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terça-feira, 17 de março de 2026

RETRATOS


Quando o antigo dono do British Bar passou a casa aos empregados, levou o relógio que mostrava as horas ao contrário.

As tentativas do Silva para ficar com o relógio, não resultaram.

Mas não descansou enquanto não pediu a um marinheiro dinamarquês que lhe trouxesse um relógio, que há-de aparecer em A Cidade Branca do Alain Tanner.

A actriz Teresa Madruga, é o escritor Eduardo Lourenço que recorda, diz ao actor Bruno Ganz “que andar ao contrário é uma forma como outras de medir o tempo”.

E não é? O relógio do British Bar enganou-nos outra vez. E, como sempre, é ele que está certo. 

sexta-feira, 1 de março de 2019

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Dulcíssima cidade.

Branca?

Tanner diz que sim.

Branco é o silêncio, a solidão, o encantamento, a violência, o feitiço a nostalgia, a amargura, o deslumbramento.

Tudo branco?

Tanner diz que sim.

Lisboa ao voo do pássaro como diria o Mário-Henrique Leiria.

Um rio que se atreve a ser mar.

Cheiros. Gentes. Mãos que encontram outras mãos, mãos que ajudam, desajudam.

Paulo Nogueira, ao tempo da estreia do filme, escreveu que a felicidade só está disponível para quem sabe parar. Tanner pergunta todo o tempo se as cidades gostam dos homens.

Paul é um marinheiro que trabalha na casa das máquinas de um navio que aporta a Lisboa.

De um poema de Eugénio de Andrade:

Os navios existem
e existe o teu rosto encostado
ao rosto dos navios

Paul desembarca e embrenha-se na cidade. Entra num bar e depara na parede com um relógio cujos ponteiros rodam ao contrário. Nada, de facto, é tão permanente em relação a um barco, como a próxima rota da sua viagem.

António Reis deixou versos em que dizia que há sempre um rapaz triste com lágrimas nos olhos frente a um barco.

Paul resolve deixar partir o barco e ficar na cidade. 

Talvez o primeiro dia do resto da sua vida.

A Cidade Branca sofre um pouco da tristeza que é a nossa, ressalta a ternura que ansiamos e procuramos indefinidamente.

Volto à superfície, Stop; Rosa partiu não sei para onde, Stop; o único país de que gosto verdadeiramente é o mar, Stop; amo-vos, Stop; beijo-te ternamente, Stop; o corpo duma mulher é demasiado grande, Stop; a recordação e o esquecimento têm a mesma origem, Stop; as mulheres são demasiado belas, stop; os comboios não partem à tabela, Stop; não sei mais do que dantes, Stop.,  escreve Paul antes de deixar Lisboa, a cidade branca.

Realização e Argumento: Alain Tanner
Interpretação:
Bruno Ganz (Paul)
Teresa Madruga (Rosa)
Estreia em Portugal: Quarteto, 21 de Abril de 1983

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

ETECETERA


Certamente que existirão razões, mas o Movimento «MeToo» caiu num exagero hipócrita e perigoso, num fundamentalismo que não augura nada de bom.


Não tardou muito que meia dúzia de activistas do «MeToo» corressem a vandalizar uma estátua que na Florida regista o histórico beijo de um militar e de uma enfermeira felizes por o pesadelo da guerra ter terminado.

Brigitte Bardot, hoje com 85 anos, que sabe mais da poda a dormir que o «MeToo» todo de olhos abertos, disse numa entrevista que a maior parte das denúncias de abuso sexual no cinema, são casos hipócritas e afirmou que muitas intérpretes «aquecem os produtores para obter um papel.»

Sharon Stone quando lhe perguntaram sobre essa história do assédio sexual às actrizes, soltou uma sonora e larga gargalhada.

E Sharon Stone também sabe da poda.

QUOTIDIANOS

1.

O juiz Neto de Moura volta a estar na berlinda e sempre pelos piores motivos.

Um homem de 53 anos deu vários socos na cabeça da mulher perfurando-lhe um tímpano. A vítima fez queixa e o agressor ficou com pulseira eletrónica como medida de coação. O agressor recorreu da condenação e, em outubro do ano passado, o juiz Neto de Moura do tribunal da Relação do Porto retirou-lhe a pulseira eletrónica.

Quando os técnicos dos serviços prisionais bateram à porta da mulher para lhe retirarem a pulseira que também usava para prevenir as autoridades em caso de aproximação do ex-marido ficou em choque.

Disse: «Estou outra vez à mercê dele».

Que se há-de dizer mais sobre as aberrações desta sinistra personagem jurídica?

O que fazer?

2.

As mulheres ganham menos 2464 euros por ano do que os homens.

