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sábado, 14 de dezembro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Misericórdia

Lídia Jorge

Capa: Rui Garrido

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 2022

Este é o meu lugar de exílio. Aqui me depositaram a meu pedido e por minha livre vontade, vinda de casa dos meus pais, e onde não mais voltarei, também por minha livre determinação. A vida é um arco, tem oi seu começo e o seu fim, inicia-se num berço, e faz o seu voo ascendente, e a partir de certa altura a curva desce até nos entregarmos à terra, de novo dentro de uma caixa de madeira que em nada difere de um berço.

Colaboração de Aida Santos

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


O Dia dos Prodígios

Lídia Jorge
Publicações Europa-América, Lisboa, Março de 1980

- Uma manhã. Oh, já o meu avô desse meu avô não saía a lavrar, nem a ver lavrar. E já a sua mulher dormia o grande sono.
Apareceu por aqui um soldado muito garbosos, de grandes bigodes, caindo de lado, assim como uma folha de parreira. Mais do que assim. Na cabeça um chapéu de penacho enfiado, e a dizer que vinha buscar o meu avô, Calcula, Esperancinha. Para ser julgado e castigado, porque tinha fundado uma povoação sem alvará real. Sem al va rá. Sabes o que fez o meu avô, Esperancinha? Quando percebeu que o soldado do cavalo vinha pedir contas por coisas passadas quarenta nos atrás? Olha Esperancinha. Alevantou-se da cadeira, assim, e disse que nunca tinha visto semelhante rei nas redondezas, e a existir, que nunca lhe tinha dado nada. Antes tirado. Dar? Nem a pontinha de um corno. Por isso, que se era rei, que reinasse na terra onde morava. Esse meu passado deveria ter sido o maior de toda a geração. Disse que ele próprio só tinha voz activa sobre as coisas e os lugares mantidos pela cavação dos seus braços. E dos bracinhos da sua gente. Vê tu. Oh Esperancinha.

terça-feira, 29 de abril de 2014

OLHAR AS CAPAS


Os Memoráveis

Lídia Jorge
Capa: Rui Garrido
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 2014

O cavaleiro fez um breve hiato no seu depoimento que tinha fatalmente de ser muito rápido, tendo em conta que não dispunha de mais do que de cinco minutos- Disse - «Ah! Deixem-me pensar. O momento mais importante?» El Campeador continuava a pensar - «Arnoldo, já lhe disse, segure bem esse animal. Pois eu estou aqui a pensar que o momento mais importante, aquele que mais esperanças me deu de que a revolução tinha pernas para andar, foi aquele que se seguiu à passagem do poder a um general que usava um caco de vidro no olho direito. Esse general, durante toda a noite e manhã do dia vinte e cinco, tinha ficado a fingir-se de morto, enfiado em casa, à espera do desenlace, para ver para onde caíam as cartas, mas duas horas depois de lhe termos passado o comando, ainda nem nos tinha visto o rosto, e logo ali começou a inaugurar o período do desmame revolucionário. O general fixava cada um de nós através daquela lente de vidro, como se a lente fosse um periscópio, e mandava apontar nomes e actos, dizendo que era sua intenção distribuir prebendas a quem tinha feito o golpe de Estado. Mas um de nós avançou e disse. Não queremos recompensa nenhuma. Não foi para isso, senhor general, que arriscámos as nossas vidas. Não queremos nada para nós. Este é um princípio sagrado. E tome cuidado connosco, general. Olhe que este dia ainda não terminou, a revolução ainda está na rua, os tanques ainda não regressaram aos quartéis, e os rapazes que têm as armas só vão precisar de dormir lá para o mês que vem. Falou assim quem estava ao meu lado. E pensando bem, esse foi o melhor momento daquela longa noite e daquele longo dia, aquele que justifica que amanhã eu possa dizer, durante as filmagens para O Herói do Mar, que passados trinta anos ainda existem tanques no meio da rua à espera do que possa acontecer. Basta um assobio no escuro, e zut…»

domingo, 17 de junho de 2012

OLHAR AS CAPAS


O Vento Assobiando nas Gruas

Lídia Jorge
Capa de Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa Outubro 2002

Não sejas estúpida, Milene, quando necessário, uma pessoa deve socorrer-se das palavras dos outros. Pois para que servem as palavras dos outros senão para nos servirmos delas?... Vendo bem, nem uma única palavra que pronunciamos é nossa. Alguém as criou antes de nós… Nada nos pertence…
Era como se João Paulo ainda estivesse a entrar pela porta do living-room da avó Regina, como se estivesse a aproximar-se da mesa e a dizer, naquele instante – Ouviste, Milene? Ouviste bem? Nada nos pertence. Nós é que temos a mania…