siebel. Não sei se ele não terá previsto isso mesmo, porque também não sei por que raio lhe passou pela cabeça fazer-se fotografar num cemitério decadente e colocar a fotografia na contracapa desse seu segundo e último LP. 

A musa recusou-se a voltar a dar-lhe a mão.

Caiu em depressão e depois mergulhou nas drogas, no que era um fenómeno corrente naquela época.

Não voltou a gravar mais nenhum álbum de originais e a única gravação sua que se conhece é de 1978 e foi feita “ao vivo” num bar de Santa Mónica, com a participação de David Bromberg e de Gary White, dois dos amigos que o acompanharam na gravação do lendário primeiro disco. Isto se não contarmos com uma esporádica participação (uma única música) num dos três célebres álbuns de “Woodstock Mountains – Music From Mud Acres” gravados em meados dos anos 70 e que em Lisboa podiam ser encontrados na saudosa Dargil.

A partir daí Paul Siebel esfumou-se, largou de vez a música e fez o que lhe veio à mão para sobreviver, como é o caso dos trabalhos que acima mencionei.

Mas vamos lá então a “Louise”, que faz parte do seu primeiro disco. 

Já sabemos que na “Folk Music” existem canções dedicadas a tudo: aos pais, às mães, aos animais de estimação, a figuras célebres da Política e da História da América, sendo eles verdadeiros heróis ou até meros “outlaws” que a lenda transformou em heróis, a começar em Jesse James e a acabar em Pretty Boy Floyd.

Mas também existem belíssimas canções dedicadas aos “zés-ninguém”, aos que vivem na miséria, aos deserdados do grande “sonho americano”.


“Louise” é uma dessas canções e deixo-vos lá a “letra”, para que a possam perceber:

“Well they all said Louise was not half bad
It was written on the walls and window shades
And how she'd act the little girl
A deceiver, don't believe her that's her trade
Sometimes a bottle of perfume,
Flowers and maybe some lace
Men brought Louise ten cent trinkets
Their intentions were easily traced
Yes and everybody knew at times she cried
But women like Louise they get by

Well everybody thought it kind of sad
When they found Louise in her room
They'd always put her down below their kind
Still some cried when she died this afternoon
Louise rode home on the mail train
Somewhere to the south I heard it said
Too bad it ended so ugly,
Too bad she had to go this way
Ah but the wind is blowing cold tonight
So good night Louise, good nigh”

Afinal, quem é Louise…? 

Paul Siebel terá desfeito o mistério ao afirmar, uma vez, que se trataria de uma “truck-stop whore” que encontrou no Kentucky. Mas a letra é tão dúbia que poderia muito bem ser outra coisa… Por exemplo, uma empregadita de um snack-bar à beira da estrada, como as vimos tantas no cinema americano, que pusesse em cada encontro amoroso toda a sua fé e esperança de que seria essa a grande oportunidade de alcançar essa coisa que não se sabe muito bem o que é, mas a que chamam Felicidade, com letra grande e tudo…

E, afinal, de que morreu Louise…?

Tudo poderemos imaginar, mas também nada ficaremos a saber…

Ter-se-á suicidado…?

Terá sido morta por ocasião de um desses encontros amorosos…?

Terá sofrido um ataque cardíaco fulminante…? 

O narrador que nos conta toda a história nada nos esclarece e só nos lança a confusão.

Tanto nos diz que Louise morreu naquela tarde, como nos conta que ela já vai num caixão a caminho do Sul.

Tanto nos dá a entender ter conhecido Louise, como nos leva a perceber que tudo o que nos conta foi de ter ouvido alguém contar 

Pouco importa, porém…  É esse o fascínio da canção.

Tal como a nossa Amélia, que Joaquim Pessoa confessou ter sido uma muito jovem prostituta que uma vez encontrou lá para as bandas do Liceu Camões, imagino que também Louise teria os olhos doces, que os seus sonhos a traziam grávida de esperanças e que, também ela, não teve direito a viver.  

E se Paul Siebel, apesar de bom escritor de canções, não tem a veia poética de Joaquim Pessoa, tem uma escrita muito mais cinematográfica.

Sempre que oiço esta música (e já a ouvi centenas de vezes…) consigo ver tudo, como se estivesse ali mesmo ao lado a espreitar

Vejo uma garezinha de província perdida no meio de nenhures.

Vejo um caixão feito de meia dúzia de tábuas baratas a ser colocado no vagão das mercadorias.

Ouço o apitar do comboio, vejo-o partir e vejo-o desaparecer lá ao fundo, no fio do horizonte.  

E o vento da canção, esse sinto-lhe o frio no meu próprio corpo…  

Que mais se pode pedir a uma canção…?

Obrigado e “good night” Paul Siebel, “good night”…

Desculpem a maçada, mas foi a forma que encontrei para prestar a minha modesta homenagem a Paul Siebel e fiquem com duas versões de “Louise”: a original e uma outra de Ian Mathews com os “Plainsong”, de que gosto muito, embora a voz calorosa de Mathews tenha o dom de adoçar a mais trágica das histórias…


COLABORAÇÃO DE LUÍS MIGUEL MIRA