O fosso salarial entre homens e mulheres tem vindo a diminuir, mas ainda chega aos 176 euros por mês. Na semana que passou entrou em vigor a lei que obriga as empresas a colocar os dois géneros em pé de igualdade.

3.

Este mês de Fevereiro, quase a despedir-se, trouxe a morte dos actores Albert Finney e Bruno Ganz, também do realizador Stanley Donner.


No dia 8, com 82 anos morreu o actor inglês Albert Finney, um actor por excelência.

Nunca recebeu um óscar.

Foi para o lado onde dormiu melhor.

Uma das suas últimas nomeações, melhor actor secundário, ocorreu com o seu papel de advogado em «Erin Brockovich» de Steven Soderbergh em que contracenou com Júlia Roberts.

Mas nunca se mostrou entusiasmado com as diversas nomeações.

Aliás nunca pôs os pés numa cerimónia dos óscares.

«Vivo em Londres, É uma viagem que demora muito tempo, para depois chegar a um a  festa longa e estar ali sentado seis horas sem poder fumar ou beber. Uma perda de tempo.».



Sobre a morte de Bruno Ganz, ocorrida no dia 16, o crítico João Lopes chamou a atenção para os obituários internacionais da morte do actor:

«Sugiro The New York Times, The Guardian e a BBC; ou ainda as duas “bíblias” da indústria audiovisual dos EUA, Variety e The Hollywood Reporter. Que há de comum em todas essas evocações da notável carreira de Ganz? Uma simples omissão: nenhuma delas cita o filme de Tanner.
Eis uma evidência difícil de aceitar, sobretudo se julgarmos que os lugares de estacionamento concedidos pela capital do país aos automóveis de Madonna nos colocam no centro do mundo...»

Gosto prticularmente de dois filmes protagonizados por Bruno Ganz:: «As Asas do Desejo» de Wim Wenders e «A Cidade Branca» de Alain Tanner. Hei-de procurar uns papéis velhos e trazer esses filmes até ao «O Q’ué que Vai no Piolho?»


Por fim, a morte de Stanley Donner, ocorrida do dia 23.


Nem que seja pelo simples facto de ao ver a chuva cair, de imediato surgir a vontade de cantar, seja lá o que for.

sábado, 5 de abril de 2014

EM LISBOA DEBAIXO DE CHUVA


Havia a apresentação do site sobre o 25 de Abril da Agência Lusa.

 Terminadoo evento saí, mais o Luís Pinheiro de Almeida, que tinha que ir buscar à Letra Livre, na Calçada do Combro, uns livros que prometera ao Jack Kerouac.
Começou a pingar, nada do outro mundo.

Sorte das sortes – há bruxas! – encontrei na Letra Livre o Vitor Silva Tavares a quem, em Dezembro de 2012, por ocasião do lançamento do Para já Para já,  prometera mostrar-lhe a minha colecção encadernada da &Etc., ficou encontro marcado, e aproveitar para, finalmente, olhar o subterrâneo maravilhoso que já deu um lindíssimo livro.

Quando saímos da Letra Livre continuava a chover, mas um pouco mais forte.

Subir o que restava da Calçada do Combro, entrar pela Orion dentro para um fininho e pastel de bacalhau.

Findo o repasto, chovia torrencialmente.

O Luís tinha um encontro marcado na Associação 25 de Abril e avançámos para o Largo do Camões onde aproveitaria para comprar uma umbrella - mais uma, disse -, odeio umbrellas e de corpinho bem feito, encharcado, ataquei a descida da Rua do Alecrim e a pensar que nada que a barra mansa do British-Bar não conseguisse resolver.

Lá chegado, o espanto ficou um grande ah! na minha cara.

Fechado para obras.

Olhei para dentro, apenas operários, nenhum dos trabalhadores do bar.

Informei-me.

Disse quem por lá se encontrava a trabalhar, que apenas estão a fazer limpezas, juntar alguns melhoramentos, ajeitar as casas de banho, lavar a cara, nada de especial, sublinharam.

Mas diz-se tanta coisa hoje em dia, e nada se cumpre, pelo que o melhor é esperar para ver.

O relógio que anda ao contrário, que aparece em A Cidade Branca do Alain Tanner disseram que vai continuar, não falaram na fotografia do José Cardoso Pires, mas espero que não se atrevam atirá-la.

Pode ser que tudo corra bem…

Certo, é que da vez anterior, por ocasião das grandes obras, mão danificaram o estilo.

Apenas aumentaram ligeiramente os preços.

Nada a que não estejamos habituados.

Porque não se pode destruir um bar que consegue parar o tempo, que tem um relógio que anda ao contrário.

No British-Bar a única música ambiente é o tilintar do gelo nos copos, e todos os seus trabalhadores (antes e depois do dia mágico) têm o recato e a discrição dos verdadeiros barmen: o que ouvem é como se não tivessem ouvido.

