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quarta-feira, 27 de agosto de 2025

OLHAR AS CAPAS

Marés de Mar

Luísa Dacosta
Capa e Ilustração: Luís Filipe Cunha

Parque Expo 98, Lisboa Maio de 1997

De que cor é este mar, nunca igual e sempre diferente, de ritmos vários, cadenciado como o bater certo dos remos, inquieto como a ansiedade dos que trazem os afectos sobre as ondas, fervente como um cachão raivosos, quieto, quieto, marginado pela linha, rubra, do crepúsculo? De que cor é este mar, onde se miram nuvens e gaivotas, onde se esfriam e se apagam as estrelas da madrugada.

Azul. Azul, como o manto das imagens milagrosas. Azul, como o olhar perdido dos náufragos. Azul da cor da noite. Verde fel. Verde da cor dos limos, Verde da cor dos barcos. Loiro cor de areia, das tranças e do cordame, Ferrugem, cor das âncoras e das redes. Castanho cor do sargaço. Palhetado de sol e luz. Irisado, como as escamas dos peixes. Rosa, com certas algas e corais, como a garridice das blusas em dias festivos. Rosa, como as flores de papel do altar do padroeiro. Vermelho da cor das guelras. Sanguíneo. Violáceo, cor de tinta. Roxo, como uma quaresma líquida. Cinzento. Brumosos de névoa e mistério. Metálico, como uma roda de navalhas. Branco de sal e espuma. Branco da cor das velas. Negro, como as faixas das mulheres e o luto das viúvas. Sem cor, como a angústia das que não Têm sequer um cadáver para velar.

domingo, 7 de março de 2021

OLHAR AS CAPAS


Planetarium

Nathalie Sarraute

Tradução: Luísa Dacosta

Capa: Sebastião Rodrigues

Colecção Autores do Nosso Tempo nº 13

Editorial Minerva, Lisboa, 1963

«As pessoas idosas, não se devem mudar. As pessoas idosas, são frágeis, sabia. É perigoso transplantá-las». Aquelas palavras depositadas nele não sabe por quem, agora de repente, como nos sonhos, alguém lhas diz, um homem que mal distingue: uma silhueta vaga metida num sobretudo sombrio; pronunci-as indo-se embora, a caminho da porta sem voltara para ele o rosto, naquele tom, para além da censura, que tem os padres, um tom que marca as distâncias, que tomam os médicos, quando não querem tomar a responsabilidade, comprometer-se, onde se descobre a custo uma ponta acerada de censura de desgosto… «São frágeis, as pessoas idosas, sabia…»

domingo, 22 de fevereiro de 2015

LUÍSA DACOSTA (1927-2015)


A escritora e docente Luísa Dacosta morreu aos 87 anos.

Fui sempre mais homenageada como professora do que como escritora.

Temos o triste condão de não partilhar os nossos melhores.

Sejam escritores, pintores, o que quer que seja, menos futebolistas e cantores-pimba.

Preferimos o supérfluo e o folclore medíocre e oco.

Gostava muito de ser professora e não conseguia imaginar a sua vida sem livros.

Militou na Oposição Democrática contra a ditadura.

Considerava o acordo ortográfico um crime.

São parvos, não sabem a língua.


Habituei-me a ler na Seara Nova as suas amáveis e poéticas crónicas.

Chamou-lhes A Ver-o-Mar.

Um título tão bonito como a escrita.

No seu Diário, falou das suas vivências em Timor.

Tínhamos, sem remorsos, abandonado um povo que durante séculos fora feitoria e colónia, primeiro a uma luta fraticida e partidária, depois a uma invasão.

Confessando:

Ia realmente percorrer os caminhos, as terras, as águas do mapa? Ia conviver com as gentes que sabia da enciclopédia e dos poetas?
Ali estava à procura dum destino, disposta a mar. A dar e a receber. Ah! esquecida de que a vida lhe recusara sempre destinos e que tudo o que tocava nas mãos, apodrecia, maleficamente, se esgarçava…

Palavras finais de Na Água do Tempo, escritas em Dezembro de 1987:

O tempo arrefece. Mas há sol e na linha do horizonte uns flocos de nuvens levemente rosadas como borlas de pó-de-arroz, 1920. Sobre as águas um jogo de velas. Os brancos fendidos oscilam, bailam sobre o azul – rodinha de borboletas, entre o leque aberto da rama dos pinheiros.
De manhã, dava logo de rosto com o mar, porquê então aquela melancolia? Olhava aquela beleza balética, oscilante, grácil, como se olhasse um campo lavrado de lágrimas. Era dela, dentro dela, que a melancolia morava.