O Cais do Sodré apresentava um pandemónio de trânsito, gente a correr, buzinadelas.

Quarenta e cinco minutos à espera do autocarro, lembranças ainda da barra mansa do BB e o trautear de uma velha canção, vinda não sei a que propósito, talvez que por Abril já entrámos e que diz quem somos, o que fazemos aqui, quem nos abandonou, do que nos esquecemos…

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

UMA ÚNICA PARTICULARIDADE


 Foi então que algo o fez voltar e olhar de novo o mostrador enegrecido do relógio da estação. Examinou-o com cuidado e percebeu que havia qualquer coisa que não estava bem. Lembrava-se muito bem que ao chegar à estação o relógio indicava meia hora depois do meio-dia. Agora, os ponteiros marcavam meio-dia menos dez.
- Max! - soou a voz do pai, chamando-o da furgoneta. . Vamos embora!
- Já vou – murmurou Max para si mesmo, sem deixar de olhar para o mostrador.
O relógio não estava estragado, funcionava bem, com uma única particularidade: andava ao contrário.

Carlos Ruiz Zafón em O Príncipe da Neblina, Planeta Manuscrito, Lisboa Setembro 2011

Legenda: relógio que se encontra no British-Bar, também anda ao contrário e aparece no filme de Alain Tanner,  A Cidade Branca, 1983.

sábado, 30 de julho de 2011

FILMES DAS NOSSAS VIDAS



13 intelectiais escolheram 13 filmes, vão apresentá-los e debaterem-nos com os espectadores .

Segundas-feiras de Julho, Agosto e Setembro

21h30, na Rua da Achada (Lisboa)

Esta é a programação para o mês de Agosto:

Segunda-feira, 1 de Agosto, 21h30
Uma Noite na óÓpera
de Sam Wood (1935, 96 min.)
escolha de Regina Guimarães

Segunda-feira, 8 de Agosto, 21h30
Um Dia em Nova Iorque
de Gene Kelly e Stanley Donen (1949, 93 min.)
escolha de Jorge Silva Melo

Segunda-feira, 15 de Agosto, 21h30
Casa deCchá do Luar de Agosto
de Daniel Mann (1956, 123 min.)
escolha de Filomena Marona Beja

Segunda-feira, 22 de Agosto, 21h30
Jonas Que Terá 25 Anos no Ano 2000
de Alain Tanner (1976, 116 min.)
escolha de Eduarda Dionísio

Segunda-feira, 29 de Agosto, 21h30
A Regra do Jogo
de Jean Renoir (1939, 110 min.)
escolha de João Pedro Bénard

Mais informação em Casa da Achada/Mário Dionísio.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

CAIS DO SODRÉ 77

Para completar as “Memórias” de ontem, ficam aqui três fotografias.
A da“Livraria Anglo-Americana”, hoje está lá a “Caneças”, boutique do pão, uma fotografia do “British Bar” e outra do “English-Bar”.
Foram tiradas no mesmo dia cinzento, provavelmente no ano de 1977, mas nunca depois deste ano
Quando José Cardoso Pires desenha para a “Expo 98” o seu “Lisboa Livro de Bordo”, já o “English-Bar” não existia. Transformara-se na cervejaria que ainda hoje lá está. Daí que, no que ao Cais do Sodré diz respeito, Cardoso Pires apenas referir o “British-Bar” e o “Bar Americano” que ainda por lá se encontra mas não é nada do que era e que de bar só ficou o nome. Situa-se em frente à “Caneças”.


Esta fotografia do “British-Bar” é de antes da remodelação que se verificou em
Ponto de encontro, a qualquer hora do dia e da noite, de trabalhadores de agentes de navegação e agentes transitários, “ship-chandlers”, um pouco de tudo que à navegação, naquele tempo, dizia respeito.

O antigo dono levou o papagaio (ou arara?), bem como o relógio com os ponteiros a andarem em sentido contrário, relógio que aparece no filme “Cidade Branca" do Alain Tanner,
O problema do relógio o Silva resolveu: mandou vir um outro de Copenhague. Papagaio (ou arara?) nunca mais houve.

José Cardoso Pires no seu "Livro de Bordo":

“No British Bar os anos passam, as gerações mudam, vêm literatos, vêm contrabandistas, vêm estivadores à mistura com meninas de civilização, mas o espírito e a cor local mantêm-se inconfundíveis. Tem um sabor a cais sem água à vista, este lugar.”


O “English-Bar” era uma sala espaçosa com maples de couro, como nos velhos clubes ingleses, um ambiente mais calmo, mais respeitável que o do “British”. 

Para simplificar, dizer que era ali que parava o frequentado pelo patronato das agências de navegação.

Também tinha balcão e no bengaleiro estava pendurada uma bolsa com tacos de golfe.