Legenda: pormenor de uma crónica A Ver-o-Mar de Luísa Dacosta, publicada na Seara Nova nº  1461, Julho de 1967.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


O canto de um pássaro transforma a noite em lira. Ah! Quem pudesse dormir sobre a lua.

Luísa Dacosta em Na Água do Tempo.

Legenda: pintura Rafal Olbinski.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Os pobres dá-lhes a morte, mas os que têm dinheiro, andam a ver se lhe fogem...

Luísa DaCosta em Na Água do Tempo

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


Na Água do Tempo

Luísa Dacosta
Capa: Isabel Rodrigues
Quimera Editores, Lisboa, Outubro de 1992

Maio, Matosinhos, Maio de 1974

Hoje fui à praça e encontrei a hortaliceira muito desanimada com os militares no Governo.
~Tem lá algum jeito! – dizia-nos enquanto me tentava ainda com um molhinho de rabanetes . então eles perderam a guerra que era a única coisa que sabiam fazer e, agora, querem-nos governar?
Irrespondível

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

PAPINIANO CARLOS (1918-2012)


Tinha 94 anos.

Nasceu em Lourenço Marque mas desde muito novo veio para o Porto onde cimentou uma grande amizade e companheirismo com a intelectualidade democrática da cidade, principalmente com os poetas Luís Veiga Leitão e Egito Gonçalves, ambos já falecidos.

Conheço-o de poemas dispersos em antologias e publicações como Notícias do Bloqueio e Cadernos do Meio-Dia.

Da poesia de Papiniano Carlos, disse a escritora Luísa DaCosta:

Servido por uma linguagem directa em que as palavras têm a pureza da significação primeira, a poesia de Papiniano Carlos, forma encontrada para um conteúdo de dor e de sonho.

Em dias tristes como este, nada como deixar os seus poemas.

Caminhos Serenos

Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
caminhemos serenos.

De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniqüidade
caminhemos serenos.

Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
aos que nem com a morte podem vencer-nos
caminhemos serenos.

O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia conosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,

já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas
caminhemos serenos.



Os Ciclistas

Com um surdo rumor de escavadora
ressoa no subsolo a tua voz.
Muitos tapam os ouvidos delicados.
Outros escondem-se para a não ouvir.
E outros estremecem de pavor.
Mas, rápidos, os ciclistas pedalam
na bruma dos subúrbios ao teu encontro.
Rosto baixo, mãos no guiador, pés
bem firmes nos pedais, geram
o movimento, o ritmo alado
das máquinas frágeis que cavalgam
ao amanhecer. Perpassam como espectros
sob a bruma e juntam-se, confluem,
avançam como um rio poderoso
sobre a cidade adormecida.
Os ciclistas. Os que erguem os andaimes
E fazem girar os fusos dos teares.
Os que movem as gruas. Os que transportam
O dinamite nas mãos calosas.
Os que não sabem envelhecer de tédio
à mesa do café nem vivem de mercadejar
preservativos, palavras, casas pré-fabricadas.
Os que não sonham morrer em glória
como jovens deuses trespassados na batalha.
Os que não hão-de apodrecer, como muitos de nós,
roídos de lepra e desespero.

Esses merecem bem a tua voz, Orfeu.

Legenda: estes poemas de Papiniano Carlos são retirados da antologia Sonhar a Terra Livre e Insubmissa, que também contém poemas de Egito Gonçalves e Luís Veiga Leitão, Editorial Inova, Porto Fevereiro de 1973 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

OLHAR AS CAPAS


Morte Serena

Simone de Beauvoir
Tradução de Luísa DaCosta
Capa: Jorge Pinheiro
Editorial Minotauro, Lisboa Janeiro 1966

Não se morre de ter nascido, nem de ter vivido, nem de velhice. Morre-se de qualquer coisa. Saber a minha mãe condenada pela idade a um fim próximo não atenuou a horrível surpresa. Um cancro, uma embolia, uma congestão pulmonar: é tão brutal e imprevisível como a paragem dum motor em pleno céu. A minha mãe encorajava ao optimismo quando, impotente, moribunda, afirmava o valor infinito de cada instante; mas ao mesmo tempo o seu vão encarniçamento destruiu o véu tranquilizador da banalidade quotidiana. Não há morte natural: nada do que acontece ao homem é natural, visto que a sua presença põe o mundo em causa. Todos os homens são mortais: mas para cada homem a morte é um acidente e, mesmo que ele saiba e consinta nisso, uma violência indevida.